
O iluminador
bricoleur
e suas criações luminosas: artefatos, bricolagens e artesanias
Fernanda Guimarães Mattos de Souza
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-18, ago. 2026
monte de engenhocas, tipo o Professor Pardal. E é quase como se as
pessoas pensassem: “Ah, esse cara não saberia fazer um grande musical,
porque não tem como fazer com lampadinhas”. E não é assim! Eu
considero qualquer fonte. Quando eu assisto ao ensaio e acho que uma
lâmpada vai funcionar para a cena, é uma lâmpada que vou usar. Se eu
achar que é uma vela, é uma vela. Eu fiz uma montagem uma vez que
hoje em dia seria proibido. Na época não era proibido, a gente fez. Era
uma montagem de Nosferatu4, que é uma espécie de vampiro. A peça
acontecia no sótão de uma casa em Botafogo, não tinha movimento de
luz e tinham refletores que emitiam luzes que entravam pela janela da
casa. A gente trocou um pedaço do telhado da casa por telha de vidro e
botou os refletores que vazavam o telhado, vinham lá de cima e vazavam
pelas telhas de vidro. Tinha um cenotécnico, infelizmente já falecido, o
Tuninho, ele fez uma garra que pegava na sustentação do telhado por
dentro, vazava as telhas e subia quatro metros para fora atravessando as
telhas. Então, eu tinha luz vindo pelas janelas, luz vindo pelas telhas de
vidro e 300 velas dos mais variados tamanhos. 300 velas. Velas de 7 dias,
vela pequenininha, velas maiores e não tinha nenhum movimento de luz.
Era isso. Então, eu considero qualquer fonte, da vela ao Sol. Se eu acho
que é vela, é vela, se eu acho que é lampadinha, é lampadinha, se eu acho
que é LED, é LED. Isso do ponto de vista estético (Machado, entrevista
concedida à autora, citada em Souza, 2025, p.190).
O relato evidencia que o processo de criação não se organiza a partir da
aplicação de um repertório fixo de equipamentos, mas da capacidade de
reconhecer, entre diferentes possibilidades, aquelas que podem ser reorganizadas
em função da proposta cênica. A vela deixa de ser apenas um objeto cotidiano, a
telha de vidro deixa de cumprir exclusivamente uma função arquitetônica e a
lâmpada doméstica ultrapassa seu uso convencional, passando a integrar a
dramaturgia da luz. Nessa operação, os materiais são ressignificados e passam a
compor uma nova estrutura de relações, aproximando-se da lógica de bricolagem
descrita por Lévi-Strauss (1989).
Enquanto objetivações da atividade imaginativa, os artefatos luminosos e os
recursos alternativos de luz cênica constituem produtos da criação do artista,
concebidos para ampliar a narrativa, dialogar com o plano estético do espetáculo
e atender a propósitos técnicos e expressivos.
Tais processos convergem para uma das formas de relação entre fantasia e
realidade descritas pelo psicólogo soviético Lev Vigotski (1896 - 1934) em seu livro
4 Nosferatu estreou no Casarão da Rua Bambina no Rio de Janeiro em 2004. Direção: Marcos Henrique Rego;
Iluminação: Renato Machado; cenografia: Doris Rollemberg; figurinos: Ricardo Rocha e atuação: Guilherme
Mariz, André Gracindo, Anna Schuler e Cristina do Lago. Informação verbal fornecida pelo iluminador Renato
Machado à autora.