
Editorial
Dossiê Temático: Estudos do reenactment nas artes da cena
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-16, ago. 2026
Na bibliografia básica dos estudos da performance, Richard Schechner (2014)
expõe que toda performance é um refazer, que nenhum gesto é pela primeira vez.
Nesse sentido, a ideia de reperformance pode ser um pleonasmo. Mas pleonasmos
podem ser performativos: pela reiteração, podem dobrar sentidos, ativar escutas,
sinalizar contradições e distorcer obviedades. O “re” pode ser, então, uma questão
de ênfase na diferença da reincidência, um desejo de testar a falha do encontro
perdido, de imaginar reposicionamentos ou de sonhar outras coordenadas para a
experiência do espaço-tempo, como na ficção especulativa da ciência ficção.
Nesse sentido, muitos textos desse dossiê temático podem ser vistos como gestos
de crítica institucional, que buscam outras corporalidades, embocaduras e práticas
de escuta para os dizeres das artes entre o fardo da história e a história para a
vida.
A re-visão — o ato de olhar para trás, de ver com olhos arejados, de entrar
em um texto antigo por uma perspectiva crítica nova — é, para nós, mais
que um capítulo na história cultural: é um ato de sobrevivência. Até que
possamos entender as pressuposições em que estamos afogadas, não
podemos conhecer a nós mesmas. E esse desejo de autoconhecimento,
na mulher, é mais que uma busca por identidade: é parte da sua recusa
da autodestrutividade de uma sociedade dominada por homens. Uma
crítica radical da literatura, de impulso feminista, consideraria a obra,
antes de tudo, como uma pista sobre como vivemos, como temos vivido,
como fomos levadas a nos imaginar, como nossa linguagem nos
aprisionou tanto quanto nos libertou; e como podemos começar a
enxergar — e, portanto, a viver — de uma nova maneira (Rich, 1979, p.34).8
As palavras de Adrienne Rich repetidas acima, que partem de um contexto
de pensamento e escrita da poesia, do feminismo lésbico nos anos 1970,
reverberam para outras conjunturas, outras coreografias desejantes de contato
disruptivo com aprisionamentos e apagamentos para impulsionar experiências de
ultrapassagem. Os artigos reunidos nesse dossiê conjugam muitos verbos
8 Re-vision-the act of looking back, of seeing with fresh eyes, of entering an old text from a new critical
direction-is for us more than a chapter in cultural history: it is an act of survival. Until we can understand
the assumptions in which we are drenched we cannot know ourselves. And this drive to self-knowledge, for
woman, is more than a search for identity: it is part of her refusal of the self-destructiveness of male-
dominated society. A radical critique of literature, feminist in its impulse, would take the work first of all as
a clue to how we live, how we have been living, how we have been led to imagine ourselves, how our language
has trapped as well as liberated us; and how we can begin to see-and therefore live-afresh. (Tradução de
Daniele Avila Small).