1
Aguapé
— ações performativas no antropoceno:
a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva
Tharyn Stazak de Freitas
Para citar este artigo:
SARAIVA, Wellington Silva; FREITAS, Tharyn Stazak de.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática
artístico-pedagógica como experiência.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v.1,
n.57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0206
Este artigo passou pelo
Plagiarism Detection Software
| iThenticate
A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
2
Aguapé
1ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência2
Wellington Silva Saraiva3
Tharyn Stazak de Freitas4
Resumo
O artigo aborda aspectos da experiência relacionados à prática artístico-pedagógica,
compartilhada a partir de uma oficina com estudantes de uma escola pública na cidade de
Fortaleza. Articulando a ideia de Antropoceno e de Performance, a proposta de caráter
interdisciplinar resultou na elaboração de cinco performances, construídas e apresentadas
de forma colaborativa. Adotando a prática como pesquisa (Practice as Research PaR), a
investigação explorou multimodos de análise e registro, e considerou as relações e interações
entre os envolvidos. O processo evidenciou, tanto por parte dos estudantes quanto do
professor, um caminho para uma consciência ecoperformativa.
Palavras-chave
: Performance. Teatro. Antropoceno. Ecologia.
Aguapé
performative actions in the anthropocene: of a workshop with high school students
Abstract
The study is about a performance workshop that proposed acting in the present, in the face
of the chaos caused by human actions on nature and the threat of extinction. The activity
was carried out based on theoretical and practical research developed within the scope of
the Professional Master's Degree in Arts at the Federal University of Ceará
(ProfArtes/ICA/UFC). The research adopted Practice as Research (PaR), exploring the
experiences of students and the researcher himself in the classroom. The experience
resulted in the creation of five performances this study presented excerpts from the four
performed by the students , constructed collaboratively between the students and the
researcher.
Keywords
: Performance. Theatre. Anthropocene. Workshop.
Aguapé
acciones performativas en el antropoceno: un taller con estudiantes de secundaria
Resumen
El estudio trata sobre un taller de performance que propuso actuar en el presente, ante el
caos provocado por las acciones humanas en la naturaleza y la amenaza de extinción. La
actividad se llevó a cabo a partir de la investigación teórico-práctica desarrollada en el marco
del Máster Profesional en Artes de la Universidad Federal de Ceará (ProfArtes/ICA/UFC). La
investigación adoptó la práctica como investigación (Practice as Research PaR), explorando
las experiencias de los alumnos y del propio investigador en el aula. La experiencia dio lugar
a la elaboración de cinco performances en este estudio se presentó un resumen de las
cuatro realizadas por los alumnos , construidas de forma colaborativa entre los estudiantes
y el investigador.
Palabras clave
: Performance. Teatro. Antropoceno. Ecología.
1 Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Maria Geizi Silva Pinto. Doutoranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN). Mestrado em Ciências da Linguagem pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN). Especialização em
Linguística Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFMS).Graduação em Letras Língua Portuguesa (UERN).
2 Este artigo resulta em sua maior parte da dissertação de mestrado de Wellington Silva Saraiva denominada: Teatro performativo na escola:
experiências de docência, pesquisa e criação reveladas pela prática. Defendida no Programa de pós-graduação profissional em Artes na Universidade
Federal do Ceará (UFCE), sob orientação Profa. Dra. Tharyn Stazak de Freitas, em 2025.
3 Mestrado em Artes pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisador do Laboratório de pesquisas em Drama (LabPeDra). Especialização em
Artes: Técnicas e procedimentos pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Graduação em Teatro licenciatura plena pelo Instituto Federal do Ceará
(IFCE). Professor efetivo da Secretária de Educação do Ceará (Seduc-CE).
wellingtonsaraivart@gmail.com http://lattes.cnpq.br/4859008630714065 https://orcid.org/0009-0000-7260-3132
4 Pós-doutorado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestrado em
Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Graduação em Artes Cênicas pela UDESC. Pesquisadora do Drama processo e da
Prática como Pesquisa, coordena o Laboratório de Pesquisas em Drama (LabPeDra UFC). Possui interesse no campo das Pedagogias da Arte e das
Artes Cênicas, com ênfase na formação inicial de professores e pesquisadores.
tharynstazak@ufc.br http://lattes.cnpq.br/8352019688670715 https://orcid.org/0009-0006-0821-9199
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
3
Como surge Aguapé
Durante o ano de 2024 atuamos em uma escola localizada ao lado de uma
lagoa. A Lagoa da Parangaba, em Fortaleza – Ceará, como é conhecida, recebeu o
nome do bairro que se formou em seu entorno e que a abriga. Antigos moradores
contam que a lagoa surgiu a partir de um riacho e que, devido à retirada de areia
para construção de moradias, foi ganhando a dimensão de lagoa. Atualmente, a
maior lagoa da capital cearense5 tem águas esverdeadas, fauna e flora alteradas
pelo arranjo das casas ao redor e pelos dejetos nela despejados. Uma paisagem
que é composta e que compõe variadas dinâmicas de vida.
As margens da lagoa são recobertas por aguapés, planta aquática flutuante
de grandes folhas arredondadas. O surgimento e o crescimento dessa vegetação
são ocasionados pelo acúmulo de matéria orgânica. Em pequenas quantidades, a
presença de aguapés contribui para a despoluição servindo como um filtro natural,
mas sua proliferação excessiva pode matar o ecossistema de um corpo d’água,
impedindo a entrada de luz e a oxigenação. Sem equilíbrio de interação com outros
organismos, torna-se invasora, uma ameaça (Alves et al., 2003). Um paradoxo que
exige o manejo e novas formas de intervir na paisagem.
Somos um tanto aguapés. Humanos, participamos do fluxo criador da vida,
mas em nossa presença e proliferação indiscriminada somos ameaças à Terra.
Habitantes, alteramos intencionalmente ou não as paisagens, mas explorando
recursos e disputando territórios com outras espécies, somos invasores de
espaços. Educadores, buscamos a despoluição de narrativas oprimidas, projetando
águas limpas e territórios férteis, tentando equilibrar os modos de interação em
um sistema educacional sem oxigenação.
Diante destas paisagens e seus paradoxos, foi traçada a justificativa simbólica
para o estudo denominado
Aguapé:
uma ação para investigar interações e
ecologias a partir de lugares perturbados pela ação humana. O estudo, que
5 De acordo com o Canal Urbanismo e Meio Ambiente a lagoa possui um espelho d´água com um volume
hídrico de aproximadamente 470 mil m² (Borges, 2023).
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
4
integrou uma pesquisa teórico-prática desenvolvida no âmbito do Mestrado
Profissional em Artes da Universidade Federal do Ceará (ProfArtes/ICA/UFC), se
orientou pela ideia de Antropoceno e por aportes do campo da Performance. Sob
a perspectiva da prática artística como investigação, articulou as noções de
professor-encenador-performer-pesquisador e alunos-pesquisadores-
performers, abarcando proposições (oficina, criação de programas performativos)
e produções (artigo, portfólio, ensaio, performance) diversas que se desdobraram
em novas ações investigativas durante e depois do processo.
O texto a seguir faz um recorte deste estudo. Por meio do relato do processo
desenvolvido a partir da proposta de uma oficina, busca abordar aspectos
constitutivos da experiência compartilhada com estudantes do ensino médio na
escola, sob o enfoque da prática artístico-pedagógica.
O manejo de Aguapé: corpos, conceitos e práticas em processo
Como pensar a partir do corpo invasor no Antropoceno? Como a presença
dos corpos nos espaços - sala de aula, escola, bairro, cidade, é capaz de despoluir
as práticas e as narrativas vigentes? Como inscrever outras práticas e reescrever
narrativas para a manutenção de nossas existências?
Junto a orientação Tharyn Stazak de Freitas e a partir do corpo invasor,
propusemos um investimento de pesquisa na habitação de espaços como a
escola, o bairro e a Lagoa de forma a vivê-los como lugares praticados.
Um lugar nunca é um lugar qualquer, mas um campo da ordem, da
institucionalização, do domínio, do poder, das normatividades, portanto,
um ambiente de microconflitos em que cada coisa deve ser posta em
seu lugar. Assim, ao se inserir em um lugar e torná-lo um campo de
práticas do cotidiano, ou seja, ao torná-lo um lugar praticado, os usuários
reescrevem histórias, narrativas e experiências. O lugar, que até então se
resumia a uma espacialidade funcional, transforma-se num espaço de
compartilhamento de práticas estéticas (Santos, 2022, p. 10).
Habitar esses espaços através da prática da performance permite tensionar
as experiências dos corpos nestes espaços. Como prática produzida pelos corpos
e produtora de corpos, a performance permite viver de fato estas problemáticas
urgentes de nosso tempo.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
5
As práticas performativas, por sua natureza: social, ao serem
evidenciadas no espaço da escola, reposicionam os alunos uns diante dos
outros, enfatizando gestos, comportamentos e papéis desempenhados
em suas relações; transgressora, essas práticas também realizam
provocações capazes de desestabilizar padrões e questionar as relações
de poder; fronteiriça, tais práticas ampliam ainda as experiências
estético-críticas em Arte, ao acessar as diversas linguagens que o jogo
performativo é capaz de articular em seus processos (Saraiva, 2024, p.24).
Como prática invasora, a performance se insere na escola para reposicionar
práticas e narrativas. Ao tornar a escola um lugar praticado e ao se alinhar com
tais urgências, permite aos alunos, professores e comunidade pensar as próprias
condições de existência.
Ampliando o alcance das práticas do espaço da escola para o bairro e para a
cidade como lugares praticados, aproximo a ideia de ecologia, trazendo Sermon
(2021) para pensar a habitação. Para o autor:
Essa atenção dada à diversidade dos lugares habitados e suas próprias
escalas está precisamente no coração do que, em 1866, o biólogo, físico
e filósofo alemão Ernst Haeckel decidiu chamar de “ecologia” (do grego
oikos “casa”, “habitat”), um novo ramo das ciências naturais que teria a
especificidade de estudar as relações estabelecidas entre organismos e
seu ambiente, o que constitui suas “condições [orgânicas e inorgânicas]
de existência” (Sermon, 2021, p.29).
Considerando as práticas artísticas, a Prática como pesquisa (PaR), orientou
as escolhas iniciais. Primeiro, pelo fato de estar “[...] associada a um campo de
modalidades de investigação e de docência que são mobilizadas por práticas
artísticas que focalizam o corpo em suas relações com as materialidades e
linguagens na produção de conhecimento em Artes (Freitas, 2024, p. 40).
Posteriormente, pela ideia de que nesta perspectiva,
A dimensão teórica articula-se à prática de maneira a complementá-la, a
colocar-se paralela a mesma, a ajustar pontos de partida para a
exploração prática ou ainda como orientação projetiva de uma prática em
sua processualidade. Porém, como os processos criativos apresentam
uma tendência a ser iterativos, prestam-se a realizar análises críticas
mais subjetivas e a estabelecer relações parciais e especulativas entre
teoria e prática, geralmente resultando em novas considerações e
questionamentos (Freitas, 2024, p. 41).
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
6
Outrossim, uma das aproximações metodológicas que vieram a compor os
modos de investigação e a análise dos processos, foi a arqueologia. Enquanto
disciplina, é sobre tempo e espaço, estudos que dialogam com tais dimensões,
percepção e análise, passado e presente. Este estudo, por levantar questões sobre
o Antropoceno, apresenta um caráter arqueológico, visto que a arqueologia “lida
com processos de finitude, porque a sua matéria-prima elementar são restos,
fragmentos, ruínas” (Cordeiro, 2023, p. 43).
Diante dos impactos crescentes das atividades humanas no planeta, tanto na
geologia quanto na ecologia, o termo “Antropoceno” surge para designar a atual
época geológica (Crutzen; Stoermer, 2015).
Em termos formais, o conceito de Antropoceno faz referência a uma
época geológica evidenciada por registros estratigráficos, ou seja, pela
maneira como as camadas de solo se formam pela deposição de matéria.
[...] Em 2020, a quantidade de materiais artificiais presentes na superfície
do planeta, em massa, ultrapassou a de toda a biosfera. Isso significa que
mais concreto, tijolos, asfalto, metais e agregados usados em
construção civil do que tudo o que é vivo no planeta. A construção civil
move mais sedimentos do que todas as bacias hidrográficas do mundo
somadas. A quantidade de energia usada em atividades humanas atingiu
a escala dos processos geológicos, como o movimento das placas
tectônicas. O Antropoceno não indica, contudo, a passagem de um
mundo puramente natural para um puramente artificial. Não se trata da
mudança de qualidades, mas sobretudo de quantidades.
O conceito de
Antropoceno aponta para as perigosas alterações materiais em escala e
velocidade promovidas pela modernização do mundo
(Marras; Taddei,
2022, p. 10) (Grifos nossos).
Segundo Parra, a comunidade das ciências geológicas não reconhece o
Antropoceno como novo período geológico, alegando que os fatos apresentados
ainda pertencem ao Holoceno (Parra, 2025). Desde a última glaciação, estamos no
Holoceno e, por meio do domínio da agricultura, da domesticação de animais, da
produção artesanal, das máquinas e das tecnologias, o ser humano tem
sobreposto sua existência à da Terra, causando alterações e extinções.
A discussão mobilizada por esta ideia apoiou a articulação da proposta, visto
que “o antropoceno é uma porta que cruzamos, e que seria impossível
eliminarmos esse fim do mundo, mas que a compreensão dessa ameaça teria sua
utilidade justamente como um alerta de que algo precisa ser feito agora” (Lima
Filho; Carvalho, 2023, p. 9).
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
7
A proposta da ação investigativa com os estudantes operou como um
agenciamento de questões importantes ao mesmo tempo em que se praticou a
performance do hoje. Além de explorar os conceitos e experimentar práticas de
teatro e performance, a oportunidade de discutir a ideia de Antropoceno tendo
como lócus de reflexão as interferências humanas na paisagem da lagoa da
Parangaba, Ceará, foi estratégica.
Diante do contexto, até aqui, posto e partindo da necessidade de acompanhar
os estudos sobre o tema, e em conformidade com o que aponta (Rangel, 2023, p.
39) “que as questões ambientais que atravessam o nosso tempo clamam com
urgência por pensarmos em práticas pedagógicas que ultrapassem um
enquadramento antropocêntrica”, a seguir o texto descreve e debate a experiência
com a ação que, como procedimento, resolvemos chamar de prática em oficina.
A oficina buscou criar um espaço de compartilhamento ao inserir a prática
da performance na Escola Estadual de Educação Profissional Joaquim Moreira de
Sousa (EEEP JMS). Localizada no bairro de Parangaba, a instituição atende alunos
locais e de diversos bairros circunvizinhos com faixa etária entre 14 e 19 anos. Sob
a gestão da Secretaria de Educação do Estado do Ceará SEDUC/CE, oferece o
ensino médio integrado ao técnico com cursos de Administração, Contabilidade,
Logística e Finanças. O ensino nessa modalidade de escola divide-se em base
comum, técnica e diversificada; com carga horária integral.
Ao longo de 12 encontros nas aulas do componente Arte e em outros horários
cedidos, no período de 15 de agosto a 14 de setembro de 2024, a oficina promoveu
aulas de teatro e performance, articulando o interesse de pesquisa aos interesses
dos estudantes. Buscando criar de forma colaborativa, também aproximou colegas
professores das disciplinas de Biologia, Geografia e Química que contribuíram com
a ação de maneira interdisciplinar, através de estudos laboratoriais sobre a Lagoa
da Parangaba e produzindo saberes transversais que deram sustentação às
experimentações. O processo finalizou com um trabalho performativo, criado junto
com os estudantes. Composto por quatro ações performativas executadas por
eles e uma pelo autor (que não será explorada neste texto e sim em outro artigo),
apresentadas no entorno da lagoa. Mais à frente, neste texto, apresenta-se os
resultados da pesquisa e simultaneamente tece-se considerações, onde por
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
8
questão de ética usa-se ao invés dos nomes dos alunos e professores, nomes de
espécies da fauna e flora extintas ou em extinção. (Aqui explico que não uso o
nome real dos alunos nem dos professores)
Habitar os entornos
As práticas foram iniciadas a partir de um plano elaborado sob orientação da
professora orientadora, a fim de objetivar encontros curtos de cinquenta
minutos/aula. Entre aulas práticas e teóricas, discutimos os conceitos de Teatro
Performativo de Fèral (2020), comum certo tempo à minha prática docente em
Arte, porque, neste viés de teatro, é possível contemplar minhas afinidades pelo
teatro e a performance. Além de considerar este gênero conceitual uma ótima
didática para explicar a performance paralela ao teatro.
Essas práticas dialogaram diretamente com habilidades previstas na Base
Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente aquelas que incentivam a
leitura crítica dos discursos e imagens no mundo contemporâneo. A habilidade
EM13LGG101, por exemplo, propõe que os estudantes compreendam e analisem
processos de produção e circulação de discursos em diferentes linguagens,
enquanto a EM13LGG502 orienta a análise crítica de preconceitos, estereótipos e
relações de poder presentes em práticas e discursos verbais e visuais. Ao
trabalharmos com performances sobre questões ambientais, como a poluição da
Lagoa da Parangaba, os estudantes desenvolveram um olhar mais sensível e crítico
para os temas que atravessam sua realidade (Brasil, 2018).
No início da prática com estudantes, nada estava definido como resultado do
processo. Estávamos porosos a colher frutos enquanto corpos sujeitos a
experimentar as qualidades das práticas contemporâneas, especialmente e
especificamente no espaço de educação formal, ambicionando habitar o entorno
dele. A sede pela performance estava assegurada pelo interesse no que Fèral
(2020) nomeia como teatro performativo.
A noção de “teatro performativo” é uma noção que me afeta
particularmente e que parece dar conta das práticas empregadas hoje
em dia ... Se voltarmos às origens, o que exatamente quer dizer
performativo? A palavra performativo vem da linguística e exprime, em
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
9
Austin, “os verbos que acompanham as ações”. Nessa acepção, o teatro
performa hoje em dia, ele acompanha as ações e força os espectadores
a acompanhá-las. Isso quer dizer que o teatro não está mais na
representação, na interpretação, na mimesis (mesmo quando existam
cenas onde a mimesis está em jogo), mas na performance, na presença,
no acontecimento, e até mesmo no real (Féral, 2020, p. 6).
Inspirados no gênero-conceito, os primeiros encontros foram norteados
pelas características desta abordagem que tem contrapontos como,
“transformação do ator em performer, descrição dos acontecimentos da ação
cênica em detrimento da representação ou do jogo de ilusão, espetáculo centrado
na imagem e na ação e não mais sobre o texto, receptividade do espectador de
natureza espetacular” (Fèral, 2008, p. 198). E que, principalmente, ele se localiza
num jogo de tensões entre a teatralidade e performatividade.
A cada encontro os estudantes se mostravam mais curiosos sobre a
performance. Vídeo-performances, relatos e modos de fazer, foram instigando
esta curiosidade naturalmente ao serem apresentados, a ponto de estarmos ali
mirando a experiência prática da performance.
Esta experiência, como fruição estética se articula com a Competência
Específica 06 da BNCC e com as habilidades EM13LGG601 e EM13LGG602, que
incentivam a apreciação crítica da arte e o contato com diversas manifestações
culturais, desenvolvendo sensibilidade, criatividade e respeito à diversidade (Brasil,
2018). Ao dialogar com moradores e observar a paisagem da Lagoa da Parangaba,
os estudantes puderam acessar outras narrativas - frequentemente invisibilizadas
- sobre a constituição daquele território, reconhecendo as tensões sociais e
ambientais que ali persistem.
Na sequência do processo, realizamos alguns programas de experimentação
dentro da escola, trabalhando as habilidades da BNCC (EM13LGG301)
relacionadas à participar de processos criativos e colaborativos em diferentes
linguagens (artísticas, corporais e verbais), compreendendo como elas funcionam
e produzem sentido — e (EM13LGG303) — debater temas polêmicos e relevantes,
como o Antropoceno, sustentando posições com argumentos e buscando
soluções que respeitem os Direitos Humanos e o meio ambiente (Brasil, 2018).
De acordo com Lima Filho e Carvalho (2023, p. 9), ainda entenderemos que,
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
10
[...] diante do mundo, qualquer mínima alteração afeta a harmonia do
todo que compõe o ecossistema. Desde muito cedo, as nossas ações são
baseadas na perspectiva de que nós somos o centro de toda a existência.
Assim, o restante dos seres vivos e tudo aquilo que compõe o planeta
estariam a serviço de uma única espécie: nós, os humanos.
Mas na verdade o “que a ecologia nos ensina, ou melhor, nos ensina
novamente, é que o ser humano não é alheio à natureza: faz parte dela, conectada
a todos os elementos, animados e inanimados, orgânicos e inorgânicos, que
constituem a realidade do mundo” (Sermon, 2021, p. 30).
O deslocamento até a Lagoa foi planejado alguns dias antes. Com a
permissão do líder comunitário, durante a pesquisa prática, observamos a
paisagem, percebemos a disposição desordenada das casas, os fluxos dos dejetos
eliminados na água, e também os animais - peixes, porcos, cavalos, pássaros,
enfim, a vida que compondo e sendo composta pela paisagem, resiste.
Para evitar riscos aos estudantes na beira da lagoa e, a partir de orientações
técnicas de manejo da água fornecidas pela professora Jandáia, docente da
disciplina técnica de legislação ambiental da turma, formada em engenheira de
alimentos, e pelo professor Anequim, da disciplina de Química, coletei dois baldes
de 15 litros de água cada. Um para uma re-coleta performativa feita pelos
estudantes, ainda próximo à lagoa, e outro para que, posteriormente, na aula de
Química, os estudantes fizessem a análise laboratorial da água: que, mesmo
apresentando de forma nítida a sujidade, traria dados para reforçar nossa
percepção daquela paisagem e evidências de sua condição atual.
Na sequência, ainda na lagoa, preparei estímulos para que os alunos, munidos
de luvas para o manejo seguro, fizessem uma coleta da água no balde,
transferindo-a para pequenas garrafas Pet. Equipados agora com uma
materialidade, fragmentos daquele corpo de água, garrafas, luvas e corpos (Figura
1).
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
11
Figura 1 Coleta de água. Acervo próprio (2024).
Como posso coletar a água? O que acontece entre meu corpo e o corpo água
neste percurso? Como a paisagem complementa esta coleta? Como
complemento esta paisagem? Que cheiros acompanham meu coletar? Que sons,
além da minha respiração e batimentos cardíacos, movem meu coletar?
Explorando essas questões, nossas coletas foram incrivelmente performativas.
Um aluno, por exemplo, decidiu fazer a atividade em dupla, onde foi vendado
e fez a coleta tateando, orientando-se pelo som da água caindo na garrafa. Outra
aluna decidiu suspender a respiração até o final de sua coleta. Talvez, em protesto
ao “ar pós-humano?” (Rangel, 2023).
Ali, diante daquele corpo, resistindo, pudemos contemplar tudo, os peixes
adaptados a sujeira, os aguapés em excesso, as casas a beira da lagoa, os canais
de esgotos a céu aberto e fazer um exercício arqueológico e de ecologia6 pensar.
6 “A invenção da ecologia teve como principal consequência epistêmica relacionar três áreas até então vistas
como isoladas: 1) as formas de vida; 2) os estilos de vida; 3) os ambientes de vida” (Sermon, 2021, p. 27).
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
12
Como era essa Lagoa na sua mais pura existência? E voltamos a olhá-la. E depois
pensar em um futuro: O que podemos fazer para mantê-la?
Imbuídos dessa sensibilidade resultante da interação entre coisa e humano,
retornamos à escola. No retorno à escola, pós-aula na lagoa, continuamos com as
atividades práticas no intuito de acionar nos estudantes as potências de corpos
performativos. Uma delas foi caminhar pela escola com os olhos vendados, sendo
guiado por um colega; o percurso ficava a cargo do guia, e a atividade de, ainda
vendado, cair para frente e para trás, sendo segurado por dois colegas. Assim,
conseguimos estimular a confiança e segurança do grupo, bem como estimular
outros sentidos para perceber o mundo e o próprio corpo de forma menos
ordinária, alcançando o estado de performatividade do corpo. Uma prática que se
mostrou tão mais aproveitada e geradora de reflexão comparada com outras vezes
em que foi realizada sem aula de campo.
Com isso, contemplamos diretamente a Competência Específica 3 da BNCC,
ao permitir que os estudantes utilizem múltiplas linguagens (artísticas, corporais,
verbais) para expressar, de forma autoral, colaborativa e crítica, suas ideias e
emoções (Brasil, 2018). A performance, por sua natureza interdisciplinar e
provocadora, instiga os jovens a ocuparem seu lugar no mundo com voz, gesto e
consciência, abordando temas como Direitos Humanos, justiça social, diversidade
cultural e sustentabilidade. Também fomenta a escuta, o respeito às diferenças e
a construção de discursos éticos e solidários, especialmente nesta investigação
voltada à saúde do planeta.
A performance exige um corpo disponível, sensível e atento. Por isso,
dedicamos alguns encontros ao estudo do movimento e à escuta corporal,
contemplando as habilidades EM13LGG501 (selecionar e utilizar movimentos
corporais de forma consciente e intencional para interações éticas e respeitosas)
e EM13LGG503 (valorizar a cultura corporal como forma de autoconhecimento,
autocuidado e construção de vínculos) (Brasil, 2018).
Durante o processo de pesquisa, convidei alguns colegas professores de
matérias distintas que poderiam colaborar com o aprofundamento do tema. Para
melhor discutir o tema Antropoceno, convidei a professora de Geografia, Ararajuba,
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
13
que, em dois encontros de sua disciplina, abordou o tema sob uma perspectiva
mais geográfica, chegando a falar, inclusive, sobre o bairro Parangaba e a Lagoa.
na Biologia, o professor Cedro, em sua aula, falou sobre a planta aguapé,
abordando suas características fisiológicas, características e funções. Com o
professor de Química, Anequim, os estudantes puderam analisar a água coletada
na lagoa, no laboratório da escola, onde, por meios técnicos e científicos,
obtiveram resultados acerca do nível de poluição daquelas amostras. Dito isso, os
alunos, por meios científicos, analisaram a água coletada, conforme podemos ver
na Figura 2:
Figura 2 Análise da água. Acervo próprio (2024).
O processo interdisciplinar desta pesquisa, mostrou-se como diz Coimbra
(2000) como uma alegoria, a ponto de ir convidando para ele outras disciplinas. A
professora de economia, disciplina da base técnica, Jandaia logo se sentiu atraída
pelo debate e propôs à turma um estudo sobre legislação ambiental, para mostrar
que mesmo havendo leis, pessoas e empresas ainda escoam esgotos clandestinos
na Lagoa da Parangaba.
E surpreendentemente, chega até mim, dias após o fim de minha pesquisa o
professor de Matemática, Acari, com desenhos realizados pela turma durante uma
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
14
atividade de sua disciplina, onde ele pediu como referências as imagens que os
alunos tinham das visitas a Lagoa da Parangaba durante as aulas de Arte.
O trabalho consistia numa introdução ao estudo de polígonos. Tomando
como referência as fotos tiradas por umas das duas alunas na aula de
campo à Lagoa da Parangaba, em dupla, os alunos deveriam produzir
colaborativamente um desenho constituído apenas por segmentos de
reta, isto é, era proibido usar linhas curvas. Deixei claro que iria avaliar
dentro da realidade de cada aluno, por exemplo, não iria comparar os
desenhos dos “desenhistas profissionais” que tinha na sala, daqueles que
desenham apenas "boneco de palitinho", o importante era seguir as duas
regras: 1 fazer uma releitura da foto e 2 utilizar segmentos de reta
(Acari, 20247).
Figura 3 Atividade de matemática. Fonte: Acari (2024).
Seguindo rastros
Foram usados como potenciais pedagógicos o diário de bordo, a fim de nele
e dele anotar percepções e sensações durante o processo e extrair as informações
pertinentes ao percurso. Tais diários não são de uma navegação propriamente dita,
nem de escritos de artistas formados e assumidos como tais, mas traçam um
processo criativo de estudantes curiosos no fazer artístico performativo, que
7 Relato do professor de Matemática.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
15
registram conteúdos, impressões, sentimentos, análises e seus programas
performativos ligados a Lagoa.
Como todo o processo desta pesquisa importa, tentei registrar o máximo dos
rastros do fenômeno criativo, seja por fotos, vídeos e, principalmente, pelos
escritos. Foram entregues aos 40 estudantes da turma do curso de Logística,
série do Ensino Médio, um kit contendo uma pasta de plástico, um caderno
pequeno, lápis, borracha, canetas, marca-texto, corretivo e fitas decorativas para
que eles pudessem registrar o processo. Foram 17 estudantes performers, 2
estudantes videomakers e 20 estudantes observadores-participantes.
Para a elaboração das performances, separei os performers em 4 equipes e
pedi, durante uma aula de Arte dedicada a isso, que elaborassem o programa
performativo da equipe a ser entregue na próxima aula para que eu pudesse avaliar
e ajustar. Na semana esperada, falei e fiz os devidos ajustes, debatendo com cada
equipe a viabilidade logística e o alinhamento com o tema Antropoceno. Tais
programas foram criados e registrados pelos próprios alunos em seus diários de
bordo.
Após vários encontros, exercícios, atividades e pesquisas, tanto nas aulas de
Arte quanto nas aulas de Biologia, Geografia e Química, começamos a organizar a
prática da nossa performance e, para isso, elaborei uma divulgação para toda a
escola através de vídeos e fotos no Instagram. Construí uma escultura, relacionada
com o tema da pesquisa, na qual disponibilizei convites para nossa performance
e deixei no centro da mesa de planejamento na sala dos professores.
Um dia antes da realização das performances, fomos visitar o local onde cada
ação aconteceria. Convidamos pais, alunos e professores, estabelecemos regras
de segurança e dividimos a outra parte da turma para apoio a cada equipe. A lagoa
da Parangaba conta com policiamento que inclusive tem um ponto fixo em um
trailer.
Essa etapa contemplou outra habilidade importante da BNCC (EM13LGG304):
mapear e criar, por meio das linguagens artísticas, ações sociais, culturais e
políticas que enfrentem os desafios contemporâneos de forma crítica, criativa,
ética e solidária (Brasil, 2018).
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
16
Performando a lagoa da Parangaba
No sábado, dia 14 de setembro de 2024, às 10h da manhã, realizamos nossas
performances na lagoa da Parangaba. O trabalho recebeu o título de
Aguapé: ações
performativas no antropoceno
consistindo em um conjunto de cinco
performances, sendo quatro delas praticadas por quatro equipes de estudantes,
uma por mim professor de Arte e colaboração de Tharyn Stazak.
Durante a realização das performances, colocamos em prática as habilidades
previstas na BNCC, como a (EM13LGG603), que incentiva a expressão artística por
meio de processos criativos que integrem diferentes linguagens e referências
culturais e estéticas, valorizando tanto conhecimentos diversos quanto
experiências pessoais e coletivas. Além disso, nossa proposta dialogou
diretamente com a habilidade (EM13LGG604), ao aproximar a arte e a cultura
corporal do movimento às várias dimensões da vida: sejam elas sociais, culturais,
políticas, históricas ou econômicas (Brasil, 2018).
Performance: Confessionário contra o fim do mundo
Confessionário contra o fim do mundo, cujo programa se encontra disponível
no Quadro 1, surgiu a partir de um debate sobre poluição na sala de aula, quando
alguns alunos apontaram práticas habituais da população e, tendo como
disparador esse debate, a equipe decidiu propor uma ação performativa com
perguntas expostas em cartolinas (Figura 4).
Quadro 1 Programa
Confessionário contra o fim do mundo
. Acervo próprio (2024).
1. Caminhar até a Lagoa
2. Ir para a faixa de pedestre quando o sinal ficar vermelho
3. Segurar os cartazes na faixa de pedestre de frente para os carros e motos
até o sinal fechar
4. Segurar os cartazes na calçada enquanto o sinal estiver verde.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
17
Figura 4
Confessionário contra o fim do mundo
. Acervo próprio (2024).
Segurando-as no sinal, inquiriram os motoristas de bicicletas, motos, carros,
ônibus etc., esperando deles a buzina como confissão a tais
perguntas/inquietações: “Buzine se você poluiu hoje!”, “Você tem medo do fim
do mundo?”, “Já desmatou hoje?”, “Água da lagoa da Parangaba: R$ 50,00”.
Por mais literal que pareça ser, tal ação consiste na interação com as pessoas
que respondiam, muitos honestamente, às questões levantadas nos cartazes,
reafirmando o que Fabião (2009, p. 71) diz:
[...] em geral, o foco não está na transmissão de determinado conteúdo,
mas na potência relacional promovida pela experiência proposta (no caso
do espectador, na experiência que este estabelece com o performer,
consigo, com os outros da audiência, com o espaço onde a operação se
e seu contexto histórico). É sobretudo neste conteúdo relacional que
reside a força política do ato performativo.
De modo que, de fato, a nossa intenção enquanto performers não se limitava
a transmissão de conteúdo ou uma mensagem clichê, mas sim realizar uma ação
relacional e que a partir dela, o cotidiano daqueles motoristas fosse atravessado
por tal estética artística.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
18
[...] o foco não está sobre a transmissão de um conteúdo, mas sobre a
identificação das forças que rondam certo campo temático e o momento
em que elas se chocam com nossas percepções cotidianas. Não há uma
tese a ser provada ou lições a serem transmitidas, como num contexto
pedagógico formal (Nardim, 2011, p.116).
Para além do tema, temos em pauta uma prática artística responsável, atenta
em fazer parentes”, chamar a atenção para a “ecojustiça” como pontua Donna
Haraway com seu termo Chthuluceno. Agir diante do problema Antropoceno.
Contudo, assumidamente, o Antropoceno é o disparador tanto da pesquisa,
quanto das performances, pois como afirma Lima Filho e Carvalho (2023, p.10),
[...] a produção cênica interessada em dar forma poética ao fim do mundo
pode colaborar para ampliar as ressonâncias desse fazer mover diante
da iminente extinção. Dito de outro modo, a cena operaria como espécie
de alarme de incêndio que aponta a catástrofe que está alojada no
antropoceno.
Os registros da estudante Licuri (Na página 5 eu explico que não uso os nomes reais
dos alunos e professore) descrevem o programa performativo bem como a felicidade de
realizá-lo:
Figura 5 Confessionário contra o fim do mundo. Acervo próprio (2024). (Licuri, 20248).
8 Aluna.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
19
Performance: Sinta o desastre
Para esta performance, cujo programa se encontra disponível no Quadro 2, a
equipe pensou em uma ação que fosse uma experiência sensorial, onde passantes
e membros da equipe puderam participar (Figura 6).
Quadro 2Programa
Sinta o desastre
. Acervo próprio (2024).
Figura 6
Sinta o desastre
. Acervo próprio (2024).
Um performer abordava uma pessoa e a convidava para participar. A
performance acontecia por meio da relação entre performer e convidado. Neste
contexto, podemos considerá-lo um performer também, visto que sua interação
era fundamental para o ato performativo. O convidado tinha os olhos vendados e
recebia as seguintes instruções:
1. Convidar alguém para participar.
2. Explicar para a pessoa a performance.
3. Vendar a pessoa.
4. Guiar a pessoa pelo espaço.
5. Perguntar o que ela está tateando.
6. Anotar o que a pessoa disse que sentiu.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
20
Relaxe. Vou te conduzir com todo cuidado, serei seus olhos.
Caminharemos um pouco pelo entorno da lagoa, pisaremos e tocaremos
em concretos, pavimentos, tijolos, galhos, árvores vivas e mortas. Peço
que descreva para mim o que você sente ao tocar. Use o tato e me diga.
É natureza? Está viva ou morta? É sedimento natural? É concreto,
cimento, pavimento? Sinta o desastre! (
Sinta o desastre
, 2024).
Enquanto isso, um terceiro estudante performer anotava as descrições dadas
pela pessoa vendada. Ao final, os performers mostravam para as pessoas
vendadas o que elas tocaram de fato e se, pelo tato, foi possível acertar.
Eu e os estudantes pensamos na perspectiva relacional e sensorial da ação,
buscando provocar e promover nas pessoas vendadas uma forma de ver e sentir
aquele espaço da lagoa de uma forma extraordinária. Como vemos em Campos
(2016, p. 24), a arte performativa apensada às questões urgentes sugere “novas
formas de vivenciar o espaço e o tempo, para apresentar possibilidades do ‘se
perder’, colocar-se num risco não-habitual, explorar o poético como
desconhecido, contrapondo o sujeito ao modo usual e operacional de ver, sentir e
pensar o mundo.”
Unidos, os três corpos performaram. Esse programa performativo criava um
corpo coletivo. Um corpo sensorial, que provocava o além da visão, clamava o
sentir. De acordo com Fabião (2009, p. 63), “o performer é um criador de corpos
individuais e coletivos, públicos e privados. Se o performer potencializa a relação
com seu corpo é para disseminar uma reflexão e uma experimentação sobre a
corporeidade do mundo, das relações, do pensamento”.
Existe um corpo-terra, no qual vivemos e do qual dependemos. Estamos nele
24 horas por dia, o vemos diariamente, percebemos suas mudanças climáticas: as
secas, tempestades, enxurradas, alagamentos, lixões, desmatamento, queimadas,
a matança da fauna e da flora, o concretamento e a pavimentação dos solos, e a
poluição em formas infinitas.
O fim do mundo é uma construção cotidiana, articula a esfera privada e
pública, o pessoal e o coletivo. Assim, coloca-nos diante da tarefa de
pensar modos de implodir essa rota de colisão. Interpela-nos sobre como
as artes da cena podem nos aproximar das realidades da vida no planeta
para fazer pensar sobre esse mundo que criamos, estando juntos. Talvez,
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
21
os processos criativos que investigam o fim do mundo encontrem seus
caminhos pela necessidade de comunicar o que está estampado em
nossa sociedade e que é por diversas vezes esquecido pela agressividade
da rotina. Virou normalidade não nos afetarmos com os fins que
permeiam nosso cotidiano (Lima Filho; Carvalho, 2023, p. 24).
Mas o olhar se acostuma, é preciso uma relação mais física com corpo
natureza, para daí sentirmos de fato em nosso tato o desastre.
Nós artistas performers junto aos pesquisadores das ciências humanas e
sociais, temos uma responsabilidade a assumir:
[...] de fato, pelas histórias que contam, pelas imagens que mostram,
pelas emoções que proporcionam, os artistas podem não contribuir
para produzir ideias e valores em consonância com a urgência ecológica,
mas também, acima de tudo, têm o poder de influenciar nossas
sensibilidades e nossas representações (Sermon, 2021, p. 32).
Programas criam corpos naqueles que os performam e naqueles que são
afetados pela performance. Programas anunciam que “corpos” são sistemas
relacionais abertos, altamente suscetíveis e cambiantes. Programas geram corpos
com proporções que ultrapassam em muito os limites da pele (Fabião, 2009).
Performance: O Ritual
Programa criado pela estudante Acapu9 e sua equipe, cujo programa se
encontra disponível no Quadro 3. Desde o início, a aluna se mostrou generosa com
o processo desta pesquisa, indo comigo a pé, após o final do turno escolar, fazer
meu primeiro reconhecimento das bordas da lagoa, para que eu conhecesse a
região. Ela, por morar ali perto, conhecia muito bem a área. Inclusive, me levou até
a casa de seus avós, uma casa simples à beira da lagoa, com criação de porcos e
aves, além de plantações de bananeiras, coqueiros e muitos matos, até chegarmos
à borda da lagoa. Ali, visitamos o local para ver a possibilidade de realizarmos
alguma ação performativa, mas o matagal não nos permitia chegar à lagoa de fato.
9 Aluna.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
22
Quadro 3 Programa
O ritual
. Acervo próprio (2024).
Acapu, junto com sua equipe, optou por uma ação análoga a um ritual. A
estudante citou os povos indígenas que muitos anos habitavam aquela região.
Alertei-os para não escorregarem na representação teatral e relembrei alguns
princípios da performance. Logo, a equipe se empenhou na criação de um
programa coerente que dialogava com o ritualístico. Propuseram um círculo e um
centro, onde, dentro deste, havia uma planta e notícias de desastres ambientais
impressas, para que os passantes convidados a participar da performance
pudessem ler e ali, no centro, decidissem como reagir àquela matéria lida,
podendo gritar, rasgar o papel, falar algo, fazer uma dança ou até mesmo comer
o papel, como eu fiz ao ler uma notícia sobre a devastação da natureza pelo ser
humano (Figura 7).
Figura 7
O ritual
. Acervo próprio (2024).
1. Caminhar até a arreninha (campo de futebol) em frente a Lagoa.
2. Colocar um cartaz como nome ritual.
3. Colocar uma planta no centro.
4. Colocar notícias, impressas, de desastres ambientais ao lado da planta.
5. Convidar pessoas para ler notícias.
6. Pedir que as pessoas façam uma reação diante da notícia, pode ser um grito,
uma fala, uma ação.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
23
Nesta ação performativa, o ritual como uma cerimônia indígena criado pela
equipe rompia outro ritual: o cotidiano das pessoas, as caminhadas matinais, o
caminho usado para ir ao trabalho, o banho de sol. “Através da realização do
programa, o performer suspende o que de automatismo, hábito, mecânica e
passividade no ato de ‘pertencer’ — pertencer ao mundo, pertencer ao mundo da
arte e pertencer ao mundo estritamente como ‘arte’” (Fabião, 2013, p. 5). Uma
imbricação possível graças à porosidade da performance e à criatividade dos
jovens estudantes.
O aluno Jequitibá expressou o prazer que foi conversar com pessoas sobre o
meio ambiente, discutindo com os passantes as matérias sobre “desastres”
ambientais. Um debate necessário.
Figura 8 Relato. (2024) - (Jequitibá, 2024).
De acordo com Fabião (2013, p. 2), os “performers não pretendem comunicar
um conteúdo determinado a ser decodificado pelo público, mas promover uma
experiência através da qual conteúdos serão elaborados”. Esse processo
relacional, vivido pelos estudantes, foi de fato o cerne desta performance, ou seja,
o encontro entre os jovens, o tema debatido e as pessoas que paravam. O ritual
foi a elaboração de um debate urgente sobre o que ainda nos resta.
A prática da performance permite aos estudantes, não a ação da arte
contemporânea, mas também como diz Fabião (2009, p. 62) “des-automatizar a
relação do cidadão com a polis; do agente histórico com seu contexto; do vivente
com o tempo, o espaço, o corpo o outro e consigo mesmo.” Sentir-se como se
tivesse feito o dia de alguns, possibilitando o desabafo de passantes sobre as
questões do meio ambiente, isso foi possível pois “ao agir seu programa,
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
24
necessariamente, des-programa seu organismo e seu meio” (Fabião, 2009, p. 63).
Uma educação oriunda das práticas culturais, por sua vez, não deve ser
vista como algo abstrato, macro, universal e que se dilui no mundo como
um termo genérico, pois quando se trata de educação no campo das
artes, no campo das culturas, especificamente se quer referir a uma
educação e a uma experiência estética (Santos, 2022, p. 22).
Ocupando a cidade, no caso a Lagoa, fazendo desse lugar um espaço de
cultura, ao passo que aprendem a performance na prática, ensinam os pedestres,
passantes, caminhantes também na prática sobre esta estética, além do tema em
questão nas performances, o antropoceno, as ruínas do planeta.
Pós-experiência de performar e ver performances, o estudante Jaborandi-do-
ceará diz:
Figura 9 Relato. (2024) - (Jaborandi-do-ceará, 2024).
No encontro da performance
Aguapé
com
O Ritual
, no qual, enquanto
performer, decidi engolir a notícia que li, gerou surpresa nas pessoas que
observavam. Embora fosse clara a ação daquela metaperformance ler uma
matéria e reagir ao seu teor resolvi ruminar, levar para minhas vísceras aquela
notícia ruim. Isso causou impacto, como pode ser visto na fala de tais percepções,
de acordo com Campos, são comuns à “performance e o teatro contemporâneo
buscam, nesse sentido, o sujeito percipiente cujos níveis de expectação se
aproximam mais do sinestésico do que do semiótico” (Campos, 2016, p. 23).
Embora, naquele momento, minha ação dentro da performance O Ritual
tenha buscado causar tais efeitos, “isso não quer dizer que, numa performance,
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
25
não haja nada para o espectador interpretar, mas também não se pode dizer que
as ações do artista performativo apenas signifiquem alguma coisa” (Fernandes,
2011, p. 17).
Performance:
Navegando contra o fim do mundo
A equipe percorreu os arredores do local da performance, uma ruela que
dava acesso à margem da lagoa, abordando pessoas e oferecendo-lhes a
possibilidade de elaborarem um barquinho de papel com folhas de cadernos
usados. Na performance
Navegando contra o Antropoceno
, cujo programa se
encontra disponível no Quadro 4, os estudantes propuseram uma experiência
quase devocional, em que os passantes escreviam mensagens nos barquinhos,
direcionadas ao bem-estar da natureza, para posteriormente serem lançados na
lagoa. Pressupondo que a papel vem da celulose a equipe mensurou mínimos
impactos à saúde da lagoa.
Quadro 4 Programa
Navegando contra o fim do mundo
. Acervo próprio (2024).
As pessoas ao escreverem suas mensagens nos barcos depositavam ali suas
presenças, uma extensão de si. Posteriormente, as pessoas abordadas na rua
participaram do lançamento dos barcos, ao lado de outros estudantes que haviam
utilizado aquelas mesmas folhas de cadernos, escrevendo nelas conteúdos e
saberes. Estavam ali também as árvores que, após serem desmatadas,
transformaram-se em folhas de cadernos. No barquinho, estavam presentes
múltiplos encontros (Figura 10).
1. Fazer barquinhos de papel.
2. Pedir para os passantes fazerem um barquinho (caso não saibam, entregar um
feito).
3. Pedir para os passantes escreverem uma mensagem no barquinho para o meio
ambiente.
4. Abordar pessoas até chegar na rua onde todas as performances vão se encontrar.
5. Colocar os barquinhos na Lagoa.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
26
Figura 10
Navegando contra o fim do mundo
. Acervo próprio (2024).
Dentre tantos encontros possíveis, o mais significativo foi com um grupo de
jovens indígenas em processo de reconhecimento de identidade e origem na região
da Parangaba, território outrora habitado por povos originários fugidos de
colonizadores. Nos cruzamos (ou melhor, cruzamos o caminho deles) enquanto
panfletavam algo e, ao se depararem com nossa caminhada rumo à performance
Navegando contra o Antropoceno
, decidiram nos acompanhar, como relatou Maluy
Ptyguara-Porangaba. No local da performance, fizeram seus próprios barquinhos
e os depositaram na lagoa.
O encontro da turma para pesquisar e praticar performance trouxe muitos
aprendizados. Como destacou Umbuzeiro10, “a união da turma foi um dos principais
ganhos do processo”. No teatro, essa coesão é mais comum, que se trata de
uma arte essencialmente coletiva. Na performance, embora isso também ocorra,
não é uma característica tão recorrente.
Ainda na confluência desta pesquisa, apresento a seguir o QR Code de acesso
10 Aluno
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
27
ao vídeo-performance Aguapé, resultado de uma ação artística desenvolvida em
colaboração com a produtora audiovisual @salfilmes, representada pelo artista e
realizador Daniel Correia. Esta obra constitui uma extensão das investigações
performativas realizadas no âmbito do projeto, traduzindo em linguagem
audiovisual as poéticas, os atravessamentos e os tensionamentos do processo.
Figura 11 Vídeo da pesquisa. Fonte: Sal filmes (2025).
Contra o Fim: Adaptar o habitar
Existem ainda termos como Plantationoceno, Capitaloceno e Chthuluceno
que expressão outras perspectivas do tema. Esta prática em performance e ensino
de Arte, recorre ao Antropoceno com o objetivo de fazer algo diante dos
problemas. O Chthuluceno, termo de Donna Haraway, propõe um horizonte ético
e político de reconstrução, baseado na interdependência entre espécies e na
simpoiese (o fazer-com, criar-com) convocando à recomposição dos refúgios e à
criação de parentescos multiespécies. Assim, enquanto os três primeiros termos
nomeiam e denunciam processos de destruição, o Chthuluceno aponta para
modos possíveis de coexistência e regeneração da vida na Terra (Haraway, 2016).
Toda pesquisa produz efeitos de transformação. Nesta pesquisa, podemos
perceber esses efeitos no território investigado, nos envolvidos com a ação e na
própria área de investigação. As práticas de pesquisa que incluem estratégias
metodológicas e dispositivos diversos produzem os pesquisadores e os
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
28
pesquisados, forjando diferentes mundos.
Assumir a prática artística como pesquisa, permitiu ir além dos registros e
reflexões sobre o processo artístico-pedagógico da experiência - possibilitou
registros que partiram de uma escrita performativa e que se desdobraram em
reflexões sobre minha escritura performativa. Como forma de orquestrar as ações
performativas dos estudantes percebi que minhas práticas são muitas vezes
disparadas por memórias e voltadas para o corpo: a performance que se pelo
corpo.
Toda essa trajetória se alinha à Competência Específica 5 da BNCC, que
reconhece a cultura corporal de movimento como linguagem expressiva. No
projeto, o corpo foi não apenas veículo, mas matéria e meio de criação: linguagem
que comunica, questiona, provoca (Brasil, 2018).
Interessa-me a ecoperformance de guerrilha, pois em mim uma brasa,
uma vontade mais bruta, externa e literal de dizer que não temos tempo para
reverter a saúde do nosso planeta. Não faz muito sentido, para mim, performances
demasiadamente metafóricas e abstratas para alertar sobre incêndios, por
exemplo. Penso também ser um tanto egóico focar em trabalhos que priorizam
as perspectivas do corpo do performer, pensar somente na sensibilidade dele na
relação com a natureza, dentre outros. uma urgência, creio na guerrilha com
bom senso. Porque também não cabe se desesperar diante de um incêndio.
Não somente os resultados obtidos, mas também todo o processo vem de
uma consciência ecoperformativa, enquanto professor-encenador-performer, de
que este trabalho comunga com o bem-estar do planeta, logo, com meu bem-
estar.
Diante da imersão na prática performativa com os estudantes e dos estudos
sobre as questões do antropoceno, entendemos que a lagoa da Parangaba não foi
apenas paisagem ou objeto de pesquisa, foi também um campo vivo de
aprendizado. A experiência revelou-se profundamente produtiva, repleta de
criações performáticas que ampliaram os horizontes para o componente Arte, mas
que também transitaram pelos campos de estudos da Biologia, Geografia, Química
e Matemática. Compreendemos este trânsito como possibilidade de viver a
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
29
diferença pela convergência de saberes diferentes e como um modo de diferir,
capaz de tensionar modelos e narrativas cristalizadas. Além disso, possibilitou uma
tomada de consciência social e ambiental por meio da interdisciplinaridade e do
estudo sobre o meio ambiente no antropoceno.
A elaboração das performances, fruto do processo investigativo, emergiu de
forma orgânica, quase como um crescimento natural. O contexto dos estudos, as
referências teóricas, práticas e visuais forneceram a chave necessária, ampliando
as possibilidades criativas para as ações performativas dos alunos.
Assim sendo, tecemos, no entorno da lagoa da Parangaba, marcas efêmeras
da performance. Conversamos com caminhantes, desconhecidos, povos
indígenas. Ocupamos esse espaço. Apropriarmo-nos dessa paisagem foi, também,
apropriar-nos da urgência climática e ambiental do planeta. Um recorte da
realidade de Fortaleza que reflete tantos outros males globais. Performar uma
pesquisa com estudantes e professores ali foi, antes de tudo, um ato. Um gesto.
Uma atitude diante do muito que ainda precisamos fazer.
Referências
ALVES, E. et al. Avaliações fisiológicas e bioquímicas de plantas de aguapé
(Eichhornia crassipes) cultivadas com níveis excessivos de nutrientes
. Planta
daninha
, v. 21, p. 27–35, 2003. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/pd/a/mxFRqP3gHh7NXxsX86rGGst/?lang=pt. Acesso em: 18 jan. 2024.
Bairro Parangaba.
O povo
, Fortaleza, 21 abr. 2016. Disponível em:
https://arteculturaespiritualidade.blogspot.com/2016/04/bairro-parangaba.html.
Acesso em: 18 jan. 2024.
BORGES, G. Lagoa da Parangaba: aguapés tomam parte do espelho d'água.
O povo
,
Fortaleza, 13 abr. 2023. Disponível em:
Leia mais em: https://www.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2023/04/13/lagoa-da-parangaba-
aguapes-tomam-parte-do-espelho-dagua.html. Acesso em: 18 jan. 2024.
BRASIL. Ministério da Educação.
Base Nacional Comum Curricular
. Brasília: MEC,
2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/ Acesso em: 18 jan. 2024.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
30
CAMPOS, C. L. J. A contaminação como potência no teatro/performance:
problematizações em torno do espectador na pós-modernidade.
DAPesquisa
,
Florianópolis, v. 11, n. 16, p. 1828, 2016. Disponível em:
https://www.revistas.udesc.br/index.php/dapesquisa/article/view/6915. Acesso em: 18 jan.
2024.
COIMBRA, J. A. A. Considerações sobre a interdisciplinaridade. In: PHILIPPI JÚNIOR,
C. E. M.; TUCCI, D. J.; HOGAN, R. N.
Interdisciplinaridade em Ciências Ambientais
.
São Paulo: Signus Editora, 2000. p. 42-70.
CORDEIRO, Silvio Luiz. Ruínas em cena no teatro do mundo em mutação.
digitAR-
Revista Digital de Arqueologia
,
Arquitectura e Artes
, n. 9, p. 37-49, 2023.
CRUTZEN, P. J; STOERMER, E. F. O antropoceno. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, 2015.
Disponível em: https://piseagrama.org/extra/o-antropoceno/. Acesso em: 18 jan. 2024.
FABIÃO, E. Performance, teatro e ensino: poéticas e políticas da
interdisciplinaridade. In. FLORENTINO, A.; TELLES, N. (Org.).
Cartografias do ensino
do teatro.
Uberlândia: EDUFU, 2009. Disponível em:
https://scholar.google.com/scholar?hl=pt-
BR&as_sdt=0%2C5&q=FABI%C3%83O%2C+E.+Performance%2C+teatro+e+ensino%3A+po%C3%A9ticas+e+pol
%C3%ADticas+da+interdisciplinaridade.+In.+FLORENTINO%2C+A.%3B+TELLES%2C+N.+%28Org.%29.+Cartogra
fias+do+ensino+do+teatro.+Uberl%C3%A2ndia%3A+&btnG= . Acesso em: 20 nov. 2024.
FABIÃO, E. Programa performativo: o corpo-em-experiência.
Revista do LUMEB
, n.4,
p. 1-11, 2013. Disponível em: https://orion.nics.unicamp.br/index.php/lume/article/view/276.
Acesso em: 18 jan. 2024.
FÉRAL, J. Por uma poética da performatividade: o teatro performativo.
Sala preta
,
São Paulo, v. 8, p. 197- 2010, 2008. Trad. Ligia Borges). Disponível em:
http://www.revistas.usp.br/salapreta/article/view/57370/60352. Acesso em: 01 nov. 2024.
FÉRAL, J. Em torno do performativo. Entrevistador: Edélcio Mostaço.
Urdimento
-
Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 38, 2020. Disponível
em: https://periodicos.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/16658/11980. Acesso em: 10
jan. 2025
FERNANDES, Sílvia. Teatralidade e Performatividade na cena contemporânea.
Repertório
, Salvador, v. 1, n. 16, p.11-23, jun. 2011. Semestral. Acesso em: 10 fev. 2024
FREITAS, T. S. Prática como pesquisa: saberes territorializados entre planos de
docência, investigação e criação nas artes cênicas. Revista Rascunhos - Caminhos
Da Pesquisa
, Florianópolis, v. 11, n. 2, p. 38-53, 2024. Disponível
em: https://doi.org/10.14393/issn2358-3703.v11n2a2024-47. Acesso em: 18 jan. 2025.
HARAWAY, Donna. Antropoceno, capitaloceno, plantationoceno, chthuluceno:
fazendo parentes.
ClimaCom Cultura Científica
, v. 3, n. 5, p. 139-146, 2016.
Disponível em: Acesso em: 15 de mar. 2024.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
31
LIMA FILHO, I. S; CARVALHO, F. W. Duas portas para paisagens do fim do mundo
na cena contemporânea cearense.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 47, p. 1–26, 2023. Disponível em:
https://periodicos.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/23032/15794.
Acesso em: 18 jan. 2024.
MARRAS; M.; TADDEI, R.
O Antropoceno
: sobre modos de compor mundos. Belo
Horizonte: Fino Traço, 2022.
NARDIM, T. As atividades de Allan Kaprow: artes de agir, obras de viver.
Revista-
Valise,
Porto Alegre, v. l, n. 1, p. 105–117, 2011. Disponível em:
https://seer.ufrgs.br/index.php/RevistaValise/article/view/19892/12804. Acesso em: 18 jan.
2024.
RANGEL, J. Por uma pedagogia reencantada da voz nas artes vivas: pressupostos
para uma relação ecológica da voz
. Revista Voz e Cena
, Brasília, v. 4, n. 02, p. 36–
55, 2023. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/vozecena/. Acesso em: 10 set.
2024.
PARRA ALVARADO, Michell Giovanni. El antropoceno en disputa: el camino realista
hacia nuevas tensiones entre particulares y universales durante el rechazo
científico de la ‘nueva época’.
En-claves del pensamiento
, v. 19, n. 37, p. 26-50,
2025.
SANTOS, A. Cidade e experiência estética: ocupar as ruas, para ocupar os
currículos.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 3,
n. 45, p. 1-30, 2022. Disponível em:
https://periodicos.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/22687/14907. Acesso em: 18 jan. 2024.
SARAIVA, W. S. Teatro performativo na escola: experiências de docência, pesquisa
e criação reveladas pela prática. Dissertação (Mestrado Profissional em Artes)
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2025.
SERMON, J. Teatro e ecologia: mudança de escalas ou de paradigma?
Móin-Móin
- Revista de Estudos Sobre Teatro de Formas Animadas: Teatro de Animação,
Ecologia e Sustentabilidade, Florianópolis, v. 2, n. 25, p. 24 - 49, 2021. Disponível
em: https://periodicos.udesc.br/index.php/moin/article/view/21420/13821 Acesso em: 18 jan.
2024. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/rascunhos/article/view/76205.
Acesso em: 01 set. 2025.
SARAIVA, W. S. Territórios praticados: Uma experiência em Teatro Performativo
com alunos do ensino médio.
Revista Rascunhos
- Caminhos Da Pesquisa Em
Artes Cênicas, v. 11, n. 2, p. 176-193, 2024. Disponível em:
https://seer.ufu.br/index.php/rascunhos/article/view/76205. Acesso em: 01 set. 2025.
Aguapé
ações performativas no antropoceno: a prática artístico-pedagógica como experiência
Wellington Silva Saraiva | Tharyn Stazak de Freitas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-32, abr. 2026
32
SERMON, J. Teatro e ecologia: mudança de escalas ou de paradigma?
Móin-Móin
- Revista de Estudos Sobre Teatro de Formas Animadas: Teatro de Animação,
Ecologia e Sustentabilidade, Florianópolis, v. 2, n. 25, p. 24–49, 2021. Disponível em:
https://periodicos.udesc.br/index.php/moin/article/view/21420/13821. Acesso em: 18 jan. 2024.
Recebido em: 14/11/2025
Aprovado em: 06/04/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br