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Uma proposta metodológica para analisar o mercado
de trabalho do setor da cultura em Santa Catarina
Marília Carbonari
Tereza Mara Franzoni
Para citar este artigo:
CARBONARI, Marília; FRANZONI, Tereza Mara. Uma proposta
metodológica para analisar o mercado de trabalho do setor
da cultura em Santa Catarina.
Urdimento
Revista de
Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v.2, n. 58, ago. 2026.
DOI: 10.5965/1414573102582026e0206
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Uma proposta metodológica para analisar o mercado de trabalho do setor da cultura em Santa Catarina
Marília Carbonari | Tereza Mara Franzoni
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-19, ago.2026
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Uma proposta metodológica1 para analisar o mercado de trabalho do setor da cultura em Santa
Catarina2
Marília Carbonari3
Tereza Mara Franzoni4
Resumo
Este artigo propõe uma metodologia crítica, ancorada na economia política de Karl Marx, para analisar
o mercado de trabalho nas Artes Cênicas em Santa Catarina. Diante de uma expansão tímida do setor
(1,6% de crescimento de assalariados em uma década), o estudo desenvolve um sistema de indicadores
para desvendar as relações capitalistas de produção no ramo cultural. Os resultados revelam uma
contradição: apesar do discurso da "economia criativa", o núcleo das Artes Cênicas possui um mercado
ínfimo (488 vínculos formais), onde a precariedade é estrutural. Conclui-se que a superação desse
cenário exige um projeto político alternativo e o fortalecimento da organização coletiva dos
trabalhadores.
Palavras-Chave:
Mercado de trabalho. Setor cultural. Relações de produção. Economia política. Santa
Catarina.
A methodological proposal to analyze the labor market of the cultural sector in Santa Catarina
Abstract
This article proposes a critical methodology, based on Karl Marx's political economy, to analyze the
labor market in the Performing Arts in Santa Catarina. In the face of a timid expansion in the sector
(1.6% growth in salaried workers over a decade), the study develops a system of indicators to unravel
the capitalist relations of production in the cultural field. The results reveal a contradiction: despite the
"creative economy" narrative, the domain of the Performing Arts has a minuscule market (488 formal
employment contracts), where precariousness is structural. It is concluded that overcoming this
scenario requires an alternative political project and the strengthening of workers' collective
organization.
Keywords:
Labor market. Cultural sector. Production relations. Political economy. Santa Catarina.
Una propuesta metodológica para analizar el mercado laboral del sector cultural en Santa
Catarina
Resumen
Este artículo propone una metodología crítica, basada en la economía política de Karl Marx, para analizar
el mercado laboral de las Artes Escénicas en Santa Catarina. Frente a una expansión moderada del
sector (1,6% de crecimiento de asalariados en una década), el artículo desarrolla un sistema de
indicadores para develar las relaciones capitalistas de producción en el ámbito cultural. Los resultados
revelan una contradicción: a pesar del discurso de la "economia creativa", el núcleo de las Artes
Escénicas posee un mercado ínfimo (488 vínculos formales), donde la precariedad es estructural. Se
concluye que la superación de este escenario exige un proyecto político alternativo y el fortalecimiento
de la organización colectiva de los trabajadores.
Palabras clave
: Mercado de trabajo. Sector cultural. Relaciones de producción. Economía política. Santa
Catarina.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada pelas autoras.
2 Este artigo é resultado da pesquisa desenvolvida durante o estágio pós-doutoral da Profa. Dra. Marília Carbonari no
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UDESC, sob a supervisão da Profa. Dra. Tereza Mara Franzoni.
3 Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Profa. Adjunta do curso de Artes
Cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
professora.marilia.carbonari@gmail.com marilia.carbonari@ufsc.br
http://lattes.cnpq.br/4277571730225424 https://orcid.org/0000-0001-8357-6002
4 Doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora nos cursos de
graduação e Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina
(UDESC). tfranzoni@gmail.com; tereza.franzoni@udesc.br
http://lattes.cnpq.br/0807711190645838 https://orcid.org/0000-0003-2498-0851
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Introdução
O Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC) do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) indicou um aumento de apenas 1,6% da
participação relativa dos assalariados no setor da cultura no estado de Santa
Catarina entre 2011 e 20215. Já a participação das unidades locais do setor cultural
no total do Cadastro Central de Empresas no estado decresceu 0,4% no mesmo
período (2011/2021)67. O que exatamente significam esses dados? De que forma
estes e outros indicadores podem revelar as relações de trabalho e seu
desenvolvimento no setor da cultura? Em que medida, o conhecimento crítico
fundamentado sobre esses indicadores pode instrumentalizar a organização dos
trabalhadores do setor?
Este artigo busca, por meio de uma discussão pautada nas categorias
analíticas de compra e venda de força de trabalho, desenvolver uma metodologia
de mapeamento do mercado capitalista8 do setor da cultura em Santa Catarina,
utilizando indicadores disponíveis em fontes estatísticas. Trata-se aqui não de
distinguir o mercado de trabalho gerador de mais valia9 no setor da cultura, mas
5 Tabela de Atividades formalmente constituídas. Especificamente na Tabela 1.1.5 - Unidades locais, pessoal
ocupado assalariado, salário médio mensal, variação relativa e diferença de participação no pessoal ocupado
assalariado, para o setor cultural, segundo as Grandes Regiões e Unidades da Federação - 2011/2021.
Disponível: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/cultura-recreacao-e-esporte/9388-indicadores-culturais.html
Acesso em: 14 nov. 2025.
6 Tabela de Atividades formalmente constituídas. Especificamente na Tabela 1.1.5 - Unidades locais, pessoal
ocupado assalariado, salário médio mensal, variação relativa e diferença de participação no pessoal ocupado
assalariado, para o setor cultural, segundo as Grandes Regiões e Unidades da Federação - 2011/2021.
Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/cultura-recreacao-e-esporte/9388-
indicadores-culturais.html. Acesso em: 14 nov. 2025.
7 Tabela de Atividades formalmente constituídas. Especificamente na Tabela 1.1.5.a - Participação das unidades
locais do setor cultural no total do Cadastro Central de Empresas, segundo as Unidades da Federação -
2011/2021. Disponível:
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/cultura-recreacao-e-esporte/9388-indicadores-culturais.html.
Acesso em: 22 nov. 2025.
8 Consideramos mercado de força de trabalho capitalista aquele em que compra e venda da força de
trabalho como mercadoria para produção da arte como mercadoria. Nesse sentido, tomamos como
sinônimo desse mercado, o setor privado, como a categoria que melhor atende a essa definição.
9 A categoria de mais valia é definida por Marx como um prolongamento da jornada de trabalho para além do
seu valor equivalente, ou seja, “o processo de produzir valor simplesmente dura até o ponto em que o valor
da força de trabalho pago pelo capital é substituído por um equivalente. Ultrapassando esse ponto, o
processo de produzir valor torna-se processo de produzir mais valia (valor excedente).” (Marx, 1989, p. 220)
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também de reconhecer quais práticas sociais as/os trabalhadoras/es da arte têm
ao seu alcance para manter condições de trabalho e vida justas.
O que chamamos de setor da cultura recebe muitos nomes: economia da
cultura, indústria cultural, economia criativa e indústria criativa. Além de se referir
a atividades que envolvem as/os trabalhadoras/es das artes, ele envolve também
setores ligados aos sistemas de informação, publicidade e outros10. Comumente
chamado de “indústria criativa”11, o setor tem sido celebrado como um vetor de
desenvolvimento econômico e inovação no Brasil. Dados da Federação das
Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan, 2025), por exemplo, apontam seu
crescimento sustentado, cenário que se repete em Santa Catarina, estado com
notável desempenho econômico e uma rica tradição cultural. O artigo de Danyella
de Brito e Stélio Lombardi Filho (2019) cita vários estudos que também apontam
para o crescimento do setor e para sua capacidade de gerar emprego e renda, o
que levaria a uma melhora significativa nas condições de vida da população.
Porém, o artigo chama a atenção para dois aspectos que nos interessam
diretamente. Por um lado, a escassez de pesquisas sobre o mercado de trabalho
do núcleo artístico da “classe criativa”; por outro, a abrangência da definição de
“indústria criativa” da Firjan, que mascara a realidade específica do núcleo artístico
do mercado da Cultura.
Por trás dos números agregados e da retórica do capital intelectual, uma
outra realidade se apresenta. Este artigo parte do pressuposto de que as pesquisas
sobre o mercado da cultura são precedidas por incentivos fiscais, expansão de
infraestrutura estatal e, sobretudo, pela reprodução das relações capitalistas de
produção como em outros ramos industriais. Assim, mesmo com os ciclos de
expansão, persistem questões fundamentais sobre a natureza do mercado de
10 Na Composição do mercado de trabalho cultural utilizada pelo Código Brasileiro de Ocupações, CBO, e pela
Classificação Nacional de Atividades Econômicas, CNAE, encontram-se as seguintes atividades: Edição, livro
e leitura, Comunicações, Sistemas restritos de informação (internet), Arquitetura, Publicidade, Rádio e
televisão, Outras atividades artísticas e de espetáculos, Conservação do patrimônio, Atividades desportivas
e outras relacionadas ao lazer, Audiovisual. (Barbosa, 2017, p. 15)
11 O termo indústria criativa chega ao Brasil influenciado por relatórios e estudos internacionais, especialmente
do Reino Unido e da Austrália, e ganhou força com o desenvolvimento de pesquisas e mapeamentos
nacionais, como os realizados pela Firjan, no início dos anos 2000. Conforme a definição do British Council
(2010, p. 23), as indústrias criativas são aquelas cujas “atividades têm sua origem na criatividade individual,
habilidade e talento e que têm um potencial de riqueza e criação de emprego através da geração e
exploração da propriedade intelectual”.
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trabalho no setor, e nas artes cênicas não é diferente, marcado pela precariedade
e informalidade12.
Para delimitar o objeto de estudo com precisão, este trabalho adota a
conceituação de setor cultural estabelecida pelo IBGE. Esta opção segue a
perspectiva de Brito e Lombardi Filho (2019), para quem a definição do IBGE
permite isolar o núcleo artístico-cultural, diferenciando-o de setores como
tecnologia e publicidade, que são frequentemente agregados sob o guarda-chuva
da "economia criativa". A utilização da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (PNAD/IBGE) para análise do Mercado de Trabalho Cultural (MTC) é
também adotada por Barbosa (2017) que define esta fonte como a mais adequada
para visualizar os diferentes movimentos do setor. A utilização do levantamento e
a mineração de dados, portanto, serão guiados por uma delimitação conceitual
mais estrita do setor, permitindo um foco analítico mais nítido nas atividades fim
da cultura.
Essa opção metodológica é crucial para superar definições excessivamente
abrangentes, como a da Firjan, e focar no núcleo das atividades artístico-culturais.
Como destacam Brito e Lombardi Filho (2019, p. 34),
a definição de indústria criativa do Sistema Firjan é bastante abrangente,
diferentemente da adotada neste estudo. Ressalta-se também que as
indústrias criativas são caracterizadas pela natureza dos insumos de
trabalho, isto é, 'indivíduos criativos'. Para a economia criativa, a cultura
não é produzida é, na verdade, o insumo da produção.
A discussão com Barbosa (2017) é fundamental, pois a autora também
problematiza a heterogeneidade estatística do setor, alertando para o risco de
análises que, ao adotarem definições muito amplas, tornam-se incapazes de
12 Elder Patrick Maia Alves (2017), no artigo
As grandes corporações culturais e o trabalho criativo
, nos dá uma
ideia da complexidade das relações de produção no mercado da cultura e da precarização e informalidade
as quais estão submetidos as/os trabalhadores do setor. Para ele, “os mercados culturais, globais e
nacionais, independente do segmento e conteúdos artístico-culturais, são compostos por seis agentes
estruturais: 1) as empresas culturais especializadas; 2) as empresas não culturais (corporações que mantém
equipamentos culturais, contratam serviços artísticos especializados e financiam a produção de conteúdos;
3) os profissionais e trabalhadores da cultura; 4) os bancos privados (que emprestam recursos financeiros
às empresas culturais especializadas); 5) as instituições estatais, que, das mais variadas formas, subsidiam
as empresas culturais especializadas, seja na forma de empréstimos diretos, incentivos fiscais ou programas
de qualificação, cuja função nos levou a conceituá-los como agentes estatais de mercado; 6) e os
consumidores dos bens, serviços e atividades artístico-culturais e de entretenimento” (Alves, 2017, p. 42-3).
Sendo que, grande parte do trabalho criativo seria desenvolvida por meio de uma “terceirização ampliada”
com contratação de micro e pequenas empresas e trabalhadores informais em sua maior parte.
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captar a especificidade da exploração do trabalho artístico. Nosso estudo busca
contribuir para este debate metodológico ao propor um recorte que prioriza a
identificação das relações produtivas capitalistas no interior do setor cultural.
Referencial teórico: Relações Capitalistas de Produção
O desenvolvimento de um referencial marxista para analisar a produção
artística como mais uma esfera de acumulação capitalista demanda o
estabelecimento de pontos de intersecção dos dados coletados com as categorias
analíticas descritas por Marx em
O Capital
(Marx, 1989). Conforme Borja (2020,
p.97), a abordagem pelo viés da crítica da economia política busca "analisar a arte
enquanto processo produtivo, mais especificamente, enquanto produção de
mercadorias culturais sob o domínio do capital". A força de trabalho13 da/o artista
é uma mercadoria14 que, ao ser comprada, é consumida no processo de trabalho
para a produção da arte como mercadoria (Carbonari, 2021, p. 89). O produto do
trabalho artístico produzido como mercadoria pertence ao proprietário do meio
de produção do setor da cultura, e será por ele comercializado. O exemplo da
cantora, proposto por Marx, ajuda a entender a relação entre venda da força de
trabalho, mercadoria e produção de capital:
Uma cantora que vende seu canto por conta própria é um trabalhador
improdutivo. Mas, a mesma cantora, se um empresário a contrata para
ganhar dinheiro com seu canto, é um trabalhador produtivo, pois produz
capital (Marx, 1980, p. 396).
Essa diferenciação entre trabalho produtivo e improdutivo realizada por Marx
em seu livro Teorias da mais-valia (1980) é crucial para a abordagem e o
13 A força de trabalho como categoria é definida por Marx como a capacidade de trabalho que compreende “o
conjunto das faculdades físicas e mentais, existentes no corpo ou na personalidade de um ser humano, as
quais ele põe em ação toda a vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie” (Marx, 1989, p. 187).
14 Mercadoria é um conceito chave da crítica da economia política em
O Capital
, pois é o elemento basilar da
sociedade capitalista. Sendo inicialmente definida por Marx como “um objeto externo, uma coisa que, por
suas propriedades, satisfaz necessidades humanas [...] do estomago ou da fantasia” (Marx, 1989, pág. 41).
Unidade de valor, valor-de-uso e valor-de-troca, a mercadoria como categoria é trabalhada durante vários
capítulos da mesma obra, porém é no capítulo 4 que aparece a descrição da força de trabalho como
mercadoria e seu papel na produção de capital propriamente dita.
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mapeamento do mercado de trabalho15 que estamos propondo com este estudo.
Na citação vemos que a cantora, trabalhadora da arte, é uma trabalhadora
produtiva de capital somente quando vende sua força de trabalho para um
“empresário” (capitalista, dono de uma produtora) que, ao “utilizar” as habilidades
(força de trabalho específica) da cantora para realizar shows, gravação de música,
etc. e vender tais produtos como mercadoria, obtém “lucro”16 com seu canto.
Para nós, aqui, interessa destacar que os elementos do processo produtivo
de capital (força de trabalho, mercado de circulação da força de trabalho e
relações de produção) são indicadores que precisam ser revelados no
mapeamento do mercado de trabalho a fim de identificar, para além das
aparências, como o trabalho artístico está realmente sendo “empregado” (se
produtivo ou não de capital) e como o mercado de trabalho no setor cultural se
caracteriza.
Um estudo marxista fundado nessas categorias analíticas acerca do mercado
de trabalho pode revelar que a precariedade que chamamos “estrutural” do setor
talvez esconda uma concorrência entre as/os trabalhadoras/os decorrente da falta
de vagas de trabalho no setor privado.
Como sabemos, em todos os ramos da indústria, o papel do Estado tem sido
de “facilitar” a expansão capitalista em diferentes frentes: criação de
infraestrutura, benefícios fiscais, parcerias público-privada. O que chamamos de
“privatização” nas últimas décadas pode indicar a execução de um papel específico
do Estado de auxiliar a ampliação das relações especificamente capitalistas de
produção em todas as áreas. Vemos isso na educação, na saúde, nos transportes
e não parece ser diferente no setor da cultura. Toda essa “ajuda” do Estado para
o setor privado, no entanto, aparenta não ter gerado uma ampliação equivalente
do mercado de trabalho no ramo cultural.
15 Mercado de trabalho, na perspectiva analítica que estamos introduzindo com este artigo, deve ser
compreendido como o mercado de compra e venda de força de trabalho, ou seja, o mercado onde os
artistas buscam “trabalho” para venderem sua força de trabalho para aqueles que a podem comprar
(possuidores do dinheiro) para realizar o consumo da mesma através de um processo de trabalho que crie
um produto artístico-cultural como mercadoria (Marx, 1989, p. 189).
16 O que via de regra chamamos de “lucro” é aquilo que Marx (1989) chama de mais valia, que é o valor
excedente que o trabalhador produz, além do valor equivalente de sua força de trabalho. Ou seja, o que
chamamos de “lucro” é a parte do valor que o trabalhador cria e que é apropriada pelo capitalista.
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Entre outros aspectos a serem destacados verificamos que, quando olhamos
para o mercado dos produtos culturais, podemos inferir uma relação entre
produtos e produtores. Dados do IBGE (2023) revelam que 31,4% da população
mora em municípios sem museus e 30,6% sem teatros17. Essa restrição dos
equipamentos culturais pode indicar uma limitação do mercado para produtos e
produtores do setor.
Nosso objetivo com esse trabalho é exatamente elaborar uma forma crítica
de análise de dados e mapeamento do mercado de trabalho da cultura no Brasil,
mais especificamente em Santa Catarina (com ênfase no setor das Artes Cênicas),
a fim de entender suas especificidades e possíveis discrepâncias com outros
setores da indústria capitalista.
Modelo para Análise Crítica e aplicação dos indicadores
Para uma metodologia crítica sobre o mercado de trabalho, é necessário
desenvolver um sistema de indicadores que articule conceitos marxistas com
dados quantitativos disponíveis. Como destacam Milan
et al
. (2022, p. 79), “O(A)
pesquisador(a) deve ser capaz de justificar a sua escolha, de acordo com a
finalidade e uso pretendido do estudo”. Neste sentido, propomos uma linha
metodológica para analisar esse mercado a partir das categorias da crítica da
economia política desenvolvidas por Marx (1989) em
O Capital
.
Inicialmente destacamos os conceitos indicados na Tabela 1 para balizar a
seleção das fontes estatísticas e a consequente análise dos dados. É importante
frisar que todos os dados devem ser segmentados pelo SETOR DA CULTURA e,
quando possível, pela unidade federativa (Santa Catarina) e pela área de atuação
(Artes Cênicas).
17 Informação retirada do artigo
Setor cultural tem mais emprego informal que o conjunto da economia
, de
Bruno de Freitas Moura (2023), com base nos dados do IBGE, publicado no site da Agência Brasil, disponível
em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/setor-cultural-tem-mais-emprego-informal-que-o-conjunto-
da-
economia#:~:text=Acesso%20%C3%A0%20cultura&text=O%20IBGE%20tamb%C3%A9m%20calculou%20a,direito%20%C3
%A0%20cultura%22%2C%20observa. Acesso em: 23 nov. 2025.
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Tabela 1 - Sistema de indicadores críticos para análise das relações de produção
Conceito da crítica
da economia
política
Indicador operacional
Fonte
Primária
Observação
Força de trabalho
Números de
profissionais formados
em cursos
profissionalizantes e
universidades e
cadastrados com DRT
INEP,
Delegacia
Regional do
Trabalho
(DRT/MTE) e
SATED/SC
É necessário setorizar os
microdados do INEP e cruzar com
informações a serem solicitadas ao
SATED. Uma fonte alternativa seria
verificar as pessoas cadastradas
com MEI que tenham CNAE em
Artes Cênicas
Mercado de
trabalho
Razão entre força de
trabalho (indicador
acima) e Oportunidades
de trabalho (vagas no
setor privado da Cultura)
INEP,
SATED/SC,
SIIC e PNAD
continua
(IBGE)
É importante comparar as formas
de apuração do mercado de
trabalho de outros ramos
industriais, sobretudo a proporção
de oferta de força de trabalho e
vagas. Também é preciso
considerar os contratos feitos via
MEI. Nesse caso teria que ser feito
um levantamento dos contratos
específicos por CNAE com NFS-e e
RPA no Portal do empreendedor
Relações de
trabalho18
Contratos de trabalho
(CTPS e CPD) no ramo
da cultura (setor das
Artes Cênicas)
SIIC, CAGED
e RAIS
É Importante verificar se o trabalho
está sendo pago por tempo de
trabalho e se o vínculo (mesmo que
mediado por MEI) é constante na
contratação.
Condições de
trabalho19
Convenções coletivas do
SATED/SC, diferença
percentual relativa ao
rendimento médio do
setor (PNAD contínua e
SIIC).
Para precariedade ver
taxa de rotatividade
(CAGED) e vínculos
SATED/SC,
SIIC, CAGED
e RAIS20
É necessário verificar e comparar a
jornada de trabalho, direitos
trabalhistas como férias, licenças e
13º. Mesmo que a contratação seja
via MEI, verificar a relação da
remuneração com o “acréscimo” de
férias e 13º por comparação ao
mesmo trabalho.
18 Relações de trabalho aqui configuram-se especificamente nas relações de compra e venda de força de
trabalho (por tempo de trabalho), usualmente mediadas pela CLT ou, mais recentemente, por contrato com
Pessoa Jurídica (MEI). Importante especificar os “tipos” de contratos e mediações (sindical ou não) entre os
sujeitos sociais da relação de trabalho.
19 Condições de trabalho refere-se diretamente às condições das relações de trabalho especificamente
capitalistas. Nesse caso, o mapeamento deve identificar primeiramente a jornada de trabalho e a
remuneração por tempo de trabalho como critérios a serem apurados.
20 Importante que as fontes sejam atualizadas sempre no sentido de verificar as conexões entre as relações
de produção, os direitos trabalhistas e as organizações/movimentos de categoria ou classe.
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10
formais com duração
inferior a 6 meses (RAIS)
Essa tabela sintetiza a elaboração de um primeiro modelo para articular a
perspectiva de análise das categorias da crítica da economia política (Marx, 1989)
e as fontes de dados primárias disponíveis que podem auxiliar no mapeamento do
mercado de trabalho específico.
Através do levantamento dos dados pela aplicação desses indicadores
críticos, buscamos:
1. Desvendar as relações capitalistas específicas (geralmente do setor privado)
que estruturam o mercado de trabalho no setor cultural catarinense;
Foco: identificar as relações de trabalho com estabilidade de contratos (seja
via CLT ou via MEI).
Desdobramentos: após o levantamento dos dados acreditamos que será
possível identificar a proporção entre profissionais artistas disponíveis e vagas
no mercado de compra e venda de força de trabalho, possibilitando o
acompanhamento, ao longo dos anos, dessa relação.
21 Exemplos de CNAEs comuns para o setor artístico como MEI:
90.01-5/01
- Artistas independentes e grupos
de artistas independentes (para atores, bailarinos, músicos em espetáculos);
90.01-5/02
- Atividades de
apoio às artes cênicas (para técnicos: iluminador, cenógrafo, sonoplasta);
74.10-6/01
- Atividades de design
(para cenógrafos e figurinistas que atuam de forma mais autônoma);
85.52-9/01
- Ensino de artes nicas
(para dar aulas de teatro, dança, etc.);
82.30-0/01
- Promoção de eventos esportivos, culturais e artísticos.
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2. Desenvolver indicadores críticos para mapear a força de trabalho no setor,
cruzando dados quantitativos com a análise da ação sindical;
Foco: Identificar as reais condições de trabalho (jornada, direitos) e sua
relação com a organização da categoria das/os trabalhadoras/es da arte para
expansão e melhoria do mercado de trabalho.
Desdobramentos: a produção de análises críticas periódicas (séries históricas
e estatísticas) pode servir como uma ferramenta importante de negociação
e formulação de políticas.
3. Questionar a narrativa sobre o "investimento privado" na cultura,
demonstrando a relação de exploração e precarização no setor.
Foco: Verificar se investimento direto do setor privado ou se esse, além
de se valer dos incentivos estatais, pouco ou nada investe na ampliação do
mercado de trabalho específico.
Desdobramentos: aqui também, a produção de análises críticas periódicas
(séries históricas e estatísticas) pode servir como parâmetro para avaliar a
eficácia dos investimentos (públicos e privados) no setor, especialmente no
que se refere à geração de postos de trabalho.
Um dos eixos centrais desse modelo se revela, portanto, com a
demonstração da possível contradição entre os dados de desenvolvimento
quantitativo do setor e os desafios enfrentados pela organização coletiva dos
trabalhadores para garantir melhores condições de trabalho. Dessa forma, a
atualização das fontes de pesquisa e de indicadores a serem utilizados deve ser
feita sempre no sentido de apurar a relação entre as condições de trabalho e o
nível de organização da categoria das/os trabalhadoras/es da arte.
Outro importante desdobramento esperado, com o aprofundamento da
aplicação do modelo, é a verificação da diferença das condições de produção que
o Estado ofereceu para outros ramos industriais e que oferece para a Cultura.
Aferindo, assim, a relação das facilidades fiscais e o real aumento de oferta de
vagas de trabalho no setor.
Também é importante destacar que - mesmo que o levantamento e
“mineração” dos dados não tenha sido realizado para este trabalho (este não era
nosso objetivo), a discussão e proposição do modelo metodológico aqui apontado
permite sua aplicação e sua possível replicação em outros ramos e unidades da
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federação.
Ampliação: aprofundamento metodológico e a centralidade da luta de
classes
A abordagem analítica proposta pelo modelo que estamos apresentando não
se restringe à coleta de dados. Ela pressupõe a incorporação da lógica
interpretativa marxista que os contextualiza no movimento real da produção
capitalista e da luta de classes. A análise qualitativa das relações de produção no
setor privado - como a rotatividade e precariedade dos contratos por MEI e a
compra flexível da força de trabalho é essencial para desvendar como o mercado
de trabalho se concretiza na relação material de produção.
Esta metodologia permite visualizar não apenas a exploração na relação
específica de produção, mas toda a arquitetura socioeconômica que a viabiliza e
naturaliza. O "projeto" ou “job” torna-se, assim, a forma contemporânea
predominante de mediação da compra da força de trabalho no setor,
fragmentando a experiência laboral e dificultando a identificação clara do
explorador direto, sem, contudo, eliminar a essência da relação capitalista.
Neste cenário, a análise da ação sindical e da organização coletiva deixa de
ser um tópico complementar para se tornar um eixo central da investigação. A
capacidade de resistência e a construção de lutas horizontais por melhorias nas
condições de trabalho são variáveis decisivas que modificam materialmente a
equação da exploração. O estudo da atuação de entidades como o SATED/SC, suas
estratégias de mobilização, suas conquistas nas mesas de negociação e seus
períodos de maior articulação política (como verificado em outros estados com
sindicatos afiliados à CUT22), fornece a dimensão dialética necessária para
compreender a dinâmica do setor. É através dessa lente que se pode avaliar em
que medida o crescimento econômico se traduz, ou não, em ganhos para a
categoria das/os trabalhadoras/es da cultura, revelando que as condições de
trabalho e vida são um terreno de disputa.
22 A afiliação à Central Única dos Trabalhadores (CUT) identifica a categoria das/dos trabalhadoras/es da arte
como parte da classe trabalhadora “nacional” através de uma central sindical. Essa referência vem
sobretudo a partir das conquistas trabalhistas das/dos artistas pela Lei Federal 6.533, de 24 de maio de
1978.
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Análise do Setor da Cultura Catarinense: entre o potencial e a
precariedade
O estado de Santa Catarina apresenta um cenário paradoxal. De um lado,
destaca-se por polos de tecnologia e inovação, uma rica tradição cultural e
instituições de ensino artístico consolidadas. A cena catarinense é marcada por
grupos como o Cirquinho do Revirado (Criciúma), Cia. Carona de Teatro (Blumenau)
e a Cena 11 Cia. de Dança (Florianópolis), entre outros. Estes coletivos, embora
consolidados, operam majoritariamente no regime de projetos e editais, com raros
exemplos identificados até o momento de "compra da força de trabalho". Quando
contratação de força de trabalho, essa é realizada de forma esporádica e
instável, não configurando um processo contínuo de valorização do valor.
Como em outros ramos industriais, o investimento público é determinante
para a “criação” de um mercado. Em Santa Catarina o governo estadual destinou
apenas 1,7% de seus gastos à cultura em 2022, enquanto os municípios
catarinenses aplicaram 3,5% no mesmo ano23. É esse financiamento que, ao longo
dos anos, vai impactar diretamente a capacidade de estruturação de um mercado
para os produtos culturais no estado e, por consequência, a estabilidade do
mercado de trabalho na cultura.
Os dados mais recentes sobre a Indústria Criativa em Santa Catarina,
sistematizados pela Firjan (Firjan, 2025) parecem, à primeira vista, contradizer a
análise aqui proposta, ao apontarem um PIB criativo de R$ 23,9 bilhões (4º maior
do país) e um crescimento de 6,2% nos empregos do setor em 2023. No entanto,
uma análise detalhada revela a relevância do modelo que parte da crítica da
economia política.
No levantamento da Firjan (Firjan, 2025), a imensa produção econômica e a
geração de empregos estão concentradas nas áreas de Tecnologia (35,6%) e
Consumo (51,9%), como Publicidade e Design. O núcleo cultural, objeto deste
23 Gastos da administração pública. Especificamente na Tabelas 3.7 e 3.8 respectivamente - Despesa com
cultura dos governos estaduais e municipais, segundo as Grandes Regiões e Unidades da Federação - 2012-
2022. Disponível:
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/cultura-recreacao-e-esporte/9388-indicadores-
culturais.html. Acesso em: 14 nov. 2025).
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estudo, representa uma fração marginal de 5,6% do total, com as Artes Cênicas
respondendo por apenas 0,7% o que equivale a meros 488 vínculos
empregatícios formais em todo o estado. Este número ínfimo, que cresceu apenas
5,9% em um ano (ou 27 novos postos de trabalho), evidencia o desequilíbrio do
setor e a grande lacuna de mercado de trabalho na área das artes da cena.
Em um trabalho preambular de investigação sobre as relações de produção
especificamente capitalistas no ramo da cultura no estado, identificamos a
contratação de profissionais da arte pela J.B. World Entretenimentos S/A (Beto
Carrero World), exemplo de mercado de trabalho nos moldes que estamos
mapeando. A mediação no mercado de compra e venda de força de trabalho,
nesse caso, está sendo feita pelo SATED/SC, como entidade da categoria, que fez
a convocação da última Assembleia Geral dos Empregados da empresa24, como
sindicato representativo da categoria. Inferimos que setores como o hoteleiro e os
parques temáticos também podem se apresentar como possíveis nichos de
mercado de trabalho nos moldes capitalistas.
Ainda que seja possível identificar uma tímida expansão do setor privado da
cultura no estado, essa não se traduz necessariamente em melhores condições
de trabalho para a maioria das/os trabalhadoras/es. A estrutura do setor privado
mostra-se frágil, com baixo investimento de capital de risco e poucas
especialidades artísticas onde a força de trabalho específica também possa ser
aplicada. A falta de postos de trabalho impacta diretamente a capacidade de
estruturação de um mercado de trabalho estável no setor da cultura.
Embora, como mostramos acima, tenhamos alguns dados do mercado da
cultura em Santa Catarina, observamos que o detalhamento sobre os números
que refletem as relações de trabalho nos parâmetros específicos é necessário.
Discussão: A contradição do crescimento e a força sindical
Enquanto o British Council celebra a economia criativa como o setor onde a
“fonte” da riqueza "na era da informação do século XXI é talento, imaginação,
24https://satedsc.org/2025/06/30/convocacao-de-assembleia-geral-para-empregados-do-parque-beto-carrero-3/.
Acesso em: 14 nov. 2025.
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habilidades e conhecimentos: a criatividade" (British Council, 2010, p. 18),
consideramos que o discurso da criatividade como recurso pode esconder uma
relação de precariedade na consolidação de um mercado de trabalho formal no
setor.
O que começamos a verificar, através dos dados, é uma contradição crucial:
o setor cultural catarinense, conforme medido pelo IBGE, apresenta dinamismo,
mas este crescimento não refletiu de forma significativa no aumento dos postos
de trabalho e não foi acompanhado por um fortalecimento proporcional das
organizações dos trabalhadores para garantir melhores condições laborais. No
entanto, é precisamente diante de uma lógica de mercado desestruturante que a
organização sindical se mostra mais necessária.
A atuação dos diversos Sindicatos dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de
Diversões (SATED) no Brasil, particularmente em seu período de afiliação à Central
Única dos Trabalhadores (CUT), após 1990, na maioria dos estados brasileiros,
representou um contraponto significativo. Essa articulação nacional proporcionou
um período de avanços concretos nas relações produtivas, com a negociação de
convenções coletivas que estabeleceram pisos salariais, definiram direitos
trabalhistas específicos e criaram alternativas à lógica servil do mecenato. A
organização coletiva aparece, portanto, como a variável que modifica a equação
da exploração. Marx alertava sobre isso na luta pelas condições de trabalho e
explica: "[...] a regulamentação da jornada de trabalho se apresenta, na história da
produção capitalista, como luta pela limitação da jornada de trabalho, um embate
que se trava entre a classe capitalista e a classe trabalhadora" (Marx, 1989, p. 300).
No campo da produção cultural como capital, esse embate muitas vezes é
transladado para a questão das políticas públicas para a cultura. Porém, em nossa
análise, ressaltamos que são as relações de compra e venda de força de trabalho
que devem balizar tanto a análise do mercado de trabalho como a aferição da luta
de classes no ramo da cultura.
Esta constatação leva a questionar o cerne do financiamento do setor. A
análise demonstra que o chamado "investimento privado" frequentemente se
estrutura sobre a renúncia de direitos trabalhistas (convenções coletivas que
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distorcem acordos históricos) e a externalização de riscos para o trabalhador
(contratos pontuais e esporádicos), que assume a condição de
microempreendedor individual (MEI) ou pessoa jurídica.
Por outro lado, o chamado "investimento privado" via leis de incentivo
representa, via de regra, renúncia fiscal. Uma estimativa preliminar indica que a
maior parte do valor captado corresponde a recursos públicos indiretos,
descontados os benefícios fiscais. Este modelo, longe de fomentar a autonomia
do setor, aprofunda sua dependência de um mercado instável, sem garantir a
contrapartida de direitos trabalhistas sólidos, criando um ciclo vicioso de
precariedade que somente a organização coletiva pode romper.
Conclusão: por uma Metodologia Crítica e um Projeto Político para o Setor
Cultural
Este artigo procurou demonstrar a viabilidade da crítica da economia política
como fundamento para uma metodologia materialista de análise do mercado de
trabalho cultural. O modelo proposto pretende desvendar as relações capitalistas
que estruturam o setor privado cultural catarinense, revelando uma contradição
fundamental: a retórica da inovação e do dinamismo convive com a realidade de
um mercado escasso e com instabilidade dos vínculos para a força de trabalho
nas artes cênicas. Ao adotar as categorias marxistas - força de trabalho, mercado
e relações de produção - como eixo estruturador, procuramos encontrar um
caminho para superar a mera descrição estatística para expor as condições sociais
de produção que subjazem aos números.
O principal avanço deste trabalho reside na apresentação de um modelo
analítico que articula conceitos fundamentais da crítica da economia política com
fontes de dados estatísticos oficiais disponíveis. O sistema de indicadores críticos
proposto oferece uma ferramenta metodológica que, longe de ser neutra, coloca-
se a serviço das pessoas proprietárias somente de sua força de trabalho e da
transformação das relações de produção. A replicabilidade do método, ancorada
nos dados do IBGE, permite sua aplicação em outras unidades federativas (assim
como outros ramos da indústria capitalista), abrindo caminho para análises
comparativas e a construção de um painel crítico nacional.
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Os desdobramentos deste trabalho apontam para rumos frutíferos tanto para
a pesquisa quanto para a ação política. O artigo evidencia que a superação das
contradições identificadas não é um feito natural do desenvolvimento do setor,
mas um projeto político. Esperamos que pesquisas futuras apliquem e refinem
esta metodologia, utilizando-a em outros estados e subsetores da cultura,
permitindo uma comparação nacional e a identificação de padrões e alternativas.
Para a organização dos trabalhadores, a principal contribuição é a geração de uma
ferramenta de diagnóstico. O conhecimento crítico produzido por essa lente
analítica – que aponta como o investimento privado direto ou o "investimento" via
renúncia fiscal não se reverte em estabilidade laboral pode instrumentalizar
diretamente as pautas de reivindicação sindical, fortalecendo a negociação
coletiva e as lutas por direitos. A organização das/dos trabalhadoras/es,
exemplificada pela histórica atuação de entidades como o SATED, não é um
apêndice desta equação, mas a força social fundamental sem a qual a superação
das contradições se torna impossível.
Por fim, ao desvelar as necessidades laborais materiais dos artistas, este
enfoque contribui para redefinir o próprio conceito de “desenvolvimento” do setor
cultural. A verdadeira construção do setor da cultura no Brasil deve ser medida
não apenas por indicadores econômicos abstratos, mas pela capacidade de
trabalhadoras e trabalhadores se organizarem e exercerem com garantias
trabalhistas seu ofício, reinserindo a produção artística na esfera do trabalho e
desmistificando o discurso da criatividade como recurso inesgotável e desprovido
de relações materiais de produção.
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RAIS – Relação Anual de Informações Sociais - Ministério do Trabalho e Emprego.
Disponível em: http://pdet.mte.gov.br/rais
Recebido em: 27/11/2025
Aprovado em: 11/07/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas
PPGAC
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