
Práticas espaciais e visualidades cênico-performáticas afro-brasileiras na aparição do “Nego Fugido”
Cristiano Cezarino Rodrigues
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-25, ago.2026
âmbito deste estudo que aborda as visualidades e as práticas espaciais.
Com relatos que remontam ao século XIX, o “Nego Fugido” mobiliza aspectos
culturais, espirituais e sociais que são agenciados, essencialmente, pela
performance dos corpos que habitam, enraízam e se encantam no território de
Acupe. Sua origem está associada a um ritual praticado pela população para
combater os efeitos nefastos, frutos de uma praga lançada por Iku (Morte) sobre
o território de Acupe durante o período de escravização. Sobre a praga de Iku,
escreve Pinto:
Aprendi, com Paulo Henrique da Cruz – Tat’etu Ria Mukixi Mutalange do
Enzo Tumbalê Junçara, de nação angola, em Acupe, várias histórias sobre
a origem da aparição. Um desses relatos, chamado de A Praga de Iku, diz
que escravizados de nação haussás do Engenho Acupe eram obrigados a
realizar cultos aos Eguns (espíritos), a mando do senhor de engenho, que
oferecia escravizados rebeldes em sacrifício para adquirir bens e dinheiro.
O Tata conta que, após o sacrifício, os sacerdotes enterravam os corpos
dos escravizados no fundo da fazenda, sem o consentimento do senhor
de engenho, e plantavam bananeiras e um tipo de árvore específica, em
cada cova, para que os espíritos dos mortos permanecessem entre os
vivos e continuassem lutando contra as atrocidades promovidas pelos
senhores e pelo sistema escravista. Durante dezenas de anos um grande
bananal foi mantido no local e, até hoje, os acupenses acreditam que as
almas dos escravizados moram nas bananeiras. São inúmeros os relatos
em que os moradores afirmam ter presenciado as bananeiras do
cemitério dos escravizados sangrarem após serem cortadas, como
aparece na fala de Reginaldo dos Santos Gomes, vaqueiro da fazenda
onde ficava o antigo Engenho Acupe, na época da produção do
documentário Nego Fugido, do Instituto de Radiodifusão Educativa da
Bahia – IRDEB (Pinto, 2021, p. 26).
O “Nego Fugido” é uma aparição que atualiza a narrativa dos negros
escravizados fugidos, que lutam pela liberdade interrompida pelo poder colonial.
A manifestação é organizada por grupos locais compostos por brincadores, cujos
corpos se transformam em figuras míticas e guerreiras. Sua dinâmica se dá de
forma ritualística, performática e coletiva. As figuras que compõem a manifestação
são as Nêgas, que são os escravizados fugidos. É brincada por crianças vestidas
com shorts brancos e cara pintada de preto; os Caçadores, que caçam as Nêgas,
as aprisionam e as vendem pelas ruas, também com a face pintada de preto,
vestindo uma saia de folhas de bananeira, camisa, colete, chapéu, mais alguns
acessórios e munidos de espingardas; o Capitão do Mato, figura que controla os
caçadores, traja roupas de couro, chapéu e aparece munido de chicote; o Rei, que