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A criação da peça
Daqui de dentro, com amor
, do
The Dropped Keys Theatre Company:
uma conversa com Ashley Lucas
Entrevista com Ashley Lucas
Concedida a Caroline Vetori e Vicente Concilio
Para citar este artigo:
LUCAS, Ashley. A criação da peça
Daqui de dentro, com amor
,
do The Dropped Keys Theatre Company: uma conversa com
Ashley Lucas. [Entrevista concedida a Caroline Vetori e
Vicente Concilio].
Urdimento -
Revista de Estudos em
Artes Cênicas, Florianópolis, v.2, n.58, ago. 2026.
DOI: 10.5965/1414573102582026e0501
A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
A criação da peça
Daqui de dentro, com amor
, do The Dropped Keys Theatre Company:
uma conversa com Ashley Lucas
Entrevista concedida a Caroline Vetori | Vicente Concilio
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-25, ago. 2026
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A criação da peça
Daqui de dentro, com amor
, do The Dropped Keys Theatre Company:
uma conversa com Ashley Lucas
Entrevista com Ashley Lucas1
Concedida a Caroline Vetori2 e Vicente Concilio3
Resumo
Nesta entrevista, Ashley Lucas, professora da Universidade de Michigan, integrante do
Prison Creative Arts Project (PCAP) e da The Dropped Keys Theatre Company compartilha
aspectos que acompanharam a criação, apresentações e circulação da peça With Love,
From Inside, recentemente traduzida para o português recentemente com o título Daqui
de dentro, com amor.
Palavras-chave:
Teatro e prisão. Pedagogia das artes cênicas. Dramaturgia. Encenação.
The creation of the play With Love, From Inside by The Dropped Keys Theatre Company:
an interview with Ashley Lucas
Abstract
In this interview, Ashley Lucas, Professor at the University of Michigan and a member of
the Prison Creative Arts Project (PCAP) and The Dropped Keys Theatre Company, shares
aspects surrounding the creation, performances, and touring of the play With Love, From
Inside (recently translated into Portuguese as Daqui de dentro, com amor.
Keywords
: Theatre and prison. Theatre pedagogy. Playwriting. Staging.
Creando la obra Desde adentro, con amor, de The Dropped Keys Theatre Company: una
entrevista con Ashley Lucas
Resumen
En esta entrevista, Ashley Lucas, profesora de la Universidad de Michigan y miembro del
Prisión Creative Arts Project (PCAP) y de la compañía teatral The Dropped Keys, comparte
aspectos relacionados con la creación, las representaciones y la gira de la obra Desde
adentro, con amor (traducida recientemente al portugués como Daqui de dentro, con
amor.
Palabras clave
: Teatro y prisión. Pedagogía de las artes escénicas. Dramaturgia. Puesta
en escena.
1 Doutorado em Estudos Étnicos e Teatro e Drama pela University of California, San Diego, e bacharel em Estudos Teatrais
e Inglês pela Yale University. Professora de Teatro e Drama na University of Michigan, onde também atua no Residential
College, na Penny W. Stamps School of Art & Design e no Departamento de Língua e Literatura Inglesa. Integrante do
Prison Creative Arts Project (PCAP) e da The Dropped Keys Theatre Company.. lucasash@umich.edu
https://orcid.org/0000-0003-2195-2804
2 Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Mestrado em Teatro pela UDESC.
Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Coordena o projeto de pesquisa “Vozes
que ecoam além muros: investigação de saídas-faíscas do cárcere”. Integra o grupo de pesquisa “Observatório de práticas
artísticas no cárcere e em espaços de privação de liberdade”. Profa. adjunta no curso de Licenciatura em Teatro da
Faculdade de Artes do Paraná na Universidade Estadual do Paraná (FAP/UNESPAR). cacavetori@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/5944868538223342 https://orcid.org/0000-0001-9389-272X
3 Licenciatura em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP). Doutorado
e Mestrado em Artes Cênicas pela USP. Bolsista de produtividade PQ - C do (CNPq). Integra o grupo de pesquisa: ''Cena
contra Celas: infiltração das artes cênicas em prisões como práticas abolicionistas”. Prof. na graduação e pós-graduação
em Artes Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Ator e diretor teatral. viconcilio@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/3283711708471437 https://orcid.org/0000-0003-2897-1581
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Figura 1Ashley Lucas4
A presente entrevista complementa a publicação da tradução de
Daqui de
dentro, com amor
. Ashley Lucas é professora da Universidade de Michigan,
integrante do Prison Creative Arts Project (PCAP)5 e participou da criação da
referida obra junto da The Dropped Keys Theatre Company. Realizada durante o
processo de finalização da tradução da peça para o português, esta conversa
buscou aprofundar a compreensão de aspectos da criação do espetáculo,
desenvolvido coletivamente por professoras e estudantes atuantes no PCAP,
sobreviventes do cárcere e colaboradores e colaboradoras que permanecem
privadas de liberdade.
A realização desta entrevista ocorreu durante o Programa de Residência
Artística da Casa Uno, localizada na cidade de Atenas, na Costa Rica, e que é
coordenada pela Dra. JoAnne Tucker. Entre os dias 13 e 30 de julho de 2026, o
4 Fonte: https://ii.umich.edu/ii/people/all/l/lucasash.html
5 Para saber um pouco sobre a história do PCAP e suas interações com universidades brasileiras,
recomendamos o texto
Avançamos juntos um programa de intercâmbio sobre teatro nas prisões entre
três universidades
, de autoria de Ashley Lucas, Natália Fiche e Vicente Concilio, bem como o artigo Teatro
contra as prisões: poéticas e pedagogias para a obsolescência do punitivismo carcerário, de autoria de Ashley
Lucas, Caroline Vetori, Murilo Gaulês, Vicente Concilio, Viviane Narvaes e Walidah Imarisha. Ainda,
recomendamos o acesso ao site do programa: https://lsa.umich.edu/pcap/about.html.
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espaço acolheu o trio de professoras, artistas e pesquisadoras Ashley Lucas,
Caroline Vetori de Souza e Vicente Concilio para o desenvolvimento de trabalhos
em parceria dedicados às relações entre teatro, encarceramento e práticas
abolicionistas. Nesse contexto, a conversa emergiu como extensão e
complemento do processo de tradução, propondo à pessoa leitora um encontro
com os processos desafiadores que resultaram na elaboração da dramaturgia e
sua encenação.
Compartilhamos esse bate-papo por vezes informal, por vezes denso e
muitas vezes emocionante pois esperamos que a leitura inspire o som de muitas
chaves caindo no chão.
Figura 2 Ashley Lucas6
6 Fonte: https://lsa.umich.edu/pcap/about/People/lucasash.html
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Figura 3 Ashley Lucas e Caroline Vetori durante a entrevista aqui publicada.
Foto: Vicente Concílio
Primeiramente, a gente gostaria de dizer o quanto é maravilhoso o
espetáculo
With Love, From Inside
, que pudemos assistir e dizer que
ele é muito inspirador, afinal é uma forma de compartilhar com as
pessoas do lado de fora das prisões experiências cotidianas terríveis
vividas por pessoas encarceradas. Esse foi um dos motivos que
impulsionou a criação do espetáculo?
Ashley Lucas - Muito obrigada. Tenho muito respeito pelas opiniões de vocês
como especialistas em teatro no contexto prisional, e é muito significativo para
mim que vocês tenham encontrado inspiração e sentido na nossa peça.
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Eu jamais teria me envolvido em um projeto tão complexo, mas um grupo de
estudantes engajados me pediu para fazermos isso em parceria. Minha amiga e
parceira de trabalho Mary Heinen McPherson7 e eu ministramos juntas no
Departamento de Teatro da Universidade de Michigan uma disciplina chamada
Teatro e encarceramento
8, e no semestre de inverno de 2023 (janeiro a abril),
tivemos um dos grupos de estudantes bem engajados.
Eram em sua maioria estudantes de teatro, e eram pessoas incrivelmente
talentosas e profundamente dedicadas ao trabalho teatral nas prisões, embora a
maioria jamais tivesse pisado em um presídio antes da disciplina. Essas pessoas
passaram a se importar enormemente com as pessoas em privação de liberdade
nas oficinas de teatro e, embora tivessem bastante formação teatral na
universidade, aprenderam muito com as pessoas na prisão sobre o significado do
teatro e sobre como criar arte com alegria e engajamento social.
No final do semestre, cerca de dez estudantes vieram até mim e perguntaram
se poderíamos continuar nos reunindo no semestre seguinte. O grupo tinha que
cursar uma disciplina obrigatória, e isso seria um empecilho para fazer meu outro
curso ligado ao
Prison Creative Arts Project
(PCAP
Projeto de Artes Criativas na
Prisão
). Mas as pessoas queriam continuar lendo textos sobre a prisão e oferecer
oficinas para pessoas encarceradas. Mary decidiu se juntar a nós, e então
montamos uma lista de leitura conjunta.
No início do semestre de outono de 2023 (setembro a dezembro), esses e
essas estudantes começaram a falar sobre suas frustrações em relação a como
as outras pessoas reagiam às suas idas semanais à prisão. Achavam impossível
explicar adequadamente a colegas de quarto, amizades e familiares o quanto as
pessoas na prisão eram importantes e como aquele trabalho estava
7 Mary Heinen McPherson é uma importante ativista na luta pelos direitos das mulheres encarceradas nos
Estados Unidos. Enquanto cumpria pena na Detroit House of Corrections, tornou-se a autora principal do
processo Glover v. Johnson, ação judicial histórica que garantiu às mulheres presas em Michigan o direito
de acesso igualitário à educação, ao trabalho e a recursos jurídicos. Após a vitória do caso, ingressou na
Universidade de Michigan por meio de um programa de educação prisional. Posteriormente, passou a atuar
como educadora, sendo co-fundadora do PCAP. https://lsa.umich.edu/rc/people/administration-staff/mary-
heinen.html.
8 Constitui uma das disciplinas oferecidas regularmente pelo PCAP. Para saber mais sobre as disciplinas
oferecidas, sugerimos a consulta à: https://lsa.umich.edu/pcap/workshops-courses.html. A referida
disciplina é aberta a estudantes de graduação e pós-graduação de diferentes áreas do conhecimento,
reunindo participantes com formações diversas em torno do estudo das relações entre teatro,
encarceramento e justiça social.
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transformando suas vidas. Tiveram a impressão de que criar uma peça poderia ser
uma boa maneira de ajudar pessoas que talvez nunca entraram ou nunca
entrariam em uma prisão a entender a beleza, a inteligência e a criatividade dos
nossos parceiros e de nossas parceiras de dentro das unidades penais. Então
nas oficinas semanais nas prisões, esse grupo de estudantes começou a perguntar
ao pessoal de quais histórias queriam contar ao público do lado de fora. Foi
assim que começamos.
Figura 4Caroline Vetori durante a entrevista aquí publicada.
Foto: Carline Vetori
Você pode contar pra gente de onde vieram as pessoas que
compuseram o elenco? São todas estudantes de teatro na
Universidade de Michigan? Como eram os ensaios? Quem cuidava
das propostas, da direção, da escrita do texto?
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O elenco da peça teve algumas pequenas mudanças ao longo do tempo. O
grupo original incluía dois estudantes de teatro que iriam estudar no exterior no
inverno de 2024. Myles Mathews foi para a Alemanha e Myah Bridgewater foi para
a África do Sul. Ambos nos ajudaram a desenvolver a peça e estiveram na primeira
apresentação pública da peça em dezembro de 2023, mas não puderam participar
da segunda metade do processo de criação. Acabamos convidando ambos para
gravar suas vozes e usar nas apresentações. O Myles fez a narração da voz em
off
para um poema da peça sobre a solitária, e a Myah gravou o monólogo que havia
escrito sobre uma mulher descrevendo seu filho, Hendricks, tentando entender o
encarceramento da mãe.
Outras atrizes e atores faziam outras coisas no palco em silêncio enquanto
os áudios eram tocados, e o fato de podermos incluir esses atores ausentes
espelhava as maneiras pelas quais estávamos incluindo as histórias de nossas
parceiras encarceradas e nossos parceiros encarcerados que não podiam estar
conosco no palco. A peça inteira era sobre o desafio de invocar a presença de
pessoas que não podíamos apresentar diretamente ao nosso público.
Também adicionamos mais dois estudantes, CC Meade e Henry Baratz, no
semestre de inverno de 2024. Eles também fizeram parte da nossa turma original
e ainda estavam ministrando oficinas nas prisões. Eles queriam se juntar ao
processo de criação da peça conosco.
Mary e eu também fizemos parte da equipe que idealizou a peça e do elenco.
Não somos apenas pessoas que lecionam sobre teatro e encarceramento e que
trabalham em prisões, mas também pessoas que possuem experiências de vida
com o sistema prisional. Mary passou vinte e sete anos encarcerada em Michigan,
e meu pai passou vinte anos preso no Texas. Em dezembro de 2023, também
convidamos o escritor e músico Cozine Welch, que tinha passado vinte anos nas
prisões de Michigan, para se juntar a nós como parte da equipe de criação e do
elenco.
Também convidamos mais quatro estudantes no inverno de 2024 para
formar a equipe técnica da peça: Nicole Ebels como diretora de palco, Ariana
González Peláez como assistente de produção, Tate Zeleznik como iluminadora e
operadora de luz e Cortez Hill como operador de som.
Nem todas as estudantes e nem todos os estudantes eram da área de teatro.
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Cortez cursava Administração; Henry e Sam Aupperlee eram estudantes de
Ciências Sociais; Sarah Oguntomilade, de Relações Internacionais. Eram artistas de
teatro, independentemente de suas habilitações na universidade.
Como tínhamos agendas muito lotadas, que muitas vezes incluíam
produções de outras peças e oficinas nas prisões, só podíamos ensaiar por umas
duas horas, uma vez por semana. Na verdade, não seríamos capazes de
desenvolver uma peça inteira no decorrer de um ano letivo com tão pouco tempo
de ensaio, mas nosso coletivo fez um compromisso tão sério umas e uns com os
outros e colocou tanta energia e propósito no trabalho que, de alguma forma,
fomos capazes de criar uma peça da qual nos orgulhamos muito.
Muitos dos ensaios começaram nas oficinas dentro da prisão com nossas
amigas e nossos amigos que estavam do lado de dentro dos muros. O processo
assumiu muitas formas diferentes. Nosso parceiro Steven Jon Wilcox contou, na
prisão, às estudantes uma história indígena de transformação na qual um tipo de
rato-do-mato passa por muitas dificuldades até se transformar em um castor9. A
estrutura da história é muito semelhante à história de Rudyard Kipling,
O Filho do
Elefante,
na qual a mutação física do protagonista representa as habilidades e
recursos que ele desenvolveu diante das adversidades que superou. Sam escreveu
a história conforme Steven a contou e, na sala de ensaio da universidade, lemos a
história em voz alta e o elenco encenava enquanto ela era narrada.
Outro colaborador na prisão chamado Maranz Davis escreveu uma cena
sobre o sistema de saúde na prisão, e meus alunos a escreveram à mão em seus
cadernos enquanto estavam na oficina na prisão e a trouxeram para a universidade
para que trabalhássemos nela. Um homem perdeu os dentes enquanto joga
basquete no pátio da prisão, e a cena começa com ele entrando na clínica da
prisão com um rio de sangue jorrando da boca. Ele está tonto e com dificuldades
para falar. Ele se aproxima de um policial penal para pedir assistência médica. O
guarda diz que ele precisa preencher um formulário antes que o médico o atenda,
mas não lhe uma caneta. O homem sangrando começa a pedir uma caneta
emprestada para outras pessoas que estão na sala de espera. Elas não têm caneta;
outras se recusam a ajudar. Ele finalmente consegue uma caneta e preenche o
9 Na tradução da peça, optou-se por trocar esses roedores por aves, ou seja, o animal se transforma de pomba
em arara, pois as consideramos mais frequentes no imaginário brasileiro.
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formulário. O guarda o deixa entrar no consultório médico. O médico se recusa a
aceitar o formulário do homem porque o papel está coberto de sangue. Ele lhe dá
um formulário novo e pede que ele o preencha novamente. O médico sai, e o
homem escreve na parede com seu próprio sangue e depois desmaia. Por muitas
razões práticas, essa cena parecia difícil de encenar da forma como Maranz tinha
concebido, então começamos a improvisar sobre como é terrível o atendimento
de saúde dentro das prisões e como é difícil para pessoas com problemas médicos
graves ter acesso a atendimento. A cena havia capturado a frieza e a inumanidade
no tratamento das pessoas na prisão que precisam de ajuda, e sentimos que esse
era o centro da cena e o que mais precisávamos comunicar. Sugeri que as
estudantes improvisassem uma cena sobre saúde em que a crise desviasse para
o absurdo. Elas criaram uma situação na qual os funcionários da prisão tinham
roubado o pulmão de uma mulher encarcerada, e ela e sua colega de cela estavam
tentando recuperá-lo com o médico da prisão. Uma versão dessa cena acabou
entrando na nossa peça como resposta ao que o Maranz tinha escrito. Apesar do
absurdo da ideia de que o pulmão de alguém pudesse ser roubado de seu corpo,
várias pessoas que conhecem a prisão e sua lógica me disseram que essa foi uma
das partes mais dolorosas e de maior reverberação emocional da peça. Como meu
marido comentou: “Se aqueles desgraçados encontrassem um jeito de roubar seu
pulmão, eles roubariam”.
Após esse tipo de improvisação, alguém do grupo se voluntariava para
escrever a cena e, na semana seguinte, tentávamos encená-la a partir do texto
escrito, revisando e adicionando elementos conforme avançávamos. O processo
de criação coletiva funcionava de tal forma que frequentemente nem sabíamos
quem tinha contribuído com qual parte do texto, porque todo mundo trabalhava
junto em quase tudo.
Em outros casos, tínhamos muita clareza quem havia escrito o quê, porque
a ideia era muito original ou porque o texto não sofria alterações. Richard Strong,
um poeta e participante do PCAP décadas, enviou-me pelo correio um poema
sobre seu tempo na solitária, e usamos o poema na íntegra, sem edições.
Enquanto estava na prisão, Cozine escreveu uma análise incisiva das prisões em
um poema que intitulou de
Bird Shit
(
Bosta de pássaro
), publicado na revista
literária do PCAP, a
Michigan Review of Prisoner Creative Writing
. Embora tenha
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sido escrito muito antes de começarmos o processo de trabalho nesta peça,
decidimos usá-lo, bem como sua música
Burn My Bones
(
Queime meus ossos
),
que também foi escrita durante seu encarceramento.
A última parte da peça é composta por cartas que recebemos. Algumas
dessas cartas vieram de pessoas com quem estávamos trabalhando ativamente
enquanto desenvolvíamos a peça, e outras eram cartas que eu havia recebido de
pessoas que eu amava e que viviam dentro de prisões incluindo meu falecido
pai, que teria ficado muito orgulhoso de fazer parte desta obra. Nós não
identificamos diretamente cada uma dessas pessoas, mas suas palavras são ditas
integralmente e com a permissão de todo mundo. Escrevi para cada pessoa na
prisão, expliquei como gostaríamos de usar seus textos, pedi seu consentimento
e disse-lhes que consideramos todo mundo integrante do
Dropped Keys Theatre
Company
(
Coletivo Teatral Chaves Caídas
), mesmo que não tivessem tido a
oportunidade de se apresentar conosco em turnê.
Nosso aluno Jack Weaver escreveu o primeiro rascunho da única cena que
era pura ficção e que não veio diretamente de alguém que tivesse vivido em uma
prisão. A cena sobre a festa de fim de ano dos policiais penais foi inspirada pelo
fato de que, durante o ano todo, havia um panfleto pendurado no saguão de uma
das prisões onde trabalhamos, anunciando uma festa de fim de ano para os
guardas. Esse tipo de evento é algo a que nem nós nem as pessoas cumprindo
pena jamais poderíamos presenciar ou comparecer, e queríamos imaginar uma
versão de como seria essa festa. Jack escreveu um rascunho do roteiro que
achamos tão engraçado que acabou indo para a peça. Queríamos que essa parte
parecesse muito diferente de todo o resto, então fizemos fantoches de meia para
representar todos os personagens dos agentes, o que aumentou o ridículo e a
irrealidade da cena.
Todo mundo escreveu, criou e atuou e dirigiu a peça. Não tivemos um
dramaturgo ou diretora específica, e criamos tanto o texto quanto a marcação de
cena por meio da criação coletiva, da experimentação e de muitas revisões em
parceria. Criamos o figurino com peças de nossos próprios guarda-roupas, com a
orientação da estudante e integrante do elenco Casey Wilcox, que desenvolveu um
cenário portátil e adaptável para nós, usando escadas e varais esticados entre elas.
Pendurávamos cartas nos varais e as usávamos no decorrer da peça. Nathan
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Goldberg, outro aluno e membro do grupo, criou a ambientação sonora do
espetáculo.
O texto que vocês criaram é bem complexo: possui cenas que
apresentam situações de dentro da prisão, outras que envolvem
pessoas cuja vida foi atingida pelo encarceramento de familiares e
momentos em que há pessoas fazendo relatos de momentos que
viveram enquanto cumpriam pena... Como foi lidar com isso tudo?
Ficou muito material de fora da versão final do texto?
A maioria das cenas que criamos acabou ficando na versão final da peça de
alguma forma, embora tenhamos feito alguns cortes para fazer a peça fluir melhor.
No início do processo, recebemos uma carta de Shaylarena Plaster10, uma de
nossas parceiras na prisão, que reuniu uma lista de frases, máximas, de pessoas
ao seu redor na prisão, oferecendo bons conselhos sobre como uma pessoa deve
viver sua vida. Ficamos tão inspirados pela lista da Shayla que decidimos usar
essas máximas como uma estrutura para o espetáculo, e começamos a tentar
combinar as cenas que vínhamos criando com cada frase, como uma espécie de
tema condutor. Mais tarde, desenvolvemos o personagem do Músico para guiar o
público pela estrutura da peça, como se essas máximas tivessem chegado em
cartas ao Músico vindas de uma mãe encarcerada.
Isso de a peça conter muitas histórias de pessoas encarceradas, de seus
familiares e das memórias da Mary sobre seu tempo na prisão nunca pareceu um
problema para nós ou algo que precisássemos resolver. Nós nos reunimos como
um grupo teatral precisamente porque estávamos tentando conectar diferentes
tipos de experiências de vida atravessadas pelas prisões, e o mais importante era
mostrar as diversas maneiras pelas quais o amor atravessa tudo o que nos divide.
Algumas cenas parecem ter sido escritas por pessoas de dentro da
prisão, nas oficinas do PCAP. É isso mesmo? Como se esse
processo de autoria compartilhada com quem está cumprindo pena?
Expliquei um pouco disso em uma resposta anterior, mas gostaria de
acrescentar que as pessoas que participavam das oficinas do PCAP nas prisões
enquanto criávamos a peça recebiam atualizações regulares sobre a peça pelos
10 Shayla é uma mulher trans que vive em uma unidade masculina, seguindo as normas prisionais de Michigan:
as pessoas cumprem pena em unidades conforme o sexo do nascimento, e não conforme seu gênero.
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estudantes do nosso grupo. Os alunos e alunas relatavam o que estávamos
fazendo nos ensaios e recebiam comentários e novas ideias de nossas
colaboradoras e colaboradores da prisão. Algumas dessas pessoas foram
transferidas para prisões distantes em Michigan enquanto estávamos nos ensaios.
Pelo menos um deles foi libertado e se mudou para a Flórida. Nunca mais
conseguimos encontrá-lo depois de sua liberação, embora tenhamos procurado
por ele, e ainda esperamos que um dia ele nos encontre novamente por meio do
escritório do PCAP ou algum outro jeito. Pude escrever para todos os outros depois
do fim da nossa turnê e pude descrever a peça e contar onde nos apresentamos
e como ela tinha sido recebida.
Lamento não termos conseguido compartilhar o texto completo da peça com
nossos colaboradores encarcerados. A peça tem muitas cenas que são críticas ao
sistema prisional e à forma como ele é administrado. Contamos essas histórias da
maneira mais honesta possível porque sentimos que isso era importante e porque
as pessoas na prisão nos pediram para fazê-lo. Pessoas da plateia frequentemente
comentavam que os monólogos da Mary eram as partes mais marcantes e
impactantes da peça, e neles ela relata as condições terríveis e abusos aos direitos
humanos que as autoridades prisionais se esforçaram muito para encobrir e
efetivamente apagaram dos registros oficiais sobre o encarceramento em
Michigan. Mary é um arquivo vivo. Ela possui um conhecimento que não pode ser
encontrado em nenhum outro lugar porque a maioria das mulheres que estiveram
presas com ela já faleceu — muitas devido a problemas de saúde causados pelas
próprias prisões e porque o governo destruiu muitos dos registros que
catalogavam a contaminação da água que as mulheres tinham de beber e as
infestações de ratos nas prisões. Não seria possível ter acesso a essas histórias
por outras fontes, e Mary estava pronta para expô-las ao público após muitos
anos de silêncio.
Infelizmente, isso significava que não podíamos enviar o texto completo de
With Love, From Inside
(
Daqui de dentro, com amor
) para as pessoas que nos
ajudaram a criá-lo nas prisões pois temíamos que os censores prisionais
impedissem de que o texto chegasse aos nossos colaboradores. Pior ainda, eles
poderiam proibir a mim e aos meus alunos de entrar nas prisões para continuar
nossas oficinas. Esse era um risco grande demais para assumirmos.
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Enviei o máximo que pude do texto a cada colaborador que nos ajudou e,
sempre que tínhamos a sorte de encontrar alguma dessas pessoas pessoalmente
em nossas visitas às prisões em algum projeto do PCAP, contávamos a elas tudo
o que podíamos sobre as partes do texto que não podíamos levar lá para dentro.
Ficamos muito felizes quando Steven Wilcox, que nos contou a história do
ratão que vira castor, pôde voltar para casa e assistir ao vídeo completo da nossa
apresentação, e ele disse ter gostado muito.
Ainda sobre a dramaturgia, gostaríamos de saber um pouco sobre as
cartas, pois elas parecem ter um lugar importante na estrutura da
obra. Como elas alimentaram a construção dramatúrgica?
As cartas se tornaram a espinha dorsal da nossa peça. Estávamos
recebendo material para o texto pelo correio, olhando para cartas antigas em
busca de inspiração, pendurando cartas por todo o nosso cenário e moldando o
fio condutor da peça ao fazer o personagem do Músico descrever a relação com
sua mãe por meio das cartas. No final da peça, pegávamos as cartas dos varais
pendurados por todo o palco e nos espalhávamos pela plateia para entregar uma
carta a cada espectador. Essas cartas continham palavras que várias pessoas
encarceradas haviam escrito ao
American Friends Service Committee
(AFSC) de
Michigan uma organização local que luta pelos direitos das pessoas
encarceradas em nosso estado. Os autores das cartas descreviam suas vidas nas
prisões e seu desejo por mudanças legais que oferecessem oportunidades de
redução de pena para pessoas cumprindo prisão perpétua ou outras penas muito
longas. Havia cerca de nove cartas diferentes que copiamos para que o público
recebesse textos diferentes. Todas elas tinham um QR
code
para ser escaneado a
fim de obter mais informações sobre como apoiar o
Second Look Sentencing Act
(
Ato para uma Segunda Sentença
) uma lei que tornaria possível a revisão de
penas para todas as pessoas que escreveram aquelas cartas. Ficamos felizes por
poder fazer essa parceria com o AFSC para promover essa proposta de lei tão
significativa que nós, em Michigan, ainda estamos tentando aprovar. As pessoas
da plateia frequentemente diziam o quanto era significativo receber uma carta e
demonstravam grande interesse em apoiar o Second Look depois de ver nossa
peça.
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O texto do programa da peça afirma que as pessoas privadas de
liberdade talvez sejam uma das últimas comunidades a manter a
escrita de cartas de maneira tão cuidadosa e plena de significados.
O que as cartas representam para vocês no processo?
As pessoas na prisão vivem através de cartas. Cartas são como visitas da
família. Cartas são pedaços de casa. Cartas são algo físico que você pode guardar
e reler muitas vezes. São pontos de referência, lembranças, talismãs de esperança
no mundo deprimente e perigoso da prisão. São vestígios das pessoas de quem
sentimos falta e janelas para experiências que não podemos compartilhar
diretamente com quem amamos por causa dos muros que nos separam.
Eu me correspondo com pessoas na prisão desde os meus quinze anos.
Tenho caixas, caixas e gavetas de arquivos cheias de cartas do meu pai e de muitas
outras pessoas encarceradas. Elas significam algo muito diferente de e-mails ou
chamadas telefônicas. São objetos de beleza. Inestimáveis.
Hoje, elas também parecem objetos antigos, mesmo que você as esteja
recebendo no tempo presente. Muitos dos meus alunos universitários não sabem
como colocar um endereço num envelope ou onde pôr o selo. É uma cultura que,
no meu país, prospera dentro das prisões. Fora dali, é mais uma curiosidade
pitoresca. No entanto, para as pessoas que buscam conexão através dos muros
da prisão, o correio é vital especialmente para pessoas que, como eu,
desprezam os sistemas corporativos exploratórios de troca de mensagens
eletrônicas11 que lucram em cima da correspondência entre pessoas encarceradas
e seus entes queridos.
Na peça, a presença das cartas nos fez sentir que tínhamos objetos físicos
aos quais podíamos nos agarrar para representar as muitas pessoas que
amávamos e que deveriam ter tido a oportunidade de compartilhar o palco
conosco, mas não puderam. Duas das cartas no final da peça foram escritas por
pessoas que eu amava e que faleceram antes de estrearmos o espetáculo, então
ouvir a leitura dessas cartas foi particularmente emocionante para mim. Eu, e
11 JPay é uma plataforma que permite que familiares e amigos enviem mensagens eletrônicas e até dinheiro
para pessoas nas unidades prisionais participantes nos Estados Unidos. O envio de mensagens é pago por
meio da compra de "selos", e cada mensagem consome um ou mais selos, dependendo do tamanho e dos
anexos. O valor dos selos varia conforme o estado e o pacote adquirido, tornando o custo da comunicação
um fator importante para os usuários. É um exemplo das grandes fontes de renda para as corporações que
lucram com o sistema penitenciário imenso naquele país.
A criação da peça
Daqui de dentro, com amor
, do The Dropped Keys Theatre Company:
uma conversa com Ashley Lucas
Entrevista concedida a Caroline Vetori | Vicente Concilio
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-25, ago. 2026
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muitas pessoas do elenco, costumávamos chorar durante a leitura das cartas no
final da apresentação.
As cartas exibem estratégias que aprendemos junto às pessoas
privadas de liberdade, possibilitando a criação e manutenção de
vínculos, a documentação de memórias e, inclusive, formas de lutar
pela liberdade. Como percebem isso? Nesse sentido, você acha que
as cartas são saídas? Outra nuance é sobre como possibilitam a
entrada de quem está fora dos muros, e que podem, por meio delas,
conhecer pessoas extraordinárias que estão dentro da prisão?
Acho que você tem razão sobre tudo o que as cartas podem fazer para nos
conectar com outras pessoas e preservar histórias que não são compartilhadas
em outros lugares. O desafio para nós, como grupo de teatro, era fazer com que
o público desejasse as cartas. A maioria das pessoas hoje não vive a presença
cotidiana das cartas, como grande parte do mundo vivia antes da chegada dos
telefones, e-mails, mensagens de texto e redes sociais. Além disso, a ideia de uma
carta vinda de alguém na prisão parece ameaçadora ou assustadora para muitas
pessoas. Tantas pessoas que não se veem conectadas às prisões de forma alguma
são rápidas em descartar qualquer ideia complexa sobre quem uma pessoa presa
pode ser. Tínhamos que fazer as pessoas do público verem as cartas da prisão da
maneira como nós as vivenciamos: como visitas, como peças históricas
significativas, como família, como um abraço feito de palavras, como amor.
Antes de criarmos esta peça, as estudantes perceberam que não conseguiam
simplesmente explicar às pessoas com quem conviviam por que ir às oficinas nas
prisões era a melhor parte da sua semana. Então tentamos um tipo de
experimento social no teatro e vimos que funcionou. Algumas das pessoas na
nossa plateia eram familiares dos alunos e alunas que antes tinham dificuldade
para entender o que acontecia nas oficinas semanais na prisão. Algumas dessas
pessoas tinham julgado os alunos que conheciam e amavam como sendo “moles
demais” ou idealistas em suas perspectivas sobre as pessoas na prisão; mas,
depois de ver a peça, eles entenderam algo diferente sobre a comunidade que
formamos com as pessoas do lado de dentro da prisão. Eles receberam as
histórias das vidas das pessoas durante e após o encarceramento de forma
diferente do que receberiam se ouvissem apenas de uma pessoa. Eles viram
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Daqui de dentro, com amor
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as pessoas, em vez de enxergar apenas a prisão que as cerca. Quando a plateia
estava recebendo as cartas reais que distribuíamos no final da peça, as pessoas já
estavam prontas para receber uma carta de alguém de dentro dos muros. Estavam
preparadas para encontrar a humanidade e o potencial de uma pessoa que
escreve de dentro da prisão e que provavelmente elas nunca conhecerão.
A ideia de algo ser enviado com amor, de dentro de um lugar tão
terrível como a prisão, é algo muito forte. Como chegaram ao título?
O que ele significa para vocês? O que essa ideia pretende provocar
no público?
Lutamos por um bom tempo para encontrar o título. Procurávamos um
trecho ou ideia dentro do texto da peça que significasse tudo o que estávamos
tentando transmitir, e sempre voltávamos às cartas e ao amor. “Com amor, de
algum lugar” é uma das maneiras tradicionais de se despedir no final de uma carta.
Eu costumava enviar cartas e cartões-postais reais para meu pai na prisão quando
viajava na época da graduação e da pós-graduação, e às vezes assinava essas
cartas como “Com amor, de Boston” ou “Com amor, de um banco do lado de fora
da casa de Shakespeare”. Eu queria que ele fosse capaz de me imaginar onde eu
estava. Um lugar é algo muito importante de se tentar imaginar quando você não
pode estar fisicamente presente com alguém que ama.
With Love, From Inside
tem múltiplos significados. Estávamos recebendo
amor e cartas de dentro das prisões em um sentido muito literal, mas também
estávamos recebendo e enviando o amor que existe dentro de cada uma de nós
como pessoas tudo o que carregamos em nossos corações. Quando recebemos
uma carta bem escrita (e por bem escrita quero dizer descritiva, emocional e
genuína, não algo que atenda aos padrões de um trabalho acadêmico), somos
convidadas a entrar na perspectiva e na experiência de outra pessoa, talvez em
sua imaginação ou coração.
Nossa peça tenta convidar o público a entrar nos muros da prisão e vivenciar
as experiências e ideias das pessoas em privação de liberdade. Tentamos fazer
isso com o máximo de amor possível. Era fácil amar nossas parceiras e nossos
parceiros da prisão, com quem compartilhamos tanta história e horas de jogos
teatrais e interações felizes. Às vezes pode ser mais difícil amar pessoas que são
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hostis às pessoas e ideias que defendemos, mas descobrimos que o amor produz
empatia e compreensão de um jeito melhor do que o confronto ou a discussão.
Não estávamos interessados em provocar nenhum debate sobre o
encarceramento ou sobre a importância das pessoas presas. Não tínhamos desejo
de discutir, nem necessidade de “ganhar” no sentido de como os jovens hoje falam
sobre “vencer na vida” um conceito que realmente me incomoda porque implica
que alguém tem que perder o tempo todo. Nosso propósito era fazer com que as
pessoas daqui de fora (que, de outra forma, talvez nunca tivessem pensado
seriamente sobre a humanidade das pessoas na prisão) conhecessem algumas
das pessoas peculiares, doces, interessantes e inteligentes que amamos do lado
de dentro dos muros. O que o público faz com seus sentimentos depois disso
cabe a cada pessoa.
Ao longo do processo, como a noção de saída esteve presente? O
que a noção de saída passou a significar para vocês na criação da
peça e após ela?
Em um nível muito prático, estamos sempre conscientes de que podemos
sair da prisão todas as semanas depois das nossas aulas. Caminhamos para fora
pela porta da frente, enquanto as pessoas que viemos ver devem ficar — às vezes
pelo resto de suas vidas. Isso nunca fica mais fácil. Toda vez que saio de uma
prisão, desejo que todas as pessoas possam ir para casa, para suas famílias.
Esta peça nos permitiu levar pelo menos um pouco do espírito e das histórias
das pessoas que amamos na prisão para outros públicos. Também permitiu que
nossas parceiras e parceiros encarcerados se imaginassem conosco quando lhes
contávamos sobre os lugares onde nos apresentávamos e como as pessoas
reagiam à peça.
O fato de a peça ter sido traduzida para o português e estar sendo publicada
no Brasil também é algo muito significativo para nós. Nosso trabalho está
alcançando pessoas em outro idioma, nação e cultura. Que presente!
Mais concretamente, pude dizer em cartas a juízes que pessoas encarceradas
fizeram contribuições significativas para esta peça e para o nosso processo
criativo. As experiências que compartilhamos no processo de criação da peça me
permitem contar histórias boas e verdadeiras para pessoas que realmente têm o
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poder de libertar nossos parceiros e parceiras; e o fato de a turnê da peça ter sido
financiada pela Universidade de Michigan confere credibilidade e um certo
prestígio ao projeto. Embora não fosse nosso objetivo principal, torço para que
nosso trabalho conjunto possa ser usado estrategicamente para ajudar a encurtar
as penas de algumas pessoas.
Na peça a presença de uma metáfora muito significativa, sobre as
chaves. Poderia falar um pouco sobre isso? O que significa o nome
do grupo, The Dropped Keys (As Chaves Caídas), para vocês?
Chaves significam libertação. Elas literalmente abrem portas.
Quando Mary estava na prisão, as mulheres tinham uma superstição de que,
se um guarda deixasse cair as chaves perto de você, significava que você ia ser
liberada. Os policiais penais quase nunca deixam cair suas chaves na prisão,
porque fazer isso é um alto risco de segurança. Eles seguram firme suas chaves e
muitas vezes as mantêm afiveladas aos seus cintos. Mary uma vez viu uma guarda
deixar cair as chaves perto de uma mulher na prisão e, certamente, essa mulher
foi liberta logo em seguida. Mary estava cumprindo pena de prisão perpétua, e
parecia tão improvável que ela jamais fosse solta que alguns guardas fizeram
apostas sobre a morte dela na prisão. Ela contou que um guarda deixou cair suas
chaves perto dela e, pouco tempo depois, o governador de Michigan concedeu a
comutação da sua pena. Ela finalmente estava livre.
Mary conta essa história às e aos estudantes do PCAP com frequência e, em
sua homenagem e com o amor que dedicamos a tantas pessoas dentro dos
muros, muitas vezes deixamos cair, propositalmente, nossas chaves nos
estacionamentos das prisões, como uma forma de desejar a libertação daquelas
pessoas que estão presas.
Decidimos colocar essa história na peça e deixar cair nossas chaves em vários
momentos importantes do espetáculo. Também nos batizamos de
The Dropped
Keys
, o que ainda acho que soa mais como uma banda de rock do que como uma
companhia de teatro, mas era o nome perfeito para nós. Vivemos na esperança
de que todas as pessoas que amamos dentro das prisões alcancem a liberdade e,
até que o façam, continuaremos derrubando nossas chaves.
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Depois da temporada de estreia, sabemos que vocês fizeram uma
pequena turnê com a peça. Como foi isso? Muitas apresentações?
Como foi a relação com a audiência nessas apresentações? Vocês
faziam algum tipo de debate?
A primeira apresentação, ainda como um ensaio aberto, aconteceu em
dezembro de 2023 no
Keene Theatre
, no
Residential College
da Universidade de
Michigan. Tínhamos elaborado uma versão inicial do que a peça viria a ser e
queríamos testá-la com o público. CC e Henry, dois dos estudantes que mais tarde
se juntariam ao nosso elenco, estavam na plateia naquela noite, assim como
muitos outros estudantes que ministravam oficinas do PCAP. Recebemos um
retorno muito positivo e tínhamos o desejo de continuar desenvolvendo o
espetáculo para outras pessoas que não estavam acostumadas a trabalhar em
prisões, como era a maioria daquela primeira plateia. Fizemos mais uma
apresentação na universidade em março de 2024 no
Newman Studio
, no
Walgreen
Center
, durante a
Exposição Anual de Arte
do PCAP12, que foi a apresentação que
vocês assistiram, para que pudéssemos mostrar a peça a muitas e muitos artistas
sobreviventes do sistema prisional e suas famílias.
Sair em turnê nunca fez parte do nosso plano inicial, mas aproveitamos uma
oportunidade inesperada. No semestre em que estávamos criando a peça, Mark
Clague, da recém-
formada University of Michigan Arts Initiative
(
Iniciativa de Artes
da Universidade de Michigan
), veio visitar uma reunião de professoras e
professores no Residential College. Ele estava descrevendo as maneiras pelas
quais a universidade estava investindo para tentar levar o trabalho teatral feito em
nosso campus para outras partes do estado de Michigan. Uma de suas ideias era
enviar grupos de estudantes em turnê para se apresentar, e eu lhe disse que um
grupo de estudantes estava desenvolvendo uma peça que eu achava que se
encaixaria perfeitamente em uma turnê da
Arts Initiative
.
O pessoal da
Arts Initiative
decidiu apoiar uma turnê de
With Love, From
Inside
em nove espaços fora do campus, no sudeste de Michigan. A Arts Initiative
pagou pelo nosso transporte e pelas refeições nos dias de apresentação.
12 A exposição ocorre anualmente, mais de três décadas, durante duas semanas, entre março e abril, em
uma das galerias da Universidade de Michigan, em Ann Arbor. Para saber mais:
https://lsa.umich.edu/pcap/exhibits.html.
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Oferecemos apresentações gratuitas da peça para qualquer espaço em Michigan
que quisesse nos receber no mês de maio de 2024. Toda a equipe ligou e enviou
e-mails para um monte de lugares e eventualmente encontramos os locais que
queriam o espetáculo.
Realizamos um debate com o público após cada apresentação, e foram
sempre muito interessantes e emocionantes, mesmo quando tínhamos plateias
bem pequenas. Parecia que as pessoas que mais precisavam ver a peça de alguma
forma nos encontravam aonde quer que fôssemos.
Houve alguma situação envolvendo as apresentações, ou as
conversas com pessoas da audiência, que você gostaria de destacar?
Nós nos apresentamos em muitos lugares interessantes. Nossa turnê estreou
no
Detroit Public Theatre
, que na época estava em cartaz com a peça
Clyde’s
13, de
Lynn Nottage14. Clyde’s é uma peça sobre sobreviventes do sistema prisional que
trabalham na cozinha de uma lanchonete em um posto de parada de caminhões.
Nós assistimos a uma sessão vespertina de
Clyde’s
em grupo e, em seguida, todo
o elenco de
Clyde’s
permaneceu na plateia para assistir à nossa apresentação no
próprio cenário deles. Foi uma experiência muito marcante para todos nós e, como
nossa apresentação no
Detroit Public Theatre
aconteceu no dia seguinte à
graduação de vários e várias integrantes do nosso elenco na Universidade de
Michigan, muitos dos familiares dos meus alunos puderam assistir àquela
performance.
Parte do objetivo da
Arts Initiative
era alcançar pequenas cidades de Michigan,
por isso nos apresentamos em cinemas antigos em Lapeer e Howell. Fomos a um
espaço comunitário alternativo em Lansing chamado
The Fledge
. Era um prédio
que já tinha sido uma igreja, onde havia um cogumelo gigante de papel machê no
canto dos fundos e havia um gato laranja morador do local que vagava pelo palco
conosco enquanto nós nos apresentávamos.
13 O título da peça remete ao nome da lanchonete e sua proprietária, Clyde, uma sobrevivente do cárcere que
emprega em seu estabelecimento muitas pessoas que também sobreviveram ao encarceramento. A peça
estreou no
Guthrie Theater
, em Minnesota, em 2019. Posteriormente, estreou na Broadway, em 2021, uma
produção estrelada por Uzo Aduba e Ron Cephas Jones.
14 Professora na Universidade de Columbia, dramaturga e roteirista negra, debate em seu trabalho a situação
de pessoas que vivem à margem do sistema capitalista e do modo de vida estadunidense. É a primeira
mulher na história a ganhar dois Prêmios Pulitzer de Teatro. http://www.lynnnottage.com/
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O teatro mais bonito em que nos apresentamos foi na comunidade de idosas
e idosos, chamada
Fox Run Senior Living
, em Novi, Michigan. Eles tinham uma
mesa de luz tão sofisticada que a própria equipe deles e delas não sabia como
operar, e nosso incrível operador de iluminação, Tate Zeleznik, fez coisas tão
maravilhosas com ela que a equipe de lá quis contratá-lo na hora. As habilidades
de Tate como designer de iluminação foram colocadas à prova ao longo de toda
a turnê, porque cada local onde nos apresentávamos tinha um palco e uma mesa
de luz completamente diferentes. Ele essencialmente teve que redesenhar o
espetáculo para cada espaço, e era tão bom no que fazia que recebeu várias
propostas de trabalho de teatros durante o período da turnê.
Os locais que sediaram nossa peça atraíram públicos muito diferentes. Os
cinemas antigos que nos receberam nas cidades pequenas não tinham orçamento
para publicidade e, como resultado, tivemos uma plateia com cerca de apenas
cinco pessoas. Uma mulher nessa plateia começou sentada no fundo do teatro e,
ao longo do espetáculo, foi se aproximando cada vez mais do palco. Ela participou
ativamente da conversa após a apresentação e depois subiu ao palco enquanto
estávamos arrumando as coisas para ir embora, para que pudesse conversar com
Mary em particular. O filho dessa mulher esteve recentemente na prisão e lutava
por sua saúde mental. Apesar dos apelos de sua mãe para que alguém lhe
oferecesse aconselhamento na prisão, ele não recebeu nenhuma forma de
tratamento ou suporte. Quando descobriu que foi condenado a cumprir sete anos
de prisão, ele tirou a própria vida na cela. Sua mãe viu uma publicação em redes
sociais anunciando nossa peça e dirigiu por mais de uma hora de onde morava
para assistir à apresentação, mesmo tendo poucas informações sobre nossa obra.
Ela disse à Mary o quão grata estava por ter conhecido pessoas que entendiam o
que era amar alguém na prisão e o quanto significava para ela ter visto a peça.
Em nossas apresentações na
Wayne State University
e no
Matrix Theatre
(ambos em Detroit), tivemos algumas plateias que eram praticamente compostas
por sobreviventes do sistema prisional, e nossas conversas com elas após as
apresentações permitiram que contassem suas próprias histórias. Essas pessoas
frequentemente começavam suas falas dizendo quais partes da peça as
lembravam de suas próprias experiências. Sempre queriam conversar com Mary e
sobre Mary porque se identificavam muito com ela, e muitas vezes destacavam
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Entrevista concedida a Caroline Vetori | Vicente Concilio
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como a cena sobre o Quatro de Julho reverberava pra elas.
Na apresentação no
Fledg
e, em Lansing, havia quatro mulheres cujos maridos
estavam na prisão sentadas juntas na primeira fileira da plateia, e elas foram
enfáticas sobre o quanto era precisa nossa representação dos guardas prisionais
na cena da festa de fim de ano com os fantoches. Elas até acharam que
estávamos representando pessoas específicas que conheciam, embora todos os
nossos personagens fossem esboços genéricos dos tipos de pessoas que
conhecemos trabalhando em prisões. Elas nos pediram se poderíamos deixar cair
nossas chaves pela libertação de seus maridos, e nós o fizemos. Cada esposa se
levantou e falou o nome de seu marido, e nós e todos na plateia deixamos cair
nossas chaves juntas e juntos enquanto desejávamos a liberdade deles.
Fizemos duas apresentações no
Matrix Theatre
no final da nossa temporada,
e a plateia da noite de encerramento estava cheia de familiares de pessoas
encarceradas. Elas apareceram com suas próprias caixas de lenços de papel e os
distribuíram pela plateia e até para mim no palco durante o bate-papo, porque
derramamos muitas lágrimas juntas. Uma mulher trouxe seu pai, que tinha
acabado de sair da prisão, para o teatro. Essas famílias e as pessoas espectadoras
sobreviventes do sistema prisional me lembraram o quanto significa para as
pessoas ver aspectos de suas próprias vidas representados no palco. Todos nós
queremos nos sentir vistas e compreendidas, e as pessoas encarceradas e suas
famílias têm raríssimas oportunidades de se verem representadas em peças,
filmes e séries com amor e compreensão.
Em
Fox Run
, muitos idosos e idosas na plateia ansiavam para ligar para seus
senadores, escrever cartas ou se engajar em outras formas de ativismo para ajudar
as pessoas nas prisões de Michigan. Uma das funcionárias de é esposa de um
poeta maravilhoso que participou de muitas oficinas do PCAP na prisão, e ela falou
na conversa sobre seu marido e o quanto significaria para ele ouvir sobre a nossa
peça. Todo o elenco deixou cair suas chaves pela libertação dele durante essa
conversa pós-espetáculo. Cerca de sete meses depois, em dezembro de 2024, vi
esse poeta no encerramento das oficinas do PCAP, e conversamos sobre a
apresentação que sua esposa tinha assistido. Expliquei a ele por que nos
chamamos
Dropped Keys Theatre Company
. Logo depois de eu ter contado essa
história a ele em particular, os guardas começaram a dizer a mim e aos meus
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alunos que era hora de nós deixarmos a prisão por aquela noite. Enquanto
estávamos na fila para sair, uma das funcionárias da prisão deixou cair suas chaves
bem ao lado desse poeta, e ele apontou para as chaves e chamou por mim:
“Ashley, você viu isso?”. Eu balancei a cabeça enfaticamente enquanto saía da
prisão e liguei para Mary do estacionamento para contar o que tinha acabado de
acontecer. Ela disse: “Apenas observe. Ele está voltando para casa”. Alguns meses
depois, aquele poeta estava livre e agora está bem, cercado por uma família que
o ama, visitando minhas aulas para falar com as pessoas e fazendo um excelente
trabalho em sua comunidade. Eu nunca pensei que realmente veria a magia das
chaves caídas trazer alguém para casa, mas vi.
Que maravilhoso! Mas pra acabar: o que você considera de especial
nesse processo todo? O que ficaria de inspiração para imaginar
possíveis continuidades?
Não acho que esta seja uma experiência que poderia ser replicada com outro
grupo de pessoas. O que construímos juntas e juntos cresceu organicamente a
partir do nosso próprio senso de comunidade e de uma estética original
compartilhada para o tipo de teatro que queríamos fazer. Foi muito trabalho, mas
valeu a pena.
O pessoal do
Arts Initiative
pagou para que um participante sobrevivente do
cárcere, egresso do PCAP, que abriu sua produtora de cinema, gravasse
profissionalmente a apresentação no
Detroit Public Theatre
para nós, e esse vídeo
está disponível online para quem quiser assistir15. No momento em que escrevo
este texto, o vídeo foi assistido cerca de 475 vezes, o que me mostra que o
espetáculo teve uma vida real além das nossas apresentações ao vivo. Espero que
ele traga alegria, esperança e um senso de comunidade para aquelas e aqueles
que precisam.
ouvi ativistas dizerem que você precisa amar mais as pessoas do que odeia
a opressão. Quando lutamos por justiça, penso que precisamos ter amor em
nossos corações e um desejo genuíno de melhorar o mundo. Pode ser fácil cair na
raiva e até no ódio diante das formas horríveis de opressão que tantas pessoas
15 O link para o vídeo é: https://www.youtube.com/watch?v=WVwef2Cqpg4&t=2s. Acesso em: 21 jul. 2026.
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suportam no mundo, mas acredito que as formas mais eficazes de ativismo são
aquelas que trabalham para tornar o mundo melhor de forma ampla, e não apenas
para eliminar o que nos faz mal. Nós, das artes, temos papeis importantes a
desempenhar nas lutas por justiça social porque trabalhamos para mudar a
cultura, cultivar empatia e ajudar as pessoas a imaginar formas de existir que antes
ninguém julgava possíveis.
Figura 3 Programa do espectáculo - 2024
Recebido em: 10/03/2026
Aprovado em: 06/08/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas
PPGAC
Centro de Artes, Design e ModaCEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br