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A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi
e formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
Grácia Navarro
Larissa de Oliveira Neves
Para citar este artigo:
NAVARRO, Grácia; NEVES, Larissa de Oliveira. A
montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e
formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v.2, n. 58, ago. 2026.
DOI: 10.5965/1414573102582026e0216
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A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
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Grácia Navarro2
Larissa de Oliveira Neves3
Resumo
O artigo examina a montagem de
Atenas: Mutucas, boi e Body
(2025), entendendo a montagem cênica
como prática de pesquisa na qual o pensamento dramatúrgico se produziu no encontro entre texto,
direção, atrizes e atores, tomando a cena como espaço de elaboração conceitual. A metodologia partiu
da leitura e espacialização integrais do texto, em diálogo com a formatividade de Luigi Pareyson. A cena
apresentou a sinopse e discutiu a articulação entre tragédia contemporânea e Bumba-meu-boi,
destacando o Coro das Mutucas e as tensões entre promessa, festa, território e violência. Ao articular
pesquisa acadêmica, pedagogia artística e criação cênica, a reflexão afirma o teatro como forma de
leitura crítica do trágico na contemporaneidade.
Palavras-chave
: Montagem como pesquisa. Formatividade. Tragédia contemporânea. Bumba-meu-boi.
Teatro e território.
The montage as research: tragedy, Bumba-meu-boi and formativity in Atenas:
Mutucas, boi e Body
Abstract
The article examines the stage production of
Atenas: Mutucas, boi e Body
(2025), approaching theatrical
performance as a research practice in which dramaturgical thinking emerged through the encounter
between the text, the director, and the performers, treating the stage as a space for conceptual inquiry.
The methodology was based on the integral reading and spatialization of the text, in dialogue with Luigi
Pareyson’s concept of formativity. The performance presented the play's premise while exploring the
relationship between contemporary tragedy and Bumba-meu-boi, highlighting the Chorus of
Mutucas
and the tensions among promise, festivity, territory and violence. By bringing together academic
research, artistic pedagogy and scenic creation, the reflection affirms theater as a form of critical
reading of the tragic in contemporaneity.
Keywords:
Staging as research. Formativity. Contemporary tragedy. Bumba-meu-boi. Theater and
territory.
El montaje como investigación: tragedia, Bumba-meu-boi y formatividad en Atenas:
Mutucas, boi e Body
Resumen
El artículo examina la puesta en escena de
Atenas: Mutucas, boi e Body
(2025), entendiéndola como
una práctica de investigación en la que el pensamiento dramatúrgico se produjo en el encuentro entre
el texto, la dirección y las actrices y los actores, asumiendo la escena como un espacio de elaboración
conceptual. La metodología partió de la lectura y la espacialización integrales del texto, en diálogo con
el concepto de formatividad de Luigi Pareyson. La puesta en escena presentó la sinopsis y analizó la
articulación entre la tragedia contemporánea y el Bumba-meu-boi, destacando el Coro de las Mutucas
y las tensiones entre promesa, fiesta, territorio y violencia. Al articular investigación académica,
pedagogía artística y creación escénica, la reflexión afirma el teatro como una forma de lectura crítica
de lo trágico en la contemporaneidad.
Palabras clave
: Puesta en escena como investigación. Formatividad. Tragedia contemporánea. Bumba-
meu-boi. Teatro y territorio.
1 Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Mirela Garcia dos Reis. Graduação em Letras- Língua Portuguesa
Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
2 Livre-docência pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutorado e Mestrado em Artes pela Unicamp.
Graduação em Artes Corporais pela Unicamp. Profa. na graduação e na pós-graduação em Artes da Cena da Unicamp.
Coordena o Grupo Pindorama - Pesquisa e Extensão em Artes da Presença (CNPq) e o LabDrama Laboratório de
Dramaturgias e Escritas Performativas da Unicamp. gnavarro@unicamp.br
http://lattes.cnpq.br/1181345417180923 https://orcid.org/0000-0001-5620-1731
3 Livre-docente na área de Fundamentos Teóricos das Artes pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Doutorado
e Mestrado em História e Teoria Literária pela Unicamp. Profa. de teatro brasileiro e dramaturgia do Instituto de Artes da
Unicamp. Líder do grupo de pesquisa Peripécias. larissan@unicamp.br https://lattes.cnpq.br/6238228710475915
https://orcid.org/0000-0001-7183-4078
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Introdução
Este artigo apresenta a experiência de montagem de
Atenas: Mutucas, boi e
Body
como prática de pesquisa e formação em teatro, articulando criação cênica,
pedagogia e reflexão teórica. A partir da noção de montagem como pesquisa, o
texto discute o processo desenvolvido no âmbito do Projeto Integrado de Criação
Cênica do Bacharelado em Artes Cênicas da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), examinando como a encenação adensa a compreensão dramatúrgica
e atualiza, no encontro entre tragédia contemporânea e Bumba-meu-boi,
questões de território, pertencimento e colapso social na cena brasileira atual.
Nesse sentido, a montagem aqui analisada constitui o caso de estudo que organiza
o artigo e orienta seus procedimentos analíticos.
No segundo semestre de 2025, propusemo-nos a montar
Atenas: Mutucas,
boi e Body
, de Igor Nascimento e Lauande Aires (2019 ), como material para o
estudo da Narratividade, tema que atravessa um conjunto de disciplinas do
Bacharelado em Artes Cênicas da Unicamp, reunidas no PICC Projeto Integrado
de Criação Cênica. O processo assumiu a montagem como pesquisa, partindo do
entendimento de que a compreensão do texto se adensa quando o pensamento
se realiza em cena, no encontro entre atrizes, atores, direção, equipe técnica e
material dramatúrgico.
Nesse contexto, a Narratividade operou como eixo teórico-pedagógico de
acompanhamento do processo, orientando a leitura da fábula, da progressão dos
acontecimentos e da organização das ações em cena. Mais do que um tema
conceitual, tratou-se de uma ferramenta de análise e de criação, mobilizada para
observar como a estrutura narrativa da peça produz sentido, conflito e colapso,
articulando dramaturgia, rito e encenação.
Montagem como pesquisa: percurso metodológico e fundamentos
teóricos
Como metodologia de criação, adotamos, em primeiro lugar, o conhecimento
da peça em seu todo, por meio da leitura e da espacialização integral do texto.
Buscávamos que a obra falasse conosco, que nos informasse “a que veio”, para
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então retornarmos às partes. Assim, realizamos um percurso reiterado do todo
para as partes e das partes para o todo, refazendo essa trajetória ciclicamente até
que, ao final de quatro meses, tínhamos a peça montada, acrescida de
visualidades, e pudemos compreendê-la de maneira mais completa a partir das
apresentações públicas.
Esse movimento entre totalidade e fragmento foi acompanhado por uma
atenção constante à narratividade da obra, entendida como organização da fábula,
encadeamento das ações e produção de causalidades. A leitura reiterada permitiu
observar como a progressão narrativa estrutura a escalada do conflito e prepara
o colapso trágico, articulando rito, território e violência.
Essa experiência dialoga com Luigi Pareyson, em
Estética: teoria da
formatividade
(1993), para quem a obra, ao ser iniciada, é pressentida em seu todo.
Pareyson descreve um modo particular de formação próprio das artes e
compreende o formar, antes de tudo, como “fazer” (
poiein
), mas não qualquer
fazer. Só há formação quando, em vez de executar um projeto previamente dado,
aplicar uma técnica ou seguir regras fixas, o sujeito inventa, no próprio curso da
ação, o
modus operandi
e a regra da obra, concebendo e projetando enquanto
realiza. Nas palavras do autor:
Em ntese, formar significa por um lado fazer, executar, levar a termo,
produzir, realizar e, por outro lado, encontrar o modo de fazer, inventar,
descobrir, figurar, saber fazer; de tal maneira que invenção e produção
caminham passo a passo, e no operar se encontrem as regras da
realização, e a execução seja a aplicação da regra no próprio ato que é
sua descoberta (Pareyson, 1993, p. 60).
Pareyson chama a atenção também para a dificuldade de analisar o êxito,
que revela plenamente sua lei quando está completamente realizado. Enquanto
o processo está em curso, não norma evidente: é preciso descobri-la no próprio
ato de operar. Antes do êxito, predominam a incerteza, o risco do fracasso e a
possibilidade de dispersão; há apenas uma expectativa operosa, indistinta, que se
define no momento em que o êxito se consuma. Nesse sentido, o tentar não é
ignorar o caminho nem apenas seguir uma estrada dada, mas abrir o próprio
caminho entre possibilidades múltiplas:
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O tentar não é nem ignorar o caminho nem enveredar pela estrada, mas
antes ir abrindo o próprio caminho: não é a vertiginosa abertura de
infinitas possibilidades equivalentes nem a exata consciência de uma
possibilidade única a realizar, mas o esforço para desemaranhar de um
nó de possibilidades aquela que permita o bom êxito. (Pareyson, 1993, p.
74).
Foi desse modo que se coordenou4 o processo, assumindo o tentar como
modo de fazer e agregando a perspectiva do encontro da diretora com as atrizes
e os atores, a equipe técnica e o texto de Igor Nascimento e Lauande Aires. Uma
reunião de forças que se articula e se dá a ver na obra cênica final. Assim nasceu
a “nossa”
Atenas
, como afetuosamente nos referimos à peça ao longo do trabalho.
Contexto institucional e formativo da montagem
Atenas: Mutucas, boi e Body
estreou na Mostra Cênica de Verão 2025,
realizada de 6 a 27 de novembro, com entrada gratuita e aberta ao público interno
e externo à universidade. A mostra reuniu os experimentos cênicos desenvolvidos
ao longo do segundo semestre de 2025 pelos estudantes do Bacharelado em Artes
Cênicas do Instituto de Artes da UNICAMP. A montagem da peça
Atenas
integrou
o projeto de pesquisa, financiado pela Fapesp (2023/14688-6), ao projeto
pedagógico do curso e ao processo de curricularização e valorização da extensão
que a universidade vem empreendendo.
O trabalho foi apresentado no âmbito do programa de extensão do
Departamento de Artes Cênicas, que organiza a Mostra Cênica de Verão ao final
dos segundos semestres, concretizando o diálogo contínuo entre universidade e
sociedade por meio de ações de formação, pesquisa e difusão artística. A Mostra
traz o público para dentro do campus e, simultaneamente, leva alguns espetáculos
para fora dele, oferecendo arte acessível e de qualidade e reintegrando espaços
de convívio artístico na cidade de Campinas. A programação completa e a equipe
realizadora da Mostra Cênica de Verão estão disponíveis em:
https://www.iar.unicamp.br/labprod/mostra-cenica-de-verao-2025/
A ficha técnica evidencia competências integradas de criação, pesquisa e
4 O processo foi dirigido e coordenado pela autora Grácia Navarro.
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produção cênica, ao articular dramaturgia, direção e laboratórios de práticas
corporais e vocais como eixos metodológicos do processo. Indica domínio do
trabalho coletivo e da formação artística ao reunir docentes do Bacharelado em
Artes Cênicas, elenco de estudantes de graduação, programa de pós-doutorado,
estágio docente para pós-graduandos (PED), apoio didático (PAD), técnicos de
cenografia e de iluminação cênica, costureiras e bordadeiras, em funções ligadas
à direção teatral, aos laboratórios de práticas corporais e vocais, à criação de
figurinos e cenografia, à música, à iluminação, aos estudos teóricos, aos ensaios,
ao registro fotográfico e audiovisual, à produção, à assessoria de imprensa e ao
próprio acontecimento da apresentação, incluindo recepção e encontro com o
público. Explicita ainda competências de conceituação e execução de
materialidades, como cenografia, figurinos, tingimento, bordado e costura, bem
como de composição visual e técnica, como maquiagem e iluminação, da
concepção à operação, além de produção e gestão do projeto. As ações formativas
agregam competências de transmissão de saberes da cultura popular em diálogo
com a prática acadêmica, e as vinculações institucionais indicam a capacidade de
articular extensão universitária, pesquisa financiada e realização artística em rede
de parcerias e apoios. A ficha técnica é apresentada na íntegra em nota5.
Sinopse
Em
Atenas: Mutucas, boi e Body
, uma comunidade de Bumba-meu-boi de
um bairro periférico de São Luís, que vive sobre palafitas, está às vésperas de
5
Ficha técnica
de
Atenas: Mutucas, boi e Body
.
Texto:
Igor Nascimento e Lauande Aires.
Direção e Laboratório
de Práticas Corporais:
Profa. Dra. Grácia Navarro.
Elenco
: Aliane Aguiar, Anna Babler, Caju Kehdi, Carl Vieira,
Georgia Maria, Glenda Cardoso, Júlia Diniz, Lara Miranda, Maria Clara Oliveira, Nathalia Barcelos, Paula
Sampaio, Rosa Cacilhas, Vênus Gaya e Victoria Furtado.
PED
: Tiago Marques (música, laboratórios e ensaios)
e Giulia Elisa Garcia de Souza (estudos teóricos).
PAD
: Ivan Lucca (documentação fotográfica, ensaios e
objetos cênicos).
Laboratório de Práticas Vocais
: Fernanda Machado (pós-doutoranda).
Estudos teóricos
no processo de criação
: Profa. Dra. Larissa de Oliveira Neves.
Cenografia, figurinos e objetos nicos
:
orientação de Maria Celina Gil (pós-doutoranda);
realização de cenografia
por Isadora Cardoso, Julia Pupim,
Marília Landi e elenco;
apoio técnico em cenografia
de Marco Laporte (funcionário).
Figurinos
: realização
por Deise Torres, Ivete Cardoso, Julia Pupim, Léllia Cardoso e Marília Landi;
costureiras
: Deise Torres, Ivete
Cardoso e Léllia Cardoso;
bordadeiras
: Julia Pupim e Marília Landi;
orientação e realização de tingimento
:
Anna Khul.
Maquiagem: concepção do elenco. Iluminação: concepção de iluminação
: Glenda Cardoso e
Lara Miranda; realização: Laboratório de Iluminação do IA;
operação de iluminação
: Julia Rocha.
Produção:
Glenda Cardoso e Lara Miranda.
Fotografia:
Ivan Lucca. Ações formativas: oficina do toque de Bumba-meu-
boi (Yasmim Matias Silva) e palestra-atividade “Ação dramática em Atenas, mutucas, boi e Body: a morte do
boi e o linchamento” (Igor Nascimento). Vinculações: ação desdobrada do Projeto FAPESP (2023/14688-6) e
projeto artístico-pedagógico da Mostra do Departamento de Artes Cênicas (IA/UNICAMP). Realização:
Departamento de Artes Cênicas, Instituto de Artes, UNICAMP, LabProd, PROEC/UNICAMP, LabProd e Decult.
Apoio: PRP/UNICAMP e DEAPE/UNICAMP.
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realizar sua festa, que se para o pagamento de uma promessa. O bairro está
sendo cooptado por uma empresa imobiliária chamada Olimpo, que deseja
comprar as casas e em troca oferece casas em outro bairro distante do território
sagrado onde o grupo habita. A comunidade tem de que, se não cumprirem a
promessa, maldições terríveis podem vir a acontecer em seu bairro, como
ocorreu no passado (no caso, um incêndio destruidor). O Coro de Mutucas
(mulheres que ajudam na organização da festa) convoca a comunidade para a
vigília do pagamento da promessa.
No entanto, descobrem que o porco que serviria de refeição para a festa fora
roubado, “passaram a mão no capado (...) No porco engordado da tal promessa”
(Aires; Nascimento, 2016, p. 233). A partir desse fato, a busca pelo culpado e o
medo de não cumprir a promessa espalham suspeitas “de dentro e de fora”,
reacendem memórias ruins e intensificam a pressão para “pagar a conta”.
Rosário é a bordadeira do Boi. Ela borda também para o pagamento de uma
promessa, que fez quando seu filho nasceu doente e fraco. Recuperado, o menino
cresceu e Rosário manteve a promessa de sempre participar da festa entregando
o bordado novo a cada ano. Body, apelido de Mateus, agora um adolescente de
quase dezoito anos, precisou ir morar com uma tia, fora do bairro, por uma
acusação do passado que não é esclarecida no texto.
Para que essa vigília e essa suspeita ganhem corpo na cena, a tensão se
concentra em Rosário, que borda o couro do Boi, promessa da Vila de Atenas. De
um lado está Pedro, marido de Rosário, padrasto de Body e comerciante; de outro,
Body, o filho de Rosário, que vive afastado, do outro lado da ilha, por seu
envolvimento com a
matilha
(como é chamado o grupo de jovens associados a
delitos ocorridos na vila). A tensão se alavanca com as suspeitas em torno de Body
se engrandecendo até chegar à tragédia final, seu linchamento.
Entre cantos, cortejos e anúncios de alto-falante, a peça, de texto rimado,
mistura tragédia e Bumba-meu-boi para interrogar quem decide o destino do
território: “De assentar-se em baldrame / e alavancar-se do mangue” (Aires;
Nascimento, 2016, p. 234); “Ninguém de pôr a mão / No corpo deste torrão /
Pelo preço ou pela espada”. (Aires; Nascimento, 2016, p. 224)
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A partir desse ponto, a narrativa da fábula passa a ser tomada como material
de análise do trágico, permitindo observar como a organização dos
acontecimentos, os deslocamentos de culpa e a progressão das ações constroem
uma forma específica de narratividade que conduz ao trágico.
Essa tensão se explicita no próprio texto da peça, aqui proferido pelo Corifeu,
pelas Mutucas e por Rosário:
CORIFEU
Livrai-nos de reviver tragédia de tal porte!
Ah, mas quanta raiva desse bandido!
Ardem meus olhos em ódio bem forte,
Que seja tão logo encontrado e punido.
Saiamos em busca de novo repasto
Para recobrir o que foi subtraído;
Quem pouco tem sabe o quanto é doído
Ver ser levado o suor derramado.
MUTUCAS
(cantando, ao sair)
Enquanto não achamos o seu paradeiro,
Pedimos que ajudem com o que têm (bis).
Um trocado, uma joia pro nosso brinquedo,
Doem, por favor, dez, trinta ou cem (bis).
Atentai, atentai para qualquer suspeito,
Já não confiamos em ninguém (bis).
(Rosário sai de casa e é abordada pelas Mutucas.)
MUTUCA I
Rosário, tu que vais tão apressada,
Não ouviste nada do que foi roubado?
ROSÁRIO
Atarefada entre costura e bordado…
(Aires; Nascimento, 2016, p. 226).
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Figura 1 - Rosário sob pressão do Coro das Mutucas para a identificação do ladrão do capado, a
entrega do bordado e o cumprimento da promessa. Apresentação de
Atenas: Mutucas, boi e Body
na Mostra Cênica de Verão 2025. Foto: Ivan Lucca.
Na Figura 1, vemos Rosário, ao centro, de saia, sob a pressão do Coro das
Mutucas, que exige a entrega do bordado para o cumprimento da promessa, e
manifesta a desconfiança de que Body, seu filho, tenha retornado à vila e possa
ser o responsável pelo furto do capado.
A peça e a questão do trágico
Tomada, a partir daqui, como material de análise, a fábula de
Atenas:
Mutucas, boi e Body
permite explicitar de que modo a peça elabora a ideia de
trágico na contemporaneidade, ao articular ritual, corporeidade e conflito
territorial.
Essa análise parte também da observação da estrutura narrativa da peça,
considerando como a progressão da fábula, a repetição ritualizada das ações e o
encadeamento dos acontecimentos produzem o colapso trágico não como
destino abstrato, mas como resultado de uma construção narrativa precisa.
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No intercâmbio
on-line
realizado pelo Ponto de Cultura Garapa com o Grupo
Santa Ignorância, dedicado à escrita e à montagem de
Atenas: Mutucas, boi e Body
(Santa Ignorância, 2020), Lauande Aires, coautor da peça, narra que, após a estreia
de
O miolo da estória
, espetáculo de sua autoria que toma o Bumba-meu-boi
como referência, encontrou, via universidade, um texto sobre o ritual de uma
cidade grega em que um boi era engordado ao longo de um ano e, ao final,
sacrificado para a obtenção de seu maná, capaz de purificar o espaço comunitário.
O relato o remeteu aos ritos do ditirambo e também ao Bumba-meu-boi,
reativando a questão da corporeidade e o desejo de aprofundar o estudo sobre a
tragédia grega. A partir desse impulso, buscou desenvolver uma dramaturgia que
incorporasse os passos do boi e as etapas do Bumba-meu-boi e, ao mesmo
tempo, ampliasse a compreensão da tragédia. Após dois anos de trabalho, Igor
Nascimento foi convidado a compor, com Lauande, a autoria da dramaturgia
(Santa Ignorância, 2020, 1:07:26).
Essa concepção, que articula ritual, corporeidade e tragédia, revela-se
decisiva não apenas no plano da escrita, mas também nas opções cênicas que
orientaram o trabalho de montagem analisado a seguir. A peça condensa sua ação
na duração de um único dia e se passa em um grande terreiro, preparado para a
festa de pagamento da promessa. Ao longo da encenação, bandeirinhas de papel
são penduradas continuamente, transformando o espaço cênico em um arraial
em construção.
Esse gesto de preparação sobrepõe a disputa fundiária à estrutura ritual do
auto do Bumba-meu-boi, que culmina na morte do boizinho de São João, fazendo
coincidir, em um mesmo tempo, o preparo da festa e o cumprimento da
promessa. A sobreposição anuncia a tensão central da obra: a incapacidade do rito
de conter a violência social que se instala.
À medida que os varais de bandeirinhas se acumulam, o terreiro se configura
como um arraial, estética típica das festas juninas em São Luís do Maranhão e no
Brasil como um todo, associada aos espaços onde acontecem as brincadas de
Bumba-meu-boi.
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Figura 2 Rosário sobre o andaime casa-quitanda, objeto cênico central que concentra casa, comércio e
território, sob a pressão do Coro das Mutucas. Apresentação de
Atenas: Mutucas, boi e Body
na Mostra Cênica de Verão 2025. Foto: Ivan Lucca.
Na Figura 2, vemos Rosário sobre o andaime, objeto cênico que condensa a
casa e a quitanda da família.
Figura 3 Andaime casa-quitanda tracionado em sentidos opostos pelo Coro das Mutucas e por Pedro, de
um lado, e por Rosário e pelos empregados da empresa fundiária, de outro, evidenciando a disputa
territorial. Apresentação de Atenas: Mutucas, boi e Body na
Mostra Cênica de Verão 2025. Foto: Ivan Lucca.
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Na Figura 3, esse mesmo andaime aparece tracionado em direções opostas:
de um lado, pelo Coro das Mutucas e por Pedro; de outro, por Rosário e pelos
empregados da empresa fundiária. A imagem evidencia a disputa pelo território e
a animosidade produzida entre os moradores como estratégia de enfraquecimento
da coesão comunitária, favorecendo a ação da empresa. Nas Figuras 1 e 2, observa-
se ainda o acúmulo progressivo das bandeirinhas no teto, que acompanha o
avanço da ação e reforça a sobreposição entre o preparo ritual da festa e o conflito
fundiário que culmina no linchamento de Body, em paralelo à morte ritual do boi.
A intensificação do conflito ocorre porque o roubo desestabilizou a
comunidade: desapareceu da festa o animal engordado para alimentar os
brincantes, o que inviabiliza o pagamento da promessa. Body fora visto na vila, na
manhã do acontecimento, em um barco, com um embrulho nas mãos. Esse
momento explicita a passagem da desconfiança difusa para a personalização da
culpa. Ao retornar para a casa de Rosário, pressionado pela mãe, Body confessa
que, embora “não seja santo”, desta vez foi apenas testemunha do caso e viu quem
realizou o roubo. Ainda assim, a palavra do jovem não encontra escuta, o que
evidencia o colapso das instâncias de mediação e justiça no interior da
comunidade.
Rosário, colérica diante da imputação de culpa ao filho, descarrega sua ira
sobre a comunidade e rasga o couro do boi que vinha bordando em paga da
promessa feita pela saúde de Mateus, promessa adensada pela promessa coletiva
da comunidade frente a uma tragédia anterior. Esse gesto não opera apenas como
reação emocional, mas como ruptura simbólica do pacto ritual que sustentava a
coesão comunitária. Ao rasgar o couro, a promessa é rompida, e esse ato marca o
colapso simultâneo do rito, da e da possibilidade de contenção da violência,
convertendo-se em vingança de Rosário contra a comunidade que persegue seu
filho.
Paralelamente, Rosário havia colocado Mateus para morar com uma irmã,
enquanto negociava, em segredo, com a Empresa Olimpo, a entrega da casa e da
quitanda, em troca da mudança para a prometida
Nova Atenas
. Contra a vontade
do marido, Pedro, ela concretiza a venda, acreditando que, assim, se mudaria e
que o “problema” com o filho estaria resolvido.
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Pedro, irado e dilacerado com a venda e com a possibilidade de ser arrancado
do território, entrega Body à comunidade. Ele desacredita o relato do jovem, que
afirma que Rosário rasgara o couro e que ele o levaria à tia para consertá-lo a
tempo de cumprir a promessa; ao ver o bordado rasgado, Pedro anuncia que Body
fugiu levando o couro para vendê-lo e indica a direção de seu paradeiro.
Figura 4 O Coro das Mutucas aponta Body como autor do furto do capado, intensificando a
suspeita e a perseguição. Apresentação de
Atenas: Mutucas, boi e Body
na Mostra Cênica de
Verão 2025. Foto: Ivan Lucca.
Na Figura 4, observa-se uma cena em que o Coro das Mutucas aponta Body
como autor do furto do capado, a partir de sua presença na vila no momento do
ocorrido.
A comunidade, em polvorosa, ordena e inicia a caçada a Body em paralelo à
narração das partes do auto do Boi: primeiro o batismo, depois a brincadeira no
terreiro e, por fim, a caça e a morte mítica que compõem o percurso anual do
Bumba-meu-boi. Aqui se consolida o paralelismo trágico entre sacrifício ritual e
violência social: o rito, incapaz de conter o conflito, passa a legitimá-lo. Sobreposto
ao sacrifício simbólico do boi, ocorre o sacrifício real de Body, linchado pela
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comunidade. Rosário, dilacerada, evoca santos e promessas pedindo clemência,
mas o fato está consumado: seu filho, Mateus, apelidado de Body, não vive mais.
A seguir, apresenta-se um trecho da peça em que o rasgo do couro surge
como resposta de Rosário à culpa imposta ao filho, que, nesse momento, se prova
inocente:
BODY
Pezão.
Aquele que já foi Lucas,
Filho de Dona Lúcia, mutuca,
Ajudado por Pinote e Garrote,
Que o deram fuga no bote.
ROSÁRIO
Insulto! Ultraje! Baixeza!
Pirraça! Despeito! Desonra!
Opróbrio! Vileza! Torpeza!
Infâmia! Ofensa! Afronta!
BODY
Acalma-te, se não chamarás atenção…
ROSÁRIO
Chamarei!
Mas não com estes gritos de fúria, e sim pelos fatos.
Pagar-me-ão cada injúria, esse covil de ratos.
(Rasga o couro do boi.)
Aqui eu rasgo o contrato,
Já que não posso rasgá-los um a um,
Pedaço a pedaço.
Já que não posso rasgá-los,
Transfiro a este bordado!
Vós, Mutucas, atiçaram o cão com vara curta!
Não vai ter festa! Não vai ter festa!
Sem o boi não tem promessa!
(Pausa.)
Mateus, olhe nos olhos meus e atende o meu apelo:
Ninguém vai te pôr a mão pelos crimes de terceiros.
A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
Grácia Navarro| Larissa de Oliveira Neves
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-20, ago. 2026
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Ninguém mais haverá de te apontar os dedos.
Agora que percebestes teus descaminhos,
Partiremos ainda hoje pro nosso novo destino.
Iremos eu e tu apenas,
Iremos pra Nova Atenas [...]
(Aires; Nascimento, 2016, p. 249).
Figura 5 - Rosário rasga o couro do Boi, observada por Mateus Body.
Apresentação de
Atenas: Mutucas, boi e Body
na Mostra Cênica de Verão 2025.
Foto: Ivan Lucca.
Na Figura 5, o rasgo do couro do boi não opera apenas como reação imediata
de Rosário diante da acusação imposta ao filho, mas se afirma como imagem-
síntese do trágico encenado. Nesse gesto, condensam-se os vetores analisados ao
longo do processo, a promessa, o rito, o território, a violência coletiva e o colapso
das mediações simbólicas. A ação de rasgar o couro interrompe simultaneamente
a festa e o pacto comunitário, tornando visível a falência do ritual como forma de
contenção da violência social.
A imagem é reverberada pela presença de mais três Rosários em cena,
intensificando o gesto e deslocando-o do plano individual para uma dimensão
coletiva e histórica. Observam-se duas Rosários em ação simultânea, uma sobre
A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
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o andaime casa-quitanda e outra no chão, sob o olhar de Mateus, Body, o que
amplia a cena para além do drama familiar e a inscreve como alegoria de um
colapso social mais amplo. O adensamento das bandeirinhas, que continuam a ser
penduradas à medida que a tragédia se consolida, reforça essa contradição
central: o preparo da festa avança enquanto a promessa é irremediavelmente
rompida.
Nesse sentido, o rasgo do couro sintetiza, em um único gesto cênico, a
impossibilidade de conciliação entre rito e violência estrutural, explicitando o
núcleo do trágico contemporâneo proposto pela peça. O que se apresenta não é
apenas a ruptura de uma promessa, mas o colapso de um sistema simbólico
incapaz de sustentar a vida coletiva diante da especulação fundiária, da
perseguição e do linchamento.
É a partir desse clímax que a peça formula sua leitura do trágico
contemporâneo. O colapso não se apresenta como destino, mas sim como
resultado histórico de forças em conflito que atravessam corpos, territórios e
vínculos comunitários. O andaime casa-quitanda, continuamente tracionado,
materializa a instabilidade do território e a disputa fundiária; o Coro das Mutucas,
ao mesmo tempo voz coletiva e agente da perseguição, explicita a erosão da
coesão comunitária; a promessa, sustentada pelo rito do Bumba-meu-boi, revela
sua insuficiência como mediação simbólica; e o rasgo do couro do boi concentra,
em um gesto irreversível, a falência desse sistema ritual diante da violência
estrutural.
Assim, acumulam-se e se entrelaçam os vetores que estruturam o trágico da
peça: promessa, brincadeira, boi, território, linchamento e capital. A especulação
fundiária e imobiliária, ao retirar o povo da terra e romper sua ligação com o
território em nome de uma promessa de progresso, instala o colapso como forma
contemporânea do trágico. Não se trata, portanto, da repetição de um modelo
clássico, mas da atualização do trágico como experiência de desterramento,
violência coletiva e impossibilidade de reconciliação, em que rito, comunidade e
justiça não conseguem conter a catástrofe anunciada (Santa Ignorância, 2020,
1:22:32).
A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
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A montagem e o tempo histórico de sua realização
A formulação do trágico contemporâneo, construída ao longo da peça e
explicitada no colapso da promessa, ganha ressonância quando aproximada do
tempo histórico em que a montagem foi realizada. Na época em que escrevíamos
o encerramento da montagem, sob ordem do governador Cláudio Castro (PL), as
forças de segurança do Rio de Janeiro realizaram, em 28/10/2025, nos complexos
do Alemão e da Penha, uma operação de grandes proporções. O jornal
G1
registrou
que, dos 121 mortos da megaoperação, 117 foram mortos pelas polícias e 4 eram
agentes de segurança, caracterizando a ação como a mais letal da história do RJ
(Coelho, 2025, sem paginação). Em 30/10/2025, a revista
Piauí
publicou “À procura
do filho”, matéria que destaca o desespero de mulheres em busca de filhos e
companheiros e descreve, entre outros elementos, a centralidade dessas
mulheres na sustentação da cena pública do horror, no cuidado, na denúncia e na
preservação da memória dos mortos (Moura, 2025, sem paginação).
Essa tragédia é um dos muitos episódios que evocam as mulheres periféricas
brasileiras como epicentro de sofrimento e cuidado, em que eclode o colapso do
trágico na contemporaneidade brasileira. Arrimadas sobre seus corpos, a
maternidade e, na maioria das vezes, a responsabilidade pela criação e sustento
de filhos, netos e agregados fazem delas protagonistas de uma tragédia social
marcada por falta de horizonte, ausência de educação e cuidado em saúde, intensa
especulação fundiária, ação de milícias, tráfico de drogas e ausência do Estado.
São muitas Rosários nesses Brasis de desigualdade social intensa. A partir dessa
observação, criamos para o espetáculo um final especialmente marcado pelo
tempo em que a peça estava sendo montada, retratando muitas Rosários à
procura de seu filho Mateus, que, no batistério do crime e da rua, ganhou o
codinome de Body. A Figura 6 traz a imagem dessas muitas Rosários velando seus
filhos neste Brasil de desigualdade social, em que a falta de horizonte incide de
modo brutal sobre a população negra, originária e periférica.
A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
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Figura 6 Rosários velando seus filhos, imagem final que condensa luto, violência e colapso
social. Apresentação de
Atenas: Mutucas, boi e Body
na Mostra Cênica de Verão 2025.
Foto: Ivan Lucca.
A experiência de
Atenas: Mutucas, boi e Body
confirma a potência da
montagem como método de pesquisa e formação, ao articular prática cênica,
reflexão teórica e pedagogia em um mesmo gesto criativo. Trata-se, assim, de um
processo pedagógico intenso de teatro universitário que, embora resguardado
institucionalmente, não se furta a reverberar uma experiência de dramaturgia
cênica feita em contato com a tensão dos processos criativos. Nesse percurso,
sobrepõe-se, no próprio processo de criação, a associação entre arte e promessa,
na medida em que ambas se plantam no devir: tanto a artista quanto a pagadora
de promessas se entregam completamente para concretizar a ação artística, para
pagar a promessa, incorrendo em toda a vulnerabilidade que tais posições
agregam, expostas à instabilidade própria das trajetórias, conforme descrito em
Teatro de Quermesse
(Navarro,
Urdimento
, 2023, p.7).
A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e formatividade em
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O acompanhamento teórico focado na Narratividade revelou-se, nesse
contexto, fundamental, ao oferecer ferramentas para compreender como a cena
organiza ações, conflitos e sentidos, transformando a progressão narrativa em
campo de pensamento e criação. Ao aproximar tragédia contemporânea e Bumba-
meu-boi, a encenação transforma a cena em chave de leitura do presente, fazendo
emergir, nas imagens do coro, do andaime, da promessa e do rasgo do couro, as
tensões entre território, pertencimento, especulação e violência estrutural. Por fim,
a ficha técnica, apresentada na íntegra em nota, evidencia a densidade coletiva do
trabalho, ao reunir competências integradas de criação, pesquisa e produção
cênica em uma rede de colaboração entre docentes, estudantes, pós-
doutorandas, programas de apoio e equipes técnicas.
Referências
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BORRALHO, Tácito; MARTINS, Bene (Org.).
Coletânea Teatro do Maranhão Teatro
do Norte Brasileiro
, v. 1. São Luís: EDUFMA, 2019. E-book, p. 221-246. Disponível em:
http://www.edufma.ufma.br/wp-content/uploads/woocommerce_uploads/2020/05/E-book-
Coletânea-Teatro-do-Maranhão.pdf. Acesso em: 7 ago. 2025.
COELHO, Henrique; MOREIRA, Gabriela; VON SEEHAUSEN, Lucas. Veja quem são
os mortos identificados após megaoperação com 121 óbitos no Rio de Janeiro.
G1
,
Rio de Janeiro, 31 out. 2025, 13h57. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-
janeiro/noticia/2025/10/31/lista-mortos-identificados-megaoperacao-rj-penha-
alemao.ghtml. Acesso em: 16 nov. 2025.
MOURA, Matheus de; COELHO, Leonardo. À procura do filho.
Piauí
, São Paulo, 30
out. 2025. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/parentes-penha-alemao-
operacao-rio/. Acesso em: 16 nov. 2025.
NAVARRO, Gracia Maria. Teatro de Quermesse.
Urdimento
- Revista de Estudos em
Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1, n. 46, p. 1–31, 2023. DOI:
10.5965/1414573101462023e0201. Disponível em:
https://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/22726. Acesso
em: 4 abr. 2026.
PAREYSON, Luigi.
Estética: teoria da formatividade
. Tradução de Ephraim Ferreira
Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993.
A montagem como pesquisa: tragédia, Bumba-meu-boi e formatividade em
Atenas: Mutucas, boi e Body
Grácia Navarro| Larissa de Oliveira Neves
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-20, ago. 2026
20
SANTA IGNORÂNCIA CIA DE ARTES. Intercâmbio Online Santa Ignorância Cia de
Artes
ATENAS: MUTUCAS, BOI E BODY
. Transmitido ao vivo em 6 nov. 2020.
Realizado pelo Ponto de Cultura Garapa. YouTube, [s.d.]. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=e43OozTxNqs. Acesso em: 15 nov. 2025.
Recebido em: 04/04/2026
Aprovado em: 27/07/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas PPGAC
Centro de Artes, Design e Moda CEART
Urdimento
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