
Educação indígena no Festival de Parintins: artes cênicas, ferramentas pedagógicas no Boi Caprichoso
Adan Renê Pereira da Silva | Everton Vinicius Freitas Morais
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-27, ago.2026
cobrindo o céu / Neblina chegando, o breu te abraçando / Negrume
fechando / E do caroço desconhecido / Tucum despertando é gênese,
mito / A aldeia em pânico assombro e grito / Se fez a noite! /
Transmutação da floresta encantada / Cestos trançados em onças
pintadas / Os troncos, as pedras em metamorfose / Em pássaros, seres
e feras / Gavião, tucano, araras e colibris / Galos da serra, rastejam
camaleões / Caligem da noite esconde o céu / A mística névoa te cobre
como um véu / Olhos da noite / O manto da noite / Presas da noite / A
lua, as estrelas, os raios lampejam / A criação proibida no olhar / Olhos
da noite / O manto da noite / Presas da noite / A lua, as estrelas, os raios
lampejam / A criação proibida no olhar.
À medida que a toada avança, a composição musical assume o papel de
narradora do mito, guiando o espectador por meio de imagens sonoras que
acompanham a transformação do mundo. Expressões como “o manto negro vem
cobrindo o céu” e “neblina chegando, o breu te abraçando” não apenas descrevem
a chegada da noite, mas a corporificam: a noite não é ausência de luz, mas uma
presença viva, dotada de força e vontade. Quando o caroço de tucum é aberto,
inicia-se o processo de “transmutação da floresta encantada”, e o ouvinte é
conduzido por uma sequência de metamorfoses mágicas: “cestos trançados em
onças pintadas”, “troncos, pedras em metamorfose”, “gavião, tucano, araras e
colibris”. Logo, cada verso funciona como um fragmento de cosmogonia, revelando
a origem simbólica dos animais e da própria biodiversidade amazônica. Ao final, a
toada retorna à dimensão cósmica com a evocação dos “olhos da noite”, do
“manto”, das “presas” e da aparição da lua e das estrelas, uma culminância estética
e espiritual que projeta no céu do bumbódromo a força poética da criação.
Ao ser proposta no Festival de Parintins, a história da criação da noite revela-
se uma poderosa ferramenta educativa. Em primeiro lugar, por sua capacidade de
debruçar-se sobre como pensar conhecimentos indígenas como tecnologia de
memória e de transmissão de saberes, o que pode ser visto como um desafio útil,
na medida em que, pelo alcance do Festival, abre-se um leque de críticas, debates
e releituras em diferentes contextos, apontando para o “correto” e para o
“incorreto”, de modo que tais retornos levem o Festival a fugir, ao máximo, do
“exótico”, do “estereotipado”. A história da noite, outrora contada em roda de
conversa, ganha novos contornos no palco, mas mantém sua estrutura simbólica:
desejo, transgressão, punição, reparação. Como reflete Eliane Potiguara (1990, p.