
Blackface e representações negras: uma história contra-hegemônica do teatro
Marcos Nogueira Gomes
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-25, ago. 2026
como fotos e depoimentos. Todo esse amplo material é analisado em diálogo com
a historiografia dos
minstrels
.
A aproximação entre esses dois fenômenos passa, sobretudo, pela
recorrência do
blackface6
, mas também pela disseminação de estereótipos que
foram associados à identidade nacional nos dois países e que resistiram por boa
parte do século XX, orientando discursos oficiais e hegemônicos. Por outro lado,
também se dá pela presença de músicos e artistas negros no palco e,
fundamentalmente, pela incorporação da cultura negra diaspórica no interior da
indústria cultural de massa, orientando discursos e narrativas contra-
hegemônicas.
Segundo Miriam Garcia Mendes (1982), o estereótipo da
mulata
surge nos
palcos brasileiros em 1870 na comédia
Direito por linhas tortas
, de França Júnior.
No Teatro de Revista vai se tornar recorrente e estabelecer uma mudança entre a
representação da mulher negra como escravizada (
mucama
) para outra imagem
de controle7, agora ligada à sexualização exacerbada do corpo feminino negro.
No livro
O teatro de revista no Brasil
, a pesquisadora Neyde Veneziano (1991)
aponta que se construiu no teatro, nas duas primeiras décadas do século XX, uma
correlação direta entre os estereótipos da
mulata
e da
baiana
, e destaca a Revista
de Ano
República,
de
1889,
de Arthur Azevedo e de seu irmão, o escritor Aluísio
Azevedo, como precursora da versão fundida dessas duas imagens de controle.
A vendedora de laranjas Sabina, carregada por uma pequena multidão de
estudantes pelas principais ruas da capital do Império, uma mulher negra após a
abolição decretada há poucos meses, tomava o palco do Teatro de Revista na pele
6 A história do
blackface
no Brasil é anterior ao Teatro de Revista. Após a cidade do Rio de Janeiro se tornar
sede do Império português, a profissão do ator, até então desprestigiada, é ressignificada, e o teatro passa
a ser um espaço para as classes dominantes. Em 1810, o então príncipe regente e futuro rei dom João VI
ordena, por meio de um decreto, a construção de um teatro 'decente' (Prado, 2003, p.31). Os atores negros,
que até então atuavam muitas vezes com os rostos pintados de branco em óperas estrangeiras, são
retirados de cena, e as personagens negras, quando aparecem anos depois na comédia de costumes,
sempre escravizadas, como nas peças de Martins Pena (a partir de 1838), são representadas por atores
brancos pintados de preto. Mesmo assim, há nomes de artistas negros que compõem a história do teatro
brasileiro nesse período e que podem ser acessados na
Enciclopédia brasileira da diáspora africana
, escrita
e organizada por Nei Lopes (2011).
7 Conceito desenvolvido por Patricia Hill Collins: “a ideologia dominante na era da escravidão estimulou a
criação de várias imagens de controle inter-relacionadas e socialmente construídas da condição de mulher
negra que refletiam o interesse do grupo dominante em manter a subordinação das mulheres negras”
(Collins, 2019, 140).