
Uma proposta metodológica para analisar o mercado de trabalho do setor da cultura em Santa Catarina
Marília Carbonari | Tereza Mara Franzoni
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-19, ago.2026
trabalho no setor, e nas artes cênicas não é diferente, marcado pela precariedade
e informalidade12.
Para delimitar o objeto de estudo com precisão, este trabalho adota a
conceituação de setor cultural estabelecida pelo IBGE. Esta opção segue a
perspectiva de Brito e Lombardi Filho (2019), para quem a definição do IBGE
permite isolar o núcleo artístico-cultural, diferenciando-o de setores como
tecnologia e publicidade, que são frequentemente agregados sob o guarda-chuva
da "economia criativa". A utilização da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (PNAD/IBGE) para análise do Mercado de Trabalho Cultural (MTC) é
também adotada por Barbosa (2017) que define esta fonte como a mais adequada
para visualizar os diferentes movimentos do setor. A utilização do levantamento e
a mineração de dados, portanto, serão guiados por uma delimitação conceitual
mais estrita do setor, permitindo um foco analítico mais nítido nas atividades fim
da cultura.
Essa opção metodológica é crucial para superar definições excessivamente
abrangentes, como a da Firjan, e focar no núcleo das atividades artístico-culturais.
Como destacam Brito e Lombardi Filho (2019, p. 34),
a definição de indústria criativa do Sistema Firjan é bastante abrangente,
diferentemente da adotada neste estudo. Ressalta-se também que as
indústrias criativas são caracterizadas pela natureza dos insumos de
trabalho, isto é, 'indivíduos criativos'. Para a economia criativa, a cultura
não é produzida – é, na verdade, o insumo da produção.
A discussão com Barbosa (2017) é fundamental, pois a autora também
problematiza a heterogeneidade estatística do setor, alertando para o risco de
análises que, ao adotarem definições muito amplas, tornam-se incapazes de
12 Elder Patrick Maia Alves (2017), no artigo
As grandes corporações culturais e o trabalho criativo
, nos dá uma
ideia da complexidade das relações de produção no mercado da cultura e da precarização e informalidade
as quais estão submetidos as/os trabalhadores do setor. Para ele, “os mercados culturais, globais e
nacionais, independente do segmento e conteúdos artístico-culturais, são compostos por seis agentes
estruturais: 1) as empresas culturais especializadas; 2) as empresas não culturais (corporações que mantém
equipamentos culturais, contratam serviços artísticos especializados e financiam a produção de conteúdos;
3) os profissionais e trabalhadores da cultura; 4) os bancos privados (que emprestam recursos financeiros
às empresas culturais especializadas); 5) as instituições estatais, que, das mais variadas formas, subsidiam
as empresas culturais especializadas, seja na forma de empréstimos diretos, incentivos fiscais ou programas
de qualificação, cuja função nos levou a conceituá-los como agentes estatais de mercado; 6) e os
consumidores dos bens, serviços e atividades artístico-culturais e de entretenimento” (Alves, 2017, p. 42-3).
Sendo que, grande parte do trabalho criativo seria desenvolvida por meio de uma “terceirização ampliada”
com contratação de micro e pequenas empresas e trabalhadores informais em sua maior parte.