
História e teatro, arquivo e performance: temporalidade tentacular em
Um pássaro não é uma pedra
Daniele Avila Small
Florianópolis, v.2, n.58, p. 1-28, ago. 2026
companheiros a fiar, feltrar, emaranhar, rastrear e sortir de modo simpoético”
(2013, 60). O modo simpoético, que é o modo de criar-com, proposto pela autora
para confrontar a ideia do modo autopoético (que produz a si mesmo), também
ressoa no pensamento sobre essa modalidade cênica de citação, quando alguém
se propõe a dar continuidade a algum fiar, a recriar-com refazendo-com,
tramando, assim, um fazer junto do teatro numa temporalidade tentacular. A
contracena intertemporal é uma simpoética da cena-polvo, cena-teia, cena-rede
do
reenactment
.
Na seguinte passagem da peça, o imaginário suscitado pela dramaturgia
apresenta a sua tentacularidade:
Estamos nos escombros do Teatro de Pedra, estamos no Teatro da
Liberdade, de pé, em Jenin. Estamos num teatro no Rio de Janeiro. Este
teatro. Aqui. Com vocês. [...] Estamos no deserto, na floresta, na lasca de
uma fratura no centro da terra. Estamos na raiz da oliveira, da samaúma,
do arabá, da gameleira. Estamos no bule do café. No oco dos búzios.
Estamos dentro do olho que o vento faz nas areias, estamos aqui, agora,
hoje, ontem, há bilhões de anos aprendendo a ver dentro do olho do
tempo. Estamos em 1939, em 1948, em 2024, sem começo, sem futuro,
tudo que sabemos é o agora que escorre pelos dedos. Estamos no meio
de um sonho. Estamos no pesadelo da guerra. Todas as guerras, de todos
os lugares, de todos os tempos.
Assisti ao espetáculo ao vivo quatro vezes em dois anos. Assisti algumas
vezes a um registro em vídeo logo quando comecei a escrever esse texto. Demorei
para ver os filmes, mas revi a peça intensamente na memória quando vi o olhar
imperativo de Juliano naquele documentário. E, depois de ver
Arna’s Children
, já
tenho outra memória da peça.
Fiquei paralisada por um tempo, diante da
expressão no rosto de Alla, sentado entre os escombros da sua casa. Acho que
não volto a ser a mesma pessoa depois dessa imagem. Então esses
filmes/arquivos reposicionaram a peça que vi ao vivo e que sigo revivendo e
reavivando na lembrança, agora numa triangulação com as imagens documentais.
O jogo de convocação e resposta entre artistas da cena (e públicos) de
diferentes momentos históricos, a interpelação (quem sabe, uma violência) que se
dá nos processos de pesquisa, de se saber endereçada e levantar a mão dizendo
“tá comigo”, por amor e por raiva, essa é a cena do
reenactment
que me instiga,
me faz querer aprender a ver “dentro do olho do tempo”. A contracena