irredutíveis entre os mundos, entre as identidades, entre as línguas do colonizador
e a língua originária de um povo, o
Ze’eng été
. Azira’i não é uma historia triste, feita
em desencontros, ao contrário. Os cantos ancestrais nos emocionam sem a
necessidade da compreensão linguística. Os sons da floresta levados para o palco
criam uma paisagem sonora em tudo diferente da habitual paisagem sonora dos
experimentos contemporâneos a que estamos tão habituados a ver. É no encontro
com as diferenças que uma conversa realmente pode acontecer.
A história contata e cantada por Zahi, acerca de sua mãe, não é uma história
de heróis e suas conquistas, com representações gloriosas ou tragédias, em meio
a massacres ou privações, sua linguagem é a Conversa. Somos convidados para
participar de uma conversa que, aos poucos, nos conta uma história de vida. Se
há conflito (e há) entre mãe e filha, ou entre mundos radicalmente diferentes e
suas inevitáveis colisões, este não é o elemento principal. O caminho escolhido foi
o da vida, na relação entre humanos e não humanos, entre os sons da floresta e
os sons do palco, entre modos de existência.
Aziha’i
traz, em seu contar e contar-se, um mundo que desafia as dicotomias
rígidas do pensamento ocidental, e as epistemologias que fabricamos para
domesticar o mundo. A peça nos propõe perceber as conexões parciais que há
entre os mundos que convivem no palco: nas vozes, nos corpos, nos cantos
ancestrais, na sonoridade da floresta, no uso das línguas distintas, na relação entre
mãe e filha. Essas conexões parciais se extraem de um olhar ético e afetivo a
respeito da vida e, como gostamos de pensar/acreditar, podem vir a reconfigurar
o real. Do real intimidante das falsas divisões, aposta-se em composições
contraditórias para escrever e fabular, para pensar o mundo - sem jamais buscar
a síntese:
Silvia Cusicanqui, em seus estudos sobre o ch’ixi, termo Aymara, nos
ajuda a pensar através de um outro sistema de pensamento, que tem
como base a convivência do múltiplo e do contraditório num mesmo
espaço. […] É um sistema de pensamento que não busca a síntese, uma
resolução final, onde uma das forças precisa ser eliminada para dar lugar
a uma unidade integrada. […] a utopia ch’ixi é uma outra via de
pensamento alternativa à hegemonia capitalista ocidental: não há
sincretismo, nem hibridismo, nem harmonia, mas uma superfície
contraditória onde todas as forças que me compõe convivem em suas
tensões e tonalidades (Ribeiro, 2022, p.37-38).