
Alteridade e campo de visão: experimentações e reflexão sobre uma prática pedagógica
Eduardo Piras | Natacha Dias
Florianópolis, v.2, n. 58, p. 1-24, ago. 2026
se estou oferecendo algo válido, se estou sendo compreendido, se estou
realmente contribuindo para a formação dos participantes. Esse tipo de dúvida
pode gerar, no condutor da prática, certo sentimento de insuficiência, como se
estivesse sempre aquém do que deveria saber. Ao mesmo tempo, percebo que
essa instabilidade pode ser tomada como potência, estímulo de aguçamento
sensível, embora ainda não saiba como lidar com ela. O ensino, nesse contexto,
torna-se um território de tensão entre o desejo de compartilhar e o medo de não
saber o suficiente. O foco, aqui neste artigo, será debater sobre essa possibilidade
da abertura diante da liberdade que é estar em uma sala de trabalho, quando
temos apenas uma única regra:
[...] é um exercício improvisacional que tem apenas uma única regra e que
faz com que o ator vibre, pulse, contamina-se e contagie através de sua
ação, seja a minha tentativa de comunhão entre o procedimento e
conteúdo entre
techné
e psiché, entre corpo e alma. [...] A expressão viva,
a expressão da vida é que motiva o meu fazer [...] (Lazzaratto, 2011, p.41).
Percebo, nesta citação, que o Campo de Visão é “corpo”, concebido como
linguagem primordial, capaz de expressar ideias, desejos e subjetividades. Ele
torna-se um espaço de escuta, de afetação e de criação, onde o jogo
improvisacional se configura como meio de investigação e de construção de
conhecimento. De fato, conforme Rosseto (2018, p. 143), essa prática “é
reconhecida como importante fundamento nas artes da cena, seja como etapa de
processo criativo, seja especialmente na contemporaneidade, a própria obra ao
ser levada ao público”; dessa maneira, nota-se que a improvisação, nesta
metodologia, pode ser abordada tanto como dispositivo poético, instauração de
linguagem, quanto estratégia para despertar a percepção, estimular a criatividade
e ampliar a consciência corporal dos participantes.
A respeito da investigação da qual resulta esta reflexão, convém mencionar
que o processo artístico pedagógico foi documentado por meio de registros
diversos, como, vídeos, fotografias, e diários de bordo elaborados pelos
participantes da oficina ministrada por mim, em parceria com a Academia Cena
Hum5, com o intuito de refletir sobre os modos de existência e criação que
5 Fundada em 1995 por George Sada, a Cena Hum é a primeira instituição privada do Paraná dedicada à
formação em artes cênicas. Oferece cursos de teatro para todas as idades, com foco na transformação