
A Palestra-performance e o conhecimento encarnado
Sofia Rodrigues Boito
Florianópolis, v.2, n. 58, p.1–23, ago. 2026
mais de reivindicar que a arte também é uma atividade intelectual, mas que a
atividade intelectual também é (deve ser) sensível. Performar o saber é, assim,
antes de tudo, assumir a corporeidade, subjetividade, sensibilidade daquele que
produz o conhecimento, distanciando-se da noção moderna e eurocêntrica do
conhecimento como neutro e impessoal, como observa a pesquisadora e artista
Anne Creissels (2018, p.143):
Diante do “conteúdo” de uma palestra-performance, surgem
interrogações no que concerne a legitimidade da fala, seu estatuto, seu
poder. Performance e conhecimento têm em comum o fato de serem
espaços simbólicos de enunciação, de afirmação, de instauração. Uma
prática os reúne: aquela da encenação, até mesmo ritualização, da fala.
Lugar privilegiado da transmissão do conhecimento, a conferência se
revela, de fato, sob sua aparente transparência acadêmica ou social, um
exercício do âmbito da performance, com seu próprio protocolo e seus
acessórios. O limite entre conhecimento e performance, como aquela da
arte e da vida, se apaga. Diante das fronteiras derrubadas, interrogamo-
nos sobre a pretende neutralidade do conhecimento, sua pretensa
universalidade. Meio privilegiado de inscrição de uma subjetividade, a
performance é, de fato um ato de incorporação18.
O ato de incorporação do conhecimento abole, assim, a dicotomia
mente/corpo, possibilitando que o saber não se construa apenas pelo raciocínio
lógico, mas também a partir de sensações, memórias, afetos. Essa outra maneira
de conhecer o mundo, que não se pretende distanciada e universal, é privilegiada
por sujeitos que foram objetos de estudo da ciência moderna, sujeitos que até
agora foram subalternizados e infantilizados (Gonzales, 2020)19 por um sistema de
dominação calcado na epistemologia racionalista europeia. É nesse sentido que a
antropóloga Suely Messeder, junto ao seu grupo de pesquisa Enlace, cunhou o
conceito de “pesquisar(a) encarnado(a)”.
18 Face au « contenu » d’une conférence-performance, surgissent des interrogations concernant la légitimité
de la parole, son statut, son pouvoir. Performance et savoir ont en commun d’être des espaces symboliques
d’énonciation, d’affirmation, d’instauration. Une pratique les réunit : celle de la mise en scène voire de la
ritualisation de la parole. Lieu privilégié de transmission du savoir, la conférence s’avère en effet être, sous
son apparente transparence académique ou sociale, un exercice relevant de la performance, avec son
protocole et ses accessoires. La frontière entre savoir et performance, comme selle entre art et vie, se
brouille. Ce décloisonnement mène à interroger la prétendue neutralité du savoir, sa prétention à
l’universalité. Moyen privilégié d’inscription d’une subjectivité, la performance est en effet un acte
d’incorporation. (Tradução nossa)
19 Sobre o conceito de infante: “o conceito de infante se constitui a partir de uma análise de formação psíquica
da criança que, ao ser falada pelos adultos na terceira pessoa, é consequentemente excluída, ignorada,
colocada como ausente apesar de sua presença” (Gonzales, 2020 p. 41).