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Teatro contra as prisões: poéticas e pedagogias
para a obsolescência do punitivismo carcerário
Murilo Moraes Gaulês | Viviane Becker Narvaes
Vicente Concilio | Ashley E. Lucas
Caroline Vetori de Souza | Walidah Imarisha
Para citar este artigo:
GAULÊS, Murilo Moraes; NARVAES, Viviane Becker; CONCILIO,
Vicente; LUCAS, Ashley E; SOUZA, Caroline Vetori de;
IMARISHA, Walidah. Teatro contra as prisões: poéticas e
pedagogias para a obsolescência do punitivismo carcerário.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v. 2, n. 58, ago. 2026.
DOI: 10.5965/1414573102582026e0215
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Teatro contra as prisões: poéticas e pedagogias para a obsolescência do punitivismo carcerário
Murilo Moraes Gaulês | Viviane Becker Narvaes | Vicente Concilio
Ashley E. Lucas | Caroline Vetori de Souza | Walidah Imarisha
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-27, ago. 2026
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Teatro contra as prisões: poéticas e pedagogias para a
obsolescência do punitivismo carcerário
Murilo Moraes Gaulês1 | Viviane Becker Narvaes2 | Vicente Concilio3
Ashley E. Lucas4 | Caroline Vetori de Souza5 | Walidah Imarisha6
Resumo
O texto apresenta o
Observatório de práticas artísticas no cárcere e em
espaços de privação de liberdade
, criado em 2020 por docentes, artistas,
pesquisadoras/es e estudantes que atuam em prisões e unidades
socioeducativas. Com viés abolicionista, o
Observatório
articula experiências
com o objetivo de mapear, documentar e promover o intercâmbio de
metodologias. O artigo contextualiza o sistema prisional e o racismo
estrutural, descreve experiências artísticas em diferentes instituições,
experiências de intercâmbio internacional, ações durante a pandemia e
projetos voltados a populações específicas: mulheres e pessoas
LGBTQIAPN+. Defende a arte como forma de resistência, formação crítica e
imaginação radical contra a lógica punitivista.
Palavras-chave
: Abolicionismo. Teatro nas prisões. Rede interinstitucional.
Extensão universitária. Intercâmbio cultural.
1 Pós-doutorado, doutorado e mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP). Especialização em arteterapia pela
Faculdade Paulista de Artes (FPA). Bacharelado e Licenciatura em Artes Cênicas pela FPA. Prof. Colaborador na Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). cenicas.murilogaules@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/9758887085428577 https://orcid.org/0000-0002-7704-5229
2 Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP). Mestrado e Licenciatura em Artes Cênicas pela Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Profa. Dra. Graduação e Pós-Graduação em Artes Cênicas da Unirio.
viviane.narvaes@unirio.br https://lattes.cnpq.br/1184164180045928 https://orcid.org/0000-0002-8271-9793
3 Doutorado e Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP). Bolsista de produtividade PQ - C do (CNPq).
Licenciatura em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas pela USP. Integra o grupo de pesquisa: ''Cena contra Celas:
infiltração das artes cênicas em prisões como práticas abolicionistas”. Prof. Dr. Adjunto na graduação e pós-graduação em Artes
Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Ator e diretor teatral.
viconcilio@gmail.com http://lattes.cnpq.br/3283711708471437 https://orcid.org/0000-0003-2897-1581
4 Doutorado em Estudos Étnicos e Teatro e Drama pela University of California, San Diego. Bacharel em Estudos Teatrais e Inglês
pela Yale University. Professora de Teatro e Drama na University of Michigan, onde também atua no Residential College, na Penny
W. Stamps School of Art & Design e no Departamento de Língua e Literatura Inglesa. Integrante do Prison Creative Arts Project
(PCAP) e da The Dropped Keys Theatre Company. lucasash@umich.edu https://orcid.org/0000-0003-2195-2804
5 Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Mestrado em Teatro pela UDESC. Licenciatura
em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Coordena o projeto de pesquisa “Vozes que ecoam além muros:
investigação de saídas-faíscas do cárcere”. Integra o grupo de pesquisa “Observatório de práticas artísticas no cárcere e em
espaços de privação de liberdade”. Profa. adjunta no curso de Licenciatura em Teatro da Faculdade de Artes do Paraná na
Universidade Estadual do Paraná (FAP/Unespar).
caroline.souza@ies.unespar.edu.br https://lattes.cnpq.br/5944868538223342 https://orcid.org/0000-0001-9389-272X
6 Escritora e ativista americana , conhecida por seu trabalho na interseção entre literatura, justiça social e questões de
opressão. Com um forte compromisso com a educação e a equidade. professora de Estudos Étnicos na Portland State
University (PSU). walidahimarisha@gmail.com https://orcid.org/0009-0007-0300-8189
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Theater Against Prisons: Poetics and Pedagogies for the Obsolescence of
Carceral Punitivism
Abstract
This text presents the
Observatory of Artistic Practices in Prisons and Other
Spaces of Deprivation of Liberty
, created in 2020 by educators, artists,
researchers, and students working in prisons and juvenile detention facilities.
Grounded in an abolitionist perspective, the
Observatory
brings together
experiences with the aim of mapping, documenting, and promoting the
exchange of methodologies. The article contextualizes the prison system and
structural racism, describes artistic initiatives carried out in different
institutions, international exchange experiences, actions developed during the
COVID-19 pandemic, and projects aimed at specific populations, including
women and LGBTQIAPN+ individuals. It argues for art as a form of resistance,
critical education, and radical imagination in opposition to punitive carceral
logic.
Keywords
: Abolitionism. Theatre in prisons. Interinstitutional network.
University extension. Cultural exchange.
Teatro contra las prisiones: poéticas y pedagogías para la obsolescencia del
punitivismo carcelario
Resumen
El texto presenta el
Observatorio de prácticas artísticas en la cárcel y en
espacios de privación de libertad
, creado en 2020 por docentes, artistas,
investigadores y estudiantes que trabajan en prisiones y centros
socioeducativos. Con una perspectiva abolicionista, el
Observatorio
articula
experiencias con el fin de mapear, documentar e y promover el intercambio
de metodologías. El artículo contextualiza el sistema penitenciario y el
racismo estructural, describe experiencias artísticas desarrolladas en
diferentes instituciones, experiencias de intercambio internacional, acciones
realizadas durante la pandemia de COVID-19 y proyectos dirigidos a
poblaciones específicas, como mujeres y personas LGBTQIAPN+. Defiende el
arte como una forma de resistencia, formación crítica e imaginación radical
frente a la lógica punitiva.
Palabras clave
: Abolicionismo. Teatro en prisiones. Red interinstitucional.
Extensión universitaria. Intercambio cultural.
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Notas sobre e contra as prisões
As prisões são não-lugares. Quando uma pessoa está presa, ela passa todo
o seu período de reclusão sendo chamada de reeducanda, ou pelo número de sua
matrícula. Toda a tentativa de construir uma identidade do lado de dentro dos
muros será severamente punida e censurada. A pessoa presa habita uma cela por
meses ou anos da sua vida, mas não mora lá. Ao sair da prisão, familiares e
amigas/os orientam a pessoa presa a não falar sobre o seu tempo lá dentro. “Não
vamos falar disso. Vamos mudar de assunto?”, insistem. Isso porque as prisões
são tidas como uma maldição da sociedade que nos parece tão antiga e
irreversível quanto a humanidade.
Entretanto, as prisões, como as conhecemos hoje, são invenções muito
recentes. Em sua pesquisa, o antropólogo Marco Antônio da Silva Mello (2011)
afirma que as prisões nas sociedades da Idade Antiga, como a Mesopotâmia, do
Egito e de Roma, tinham função sobretudo provisória. Ali aguardava-se julgamento
ou o cumprimento de sentenças que geralmente envolviam punições físicas
severas, escravização, exílio ou até a morte. O confinamento prolongado era algo
extremamente raro.
Foi somente entre o final do século XVIII e o início do século XIX, sob a
influência das ideias iluministas e das críticas de pensadores como Cesare
Beccaria (1764), que o sistema punitivo passou por uma virada conceitual,
culminando no entendimento das prisões como a pena em si. Mas isso nunca
inibiu as prisões modernas de se consolidarem enquanto verdadeiros centros de
tortura legalizados7, que têm servido como dispositivo de controle e punição
(Foucault, 2013) para conter as insurgências de populações subalternizadas.
Ao longo do século XX, o encarceramento continuou sendo instrumento de
punição e controle social, embora muitos Estados-nação continuassem a
7 Termo utilizado pelo coletivo abolicionista argentino YoNoFui (
apud
Coletivo Sobre Justiças, 2025) para
descrever as prisões contemporâneas no contexto da crise global de encarceramento em massa.
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disseminar uma suposta ênfase na intenção de reabilitação e ressocialização por
meio de suas instituições carcerárias. A situação ficou mais evidenciada a partir
das décadas finais daquele século, especialmente nos Estados Unidos, quando as
políticas de “tolerância zero” e a “guerra contra as drogas” provocaram uma
explosão no número de pessoas presas, reacendendo o debate sobre a real
eficácia do modelo.
Esse crescimento exponencial do encarceramento não pode ser
compreendido sem reconhecer o papel central que o racismo desempenhou (e
ainda desempenha) na consolidação do sistema prisional moderno. Em diversos
países que aboliram formalmente a escravidão no século XIX, o fim do regime
escravocrata não significou liberdade plena para a população negra. Ao contrário,
novas legislações e práticas policiais foram rapidamente implementadas para
criminalizar condutas banais ou subjetivas, como “vadiagem”, “desordem” ou
“ociosidade”, funcionando como instrumentos para manter o controle sobre
corpos negros e garantir a continuidade da exploração de sua força de trabalho.
Acerca da situação estadunidense, líder mundial no
ranking
de encarceramento,
segundo o World Prison Brief (2025), a filósofa Angela Davis (2018, p. 25) ressalta
que:
Logo após a abolição da escravidão, os estados do Sul se apressaram em
desenvolver um sistema de justiça criminal que restringisse legalmente
as possibilidades de liberdade para os escravos recém-emancipados. As
pessoas negras se tornaram os principais alvos de um sistema em
desenvolvimento de arrendamento de condenados, ao qual muitos se
referiam como uma reencarnação da escravidão.
No Brasil, a abolição de 1888 também foi seguida por um processo
semelhante. A historiadora Silvia Haskel Nascimento (2005), em sua pesquisa
sobre a fundação e princípios que deram origem à Casa de Detenção de São Paulo
(popularmente conhecida como Complexo do Carandiru), aponta:
Criada para abrigar condenados à pena de prisão com trabalho, a Casa
de Correção abrigava temporariamente presos de outras cadeias e foi
utilizada também para outros fins. Como, por exemplo, "depósito" de
setores marginalizados: alojamento de indígenas, recolhimento de
escravos com problemas com seus senhores, africanos livres sem
trabalho ou casa, assim como menores abandonados e até doentes e
loucos que não foram recolhidos pelos hospitais adequados. [...] Os
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serviços de limpeza e alimentação eram realizados pelos escravos e
africanos livres recolhidos à Casa (Nascimento, 2005 , p. 5-6).
Esse padrão se repetiu em outras ex-colônias, revelando que o cárcere
moderno não é apenas um espaço de punição individual, mas um dispositivo
político de manutenção de hierarquias raciais. O encarceramento em massa de
populações negras e indígenas, historicamente marginalizadas, não é um efeito
colateral do sistema, mas parte de sua própria lógica fundante.
Ao longo do século XX e XXI, políticas como a “guerra às drogas” e o
endurecimento penal continuaram a operar como justificativas para a prisão em
larga escala de pessoas racializadas, reforçando estereótipos e perpetuando
desigualdades estruturais. Assim, o mito da neutralidade do sistema de justiça
criminal se desfaz diante da evidência de que as prisões, desde sua origem,
carregam em suas paredes o projeto de controle social e racial herdado da
escravidão.
A partir dessa leitura do sistema prisional atual como prolongamento do
projeto escravocrata de matriz branco-ocidental, diversos pesquisadoras/es têm
recorrido
[a]o termo abolicionismo (sem o penal) para tratar, simultaneamente, das
questões que englobam o enfrentamento aos processos históricos e
contemporâneos de escravização, e a luta contra a existência das
instituições de privação de liberdade adotadas como alternativa de
regulação da segurança pública e da promoção da justiça (Gaulês, 2025,
p. 47).
O debate sobre o abolicionismo e sua relação com os processos formativos
e criativos nas artes cênicas também ganha força quando se observa a história do
teatro como espaço de disputa política e social. Conforme destaca Angela Alonso
(2012), em meados do século XIX, companhias teatrais se reuniam às portas das
igrejas, após as missas de domingo, para disseminar o ideal abolicionista e
arrecadar recursos destinados à compra de cartas de alforria, libertando pessoas
escravizadas. Embora esse episódio não figure com o mesmo destaque que outros
marcos da história das artes cênicas, o teatro abolicionista deixou como herança
um conjunto robusto de metodologias, estéticas e estratégias, constituindo um
verdadeiro arsenal na resistência ao punitivismo e ao encarceramento em massa
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no Brasil.
Ainda nesse contexto, desde meados da década de 1940, artistas e
educadores da cena têm desenvolvido ações junto a populações privadas de
liberdade. Essas práticas não apenas se somam às “corpografias subterrâneas de
resistência” (Alves, 2020, p. 12) de comunidades historicamente violentadas pelo
cárcere, como também contribuíram para o avanço estético do teatro brasileiro.
Exemplo disso é o Teatro do Sentenciado, idealizado pelo mestre Abdias
Nascimento (Narvaes, 2020).
Fenômeno semelhante pode ser observado nos Estados Unidos, onde obras
criadas por pessoas encarceradas transformaram modos de produzir e
compreender teatro. Entre os exemplos estão a dramaturgia e a encenação de
Short Eyes
8 (1977) e o filme
Sing Sing
9 (2023).
Essas experiências, tanto no Brasil quanto em outros países, têm
desempenhado papel central na difusão de uma compreensão mais concreta e
abrangente da realidade prisional, iluminando aspectos encobertos do sistema
penitenciário global e da crise do superencarceramento que atinge comunidades
em diferentes regiões.
Ao romper, ainda que de forma lenta, com a crença equivocada de que as
prisões seriam indispensáveis para a manutenção da ordem e da paz social, tais
iniciativas revelam a urgência de pensar alternativas não punitivistas para lidar com
os conflitos e as dores produzidas nas relações humanas em sociedade.
As autoras Mariame Kaba e Andrea J. Ritchie (2021, p. 4) nos provocam ao
afirmar que: “não recorrer aos sistemas de policiamento e punição não significa
abrir mão da responsabilização. Significa apenas que nós paramos de estabelecer
o valor de uma vida por quanto tempo outra pessoa fica presa por tirá-la”.
É justamente por essa perspectiva que pessoas artistas, docentes e
pesquisadoras das artes cênicas pelo Brasil e pelo mundo têm desenvolvido
8 Escrita por Miguel Piñero enquanto cumpria pena em Sing Sing, é considerada um marco na dramaturgia
estadunidense por ser a primeira peça de um autor porto-riquenho a chegar à Broadway.
9 Dirigido por Greg Kwedar, é inspirado em fatos reais e no programa
Rehabilitation Through the Arts
(RTA),
criado em 1996 na penitenciária de
Sing Sing
, em Nova York.
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trabalhos e se debruçado junto a tantas outras pessoas artistas e ativistas
aguerridas na luta abolicionista para pensar qual é o nosso papel na elaboração
desses novos e melhores mundos que estão por vir. Mundos nos quais justiça e
vingança não sejam mais compulsoriamente confundidos. Também é nesse
contexto, por meio de alianças e relações comunitárias entre pessoas artistas-
docentes-pesquisadoras engajadas na busca por uma imaginação radical que
possa contrapor-se à violência punitivista carcerária que surge o
Observatório de
práticas artísticas no cárcere e em espaços de privação de liberdade
.
Sobre o
Observatório de práticas artísticas no cárcere e em espaços de
privação de liberdade
O grupo de pesquisa foi criado em 2020 por professoras/es, artistas,
pesquisadoras/es e estudantes que desenvolvem atividades artístico-pedagógicas
em prisões e em outros espaços de privação de liberdade, tais como aqueles
reservados ao cumprimento de medidas socioeducativas. Dentre os objetivos que
estabelecemos, cabe destacar: a busca por articular diferentes práticas artísticas
com pesquisas e extensão sobre artes no cárcere e suas implicações sociais,
políticas e culturais e o estabelecimento de uma rede de compartilhamento de
estudos e experiências entre professores de universidades brasileiras e
estrangeiras. O viés abolicionista se faz presente na medida em que o espaço da
universidade, mais especificamente as ações de extensão e as pesquisas , tem
sido pensadas por nós como barricadas urgentes e necessárias na luta contra o
punitivismo estatal encampada por diversas/os artistas e pesquisadoras/es da
cena.
O
Observatório de práticas artísticas no cárcere e em espaços de privação de
liberdade
é estruturado como uma rede interinstitucional que reúne universidades
do Brasil e dos Estados Unidos assim como seus grupos de pesquisa e coletivos
artísticos com a proposta de articular diferentes saberes e experiências para
mapear, documentar e analisar práticas artísticas desenvolvidas com pessoas
privadas de liberdade, além de promover o intercâmbio de metodologias e
fortalecer ações culturais voltadas a esse público.
Essa configuração em rede permite que o
Observatório
atue de forma mais
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abrangente, conectando iniciativas que, de outro modo, ficariam isoladas e
fragmentadas. Assim, ele funciona como um ponto de encontro entre
pesquisadoras/es, artistas, educadoras/es e gestoras/es culturais, ampliando a
visibilidade e o impacto das ações realizadas dentro de prisões e outros espaços
de privação de liberdade. Cada universidade que integra a rede desenvolve forte
atuação em seus territórios. Dessa forma, o
Observatório
reafirma que a
universidade pública, quando articulada em rede e comprometida com a
transformação social, é capaz de integrar de maneira orgânica e indissociável o
ensino, a pesquisa e a extensão. Ao fazê-lo, fortalece-se não apenas a formação
acadêmica e cidadã de seus integrantes, mas também a construção de um
conhecimento crítico e engajado, que se coloca como ferramenta de resistência
frente às desigualdades e às violências estruturais que atravessam o sistema
prisional.
Primeiros passos — Unirio
Na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) está sediado
aquele que é o projeto de extensão mais antigo em funcionamento no Brasil: o
projeto
Teatro na Prisão: uma experiência pedagógica em busca do sujeito cidadão
.
O projeto foi criado em 1997 (e, portanto, completa 29 anos de resistência) por
Natália Ribeiro Fiche e Maria de Lourdes Naylor Rocha. Atualmente, o projeto está
inserido num Programa de extensão universitária, o programa
Cultura na Prisão
que desde 2010 congrega projetos de intervenção cultural em prisões e mais
recentemente em centros de socioeducação.
O programa surgiu como resposta a uma iniciativa do MEC para financiar
atividades de extensão e reuniu inicialmente o
Teatro na Prisão
, e um projeto de
revitalização de bibliotecas prisionais em parceria com a professora Maura
Esandola Tavares do curso de Biblioteconomia. Além das oficinas teatrais,
atuamos em duas bibliotecas, das Penitenciárias Lemos Brito e Talavera Bruce,
sendo que essa última resultou na completa revitalização e na formação de
mulheres encarceradas como auxiliares de biblioteca.
Com a aposentadoria da professora Maura e, concomitantemente, o
estabelecimento de convênio com o
Prison Creative Arts Project
(PCAP), em 2013,
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da Universidade de Michigan, surgiu a oportunidade de realizar residências
artísticas. As residências, nos primeiros anos, se alternavam entre Rio de Janeiro
e Ann Arbor e numa ocasião pudemos conhecer um dos projetos de PCAP que
realizava oficinas de escrita criativa com pessoas egressas do sistema prisional.
Ao retornarmos ao Brasil, tendo em vista que uma das pessoas encarceradas
que participava mais tempo do
Teatro na Prisão
tinha conquistado a progressão
de pena para o regime semiaberto, buscamos uma parceria com a Escola de Letras
da Unirio para criação de um projeto inspirado naquele dos Estados Unidos. O
professor Marcelo Santos criou então, em 2014,
O leitor como protagonista
, uma
ação extra-grades voltada a pessoas egressas.
Nessa época, uma das unidades prisionais em que estávamos atuando com
o projeto
Teatro na Prisão
era o presídio Evaristo de Moraes. Nessa unidade há um
grande número de pessoas LGBTQIAPN+, especialmente de mulheres trans e
travestis. Elas, eventualmente, participavam da oficina de Teatro, mas não
permaneciam mais do que uma ou duas aulas, devido aos inúmeros preconceitos
que geram regras de convivência extremas no cárcere. Um de nossos alunos da
Unirio, Sérgio Kauffman, sugeriu que abríssemos uma turma específica para esse
público, assim surgiu o projeto
Artetransformando LGBTQIAPN+ encarcerades
, que
de para cá, passou por diversas mudanças, inclusive por não atuarmos mais
naquela unidade.
A trajetória daquele nosso mais antigo aluno em situação de cárcere
provocou e provoca ainda hoje a busca por estratégias e táticas diferentes de
acordo com os novos desafios que se apresentam. Ao conquistar sua progressão
de pena para o regime semiaberto, Edson Sodré também foi aprovado no Enem e,
com a ajuda da professora Socorro Calhau, coordenadora do
Projeto do Cárcere a
Universidad
e, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), conseguiu se
matricular e começar a cursar. Passava o dia na Universidade e voltava à noite
para dormir na unidade prisional. Depois de algum tempo cursando Letras, ele fez
nova prova e passou para o curso de Licenciatura em Teatro. Nesse período, ele
tinha a expectativa de receber a liberdade condicional e estávamos muito
animadas com essa possibilidade, porém logo veio a frustração. Edson estava
contando e esperando ansiosamente que os anos em que trabalhou e estudou
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remindo pena fossem considerados para que ele atingisse o quesito de tempo
para a condicional. Todavia, descobriu que os anos remidos eram apenas
descontados da pena total. Foi um momento de intenso sofrimento para ele, não
suportava mais passar os finais de semana trancafiado na cela. No projeto,
percebendo tamanho abalo, decidimos procurar a Vara de Execuções Penais (VEP),
contar a história dele e solicitar que pudesse ir também aos finais de semana para
a Unirio para escrever suas peças, pois Sodré se tornou dramaturgo durante os
anos em que foi aluno do projeto. Porém, temíamos que o pedido fosse negado,
afinal nossa ideia tinha uma fragilidade: ele poderia escrever dentro da prisão
também. Tínhamos acabado de apresentar na residência artística do PCAP na
Unirio uma leitura dramatizada da peça Fuga, de Tennessee Williams, que teve um
impacto muito positivo sobre o público. Diante disso, pensamos: e se juntássemos
a solicitação para a VEP a necessidade de realizar ensaios no final de semana e
eventuais apresentações teatrais? Consentida a autorização para sair também nos
finais de semana ensaiamos e montamos o espetáculo
Mostre-me a saída
que
permitiu que Edson tivesse um novo respiro, agora só precisava voltar para dormir
na prisão. Essa experiência nos levou a criar um grupo de teatro, o
Fuga Coletiv@,
formado por um artista em regime semiaberto e demais integrantes que possuíam
vivências dando aulas no cárcere.
Diante da impossibilidade de entrarmos nas prisões durante a pandemia, das
notícias sobre as condições sanitárias no cárcere, de todas as privações que as
pessoas encarceradas estavam vivenciando e da falta de dados sobre
adoecimento e mortes nas unidades de todo Brasil buscamos reunir os projetos
que integram o nosso
Observatório
. Mais uma vez, a infraestrutura de organização
do PCAP nos trouxe inspiração. Ashley Lucas, professora da Universidade de
Michigan, integrante do PCAP que estava desenvolvendo um trabalho nas prisões
estadunidenses por meio de cartas, incluindo envio de cartilhas e livros. Em 2020
os docentes Vicente Concilio e Caroline Vetori, sugeriram que fizéssemos troca de
correspondências entre as pessoas integrantes dos nossos projetos, incluindo o
PCAP, buscando compartilhar vivências e experiências, mas também pensando
numa poética de abertura de janelas simbólicas. Nesse ínterim, criamos uma ação
de extensão chamada
Sinal de vida
: correspondência solidária, dirigida para nossos
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alunos das oficinas teatrais nas prisões. As cartas continham propostas de
trabalhos artísticos específicas para cada unidade em que atuávamos na época.
Ensinamos a fazer origamis, o
Tsuru
, especialmente que é um pássaro cujo
significado remonta a sonhos, trabalhamos também com as memórias das
canções de ninar com as mães da unidade materno infantil dentre outras
propostas nas demais unidades prisionais.
Desde 2016, uma ação do programa
Cultura na prisão
é a realização de um
cineclube, chamado
Cine sem Grade
que exibe na universidade produções
relacionadas à temática do cárcere seguidas de debates. Nos últimos anos
adicionamos um novo recorte e passamos a chamá-lo de Cine sem grade:
abolicionismo penal em tela, compreendendo que a exibição de filmes com esse
recorte se mostrou um ótimo caminho de abertura de diálogo com estudantes da
universidade.
Os estudos e a perspectiva abolicionista foram se somando e atravessando
nossas atividades, pelo menos desde 2010, embora de início com uma presença
menos marcante. Entrar em espaços de privação de liberdade para fazer teatro e
combater a existência desses espaços instaura práticas repletas de contradições.
Se, por um lado as instituições vão aproveitar nossa presença para fortalecerem
todas as perspectivas reformistas, por outro lado, a pedagogia emancipatória que
busca fissuras para fortalecer o protagonismo no campo popular tem se mostrado
ferramenta importante nesses espaços.
Infiltrações das artes cênicas em espaços de privação de liberdade
UDESC
Coordenado pelo prof. Vicente Concilio, o grupo de estudos
Teatro e Prisão
,
ligado ao Centro de Artes, Design e Moda da UDESC, agrupa atualmente três ações:
o projeto de pesquisa
Teatro e Prisão
: práticas de infiltração das Artes Cênicas em
Espaços de Vigilância, o programa de extensão
Pedagogia das Artes Cênicas e
Processos de Criação
e ainda nos anos de 2025 e 2026, por meio do Edital de
Estímulo à Cultura - Procult, o projeto
Revista Íntima
, que prevê a circulação do
espetáculo homônimo em cidades de Santa Catarina. Por meio dessas propostas,
o grupo reúne oficialmente bolsistas de graduação e pesquisadoras/es em nível
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de pós-graduação que atuam em distintos espaços de privação de liberdade da
cidade de Florianópolis, além de estudar bibliografia que tematiza, de forma crítica
e abolicionista, a questão do encarceramento.
Desde 2001, Concilio atua em contextos de privação de liberdade. Seu livro
Teatro e Prisão
: dilemas da liberdade artística (2008) resulta de sua pesquisa de
mestrado e sintetiza a experiência desenvolvida em São Paulo (SP), prévia a seu
ingresso como professor universitário na UDESC. Ao se mudar para Florianópolis
(SC), em 2008, precisou traçar novos caminhos para retomar suas atividades
artísticas e pedagógicas no sistema prisional. A autorização para entrar em uma
unidade prisional em SC veio em 2017, após intensas negociações com a
Secretaria de Administração Prisional. Vale mencionar que essa autorização teve a
mediação providencial da professora Ashley Lucas (Umich), que esteve em
Florianópolis para o
Seminário Internacional Arte e Educação Prisional
, e
mencionou a trajetória profissional de Concilio ao então Secretário Estadual de
Justiça e Cidadania. Foi a partir da atuação direta de seu gabinete que a
autorização para atuar no Presídio Feminino de Florianópolis aconteceu, a partir
de agosto daquele ano. Posteriormente, em 2018, surgiu a possibilidade de
construção de ações teatrais também no Centro de Internação Feminino (CIF),
unidade do sistema socioeducativo.
Durante a pandemia da Covid-19, o projeto buscou alternativas para manter
suas práticas, diante das restrições sanitárias. No CIF, foram oferecidas aulas
online, mas os resultados foram limitados pela dinâmica remota e pela mediação
indireta das atividades. No presídio feminino, mesmo o acesso virtual era
inviabilizado, mas, em resposta, Concilio e Caroline Vetori criaram o caderno
Das
saídas que moram nas palavras
(2021), um caderno de atividades que visa
estimular práticas de escrita criativa como forma de autoexpressão e cuidado.
Com a retomada das atividades presenciais em 2022, as atividades foram
gradualmente reativadas, e, em 2023, ampliadas para o Hospital de Custódia e
Tratamento Psiquiátrico (HCTP), uma ala do Complexo Penitenciário de
Florianópolis que atende homens internados em um regime especial por questões
psiquiátricas. Presídio Feminino, CIF e HCTP são espaços que revelam as marcas
do sistema penal brasileiro: pobreza, baixa escolaridade e racismo estrutural.
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Essas práticas expõem estratégias possíveis de diálogo entre universidade e
contextos de privação de liberdade, com todas as suas contradições. Busca-se,
além da formação crítica de estudantes de artes cênicas, debater e divulgar o
abolicionismo e as lutas pelo desencarceramento, sem os quais tais ações
perderiam sua força transformadora.
Vozes que ecoam: possibilidades de saídas do cárcere — UNESPAR
Em 2021, a professora Caroline Vetori iniciou seu primeiro contrato como
professora temporária para a vaga de Pedagogia do Teatro na Universidade
Estadual do Paraná (Unespar), alocada no Colegiado da Licenciatura em Teatro.
Nesse contexto, tem buscado:
Desde dentro, prisão e academia, minar o punitivismo, romper com o
silêncio sobre a temática do encarceramento [...] Busco compreender
como o cárcere chega na universidade (se é que chega...). Sabe-se das
ações que partem da universidade em direção às prisões, mas se
mudarmos o vetor? (Vetori, 2023, p. 203).
Nesta instituição, a professora teve a oportunidade de ministrar uma
disciplina de caráter optativo sobre teatro e/em espaços de privação de liberdade,
uma das ações de fala sobre e contra o cárcere. A disciplina foi ofertada em 2021,
no modelo de Ensino Remoto Emergencial (ERE), e em 2023 presencialmente. O
diálogo, em ambas as edições, pautou a organização da disciplina, por meio de
encontros com diferentes pessoas que debatem o tema. Dentre os nomes que
compunham a trama estavam: Vicente Concilio, Viviane Narvaes, Annie Martins,
Murilo Gaulês, Laís Jacques, Túlio Fernandes, Marcelo Castro, Samira Sinara, Edson
Sodré.
Ainda na Unespar como temporária, propôs um projeto de pesquisa, que foi
intitulado
Fissuras entre palavras
: mapeamento e análise de dramaturgias
brasileiras sobre cárcere. O projeto ocorreu de 2023 a 2024, tendo como objetivo
lançar o olhar para a temática do cárcere, bem como ao punitivismo estrutural
que alicerça esse sistema por meio do mapeamento e análise de dramaturgias
nacionais sobre o cárcere. Parte da pesquisa incidiu em um dos trechos da tese
de doutoramento
Caros destinatários, parem de apagar nossas histórias
: cartilhas-
faíscas como possibilidades de saídas do cárcere (Vetori, 2023).
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Ainda sobre a atuação de Vetori na instituição, destacam-se os trabalhos de
orientação. Em 2021 orientou Ana Clara Sandri, cujo trabalho resultou no Trabalho
de Conclusão de Curso (TCC)
O processo teatral de escolha e liberdade criativa no
contexto de jovens em estado de privação de liberdade
. No ano de 2023, atuou
em parceria com Natalia Eloisa, desenvolvendo uma oficina breve com mulheres
em situação de privação de liberdade no Centro de Integração Social de Piraquara,
integrante do Complexo Prisional de Piraquara. Essa ação dialogou com a pesquisa
mencionada e esteve vinculada ao TCC de Natalia, intitulado
O despertar corporal
e o teatro ritualístico: vozes femininas que ecoam por trás dos muros de uma
unidade
, também orientado por Vetori.
Em 2024, orientou o trabalho de Pietra Bonet,
Subversão em ato
: práticas
pedagógicas para corroer a cisnormatividade carcerária, e o de Julia Santana,
Análise de dramaturgias nacionais contemporâneas sobre cárcere e maternidade.
O trabalho de Pietra foi um dos selecionados no edital
A_Ponte – Cena do Teatro
Universitário
(2025), evidenciando sua força e reverberação em outros espaços e
plataformas.
Ainda em 2024, com a posse no concurso, Vetori pôde propor um projeto de
Iniciação Científica, contando com a parceria de Pietra Bonet e Ianna Lee Melo
Nogueira. Junto a essas companheiras de pesquisa, tiveram a oportunidade de
conhecer os trabalhos de Concilio, anteriormente mencionados, com uma visita à
UDESC. Também tiveram a oportunidade de dialogar com Ashley Lucas, que estava
de passagem na instituição. O diálogo foi mediado pelo compartilhamento da
tradução inédita e ainda não publicada de
With love, from inside
, do coletivo The
Dropped Keys Theatre Company, da qual Lucas integra. A tradução foi feita por
Pietra Bonet e se soma no rol de ações de reverberações fruto dessas parcerias.
Nesse mesmo período, iniciou a formalização de uma parceria com o
Complexo Prisional de Piraquara, com o objetivo de desenvolver um trabalho de
longo prazo, evitando ações pontuais. A tramitação dessa parceria entre as
instituições está em andamento, mas algumas ações já vêm sendo desenvolvidas
por Caroline, Pietra Bonet e Ianna Melo Nogueira. Atualmente, Caroline coordena o
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projeto de pesquisa
Vozes que ecoam além muros
:
investigação de saídas-
faíscas do cárcere
e o projeto de extensão
Vidas além muros
:
teatro com
mulheres em situação de privação de liberdade
, na Unespar, que se dedicam a
articulação teatro e/contra prisão.
Prison Creative Arts Project — Umich
O
Prison Creative Arts Project
(PCAP), fundado em 1990, é, até onde sabemos,
o maior programa de artes prisionais do mundo em vários aspectos. Ele oferece
programação em todas as vinte e seis unidades correcionais para pessoas adultas
do estado de Michigan, envia cerca de noventa voluntárias/os por semana para as
prisões e oferece atividades em diversas formas de arte, incluindo teatro, escrita
criativa, artes visuais, fotografia e música.
Foram mulheres encarceradas que lançaram as bases para tornar possível a
existência do PCAP. Na década de 1970, um grupo de mulheres da Detroit House
of Corrections criou a primeira biblioteca jurídica em uma prisão feminina em
Michigan e começou a trabalhar com uma equipe de advogados para defender
seus direitos. Mary Glover (atualmente conhecida como Mary Heinen McPherson)
cumpria pena de prisão perpétua e concordou em ser a autora principal no que se
tornou Glover v. Johnson um processo histórico pelos direitos das mulheres
presas de terem acesso aos mesmos recursos jurídicos e às mesmas
oportunidades educacionais e de trabalho que os homens encarcerados. Uma das
muitas oportunidades criadas para as mulheres presas com a vitória nesse caso
foi o direito de cursar uma faculdade enquanto estavam na prisão. Mary Glover
matriculou-se na Universidade de Michigan, e uma representante estudantil
chamada Liz Boner fez todas as mesmas disciplinas que Mary e, semanalmente,
levava para ela todo o material didático das aulas universitárias no campus.
As duas se matricularam, em 1990, em uma disciplina chamada Theatre for
Social Change (Teatro para a Mudança Social), ministrada por um professor de
inglês chamado Buzz Alexander. Liz solicitou que a oficina semanal de teatro da
turma acontecesse dentro da prisão para que Mary pudesse participar, e Buzz
concordou. Ele rapidamente descobriu que essa oficina na prisão foi a experiência
de ensino mais impactante de sua carreira. Quis que mais estudantes
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universitárias/os e mais pessoas encarceradas participassem juntas desse
processo de aprendizagem e desenvolveu a pedagogia que o PCAP utiliza há mais
de três décadas. Ele começou a treinar alunas/os para facilitar oficinas semanais
de arte nas prisões.
Desde a sua fundação, o PCAP expandiu-se para incluir muitas outras
modalidades de programação além das oficinas semanais de teatro, artes visuais,
escrita criativa, fotografia e música. Também realiza uma das maiores exposições
anuais de arte de artistas encarcerados do mundo, publica a revista literária anual
The Michigan Review of Prisoner Creative Writing
, mantém um coral chamado
Out
of the Blue
, que leva estudantes universitários a prisões para apresentações e
atividades musicais interativas, e apoia turnês de grupos musicais e produções
teatrais para apresentações dentro das prisões. O programa de reintegração de
longa data do PCAP, o
Linkage Project
, separou-se da universidade em 2025 para
formar uma organização independente sem fins lucrativos, na qual ex-
participantes encarceradas/os do PCAP apoiam umas/uns as/aos outras/os.
As colaborações do PCAP com universidades brasileiras começaram em 2013,
quando a então presidente da Universidade de Michigan (UMich), Mary Sue
Coleman, criou a UM Brazil Initiative — um grande fundo para apoiar intercâmbios
acadêmicos entre programas e departamentos da UMich e a Universidade Federal
do Estado do Rio de Janeiro . O professor e então diretor do PCAP, Ashley Lucas,
levou grupos de estudantes da UMich ao Brasil uma vez por ano, de 2013 a 2019,
por períodos de duas a três semanas, para intercâmbios com programas de
extensão da Unirio. A delegação do PCAP trabalhou não apenas com o
Teatro na
Prisão
, mas também com os projetos de extensão
Teatro em Comunidades
,
Teatro
Renascer
,
O Hospital Como Universo Cênico
e
Enfermaria do Riso
. Em 2016, Lucas
passou também a levar alunos para a Udesc, para trabalhar com o programa de
teatro prisional da universidade, além de visitar os programas da Unirio (Lucas;
Fiche; Concilio, 2019).
Grupos de docentes e estudantes da Unirio e da Udesc visitaram Michigan
em 2014, 2015, 2018, 2022, 2024 e 2025. Uma narrativa mais completa desse
intercâmbio foi escrita por Lucas, Concilio e Natália Fiche e publicada em inglês e
português. Esse artigo foi a primeira colaboração acadêmica no intercâmbio e,
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desde então, muitas/os integrantes do
Observatório
viabilizaram publicações
sobre teatro prisional nos Estados Unidos, Brasil e Portugal. Concilio traduziu o
livro de Lucas,
Prison Theatre and the Global Crisis of Incarceration
, para o
português e o publicou no Brasil pela Hucitec Editora. Lucas traduziu para o inglês
o caderno de escrita criativa de Concilio e Caroline Vetori,
Das saídas que moram
nas palavras
, e o publicou pela UMich Publishing Services.
Durante os anos em que a pandemia impediu viagens internacionais, esses
programas de teatro prisional continuaram a interagir online, trocando notícias e
ideias por e-mail, reuniões via Zoom e até mesmo uma troca de cartas entre
participantes de vários programas, descrevendo como se sentiram durante o
período em que ninguém podia atuar como voluntário presencialmente nas
prisões. Posteriormente, o PCAP recebeu dois estudantes de pós-graduação
brasileiros que obtiveram financiamento da CAPES enquanto cursavam doutorado,
para passarem vários meses em residência em Michigan, participando de cursos
do PCAP e cofacilitando oficinas de arte nas prisões. Tanto Laís Jacques Marques,
da UDESC, quanto Flávio Dutra, da UFRGS, passaram vários meses em residência
com o PCAP em 2024 e 2025, enquanto trabalhavam em dissertações sobre teatro
prisional e fotografia em prisões.
Lucas ministrou um curso de pós-graduação de duas semanas na Unirio em
2025 e também atuou em bancas de trabalhos de conclusão de curso,
dissertações de mestrado e teses de doutorado na Unirio, Udesc, USP e Ufrgs.
O intercâmbio intelectual e artístico entre esses programas de artes prisionais
teve um impacto profundo em todas/os as/os participantes, incluindo
professoras/es, estudantes e pessoas atualmente ou anteriormente encarceradas.
O trabalho do PCAP em teatro tornou-se mais rico, mais matizado e revigorado
pela presença de colaboradoras/es brasileiras/os e por seus altos níveis de
habilidade em teatro físico, Teatro do Oprimido e pedagogia teatral. Como esses
intercâmbios e colaborações internacionais já existiam há mais de uma década no
momento em que este texto foi escrito, esses programas de teatro prisional
cresceram, evoluíram e, de certa forma, tornaram-se mais complexos devido à
riqueza dos anos passados em contato próximo uns com os outros.
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Ficções visionárias e a justiça transformativa PSU
Na Portland State University (PSU), a professora Walidah Imarisha — diretora
do Center for Black Studies e docente associada do Departamento de Estudos
Negros desenvolve um trabalho educacional que ultrapassa os limites do
campus e alcança unidades prisionais no estado do Oregon. Sua atuação integra
programas de extensão universitária e iniciativas como o Oregon Humanities
Conversation Project, por meio dos quais ministra cursos e oficinas em presídios,
abordando temas como história negra, racismo estrutural, encarceramento em
massa, justiça transformativa e ficção visionária.
Um dos eixos centrais de sua atuação é a oficina
Sonhando Novos Futuros
:
Ficção Científica e Mudança Social, que foi adaptada para o contexto prisional.
Nela, Imarisha parte da premissa de que “toda organização política é ficção
científica” e propõe exercícios coletivos de imaginação política, nos quais as/os
participantes desenvolvem histórias especulativas que funcionam como ensaios
para a construção de novas formas de convivência e justiça social. Essa
metodologia, aplicada em presídios, estimula a reflexão sobre alternativas
comunitárias à punição e sobre como redes de apoio e cuidado podem substituir
a lógica punitivista.
Além disso, Imarisha ministrou cursos de escrita criativa e história negra
em prisões de segurança média e máxima, conectando as experiências de vida
dos estudantes a processos históricos mais amplos, como a escravidão, o
colonialismo e as políticas contemporâneas de encarceramento em massa. Em
entrevistas, ela relata que essas aulas não se limitam a transmitir conteúdo
acadêmico, mas funcionam como espaços de construção coletiva de
conhecimento, nas quais a vivência das/os participantes é reconhecida como fonte
legítima de saber.
Essas atividades têm como objetivo não apenas oferecer acesso ao ensino
superior para pessoas privadas de liberdade, mas também criar espaços de
reflexão crítica sobre o papel histórico e contemporâneo das prisões. Ao utilizar a
ficção visionária como metodologia, Imarisha também estimula estudantes
encarcerados a imaginar futuros possíveis sem prisões e a desenvolver narrativas
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que rompam com a lógica punitivista, conectando experiências pessoais a
processos históricos mais amplos de opressão e resistência.
O trabalho da PSU nas prisões é marcado por uma abordagem participativa,
que valoriza o conhecimento e as vivências das/os próprias/os estudantes,
transformando a sala de aula em um espaço de diálogo horizontal. Ao articular
educação, arte e ativismo, suas aulas funcionam como práticas de resistência
cultural e política, alinhadas ao movimento abolicionista e à luta por justiça racial,
contribuindo para a formação de pessoas críticas e engajadas mesmo em
contextos de privação de liberdade.
Teatro, prisão e a busca por novos imaginários possíveis - USP
Em 2024, como resultado prático da tese de doutoramento
Borboletas no
Asfalto
: uma perspectiva fractal sobre artes cênicas, prisão e abolição, assinada
por Murilo Moares Gaulês, e o trabalho continuado de pesquisa em oposição aos
contextos de privação de liberdade desenvolvido pela
CiA dXs TeRrOrIsTaS
, é
fundado o curso de extensão
Teatro, prisão e a busca de novos imaginários
possíveis
, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo
(ECA/USP). O curso é coordenado pela livre-docente Maria Helena Franco de
Araujo Bastos e pelo prof. Dr. Murilo Moraes Gaulês e se integra às atividades de
extensão oferecidas pelo Departamento de Artes Cênicas da Escola de
Comunicação e Artes (Gaulês; Prette, 2025). Com base na filosofia abolicionista, o
curso utiliza métodos criativos e de imaginação radical, como a metodologia de
criação em ficções visionárias (Imarisha, 2016; Gaulês, Concilio, Imarisha, 2024)
para formar multiplicadores para atuar em instituições de privação de liberdade
no estado de São Paulo.
No momento em que este texto é escrito, o curso de extensão da USP
mantém aulas de teatro nas unidades da Fundação Casa de Santo André, situadas
em um complexo que abriga duas instituições de internação de menores. Por meio
da metodologia das ficções visionárias, os encontros realizados buscam, dentro
dos limites possíveis nesses centros de tortura contemporâneos legalizados
(Coletivo sobre justiças, 2025), estimular a imaginação política e comunitária, de
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modo que os jovens cativos do cárcere institucional possam reescrever seus
futuros de morte traçados apesar de seus gestos de sobrevivência e à sua
revelia.
Além disso, o curso também recebe jovens em cumprimento de Prestação
de Serviços Comunitários (PSC), como monitores de sala, garantindo o acesso a
essa população à universidade pública e ao debate estético-político antipunitivista.
As Medidas Socioeducativas em Meio Aberto como a Liberdade Assistida
e a Prestação de Serviços Comunitários caracterizam-se por ocorrer sem a
privação de liberdade, permitindo que o adolescente permaneça em seu meio
familiar e comunitário enquanto recebe acompanhamento, orientação e
oportunidades de ressocialização.
Ainda que apresentem desafios e limitações na prática, essas medidas se
destacam como iniciativas estatais de caráter menos punitivista, priorizando a
reeducação e a reintegração social em vez do encarceramento. Nesse sentido,
aproximam-se da lógica protetiva de políticas como a Lei Maria da Penha, que,
apesar de lidar com situações de violência, busca medidas preventivas e
restaurativas antes de recorrer a punições mais severas.
Desse modo, o curso
Teatro, Prisão e a Busca Por Novos Imaginários Possíveis
também se movimenta para manejar o teatro, as ficções visionárias e outras
pedagogias das artes cênicas como território de redução de danos, ao dialogar
com jovens que estão ainda em uma fase muito inicial do ciclo de violência e
criminalidade ao qual são empurrados.
Também no momento em que este texto é escrito, os veteranos das turmas
de extensão do ECA/USP estão em processo de curricularização do grupo de
extensão T.E.R.E.S.A. (
Teatro extensionista, reparação, educação social e abolição
)
além de desenvolverem atividades para criação de zonas autônomas temporárias
(Bey, 1991) nas saidinhas temporárias da Penitenciária Feminina do Butantã.
As saidinhas temporárias são autorizações judiciais que permitem a pessoas
presas do regime semiaberto saírem por tempo limitado em datas específicas,
como feriados, para visita à família ou atividades de reintegração social. O nome
legal previsto na Lei de Execução Penal (Lei 7.210/1984) é “saída temporária”,
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regulamentada pelos artigos 122 a 125, como um benefício concedido a pessoas
presas em determinadas condições e finalidades específicas. Atualmente, o direito
à saída temporária está restrito por alterações na Lei de Execução Penal que
limitaram suas hipóteses, sob o argumento falacioso de aumentar a segurança
pública e reduzir riscos de fuga ou reincidência.
É nesse momento de liberdade temporária que as pessoas presas nos
chamados centros de tortura podem se reconectar com seus familiares e se
atualizar sobre as transformações sociais, urbanas e tecnológicas ocorridas no
“mundão” durante o período de reclusão. É também nesse momento que as
coreografias patriarcais se manifestam explicitamente nas ruas, evidenciando
muitos dos desdobramentos práticos tanto consequentes quanto causadores
da cultura punitivista-prisional. Enquanto as penitenciárias masculinas ficam
abarrotadas de mulheres aguardando ansiosamente seus companheiros para
levá-los de volta para casa, nas saídas temporárias as penitenciárias femininas
tornam-se um deserto. Abandonadas à própria sorte por familiares e pessoas
próximas, essas mulheres têm sua condição miserável escancarada, muitas vezes
sem recursos sequer para custear o transporte até a casa da família ou a própria
alimentação durante a semana de liberdade.
Por isso, movimentos sociais abolicionistas e antiproibicionistas se reúnem
nas portas das prisões nessas ocasiões, oferecendo atendimento e
acompanhamento jurídico, alimentação, roupas e kits de higiene pessoal para
essas mulheres. Complementando esse movimento comunitário de acolhimento,
as T.E.R.E.S.A.s têm construído um espaço de recepção afetiva e de pertencimento
político-emocional durante a saidinha. Por meio de performances que vão do
karaokê a desfiles de moda, com direito a visagismo e
catwalk
, essas zonas
autônomas temporárias têm como objetivo proporcionar um ambiente de
energização e produção de potência, enquanto as participantes se organizam para
chegar aos seus destinos em liberdade.
Nessa espera que pode durar muitas horas —, mulheres presas em
penitenciárias femininas aguardam seus parentes ou a saída de outras
companheiras para organizar os trajetos, muitas vezes experimentando a angústia
sadicamente programada pelos centros de tortura, de forma a lhes roubar a
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esperança. Essa prática performativa extra-muros constitui uma tentativa de
sabotagem a esse descaso.
Teatro apesar das prisões
Ruth Gilmore (2024) e Angela Davis (2018) frisam que o abolicionismo tem
menos a ver com eventos de bolas de demolição (Gumbs
apud
CR10, 2008) que
derrubem as prisões do que com aquilo que precisamos fortalecer em nossas
comunidades para que a polícia e a prisão sejam obsoletas. A partir dessa chave,
nos perguntamos: O que pode brotar no currículo e nos processos de formação
em artes cênicas quando estas bebem na fonte de tais práticas emancipatórias e
de autonomia, sendo nosso ofício também fundamentado na liberdade como viga
estruturante? Quais são as estéticas, métodos e filosofias que emergem dessa
intersecção? E, no sentido inverso, quais as contribuições que as artes cênicas
podem oferecer às comunidades de pessoas encarceradas, sobreviventes do
cárcere e suas/seus familiares, reiteradamente massacradas por essa máquina
contemporânea de moer gente, que são as instituições de privação de liberdade?
Encerrar este percurso de análise e prática significa reconhecer que pensar o
teatro no e contra os espaços de privação de liberdade é confrontar,
simultaneamente, as estruturas materiais e simbólicas que sustentam o
encarceramento como resposta social hegemônica. Ao longo desta investigação,
foi possível observar que a arte, quando comprometida com uma ética
abolicionista, não se limita a “entrar” nas prisões: ela questiona sua própria
presença nesses espaços, tensiona o papel que desempenha e se propõe a ser
vetor de fissura no cotidiano punitivista.
A experiência acumulada pelos projetos e redes apresentados demonstra que
é possível criar espaços de experimentação estética que não apenas produzem
obras, mas também deslocamentos subjetivos — tanto entre pessoas privadas de
liberdade quanto entre artistas, pesquisadoras/es e comunidades envolvidas.
Esses deslocamentos, ainda que muitas vezes sutis, sinalizam que a potência
transformadora da cena está menos em oferecer respostas prontas e mais em
instaurar perguntas que abrem alternativas de existência para além da lógica
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prisional.
Importa sublinhar que tais experiências não apenas resistem ao punitivismo:
elas inauguram e consolidam outras estéticas e metodologias de criação em artes
cênicas, gestadas a partir de contextos historicamente marginalizados e de
experiências-limite. São modos de fazer que tensionam convenções artísticas,
incorporam outras corporalidades, narrativas e temporalidades, e abrem brechas
para práticas colaborativas e comunitárias que dificilmente emergiriam nos
circuitos hegemônicos da arte. Assim, o trabalho em e contra o cárcere se torna
também um laboratório de linguagens, pedagogias e poéticas capazes de irradiar
transformações para além dos muros, influenciando o campo mais amplo das
artes da cena.
Do mesmo modo, constatou-se que práticas artísticas consistentes e
politicamente situadas funcionam como campos de elaboração coletiva de futuros
não no sentido de utopias inalcançáveis, mas de exercícios concretos de
imaginação radical que se enraízam no presente. Tais práticas reposicionam a arte
como ferramenta de redução de danos e de reorganização comunitária,
articulando, em um mesmo gesto, resistência cultural e reinvenção das relações
sociais.
Por fim, reafirma-se que o enfrentamento ao encarceramento massivo e ao
punitivismo estrutural não é responsabilidade exclusiva de quem vive ou trabalha
diretamente nesses contextos: trata-se de uma tarefa coletiva, que envolve redes
de afeto, criação e solidariedade capazes de sustentar alternativas. Se o teatro
pode ser visto, neste cenário, como um laboratório vivo de outras formas de vida,
cabe a nós, artistas, acadêmicas/os, comunidades e movimentos sociais, cuidar
para que essas experiências não sejam exceções isoladas, mas sementes de um
mundo onde prisões e violência institucional se tornem de fato obsoletas.
Nesse sentido, as experiências e práticas relatadas ao longo deste trabalho
evidenciam que a inserção das artes cênicas em espaços de privação de liberdade
se configura como campo fértil para tensionar as estruturas curriculares e
pedagógicas da universidade pública. Ao articular ensino, pesquisa e extensão em
diálogo com epistemologias e práticas de resistência produzidas por corpos e
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comunidades historicamente marginalizadas, essas ações deslocam o eixo de
produção de conhecimento, abrindo espaço para metodologias que confrontam a
colonialidade e o punitivismo. Trata-se de um movimento que não apenas amplia
o repertório formativo de estudantes e docentes, mas que também exige da
instituição universitária uma revisão crítica de seus próprios fundamentos político-
pedagógicos.
Assim, ao aproximar práticas artísticas abolicionistas das discussões
decoloniais, reafirma-se que a formação docente nas artes cênicas precisa estar
comprometida com a construção de currículos que não apenas incluam
conteúdos sobre diversidade, justiça social e direitos humanos, mas que sejam
atravessados por essas perspectivas em sua estrutura e funcionamento. Isso
implica reconhecer que a universidade, ao se abrir para o diálogo com experiências
produzidas dentro e contra o cárcere, está reposicionando-se como espaço de
disputa simbólica material contra as lógicas coloniais e punitivistas que ainda a
atravessam.
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Recebido em: 10/03/2026
Aprovado em: 06/08/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas PPGAC
Centro de Artes, Design e Moda CEART
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Revista de Estudos em Artes Cênicas
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