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Corpo em dobra: a criação artística enquanto
pesquisa a partir de cavas, chãos, gravidades e vestígios
Morgana Mafra
Para citar este artigo:
MAFRA, Morgana. Corpo em dobra: a criação artística
enquanto pesquisa a partir de cavas, chãos, gravidades e
vestígios.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v.2, n.56, ago. 2026.
DOI: 10.5965/1414573102582026e0210
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Corpo em dobra1: a criação artística enquanto pesquisa a partir de cavas, chãos, gravidades e
vestígios 2
Morgana Mafra3
Resumo
Este artigo propõe uma abordagem sensível e cartográfica da pesquisa em arte a partir da
experiência de residências artísticas em paisagens mineradas. A cava espaço geológico e
simbólico foi tomada como campo de forças, desejo e sintoma da modernidade. Por meio
da escuta do corpo, do gesto, dos vestígios, da imagem e da escrita, ao modular gravidades,
a pesquisa desenvolveu-se como dobra e reverberação entre presença e criação. Assim,
articulou-se um diálogo com autores como Larrosa, Lepecki, Deleuze, Rolnik e Kastrup, e
considerando o chão como campo de instabilidade e emergência de sentidos.
Palavras-chave
: Arte contemporânea. Corpo. Cartografia. Residências artísticas. Paisagens
mineradas.
Body in fold: pits, grounds, gravity, and traces Artistic creation as research
Abstract
This article proposes a sensitive and cartographic approach to artistic research grounded in
the experience of artistic residencies in mined landscapes. The open-pit mineunderstood
as both a geological and symbolic spaceis conceived as a field of forces, desire, and a
symptom of modernity. Through attentive listening to the body, gesture, traces, image, and
writing, and by modulating gravities, the research unfolded as a process of folding and
reverberation between presence and creation. In doing so, it engages in dialogue with the
work of Larrosa, Lepecki, Deleuze, Rolnik, and Kastrup, while considering the ground as a field
of instability and the emergence of meaning.
Keywords:
Contemporary art. Body. Cartography. Artistic residencies. Mined landscapes.
Cuerpo en pliegue: cavidades, suelos, gravedad y vestigios La creación artística como
investigación
Resumen
Este artículo propone un enfoque sensible y cartográfico de la investigación artística a partir
de la experiencia de residencias artísticas en paisajes mineros. La cava entendida como un
espacio geológico y simbólicofue concebida como un campo de fuerzas, deseo y síntoma
de la modernidad. A través de la escucha del cuerpo, del gesto, de los vestigios, de la imagen
y de la escritura, y al modular las gravedades, la investigación se desarrolló como un proceso
de pliegue y reverberación entre presencia y creación. De este modo, establece un diálogo
con las contribuciones de Larrosa, Lepecki, Deleuze, Rolnik y Kastrup, considerando el suelo
como un campo de inestabilidad y de emergencia de sentido.
Palabras clave
: Arte contemporáneo. Cuerpo. Cartografía. Residencias artísticas. Paisajes
minados.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Marlon Fabian Soares Machado. Mestrado
em Estudos de Linguagens pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET).
2 Este artigo é um desdobramento da tese de doutorado
Esboço para redobrar a gravidade: performatividades
entre dança, escultura e coisa a partir de fragmentos de chãos
, defendida no Programa de Pós-Graduação
em Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A pesquisa contou com apoio da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil (CAPES) Código de Financiamento 001.
3 Doutorado em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestrado em Estudos de Linguagens
pelo Centro Federal de Educação Tecnológico de Minas Gerais (CEFET). Graduação em Artes Plásticas pela
Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Multi-artista e pesquisadora
morganalvarengamafra@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/6386147307231061 https://orcid.org/0000-0001-8276-8889
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Introdução
uma pedra no caminho da pesquisa. E não é obstáculo - é matéria, é
mundo. Uma pedra cavada e também cavante, que afeta.
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Uma presença densa,
alojada entre corpo e território, entre passado e movimento. É a partir dela que
esta escrita se abre, delineando uma possibilidade sensível de pensar e fazer
pesquisa em arte a partir da criação e da experiência. Este artigo toma a cava
como centro, compreendendo-a como espaço geológico, campo de forças e
atravessamentos: ferida e força, ruína e abertura, sintoma e desejo. A cava é onde
tudo já foi e onde ainda se pulsa — em suas entranhas.
A pergunta que guia este texto é: como desenvolver uma forma de pesquisa
em arte que emerja da experiência performativa do corpo em relação a paisagens
mineradas? Acrescento: E como tomar a criação como caminho e a cava como
um espaço de lidar e fazer aparecer? Lidar com a cava é lidar com a gênese
tanto do desejo quanto das marcas de um projeto moderno-colonial —,
reconhecendo-a como um território de camadas visíveis e invisíveis, onde se
entrelaçam matéria, memória, poder e linguagem. Ao adentrar na cava, buscava
colocar-me em relação com ela, habitar seu vazio fértil, sua densidade simbólica,
seu silêncio e seus vestígios.
Nesse movimento, a cava aparece também como uma escultura por
subtração um volume invertido, modelado pela ausência, um negativo do relevo
operado por sucessivas retiradas de matéria. Essa leitura reconhece na forma que
resta um campo de inscrição política, sensível e performativa, mantendo presente
a devastação e sua dimensão destrutiva. A cava esculpida pela máquina se
apresenta como corpo: ela tem profundidade, tem ferida, tem história e tem peso.
E é a partir dessa densidade que se torna possível pensar e fazer arte, articulando
o gesto poético e o gesto ético.
4 Neologismo.
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Este texto se aproxima do que se poderia chamar de abordagem. Como
propõe Suely Rolnik, e como enfatiza Virgínia Kastrup, a cartografia opera como
um modo (odos) de se mover com o processo, onde o caminho se faz enquanto
se anda, acompanhando aquilo que emerge ao longo do percurso. Trata-se de uma
abordagem viva, que caminha com o imprevisível, com o sensível e com o tempo
próprio das coisas. Um saber que se faz por implicação (Rolnik, 2006).
Na proposta que aqui se desenha, a pesquisa artística se como experiência
em trânsito, como criação contaminada por práticas do corpo, da imagem e da
palavra. Dialogo com autores que sustentam esse modo de operar: Jorge Larrosa,
que concebe a experiência como um modo de saber constituído pelo que nos
acontece, nos afeta e nos transforma; André Lepecki, cuja reflexão sobre a política
do movimento problematiza o imperativo moderno da mobilidade contínua e
afirma a potência estética e política da suspensão, da lentidão e da imobilidade,
abrindo possibilidades para pensar outros chãos, assim como a gravidade
enquanto força estética e política; Gilles Deleuze, cuja concepção de dobra permite
pensar o corpo como campo de forças e de variações contínuas, em permanente
constituição nas relações entre matéria, espaço e sensibilidade (Deleuze, 1991); e
Suely Rolnik (Rolnik, 2006) e Virgínia Kastrup (Kastrup, 2021), ao compreenderem a
cartografia como prática de acompanhamento de processos, atenta às forças, aos
afetos e às invenções que emergem na criação.
A cava, nesse sentido, é um campo fenomenológico e simbólico. Ela é
paisagem, é corpo e é linguagem. Ao mesmo tempo em que revela a violência de
um modelo de progresso e exploração, também convoca uma escuta profunda,
uma relação com o indizível, com o que insiste em permanecer encoberto. Lidar
com a cava é fazer aparecer um gesto político, poético e sensível. Ao residi-la
e movê-la com o corpo, o sujeito se torna poroso, atravessado, e abre-se para o
que surge entre chão, desejo e memória.
A escrita que se segue é, ela mesma, atravessada por fragmentos e fluxos.
Busca abrir linhas. Como um chão instável, talvez provoque o tropeço, a dobra, o
deslocamento — e com isso, um outro modo de saber.
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Cava: Espaço de desejo, sintoma e gênese
A cava, tal como fora enunciada neste trabalho, é um sítio físico de
exploração mineral e, ao mesmo tempo, matéria e metáfora, território e tempo,
paisagem ferida e desejo pulsante. Sua ambivalência é constitutiva: ela é o que
resta de um processo de retirada e também o que aparece com o que resta. Por
isso, ela se apresenta como um espaço de lidar, de entrar em relação, de escutar
e compor com aquilo que ali emerge, afunda, reluz e resiste.
Na experiência vivida ao longo desta pesquisa, de uma residência
deambulante em uma cava de mineração a céu aberto5, a cava foi se revelando
como uma espécie de gênese em tensão. Por um lado, a gênese da devastação
operada por um projeto moderno-colonial que extrai, esvazia e reconfigura
violentamente o território; por outro, a gênese de um impulso de criação, de
invenção de linguagem, de retorno ao corpo como instrumento de presença e
composição. A cava se impõe como paisagem liminar, onde passado e futuro se
embaralham e onde o corpo artista é convocado a se mover entre ruínas, poeiras
e brilhos.
Ela também se apresenta como uma escultura por subtração — um volume
invertido, moldado pela ausência, uma espécie de negativo topológico formado
por sucessivas retiradas de matéria. Essa aproximação reconhece como o gesto
destrutivo delineia formas sensíveis, que demandam outros modos de relação e
elaboração, mantendo presente sua violência. A cava, nesse sentido, age: ela
tensiona, reverbera, convoca. Seu corpo ferido se impõe e se desloca sobre o corpo
que a atravessa.
Por conseguinte, ela também se apresenta como um campo de desejo: aquilo
que pulsa, que movimenta, que solicita presença. Inspirada pelas reflexões de
5 Esta residência aconteceu na Mina do Corumi, localizada na região do bairro Taquaril, na Serra do Curral, em
Belo Horizonte MG e teve como “apêndice” a vitrine do Teatro Marília/Centro de Referência da Dança de
Belo Horizonte. Ela teve a duração de 4 meses, no ano de 2024, em ocasião do meu doutorado em artes na
UFMG, com idas semanais à cava e à vitrine do Teatro Marília, locais onde as obras foram desdobradas. A
residência foi contemplada e possibilitada pelo edital Multilinguagens do Fundo Municipal de Cultura de Belo
Horizonte. Éramos quatro artistas em residência, sendo, eu - advinda do campo da performance, o Luiz
Naveda, advindo do campo da música e paisagens sonoras, a Flávia Mafra, da iluminação e o Luiz Pretti do
cinema, no entanto, todos interdisciplinares. Para saber mais sobre a residência, artistas envolvidos e obras,
acessar o site: www.residiracava.com.br . Acesso em: 30 jul. 2026.
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André Lepecki sobre a política do movimento, proponho compreender o desejo
como força que convoca o corpo a implicar-se com o território (Lepecki, 2006). A
cava, enquanto desejo, é inclinação: inclinação para dentro, para baixo, para trás,
para o que falta forma. Esse desejo se apresenta como algo com o qual se lida —
tal como na cartografia de Suely Rolnik, que acompanha os afetos e as forças em
seu processo de emergência, permitindo ao corpo habitar aquilo que ainda está
por se constituir (Rolnik, 2006).
Estar nesse território exigiu uma escuta demorada, uma abertura aos tempos
próprios das coisas. Foi uma entrega a um tempo outro. Tempo de pedra, tempo
de poeira, tempo de vento, tempo de vestígio de máquina. Um tempo mineral
marcado por erosão, sedimentos e reverberação. Um tempo em que a criação
acontece por contato, contaminação, construção e forma. Onde o corpo, para criar,
precisa primeiro aprender a estar — e sustentar esse estar.
Nesse sentido, como propõe Jorge Larrosa, trata-se de produzir um saber
que advém da experiência e se enraíza no vivido. Estar com a cava era estar diante
de uma matéria em múltiplos estados, cada qual com suas temporalidades: pó,
pedra, fragmento, lama, água turva. O chão, em vista disso, se apresentava ora
compacto, ora volátil, ora denso, ora em suspensão. Sentia-se a presença da pedra
como integridade, como inscrição mineral do tempo. A experiência desse encontro
deslocava o corpo de seus reconhecimentos imediatos, abrindo-o para aquilo que
o atravessava e o transformava (Larrosa, 2002).
A imensidão da cava frente à escala humana gerava uma experiência intensa
de gravidade, física e simbólica. Cada deslocamento exigia esforço, presença,
atenção. A cava fazia aparecer o que está no território e também o que vibra dentro
do corpo. Nesse contato prolongado com suas formas e forças, a cava se revelou
como paisagem e condição de pensamento, de corpo, de linguagem. Era território
e espaço ao mesmo tempo. Um chão com história. E um vazio fértil de
infertilidades.
Como diria Gilles Deleuze, revisitado por mim, trata-se de escavar na cava
dobras — movimentos internos, modulações de intensidades, ressonâncias entre
matéria e corpo (Deleuze, 1991). A cava é esse entre: o que está escondido e o que
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ainda está por vir. Estar ali era lidar com essa tensão. E deixar-se afetar por ela.
Residir e Deambular: Uma abordagem cartográfica
Residir e deambular: dois verbos que sustentam a abordagem desta pesquisa
e habitam a mesma tensão. Residir, aqui, significa estar em relação contínua com
um território — escutá-lo, habitá-lo com o corpo, sustentar sua densidade e suas
variações. Conviver. Deambular é mover-se sem mapa fixo, deixando-se afetar
pelo ritmo das coisas, dos ventos, das pedras.
Entre um e outro gesto, forma-se um modo de pesquisar: uma abordagem
sensível e implicada. Como afirma Kastrup, trata-se de um “modo de se mover
com” um odos que se faz em ato, em relação com o tempo das coisas. A
experiência com a cava convocou essa alternância ou talvez coexistência
entre o estar e o mover-se (Kastrup, 2021).
Residir na cava foi sustentar o tempo lento do corpo em contato com a
matéria. Foi permanecer, escutar, acompanhar. Ao mesmo tempo, deambular pela
cava foi seguir pequenas inclinações, contornar poças, ser atravessada por ventos,
observar a poeira suspensa, deixar-se guiar por gestos mínimos. A pesquisa
acontecia aí: no intervalo entre o pouso e o passo, entre o peso da permanência e
a leveza da deriva.
Cartografar, nesse sentido, foi acompanhar essas intensidades, estar com.
Como propõe Suely Rolnik, a cartografia coloca-se em conexão com os fluxos de
um campo vivo, em que a escuta dos afetos e dos gestos seja capaz de abrir
caminhos para uma criação encarnada (Rolnik, 2006).
A escuta era feita com o corpo, com o tempo, com o chão. Os registros
escritos, sonoros, visuais, corporais foram surgindo como prolongamentos da
presença. A escrita, por sua vez, foi sendo gestada junto, como dobra do processo,
como modo de deixar que algo do vivido se mantivesse vibrando na linguagem.
A cartografia, nesse contexto, foi postura e modo de estar em pesquisa,
articulando prática e reflexão, corpo e pensamento, gesto e conceito. Foi também
uma política do sensível: escutar o que escapa, sustentar o que vibra, acompanhar
o que ainda está tomando forma. Ao residir e deambular com a cava, o corpo da
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pesquisa se fez poroso, aberto às forças do território, às camadas de tempo, aos
restos e reverberações que excedem as categorias conhecidas.
Nesse entre residir-e-deambular, traçou-se uma disposição: estar junto das
forças, dos vestígios e dos vazios, compor com eles tateando sentidos,
sustentando perguntas, ativando presenças.
Corpo Poroso: Gravidade, gesto e escuta
Estar na cava exigiu do corpo uma escuta outra. Uma escuta em
profundidade: do som, do peso, da matéria, das forças em lentidão, dos chãos
instáveis. Escuta como gesto, como presença, como entrega. A experiência da
residência revelou um corpo atravessado pelo território. Estar ali era aceitar ser
modificado pelas condições daquele chão: a instabilidade da terra solta, a poeira
aderente aos poros, a densidade das pedras, o eco do silêncio entre paredões, a
aridez tátil sentida na pele. Tudo exigia uma atenção expandida, onde o gesto
surgia como resposta.
Figura 1 Corpo em presença na cava. Foto: Luiz Naveda.
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A gravidade se impunha como uma presença constante e densa. Cada
deslocamento demandava esforço. Cada movimento era pesado, limitado,
tensionado. A cava tendia à imobilidade. Era como se a própria paisagem, em sua
vastidão e densidade, nos colocasse em estado de suspensão forçada. A
desproporção entre o corpo e o território nos fazia sentir pequenos pequenos
diante da força das entranhas, do peso acumulado de um solo escavado, ferido e
espesso. Como se qualquer deslocamento fosse quase nada diante da paisagem.
O corpo, ali, era convocado a lidar com o peso.
Figura 2 e 3 Máquinas e relevo da cava. Foto: Luiz Naveda.
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Figura 3 – Microfone registra o som do território. Foto: Luiz Naveda.
Lidar com a gravidade da cava foi escutar o chão com o corpo e aprender a
modular essa força, deixando-se afetar por ela. E, a partir dessa relação, mover-
se. Era preciso, assim, dobrar a gravidade ora se entregando um pouco mais,
ora resistindo, ora acompanhando seus fluxos. O movimento se construía nessa
negociação: entre a entrega e a suspensão, entre o peso e o gesto, entre a matéria
e a respiração. A gravidade permanecia presente, oferecendo modos de compor a
partir dela. Uma negociação entre gravidade, corpo e qualidades de chãos.
Esse corpo escutava com os ouvidos, com a pele, com os ossos, os músculos,
os líquidos, com o tempo interno. Porosidade como disposição para ser afetado,
para se deixar atravessar, para mover a partir do que está no espaço — inclusive
quando o que está disposto é peso, densidade, aridez, espessura e resistência.
O gesto, nesse território, surgia pela escuta. Buscava relação. Os movimentos
nasciam do chão, em tensão com suas entranhas, com sua poeira, com seus
tempos, silêncios e brilhos. Era sustentar o que se dava, o que aparecia, o que
vibrava. Cada movimento possível compunha a partir da gravidade.
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Assim, o corpo se fazia como campo de reverberação. Um corpo que hesita,
que pausa, que se curva, para dentro e para fora. Que se permite ser afetado por
um território cuja linguagem foi arrancada e onde ainda existe a força de suas
entranhas em lama, em fragmento, em ruído, em tempo mineral. Um corpo
que, por instantes, dobra a gravidade e cria, a partir dela, uma presença e convoca
a aparição desse espaço. Um corpo, uns corpos, que a partir da fruição estético-
fenomenológica do lugar e de suas camadas temporais presentificadas e
evocadas, por vezes compunham obras, trabalhos que surgiam quase que como
uma consequência, composição condensada, e a posteriori, compartilhada, da
experiência com aquele lugar, com aquele chão. E depois, novamente se
de-
compunham
em experiência e
re-compunham
novamente em outros trabalhos.
Num vir a ser de dobras e desdobras entre experiências, obras e composições,
de-
composições
,
re-composições
. São elas: as performances em vídeo, “Esboço para
redobrar a gravidade” e “Rainha do minério”, as estruturas improvisadas em
dança/som/instalação, “Pedaços de chãos se movem com as águas” e “Dueto por
um fio”.6 Guardo o espaço desta escrita para delinear os processos e condições
dos quais as obras emergiram.
Se essas obras se constituem como condensações provisórias da experiência,
talvez seja preciso retornar ao lugar de onde continuamente emergem e para onde
incessantemente retornam: o chão. Que chão é esse, afinal, do qual os trabalhos
surgiram e que exige tanto do corpo? Nos movemos, em vida e em dança, numa
constante relação entre gravidade, tônus do corpo e chão. O chão é extremamente
importante para o movimento. André Lepecki nos convida a pensar criticamente
o chão que foi delineado a partir de uma perspectiva moderna. Para ele, o linóleo
— esse revestimento sintético, liso e silencioso, tão comum nos palcos e estúdios
de dança representa um chão fictício, idealizado pela modernidade em sua
busca por controle, estabilidade e velocidade. Um chão orientado pela eliminação
do atrito, pelo silenciamento das fricções e pela padronização da superfície do
mundo. Esse linóleo, como diz Lepecki, tampona outros chãos. Oculta topografias
diversas, irregulares, imprevisíveis (Lepecki, 2006).
6 Trechos destes trabalhos podem ser acessados no link: www.residiracava.com.br . Acesso em: 28 jul. 2026.
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Figura 4 Frame da performance em vídeo “Esboço para redobrar a gravidade”.
Concepção: Morgana Mafra. Vídeo: Luísa Machala.
Que chãos são esses que o linóleo tenta apagar? São os chãos instáveis e
feridos como o da cava. São os chãos de corpos expropriados, de territórios
escavados, de histórias interrompidas. São os chãos de Itabira, Mariana e
Brumadinho, por exemplo, que escancaram as fraturas da modernidade uma
modernidade que promete solidez e opera por desestabilização. Que simula
estabilidade ao mesmo tempo em que cava buracos, arranca matéria, desloca
populações, desestrutura paisagens. O linóleo é o chão da promessa moderna. E
a cava, o chão de seu sintoma. Como se mover e compor a partir de um chão
explodido, fragmentado, revirado e dissipado pelo mundo? Quais corporeidades e
movências são essas que surgem a partir desse chão? Perguntas que convivíamos
durante a residência.
Na cava, havia terra movente, fragmento, ausência, atrito. Havia uma
multiplicidade de tempos e camadas, difíceis de firmar sob os pés. Estar ali era
encarar a falência do chão moderno. Era abrir para outros modos de relação com
o solo modos situados, atentos, escutantes. Modos de se mover em relação
com a superfície irregular.
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Nesse sentido, mover-se contra a lógica do contínuo, veloz, leve e polido era
compor com a descontinuidade, com a ruína, com a aspereza, lentidão e risco
provocados pela matéria. Era deixar que o corpo escutasse os chãos interditados
pela modernidade e, com eles, se fizesse presente.
Figura 5 Frame da performance em vídeo “Esboço para redobrar a gravidade”.
Concepção: Morgana Mafra. Vídeo: Luísa Machala.
Lepecki nos oferece aqui uma crítica ao chão moderno e um convite a
repensar a própria política do movimento. Podemos escutar os atritos, sustentar
os sulcos e as dobras, pisar e, ao pisar, sentir o que ainda pulsa sob a superfície
que insistiram em tamponar, perceber os rastros no corpo e na paisagem (Lepecki,
2006).
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Figura 6 Fotografia Cavidades. Provocação: Vladimir Rodriguez.
Performer: Morgana Mafra. Foto: Vladimír Rodriguez.
Imagem como Reverberação: Entre vestígio, contaminação e composição
As imagens produzidas na cava foram gestadas no compasso do tempo
vivido, em relação direta com a matéria do lugar, com suas intensidades e
silêncios, com os ritmos do corpo em presença. O ato de criar imagens foi
atravessado por poeira, vento, hesitação e gravidade. A imagem se deu como
reverberação — prolongamento do gesto, da escuta e da permanência.
A câmera, o gravador, o corpo e o caderno operaram juntos, como extensões
de uma mesma atenção. Cada registro partiu de uma situação concreta, de um
contato, de um respiro compartilhado com o espaço. As imagens se contaminaram
de brilhos breves, fragmentos de sombra, ruídos subterrâneos, tremores,
movimentos interrompidos, incluindo aquilo que escapa à visibilidade clara. São
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imagens feitas de tempo e de poeira. Imagens que se abrem como vestígios
ecos sensíveis do que ali se passou.
Compor com essas imagens exigiu escuta. A montagem seguiu os pulsos do
que ainda vibra, do que permanece, do que se sustenta como presença. Como
lembra Deleuze, há uma ética da montagem como dobra: dobrar o tempo, dobrar
a matéria, compor com o que permanece inacabado. As decisões visuais e sonoras
emergiram do corpo atravessado pela cava por sua densidade, seus vácuos,
suas texturas (Deleuze, 1991).
Imagens, sons e movimentos foram se organizando por aproximação, por
contaminação, por acúmulo de camadas sensíveis. Sedimentos. A imagem, nesse
contexto, opera como dobra da experiência. Mantém vivo o contato com o chão.
Amplia a escuta. Faz aparecer o que permanece por dizer. Sustenta, na linguagem,
algo da presença. Algo do vestígio. Algo do risco de ter estado ali.
A imagem prolonga a experiência e faz um convite a atravessar com outros
olhos, com outros poros. Desdobrar vídeos, fotografias, instalações e escritos foi,
assim, um modo de seguir em relação com o território. De continuar escutando
para além da presença física. De deixar que a cava, em seus múltiplos estados,
ainda atravesse, ainda reverbere, ainda componha com os gestos da criação.
Outras imagens da residência podem ser visualizadas no site:
www.residiracava.com.br
A paleta sonora criada durante a residência também pode ser acessada no
mesmo site, no seguinte link:
https://residiracava.com.br/paletas-de-sons-da-cava/
Dobra: Sustentar o que reverbera
Trata-se de sustentar o que ainda reverbera.
A cava, em sua ambiguidade, convoca presença. Ela permanece. Seu tempo
atravessa a experiência da residência e se desdobra em temporalidades diversas.
Permanece como dobra no corpo, nas imagens, nas palavras, nas poeiras que
seguem em suspensão, no brilho que se acumula sobre os olhos.
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A pesquisa, aqui, se dobra e se (d)obra em obras e em gestos: gesto que
continua escutando, compondo, escrevendo, perguntando, criando. Gesto que
insiste em permanecer junto ao que vibra. Ao que pesa. Ao que pulsa.
Ao longo desse percurso, a cava revelou-se como uma figura sensível capaz
de orientar um modo de pesquisar em arte. Ela passou a operar como figura do
desejo: uma abertura ao que insiste em emergir. A gravidade revelou-se como
operador estético, deslocando-se da condição de fenômeno físico para constituir
um modo de perceber, de mover-se e de criar. A dobra tornou visível a constituição
recíproca entre corpo e paisagem, dissolvendo a separação entre quem
experiencia e o território experienciado. A cartografia consolidou-se como prática
de acompanhar esses processos em sua emergência, enquanto a experiência
afirmou-se como lugar de produção de um saber artístico que transforma quem
pesquisa ao mesmo tempo em que produz a própria pesquisa.
Essa dobra final é, talvez, uma dobra inicial: Como desenvolver uma forma
de pesquisa em arte que emerja da experiência performativa do corpo em relação
às paisagens
esburacadas
, tomando a criação como caminho e a cava como um
espaço de lidar e fazer aparecer?
Outras cavas. O propósito é delinear um modo de seguir em contato com os
territórios feridos e férteis que nos atravessam. Um modo de sustentar perguntas
diante de chãos revirados. Um modo de afirmar o corpo como espaço de relação
com o que ainda não tem nome, mas já insiste.
Porque crateras que continuam abertas mesmo quando parecem
esquecidas. Há poeiras que seguem no ar, mesmo quando cessam as escavações.
presenças que se mantêm, subterrâneas, esperando o gesto que as escute. Ou
ainda, reverberar, como possibilidades, modos de pesquisar sempre em escuta e
invenção - gesto recorrente por alguns artistas.
Escutar e criar é um modo de permanecer.
Referências
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A dobra
: Leibniz e o barroco. São Paulo: Iluminuras, 1991.
Corpo em dobra: a criação artística enquanto pesquisa a partir de cavas, chãos, gravidades e vestígios
Morgana Mafra
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ROLNIK, Suely.
Cartografia sentimental
: transformações contemporâneas do
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Ohtake, 2006.
Recebido em: 21/12/2025
Aprovado em: 01/08/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas
PPGAC
Centro de Artes, Design e ModaCEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes nicas
Urdimento.ceart@udesc.br