Daqui de dentro, com amor
Dropped Keys Theatre Company
Tradução: Pietra Bonet, Caroline Vetori e Vicente Concilio
Para citar esta tradução:
Dropped Keys Theatre Company .
Daqui de dentro, com
amo
r. Tradução: Pietra Bonet, Caroline Vetori e Vicente
Concilio.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 58, ago. 2026.
DOI: 10.5965/1414573102582026e702
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Daqui de dentro, com amor
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Florianópolis, v.2, n.58, p.1-42, ago. 2026
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Daqui de dentro, com amor
Dropped Keys Theatre Company1
Tradução: Pietra Bonet2, Caroline Vetori3 e Vicente Concilio4
Resumo
Daqui de dentro, com amor
é uma peça original criada pela
The Dropped Keys Theatre Company
, um
grupo formado por docentes e estudantes de teatro da Universidade de Michigan (UM) e por pessoas
escritoras/es e atuantes sobreviventes do cárcere ou em privação de liberdade. O espetáculo se
originou de visitas regulares de estudantes às prisões, por meio de oficinas teatrais realizadas no
cárcere. No programa do espetáculo se explicita que a peça é uma resposta à tristeza sentida pelos e
pelas estudantes ao compreenderem que muitas pessoas em liberdade jamais conhecerão as pessoas
incríveis que vivem dentro dos presídios. Assim, o apresentadas histórias de vida, amor, dor, humor
e sobrevivência dessas pessoas. O público é então presenteado com uma dramaturgia-carta de
convocação à escrita de outros mundos, nos quais esses encontros possam acontecer pela palavra
materializada.
Palavras-chave
: Dramaturgia abolicionista. Cartas. Prisão. Teatro.
With Love, From Inside
Abstract
With Love, From Inside
is an original play created by the Dropped Keys Theatre Company, composed
of theater students from the University of Michigan (U-M) and writers and performers who are survivors
of incarceration or currently incarcerated. The production originated from the students' regular visits to
prisons to facilitate theatrical workshops. The play's program states that it is a response to the sadness
felt by the students upon realizing that many people in the outside world will never meet the
extraordinary individuals living behind walls. Thus, the life stories, love, pain, humor, and survival of
these individuals are presented. The audience is then presented with a dramaturgy-as-a-letter, a call
to write about other worlds where these encounters may take place through the materialized word.
Keywords:
Abolitionist playwright. Letters. Prison. Theater.
Desde adentro, con amor
Resumen
Desde adentro, con amor
es una obra original creada por la Dropped Keys Theatre Company, formada
por estudiantes de teatro de la Universidad de Michigan (UM) y por escritoras/es y actores/actrices
sobrevivientes del encarcelamiento o en situación de privación de libertad. El espectáculo se originó a
partir de las visitas regulares de los estudiantes a las prisiones, a través de talleres teatrales. En el
programa del espectáculo se explicita que la obra es una respuesta a la tristeza sentida por los
estudiantes al comprender que muchas personas en libertad jamás conocerán a las personas
extraordinarias que viven tras los muros. Así, se presentan historias de vida, amor, dolor, humor y
supervivencia de estas personas. El público es entonces agasajado con una dramaturgia-carta de
convocatoria a la escritura de otros mundos, donde estos encuentros puedan darse a través de la
palabra materializada.
Palabras clave
: Dramaturgia abolicionista. Cartas. Prisión. Teatro.
1 Dropped Keys Theatre Company foi o nome dado a um coletivo de teatro dedicado à criação de trabalhos cênicos em colaboração com pessoas em
privação de liberdade e sobreviventes do cárcere, que teve atividades entre 2023 e 2024. O coletivo é responsável pela criação de With Love, From
Inside, obra de autoria coletiva que reúne artistas, pessoas privadas de liberdade, sobreviventes do cárcere e colaboradoras/es vinculados à
Universidade de Michigan.
2 Licenciatura em Teatro pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR). Integra o grupo de pesquisa “Observatório de práticas artísticas no cárcere
e em espaços de privação de liberdade”. Atriz, arte-educadora e pesquisadora em teatro e prisão. Integra o grupo de pesquisa “Observatório de
práticas artísticas no cárcere e em espaços de privação de liberdade”. pietravbonet@gmail.com http://lattes.cnpq.br/7955234221096140
3 Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Mestrado em Teatro pela UDESC. Licenciatura em Teatro pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Coordena o projeto de pesquisa “Vozes que ecoam além muros: investigação de saídas-faíscas
do cárcere”. Integra o grupo de pesquisa “Observatório de práticas artísticas no cárcere e em espaços de privação de liberdade”. Profa. adjunta no
curso de Licenciatura em Teatro da Faculdade de Artes do Paraná na Universidade Estadual do Paraná (FAP/UNESPAR).
caroline.souza@ies.unespar.edu.br https://lattes.cnpq.br/5944868538223342 https://orcid.org/0000-0001-9389-272X
4 Doutorado e Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP). Licenciatura em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas
pela USP. Bolsista de produtividade PQ - C do (CNPq). Integra o grupo de pesquisa: ''Cena contra Celas: infiltração das artes cênicas em prisões como
práticas abolicionistas”. Prof. Dr. na graduação e pós-graduação em Artes Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Ator e diretor
teatral. viconcilio@gmail.com http://lattes.cnpq.br/3283711708471437 https://orcid.org/0000-0003-2897-1581
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Cartas são saídas
É com alegria que compartilhamos a tradução de
With Love, From Inside
, da
Dropped Keys Theatre Company
. Desde o retorno de uma viagem de estudos e
pesquisa a Michigan, em novembro de 2024, Caroline Vetori e Vicente Concilio
alimentam o desejo de traduzir e publicar a peça no Brasil.
Figura 1 Cartaz do espetáculo
With Love, From Inside
A partir da pintura original de Amanda Deblawe
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Em 2025, Pietra Vieira Bonet, que atuou junto a Vetori em projeto de iniciação
científica, realizou uma primeira tradução da peça para um encontro entre grupos
de pesquisa e extensão, que ocorreu na UDESC, em maio daquele ano, com a vinda
da profa. Dra. Ashley Lucas ao Brasil. Desde então, permanecia a vontade de tornar
acessível o texto a mais pessoas.
A presente tradução é um dos frutos da parceria internacional que segue
sendo aperfeiçoada ao longo dos anos, de colaboração de diferentes grupos e
projetos, dentre eles: o
Prison Creative Arts Project
(PCAP), maior programa
mundial de artes em prisões, com o qual mantemos interlocução por meio da
parceria com Ashley Lucas; o projeto de pesquisa
Cena contra Celas: teatro em
prisões como práticas abolicionistas
e o programa de extensão
Pedagogia das
Artes cênicas e Processos de Criação: Teatro e Encarceramento
, ambos
coordenados por Vicente Concilio na UDESC e, por fim, o projeto de pesquisa
Vozes que ecoam além muros: investigação de saídas-faíscas do cárcere
e o
projeto de extensão
Vidas além muros: teatro com mulheres em situação de
privação de liberdade
, coordenados por Caroline Vetori na Unespar. Cabe ainda
mencionar que integramos o
Observatório de práticas artísticas no cárcere e em
espaços de privação de liberdade
, coordenado pela profa. Dra. Viviane Narvaes e
pelo Prof. Dr. Vicente Concílio, que também integra essa rede de interlocuções.
Conforme o programa do espetáculo, trata-se de uma peça original, criada
pelo coletivo, composto por estudantes de teatro da Universidade de Michigan
(UM) e por escritoras/es e performers sobreviventes do cárcere ou que estão
cumprindo pena de privação de liberdade.
O espetáculo nasceu da atuação docente em unidades prisionais, por meio
de oficinas teatrais ligadas à disciplina
Teatro e encarceramento
, ministrada por
Ashley Lucas e Mary Heinen McPherson e que prevê atuação em campo. No texto
do programa, está explicitado que a peça é uma resposta à tristeza sentida
pelas/os estudantes ao compreenderem que muitas pessoas em liberdade jamais
irão conhecer as pessoas extraordinárias que vivem dentro das prisões. Assim, a
peça é construída por uma sucessão de cenas que apresentam histórias de vida,
amor, dor, humor e resistência às opressões da rotina prisional.
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As pessoas que compunham o elenco estavam à frente das oficinas de teatro
e por meio delas construíram vínculos artísticos com os estudantes privados de
liberdade, que então se tornaram colaboradores da dramaturgia.
Um dos pontos-chave da obra são as cartas. O texto do programa expõe que
as pessoas privadas de liberdade talvez constituam uma das últimas comunidades
a manter a escrita de cartas de maneira tão cuidadosa e plena de significados.
Figura 2 O elenco completo de
With Love, From Inside
. Foto: Ariana González Peláez
São os envios dessas cartas ao mundo exterior que tecem redes de apoio,
intervenções no sistema de justiça e até mesmo constroem a própria liberdade.
As cartas que aparecem ao longo do espetáculo são aquelas que tornaram a vida
das pessoas que compõem o coletivo mais significativa. A carta em cena
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materializa o desejo de compartilhamento sobre elas; um pedido, um convite
de amor enviado por essas pessoas de dentro dos muros a cada pessoa com
quem dialoga.
Acreditamos que o teatro, desde a própria escrita dramatúrgica, pode
constituir uma forma de saída. Pode ser uma forma de produção de brechas,
fissuras, encontros e deslocamentos que permitem imaginar outras formas de vida
e de relação para além do cárcere. Assim, ressaltamos a compreensão de que
toda cena produzida com pessoas privadas de liberdade, pelas pessoas privadas
de liberdade e com quem se encontra do outro lado, debatendo a questão
prisional, é uma forma de promover algo mais amplo, tendo conexão explícita com
nosso desejo por uma prática abolicionista. Se as cartas enviadas de dentro dos
muros constituem gestos de relação, de sobrevivência, de imaginação de outros
mundos, esta tradução deseja ser também uma carta: um convite ao encontro, à
escuta e à construção de saídas.
Figura 3 Mary Heinen McPherson em cena. Foto: Vicente Concílio
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Figura 4 Cena de mutação. Foto: Vicente Concilio
Figura 5 - Cena dos bonecos de luva - Adam Rogers, Nathan Goldberg, Jack Weaver,
Henry Baratz, Leah Block, Cozine Welch. Foto: Vicente Concilio
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Figura 6 - Nathan Goldberg, Sarah Oguntomilade, CC Meade,
Jack Weaver e Casey Wilcox. Foto: Vicente Concilio.
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Daqui de dentro, com amor
Criação
:
Dropped Keys Theatre Company
Autoria do texto
: Sam Aupperlee, Henry Baratz, Leah Block, Myah Bridgewater, Tyrice
Bullitt, Jordan Danski, Michael Davis, Tom Flowers, Arin Francis, Nathan Goldberg, Jeffrey
Dale Hilburn, D’Artagnan Little, Ashley Lucas, Steven Lucas, Myles Mathews, Mary Heinen
McPherson, CC Meade, George Mitchell, Sarah Oguntomilade, Clemente Peña, Shaylarena
Eugene Plaster, Adam Rogers, Richard Strong, Marita Glynise Talley, Jack Weaver, o Músico
Welch, Casey Wilcox e Steven “Swerve” Wilcox.
Direção de palco
: Nicole Ebels
Designer de iluminação
: Tate Zeleznik
Operador de luz
: Cortez Hill
Coordenação dos ensaios
: Ariana Victoria González Peláez
Financiamento
: Iniciativa para as Artes da Universidade de Michigan
Com a colaboração de nossas pessoas amadas do lado de dentro dos muros na escrita e
na criação
O programa entregue para o público apresenta um alerta que deve ser destacado para
quem lerá a tradução a seguir: “A obra apresenta algumas palavras ofensivas; menção
(mas não descrição) de violência sexual na prisão; representação de tráfico de drogas;
confinamento na solitária; descrições de condições de vida insalubres e perigosas nas
prisões, além de descrições do estado precário dos cuidados de saúde no sistema
prisional”.
Uma vida em cartas
As luzes acendem. Um palco apenas com cadeiras. À esquerda, encontra-se uma cadeira
e um violão. À direita, há uma caixa de correio. Várias cartas estão penduradas na parede
ao fundo. O Músico entra e observa a plateia. Em seguida retira, um a um, os envelopes
da parede. Pega a pilha de envelopes e caminha até a caixa de correio. Coloca, com amor,
os envelopes dentro da caixa de correio. Senta em sua cadeira e pega seu violão. Começa
a dedilhar sutilmente "Burn My Bones". Uma a uma, as pessoas do elenco entram e pegam
uma carta da caixa de correio. Abrem-na. Essas mesmas cartas retornarão na cena final.
Começam a ler em voz alta e em sobreposição. À medida que cada atuante termina de
ler, se senta. Foco no Músico que canta o refrão da música. Um ator pega sua carta, leva-
a até ele e retorna à sua cadeira. O Músico abre a carta, olha para a plateia e começa.
Músico
Sabe, eu costumava odiar o violão e tudo o que ele representava. Para mim, o violão
significava um futuro que nenhum poder no mundo poderia me garantir, uma mãe que
juiz ou júri algum me permitiria abraçar. Eu não conseguia enxergar além da dor da perda
para perceber a vida pulsando em mim. Mas, minha mãe…
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Minha mãe amava o violão. O pai dela, meu avô, a ensinou a tocar quando ela era
bem novinha. E ela sempre me dizia: “Meu filho, seu avô salvou minha vida quando me
deu aquele primeiro violão. Talvez não tenha me salvado de estar aqui, mas me manteve
viva o suficiente para ter você”.
A gente conversava, conversava, conversava, esticando as míseras ligações de 15
minutos do Centro Correcional de Scott e depois da Penitenciária Feminina de Huron
Valley em verdadeiras aulas poéticas sobre tudo, desde dedilhados de jazz até um violão
feito com o tipo certo de madeira que podia fazer até os dedos mais atrapalhados
encontrarem a alma da música.
A música dela era linda, mas as palavras dela eram mágicas. Quando eu era criança,
eu ficava todos os dias do lado da nossa caixa de correio. E a cada chegada do seu amor
em carta, minha mãe me ensinava e me criava.
Eu me debruçava sobre as cartas dela, escritas numa letra perfeita e fluida que eu
nunca vi igual, cheias de uma sabedoria que parecia muito antiga, muito firme e muito
bonita pra ficar presa num lugar tão escroto como a prisão. Ela sempre se certificava de
que eu tinha recebido suas cartas.
Principalmente quando a
Lei da Segunda Chance
estava pra ser aprovada. Essa lei
finalmente seria uma chance do juiz revisar a sentença dela, sua conduta excelente
dentro e a saúde cada vez pior ao longo dos anos ele podia revisar tudo a respeito dos
últimos 35 anos, e ela queria muito isso. E não vou mentir, depois de mais de 30 anos,
finalmente parecia possível. Finalmente parecia real. Uma chance de ver de novo, de ter
de novo, uma família.
E durante todo aquele ano antes dela falecer, uma vez por mês ela me mandava o
jornalzinho da Mama Drama. Essa edição especial tava cheia de pensamentos, de planos
e dos pedaços dela que ela juntava pra mim. Minhas partes favoritas dos jornaizinhos
eram as histórias. E eu ainda não sei se eram verdadeiras... mas por que eu ia deixar a
realidade atrapalhar uma boa história, né? Ela criava nomes e personagens. Um pequeno
roteiro, digamos. E sempre, sempre nessas cartas e histórias ela compartilhava comigo
um mundo inteiro da vida que acontecia por trás daquelas paredes mortas onde ela dizia
que: “As luzes estão sempre acesas, mas é um lugar muito escuro”.
Os jornaizinhos dela me fizeram perceber que a nossa família não era a única nessa
situação. Comecei o voluntariado com grupos de ativistas prisionais como o American
Friends Service Committee, o Nation Outside e o Safe and Just Michigan. Chegavam
muitas cartas de pessoas encarceradas nesses lugares. Enquanto eu me sentava e
esperava pelas cartas da minha mãe, comecei a acompanhar as de todo mundo não de
propósito, mas como se tivesse alguma coisa dentro de mim que simplesmente tinha que
fazer isso. Se eu não fizesse, quem faria?
Mas chega de falar de mim. Não foi pra isso que vocês vieram aqui. Certo? Não?
Talvez alguns de vocês? Enfim, as melhores partes de todas as histórias dela eram as
máximas, então pensei em compartilhar algumas com vocês hoje. Sabe, a moral da
história? Mas não se preocupem, isso não é nenhuma baboseira de conto de fadas. Estas
são as histórias da minha mãe trazidas à vida pelas máximas dela regras pra viver. Eu
lia e relia elas. Eram minhas favoritas. Sem dúvida
(
Olha a plateia com um sorriso. Agora com a carta 1 na mão
) Então, por que a gente
não começa pelo começo?
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O mediador
Músico
Um sábio é um mestre para poucos, mas todos são mestres para um sábio.
As luzes gerais acendem. Michael entra apressado. Ele está a caminho de uma oficina do
PCAP
.
Paul
Ei, cara. Tem um segundo?
Michael
Na verdade eu tava indo
Paul
Ótimo. Então, rolando uma situação com o Stewart agora. Conhece o Stewart?
Sempre falando sobre capitalismo e essas coisas.
Michael
Conheço, mas agora…
Paul
É. Então, o Stewart roubou meu miojo outro dia. E eu não sei o que fazer... Sabe, eu
realmente não quero piorar a situação. Então, pensei que talvez você pudesse falar
com ele. Talvez, sem dizer que eu pedi, mas só para que ele saiba que percebi que
sumiu.
Michael
Claro, cara. Falo algo quando ver ele. Só preciso ir pra oficina agora.
Paul
Valeu irmão. A gente se vê.
Michael começa a sair. Stewart entra.
Stewart
Ei! Irmão!
Michael
E aí?
Stewart
Preciso de um favorzinho.
Michael
É sobre a parada do Paul?
Stewart
Ah, sim… ele já te falou?
Michael
Acho que se você só devolver o miojo ou comprar alguma coisa pra ele…
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Stewart
Que merda. Não, aposto que ele não te contou o que aconteceu. Então, na semana
passada é, acho que foi no domingo passado, então, na semana passada, Paul
pediu emprestado meu caderno e minhas canetas de gel. Ele queria escrever uma
carta ou algo assim e agora…
Michael
Na verdade eu tô meio atrasado…
Stewart
Espera. Isso é importante pra história. Então, basicamente, ele ia pegar essas
coisas emprestadas por um dia, e tipo, já faz uma semana, e ele ainda não devolveu,
então eu peguei algumas coisas dele, já que ele gosta de pegar as minhas.
Michael
Você pediu seu caderno de volta?
Stewart
Não.
Michael
Talvez você pudesse avisar ele que quer suas coisas de volta e devolver o miojo
dele. Tenho oficina agora. Será que vocês dois podem resolver isso?
Stewart
Hum… eu já comi tudo. Talvez você pudesse só pedir de volta (vendo Paul do outro
lado do pátio). Sim, ele está bem ali, você podia só...
Michael vai até Paul.
Paul
Eu vi você conversando com ele.
Michael
Sim, ele disse algo sobre um caderno e umas canetas de gel que você pegou
emprestado, então talvez você pudesse devolver pra ele. Eu realmente preciso ir. A
oficina é tipo a única coisa que faço porque gosto de verdade aqui dentro.
Paul
Bom, é assim que me sinto sobre meu miojo. Você não pode fazer nada? Você é tão
bom em resolver as coisas.
Michael
Cara, você devia simplesmente conversar com ele e explicar como se sente. Olha.
Ele está vindo aí.
Stewart encontra Michael e Paul.
Stewart
E aí.
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Paul
E aí?
Michael
Acho que a gente podia resolver essa situação agora. Vocês pegaram coisas um do
outro e talvez possam só devolver essas coisas e deixar tudo isso pra lá.
Stewart
Eu te disse que você podia pegar meu caderno emprestado por um dia. E já faz uma
semana.
Paul
Eu pensei que você tinha dito que eu podia ficar com ele.
Stewart
Não, cara. Eu preciso dele de volta.
Michael
Vejam, é tudo um mal-entendido. Às vezes não vemos as coisas como realmente
são, vemos como queremos vê-las.
Paul
Ah, foi mal. Está no meu armário. Posso te devolver hoje à noite se você me devolver
meu miojo. Eu sei que foi você quem pegou.
Michael começa a se afastar discretamente.
Stewart
Ah... sim, acho que se você trouxer minhas coisas mais tarde, eu posso te devolver
seu miojo.
Paul
Legal. Michael, ei Michael? Para onde ele foi?
Stewart
Não sei. Acho que ele disse alguma coisa sobre uma oficina.
O casamento
Um círculo comunitário dentro de uma prisão, talvez uma oficina do PCAP.
Ashley
Tive que ir para a prisão para me casar. As mulheres que conheci dentro me
convenceram de que era a coisa certa a se fazer. Eu estava visitando um grupo de
teatro chamado
Sisters Within
, na Penitenciária Feminina de Huron Valley, em 2009.
Um grupo de estudantes universitários ia à unidade toda semana para criar peças
com as mulheres de lá. Elas estavam contando histórias de amor umas às outras
como forma de começar a trabalhar em sua próxima peça. Quando chegou minha
vez, eu contei sobre Phil.
Quando eu tinha dezesseis e ele dezessete, fomos à Conferência de Jornalismo
em Washington, DC. Havia adolescentes do ensino médio de todo o país lá, e fomos
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separados em grupos durante a semana. Meu grupo estava em frente ao Monumento
de Washington e precisava de alguém para tirar nossas fotos. Phil estava passando
com seu grupo, e ele foi o azarado que bombardeamos com vinte e cinco câmeras
para que pudéssemos ter a mesma foto.
Mais tarde naquela semana, acabamos na mesma mesa no jantar. Eu não sabia,
mas ele não tinha dinheiro para pagar sua refeição, então estava comendo apenas
os pãezinhos de cortesia. Ele mordeu um e o fez de fantoche para começar a
conversar comigo. Rimos durante todo o jantar e depois fomos dançar. Ele achou o
máximo que eu soubesse dançar a macarena. Na viagem de ônibus de volta para o
dormitório no final da noite, ainda estávamos conversando entusiasmados. Não faço
ideia do que eu estava dizendo, mas no meio de uma frase, ele me beijou.
No dia seguinte, eu tive que voltar para o Texas, e ele voltou para Michigan. Nós
escrevemos cartas um para o outro todos os dias durante um ano. Quase
exatamente dez anos depois de nos conhecermos, nos reencontramos em
Milwaukee e chamamos de nosso segundo encontro. Estamos juntos desde então.
Participante 1
Hum, então, o que você está esperando?
Participante 2
Garota, ele basicamente já colocou o anel no seu dedo!
Participante 3
Seria um erro não casar com esse homem!
Uma cacofonia de sons surge, todas gritando frases para Ash se casar com o namorado
até que...
Participante 2
O que está te impedindo? Juro que se eu não estivesse na prisão, eu me casaria
com ele por você!
Ashley
Bem, nada, exceto o fato de que meu pai está na prisão, e eu não suporto a ideia de
caminhar até o altar e ele não estar lá para testemunhar.
Silêncio, enquanto este momento se instala em toda a sala.
Participante 3
Eu entendo. Mas ele não gostaria que você parasse sua vida por ele.
Participante 1
Estou presa vinte anos, e minha filha se casou sem minha presença. Meu amor
por ela diminuiu? Claro que não.
Participante 2
Então é o seguinte! Você reserva uma cadeira onde seu pai deveria estar, e ambos
saberão que ele está bem ali com você.
Ashley
Ok. Eu vou, e vou reservar um lugar para todas vocês também.
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As irmãs cercam e abraçam Ash enquanto a cena muda. Música de casamento. Alguém
coloca um véu em Ash. Um convidado do casamento entra com uma placa grande e
bonita e a coloca em um assento ao lado de Mary.
Convidado
Entrega especial para a mãe da noiva!
Ash caminha lentamente pelo corredor. Sorri para sua mãe e deixa cair um par de chaves
perto da cadeira em frente à placa.
Ashley/Phil
Eu aceito!
Mudança de luz e som. O foco à esquerda do palco se acende em o Músico.
O poço
O Músico recebe a carta 2. Abre a carta.
Músico
Ah, essa é boa. Respeite seu corpo quando ele pedir uma pausa. Respeite sua mente
quando ela buscar descanso. Honre-se quando precisar de um momento para si.
O Músico entrega a carta para Mary. Ela lê. As luzes se acendem em Mary.
Mary
Esta é a história que eu trouxe da prisão. Esta é a história do poço.
Cheguei à Penitenciária Feminina de Florence Crane, que no início do século havia
sido uma escola estadual. Uma das guardas me contou que era corretora de imóveis e,
por anos, não conseguiu vender nenhuma propriedade em um raio de cento e sessenta
quilômetros de onde estávamos, porque a terra estava contaminada com dejetos fecais
de pássaros de uma floresta tropical da América do Sul, onde os fazendeiros fizeram um
negócio de cavar a merda e espalhar por toda fazenda local.
A prisão tinha um cheiro estranho. Se você colocasse uma xícara de água no micro-
ondas para fazer café, ela saía com sal e pequenas coisas brancas esfarelentas por cima.
A água parecia oleosa e cheirava mal. Nenhuma de nós sabia o que havia nela, mas
sabíamos que não era segura. Além disso, o local estava coberto de amianto nas placas
do teto e no papel enrolado nos canos. A sala de visitas tinha placas nas paredes que
diziam: "Não beba a água". E eu notei que os guardas não bebiam a água nem comiam a
comida dada pra nós.
O tempo passou. Fiquei por quase doze anos. E descobri algumas coisas com
minha amiga Diane, que era quase um FBI. Tipo, ela estava em todos os lugares. E ela veio
até mim um dia e disse: "Você não vai acreditar... Tem muitos sacos de descalcificante no
porão ao lado dos tanques de água, e eles estão adicionando sal à água, junto com
nitratos". Eu disse: "Puta merda!” Não era à toa que as mulheres estivessem menstruando
por dois ou três meses, tendo abortos espontâneos, derrames, câncer, hepatite, tudo que
você imaginar. Estávamos sempre doentes.
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Então, um dia, havia canos quebrados no jardim da frente, e a água estava por toda
parte. Eles começaram a cavar um buraco tão grande quanto uma piscina olímpica. Então
atingiram o cano de esgoto, e o buraco se encheu de esgoto bruto que dava pra sentir o
cheiro em todos os lugares. A única coisa boa nisso eu não deveria dizer isso, mas vou
era que os guardas tinham que passar por ele para a troca de turno.
Era verão quando se podia sentir o cheiro do esterco que eles colocavam nos
campos sobre o cheiro do buraco. Havia moscas e mosquitos por toda parte. Houve surtos
de hepatite C e tuberculose e as mulheres tinham pouquíssima proteção ou assistência
médica.
Durante esse mesmo período, estávamos procurando alguém que parasse o terrível
abuso sexual que estava acontecendo na prisão. Mulheres estavam sendo agredidas e
estupradas no porão e no armário dos fundos. Isso acontecia em espaços escondidos no
andar de cima e perto da lavanderia. Aconteceu até a chegada dos federais.
Então, um dia me chamaram ao centro de controle para uma visita. E eu pensei:
"Uma visita? Não era para eu ter uma visita hoje". Entrei e estavam dois advogados do
Departamento de Justiça, vestindo ternos de grife. Um apertou minha mão e disse: "Sou
seu novo advogado do Departamento de Justiça. Estou aqui para informá-la de que vamos
representá-la em uma ação coletiva por agressão sexual, e estamos muito felizes em
conhecê-la". Assim começou o litígio e eles começaram a reunir depoimentos das
mulheres que foram ao centro de controle uma por uma e testemunharam sobre como
foram agredidas e o que havia acontecido com elas. E elas nunca tinham falado nada.
Minha própria companheira de cela nunca me contou nada sobre ter sido estuprada até
anos depois, quando estávamos em casa. Simplesmente não se falava sobre isso
porque era muito perigoso. Mas era um segredo aberto, como o fato de que estávamos
sendo envenenadas pela água. Pensei que, se estávamos recebendo ajuda jurídica com o
caso de agressão sexual, poderíamos conseguir alguém para impedi-los de nos envenenar
com a água também.
Então comecei a reunir evidências sobre a água e as entreguei ao Departamento de
Justiça, e eles disseram: "Mary, sinto informar que não podemos fazer nada em relação à
água contaminada porque é muito abrangente e envolve toda a comunidade. Teríamos
que entrar com uma ação em nome de todos os proprietários em um raio de cento e
sessenta quilômetros. Não temos esse dinheiro e estamos cuidando de um caso de
agressão sexual no valor de bilhões de dólares”.
A unidade prisional era tão tóxica que eles tiveram que fechar suas portas em 1º de
novembro de 2000 e transferir todas as mulheres, mas não puderam arcar com a
demolição do prédio porque a limpeza ambiental era muito cara. A Penitenciária de
Florence Crane permanece fechada e vazia ao lado da Penitenciária de Lakeland, onde
1.500 homens ainda estão encarcerados.
Quando voltei para casa, fui em consecutivos funerais das mulheres que chegaram
antes de mim. Elas morreram de derrames, hepatite e cânceres raros, e as mulheres da
minha geração estão morrendo rapidamente. Enterramos nossas amigas, e as prisões
enterraram os registros.
Quando os federais entraram, vimos enfermeiras da prisão usando cadeiras de rodas
para levar nossos prontuários médicos pela porta da frente e escondê-los nos porta-
malas de seus carros. Os registros oficiais de nossos envenenamentos foram todos
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destruídos.
E assim a história da água e de como nos envenenaram não foi contada no tribunal.
Essa história nunca foi contada em outro lugar senão aqui.
O pulmão perdido
Peaches e Cookie estão em suas camas. Peaches está com falta de ar.
Peaches
Cookie? Cookie, eu preciso de ajuda. Não consigo respirar, Cookie. Eles levaram. Meu
pulmão está com eles.
Peaches se revira atordoada.
Cookie
O quê? Não ouvi direito.
Peaches
A guarda pegou meu pulmão, Cookie. É sério. Eu vi ela levando ele. A essa hora
provavelmente já está a caminho do caminhão indo pra longe daqui. Preciso da sua
ajuda, Cookie. Encontre meu pulmão.
Cookie
Meu Deus. Fica comigo, Peaches. Respira fundo, devagar, inspira e expira, inspira e
expira.
Um guarda começa a arrastar um cesto. Cookie ouve e começa a gritar.
Cookie
Ei! Ei! Guarda!
Mané5
Cookie
Pare! Por favor, pare! Tem uma coisa nessa lixeira que não deveria estar aí.
Mané
Ãn?
Cookie
O pulmão da Peaches! Você pegou o pulmão da Peaches! Não sei se você fez de
propósito. Não sei se ela ainda está respirando agora, e preciso que você verifique
imediatamente nesse cesto.
5 No original:
Doofus,
que significa bobão, ingênuo. Optou-se por Mané por carregar o mesmo significado na
língua portuguesa.
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Mané
(
Abre o cesto, olha de relance
)
Não, nenhum pulmão. Só lixo.
Mané continua caminhando.
Peaches
SOCORRO!
Mané
Por que você não leva ela pra enfermaria? Arranja uma guia para ela. Só se certifique
de que ela preencha todos os dados. Não posso te liberar pra fazer isso. Estou indo
para lá agora com este cesto.
Cookie
Você pode me ajudar a carregar ela?
Mané
Ah… eu tô meio ocupado agora, não sei se percebeu.
Mané vai até a enfermaria e joga o cesto nos pés da Médica. De volta à cela delas, sem
ajuda, Cookie começa a levantar Peaches.
Médica
Ahhh, Mané, quando eu não preciso de você, você aparece. Meu intervalo acabou de
começar; bom, tecnicamente nunca terminou. Adoro um dia parado. Você tem algum
suprimento médico extra?
Mané
Não. Só lixo.
Médica
Ah, que se dane. A gente nunca recebe o que precisa. Pode jogar isso ali perto da
lixeira. Não é como se a gente fosse salvar a vida de alguém hoje.
Mané se afasta distraído, passando por Cookie e Peaches a caminho da enfermaria.
Peaches o cesto passando e se agarra nele, Mané não percebe e continua arrastando
Peaches e o cesto em direção à lixeira. Cookie, sem saber o que fazer, corre até a Médica.
Peaches cai no chão.
Cookie
Ei! Socorro! Temos uma emergência!
Médica
Fora! Sai! Espera aí na porta até eu dizer que pode entrar.
Cookie
Não, não, não é para mim! Temos uma pessoa em um estado crítico! Você é a única
que pode ajudar!
Médica
(
Espiando pela porta
)
Caramba, ela não parece nada bem. Certo, entrem.
Peaches rasteja até a porta, com a ajuda de Cookie. A Médica estende a mão.
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Médica
Guia?
Cookie
Aqui! (
Entrega a guia
)
Médica
Não, não, não. Assim não pode. Ela precisa preencher a própria guia, ok? Corra e
pegue outra. Deite aqui enquanto esperamos.
Cookie corre. Peaches e a Médica ficam em silêncio, o único som é a respiração de
Peaches.
Médica
Isso é terrível. É, tive isso, resfriado forte. Geralmente acontece nessa época do
ano.
Peaches
Sem pulmão.
Médica
Você não pode ficar vindo aqui só por causa de um chiadinho.
Peaches
Não. Sem pulmão. Você roubou.
Médica
O que?
Cookies entra, mostra a guia.
Cookie
Aqui!
Peaches rabisca a guia.
Peaches
AAAAAAAAH
Médica
Ok, ok, mas é dessa vez. Nenhum dos outros médicos daqui faria isso por você.
Eles não se importam com a profissão. Você tem sorte que eu me importo.
A Médica começa a examinar o pulmão de Peaches.
Médica
Meu Deus. Ai meu Deus. Mané! Volta aqui agora com essa lixeira!
Médica, Peaches e Cookie fazendo barulhos frenéticos, discutindo. Mané volta andando
arrastado.
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Mané
Que?
Cookie
Onde está?
Mané
O pulmão?
Médica
É!
Mané
Eu joguei fora, como você mandou.
Café com biscoitos
O Músico recebe a carta 5. Abre a carta.
Músico
Quando o passado ligar, deixe cair na caixa postal. Ele não tem nada de novo a dizer.
As luzes gerais acendem.
Tom
Sonhar foi o que me ajudou a passar o tempo lá dentro. E vê-los se concretizar aqui
fora tem sido surpreendente. Hoje faz um ano que abri a Eu amo café com biscoito,
a primeira loja de biscoitos e café aberta 24 horas do mundo pelo menos até onde
eu sei. Eu sabia que era uma boa ideia pelo retorno dos universitários, mas ver como
a imprensa reagiu me deixou impressionado...
De volta ao dia da inauguração.
Prefeito
Sejam bem-vindos à grande inauguração da Eu amo café com biscoito! É uma honra
emprestar a tesoura para cortar essa fita! Sou um grande tanto de biscoitos
quanto de café!
Entrega uma tesoura gigante para Tom.
Prefeito
Mãos à obra, Sr. Flores!
Tom corta a fita.
Repórteres
Como está indo o grande dia? Quanto tempo levou? Algum plano de expansão?
Como você vai administrar tudo sozinho? Como será a Eu amo café com biscoito
daqui a dez anos para você?
Tom
(
escolhendo um repórter para fazer uma pergunta que ele consiga ouvir
)
Certo Sim, você! (
apontando
)
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Repórter 1
Então, o que você fazia antes de abrir a loja?
Tom
Hmm, então... Eu só estava fazendo planos, só... planejando, planejando, planejando!
Repórter 2
Claro, mas o que você fazia para se sustentar? Certamente você não estava trancado
em algum lugar todo esse tempo, estava?
Tom
Você se surpreenderia! É isso! O tempo acabou!
Volta para o presente.
Tom
Eu nunca me embananei tanto na minha vida! Tentar evitar a conversa de "eu estava
na prisão" na TV ao vivo é o tipo de coisa que só quem viveu sabe. Eu admiro quem
não esconde o fato de que esteve na prisão, mas eu quero seguir em frente.
Enfim, depois de uns seis meses, os negócios estavam indo tão bem que contratei
meu primeiro funcionário!
Volta para o passado. Tom e Keneth se cumprimentam com um longo aperto de mão,
dando a entender que se conhecem há anos.
Tom
Ok, Agora você já sabe como funciona. Você acha que consegue abrir a loja hoje?
Keneth
Claro, Flores! Deixa comigo dou café para quem pedir biscoito e dou biscoito para
quem pedir café. Simples!
Tom olha para Keneth com uma expressão tipo: "Não estrague tudo, cara".
Keneth
Eu trabalhei na cozinha quando a gente tava preso, lembra?! Isso é café com leite
ou melhor, com biscoito Ó como eu tenho jeito.
Tom
Tá bom, cara! Sem tempo para piadas! Tem uma fila enorme de clientes chegando!
Se prepare! (
Uma fila de clientes entra conversando animadamente
). Bem-vindos à
Eu amo café com biscoito! Como podemos servi-los hoje?
De repente, uma guarda interrompe a cena.
Guarda
(
antipática
)
Flores! Você está muito perto dos voluntários! Se eu tiver que repetir, vou encerrar
esta oficina.
Todos congelam. A guarda sai emburrada. Os estudantes se afastam de Tom e Keneth
.
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Tom
(
derrotado
)
É... então... esse é o sonho. Eu sei que parece loucura.
Keneth
Não, cara, não é loucura! Eu até vendo: você e eu, biscoitos e café, vinte e quatro
horas por dia, sete dias por semana! Gosto do seu jeito de pensar, Flores!
Todos concordam juntos.
Tom
Esse terreno não é fértil para flores ou sonhos. Não tem sol. Nunca chove. A única
terra que temos é concreto. A única erva que temos é a que te traz pra cá. Não
espaço para crescer até que você esteja pisando em outro terreno. Todas as
sementes que votem são confiscadas e afogadas. Este não é um lugar para flores.
Todos na oficina estalam os dedos (aplaudindo).
A solitária
O Músico recebe a carta 4. Abre a carta.
Músico
Quem não teme a solidão carrega em si uma força inigualável.
Várias/os atrizes/atores circulam o Músico, repetindo: "Quem não teme a solidão, possui
uma força inigualável". Durante o seguinte monólogo, o Músico executa uma sequência de
movimentos.
Ator 1
(lê enquanto o Músico toca música instrumental)
A Solitária.
Estar preso numa cela é como estar vivo no inferno. Você grita por ajuda, mas
ninguém te ouve. Preso e forçado a enfrentar seus medos sozinho. É um acúmulo
de traumas. Os dias são longos e as noites são frias, o vaso sanitário fica a um metro
de onde você dorme, as paredes são cheias de mofo. Você ouve pessoas gritando a
noite toda, é impossível dormir. Te colocam uma coleira de cachorro e você é levado
para um chuveiro enjaulado duas vezes por semana. A comida é fria e velha e
você mal consegue comer, mas os ratos e aranhas comem qualquer comida que
caia aos seus pés. Você fica anestesiado demais pra chorar, então fecha os olhos e
reza pra morrer. A única pergunta que você pode fazer a Deus é "por quê?"
Os dias e as noites sozinho fazem você se sentir vazio, achei que a segregação
tivesse sido proibida desde a década de 1960! Antes de ser jogado na cadeia, você é
despido e acorrentado como um escravizado. Depois de passar um tempo na
solitária, eu nunca mais serei o mesmo, o tratamento no isolamento é desumano.
Se os bons se omitem diante da opressão dos maus, de quem é a culpa?
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Cantor (
talvez outras pessoas, em coro
)
If I had my way
If I had my way in this wicked world
If I had my way
I would tear this building down!6
Cocô de pássaro
Luz no Músico. De repente, ele tem um impulso de abrir outra carta. Pode vir da parede
do fundo ou da caixa de correio. É uma carta de sua mãe.
Músico (para o público)
É do meu amigo Calvin, que é poeta lá dentro. O cara manda muito!
Sabe, os pássaros são uns idiotas. É, é isso mesmo. Os pássaros são uns idiotas.
Espera aí... bom, tá, gaivotas são idiotas. Nem todos os pássaros, acho. Embora eu
tenha ouvido umas histórias de pombos da Penitenciária de Mound que me deixem
pensativo. Mas eu não quero odiar indiscriminadamente toda uma seção do reino animal,
então só as gaivotas, por enquanto.
Percebi isso enquanto ia pegar a gororoba (virado de repolho) quando notei uma
manobra de voo intencional; a intenção por trás da ação foi tão clara e calculista quanto
qualquer guinada, rolamento ou mergulho executado por um especialista. Elas saltam do
alto de seu poleiro no poste de luz de 15 metros, voam baixo sobre nossas cabeças como
Tom Cruise e seu parceiro rasando a torre de controle em
Top Gun
, e então voam alto,
sobre a cerca que nos prende aqui, que nos mantém confinados neste lugar. E enquanto
elas navegam sobre aquela estrutura de arame farpado eu posso jurar que as vejo olhar
pra trás sobre suas asas brancas e sujas, um brilho de humor em seus olhos
demasiadamente inteligentes, enquanto elas, conscientemente, fazem aquilo que nós não
podemos. Os sons, os barulhos que elas fazem? Risadas. Elas zombam de nós. E então,
como se o insulto por si não fosse suficiente, como se elas simplesmente tivessem
que esfregar mais sal nas nossas feridas tão sensíveis, o que elas fazem? Cagam na
gente. Sim, nós, os presos desavisados, enfileirados fora esperando nossa gororoba
matinal do meio-dia ou do final da tarde. Elas cagam na gente, batendo suas penas sujas
e indo pro outro lado do muro, rindo. Fora do nosso alcance, elas cagam na gente.
Hummm. Será que foram enviadas pelo Departamento? O Departamento de Correções
de Michigan também tem contrato com elas?
Compartilhei essa epifania, esse momento iluminado de clareza, esse vislumbre
de percepção sobre a natureza de nossas antagonistas aviárias com meu companheiro
um dia. E o que ele achou? "Ih, rapaz. Perdeu o juízo de vez", ele disse. "Esse é você,
cara. É você que tá com merda na cabeça." É. Talvez.
6 Trecho da música
If I had my way
, de Peter, Paul & Mary. Em português: Se fosse do meu jeito // se fosse
do meu jeito nesse mundo perverso // se fosse do meu jeito // eu derrubaria esse prédio.
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24
A festa de fim de ano dos agentes prisionais
O Músico vai para o centro do palco.
Músico
Eles chamavam de
Lei da segunda chance
(
com olhar vazio
).
Essa lei é uma forma de os juízes revisarem longas sentenças de prisão no estado
de Michigan para ver se alguém deveria ter a pena reavaliada. Significava que as
pessoas que te colocaram aqui as que levaram minha mãe embora admitiam
que poderiam ter errado, que minha mãe realmente não merecia ficar trancada
daquele jeito. Fiquei tão feliz que eles finalmente estavam reconhecendo quem ela
era. Só me pergunto por que levou dez anos.
O Músico recebe a carta 3. Abre a carta.
Músico
Nunca se esqueça de três tipos de pessoas na sua vida: 1. Quem te ajudou em
tempos difíceis. 2. Quem te abandonou em tempos difíceis. 3. Quem te colocou em
tempos difíceis.
As luzes gerais acendem. Casarão de um guarda prisional sênior durante a festa
anual de fim de ano do Departamento de Correções de Michigan. Fantoches de meia.
Chefão
Obrigado, obrigado! Certo, primeiramente. Temos algumas pessoas novas se
juntando a nós este ano, então vamos rapidamente dizer nossos nomes e onde
trabalhamos.
Eu começo! Sou o Chefão. Sou o Diretor de Prisões. Trabalho nos escritórios
da central e sou a pessoa mais importante aqui.
Ferpa
E aí, sou a Ferpa e trabalho na Correcional Mau Cheiro, ou CMC para abreviar.
Marreco
Eu sou Marreco. Trabalho com a Ferpa na CMC. Irmãos de CMC!
Ferpa e Marreco fazem um toca aqui de um jeito engraçado com os fantoches de meia.
Roni
Roni. Correcional Buraco do Inferno.
Celeste
Oi, pessoal. Sou a Celeste. Trabalho na Correcional Altamente Questionável.
Chupeta
Oi, sou o Chupeta. Trabalho na Correcional Extremamente Muito Miserável.
Chefão
Certo, vamos falar de algumas questões logísticas rápidas e depois podemos
comemorar!
Puxa um pedacinho de papel proporcional para um fantoche.
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Chefão
Temos recebido uma quantidade absurda de relatos de presos sendo pegos com
drogas recentemente. No ano passado, pegamos 35% dos nossos presos usando
drogas. Isso é quase a média nacional. No entanto, este ano pegamos 1.973 de 1.974
presidiários usando drogas na CMC. Isso significa literalmente que apenas um preso
não foi pego usando drogas este ano. Por que isso pode estar acontecendo? Por que
todos os presos, exceto um, foram pegos usando drogas?
Ferpa
O que? Não é possível! É muita coisa…!
Marreco
(
se aproximando de Ferpa não muito discretamente
)
Ei, me dá as paradas. Tô recebendo uma ligação de um cliente lá fora.
Ferpa passa um saco de branco para Marreco e tenta apressá-lo para sair enquanto
finge ainda estar totalmente focada no que o chefe está dizendo.
Ferpa
Caramba! Nossa, chefe! Isso é uma loucura!
Chefão
Ferpa, por acaso você sabe alguma coisa sobre isso?
Ferpa
Tipo... eu não sei, sabe? Sabe, tipo… eu sabia que tava alto, tava alto mesmo; não
achei que tava tão alto assim... Caramba... sabe?
Chefão
(
com tranquilidade
)
Não, nós não sabemos. Você tem alguma sugestão do que fazer sobre isso?
Ferpa
Sabe... Provavelmente são os visitantes e voluntários escondendo drogas nos
sapatos! Né, Marreco?
Marreco volta.
Marreco
É. É bem isso, Ferpa. São os visitantes escondendo droga nos sapatos! É assim que
as drogas estão entrando na CMC. Parece que todo visitante que entra está usando
sapato, cara. Até aqueles voluntários da igreja. Todos eles tão usando sapato! Tem
que ser isso!
Ferpa
Sim! De agora em diante, todos os visitantes deveriam ficar descalços! Espera! Não!
Isso seria nojento para os visitantes. Espera! Então deveríamos fazer os presos
ficarem descalços, para que não possam mais esconder drogas de nós!
Chefão
Hãn? Nada convencional… mas gostei. É por isso que te mantemos na equipe, Ferpa.
Então, de agora em diante, nossos presos ficarão descalços.
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26
Chupeta
(
animado para ajudar
)
Eles não podem simplesmente esconder droga nas outras roupas... ou nas meias?
Os fantoches de meia se assustam!
Todos, menos Chupeta
(
juntos
)
Nas meias?!
(
sobrepondo-se
) Quem usaria meias pra isso? Seria loucura colocar drogas nas
meias! Só aqueles prisioneiros nojentos pensariam em fazer uma coisa dessas!
Sem noção! Malucos! Abusadores de meias!
Ferpa
Claramente, essas revistas íntimas não são tão eficazes quanto pensávamos! Então,
sugiro que nos livremos das roupas... inteiramente, exceto das meias, é claro. Os
prisioneiros não podem esconder nada se não tiverem onde esconder.
Roni
Isso facilita meu trabalho.
Chefão
Isso é brilhante. Adorei. Sem sapatos e sem roupas! É tão bom quando
tomamos grandes decisões políticas na festa de fim de ano!
Certo, agora é a hora em que premiamos o Diretor do Ano! O homenageado
deste ano arrasou! Ele conseguiu emitir quatrocentos mil bilhetes de conduta
grave em um ano. Isso é quase um bilhete por dia para cada preso durante um ano
inteiro na Correcional Buraco do Inferno. Por isso, concedemos o prêmio de Diretor
do Ano a Roni! Parabéns, Ron!
Roni
Obrigado. Sabe, temos um ditado no Buraco do Inferno: Quanto mais bilhetes, mais
tempo. Quanto mais tempo, mais grana! Muito obrigado.
Celeste
Perdoem pela interrupção, mas essa coisa de "sem roupas" está me deixando um
pouco desconfortável. Não imagino como isso pode funcionar, logística e eticamente
falando.
Chupeta
(
empolgado, como se tivesse decidido sozinho
)
Isso impede que as drogas entrem!!!
Celeste
Bom, com todo o respeito, sua lógica é completamente falha. Primeiramente,
vivemos em Michigan. Geralmente, quatro meses de cada ano têm invernos
recordes; eles teriam que usar alguma coisa. Além disso, como você mencionou
antes, pode ser que alguém de fora traga as drogas. Na verdade, deveríamos dar
mais roupas aos presos e fazer revistas mais rigorosas em todos que entram nas
prisões!
Celeste olha de um lado para o outro, para Ferpa e Marreco.
Ferpa
(
como se soubesse o que Celeste está insinuando
)
Não entendo. É bem simples. Sem roupas. Sem drogas.
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Celeste
Com essa lógica, deveríamos fazer os visitantes ficarem nus também e os guardas.
Vamos todos ficar nus! Festa de nudismo! Quem se importa?! Sem roupas! Sem
drogas!
Marreco
Se a matemática estiver certa!
Chefão
Sabe de uma coisa? Essa é uma ideia muito boa! Chega de roupas! Todo mundo
pelado!
Chefão joga seu pequeno chapéu de fantoche de meia para o ar. Roni parece encantado!
Todos os outros estão muito preocupados.
Ferpa
Espera aí! O quê?
Celeste
Peraí. Eu tava só…
Chefão
Se todos entrarem sem roupa, ninguém tem onde esconder drogas ou trazer nada!
Isso é perfeito!
Ferpa
O que?! Mas e nós?! Aqueles presos não podem nos ver pelados!
Roni
Eu tô sugerindo isso há anos…
O fantoche de Roni tira o colete e a gravata e joga longe.
Chupeta
(
nervoso
)
É, espera aí… eu não estou gostando disso.
Ferpa
Exato!!! E como vamos conseguir contrabandear as drogas?!
Todos os fantoches olham assustados para Ferpa. Marreco sai correndo.
Ferpa
Ai, merda…
Quatro de Julho
Músico
Ei! Vocês precisam ler isso! Na prisão as pessoas celebram de tudo!
O Músico recebe a carta 7. Abre a carta.
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Músico
A imaginação é tudo. É a prévia das próximas atrações da vida.
Luzes gerais acendem. Som. Um presidiário acorda. Ele se senta com a mão no coração
e começa a cantar baixinho:
Militar
(
quase sussurrando
)
“Oh say does that star-spangled banner yet wave
o'er the land of the free…”7
Intelectual
Não entendo, cara. Como você consegue ser patriota enquanto eles nos mantêm
nessa jaula?
Pacificador
Cala a boca, cara. Ele era militar.
Militar
Eu servi meu país com orgulho. E faria tudo de novo.
Intelectual
Eles te tiraram da sua família, te mandaram para o outro lado do mundo para matar
e morrer; agora te tiraram da sua família de novo, te enfiaram numa jaula e jogaram
a chave fora. Isso é lavagem cerebral. Esse regime imperialista está interessado
em te usar como uma engrenagem na máquina capitalista. Acorda pra vida.
Militar está prestes a socar Intelectual, mas Pacificador intervém.
Pacificador
Calma , gente. É a porra do Quatro de Julho. Acreditando ou não, é um feriado
pelo menos algo diferente por algumas horas. Fogos de artifício! Cachorro-quente!
Toda essa merda. Agora celebrem ou fiquem de boa!
Intelectual
Eu gosto de cachorro-quente. Mas isso é uma merd…
Militar ameaça ir pra cima de Intelectual de novo.
Pacificador
Cachorro-quente, caras! Se vocês se arrebentarem, não vai ter cachorro-quente.
Dão uma trégua. Todos caminham até a porta de suas celas. Esperam até abrir. Silêncio.
Após, som.
Guarda
(
fora de cena
)
Portas!!!
7 Quatro de Julho celebra o dia da Independência dos EUA. Para manter o sentido da cena, optou-se por
manter o trecho do hino em inglês. Adaptações para outros lugares podem mudar esses símbolos conforme
o contexto, atentando para não perder o sentido original da proposta. Em português, a letra do hino diz: Oh,
diga, a bandeira estrelada ainda acena // Sobre a terra dos livres.
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Ouvimos a porta da cela abrir. Eles saem correndo da cela.
Todos
(
Todos param onde quer que estejam, se olham e depois olham para o céu
.)
Quatro de Julho!!!
Intelectual
Entrem na fila! É hora do cachorro-quente!
Pacificador
Uau! Tem até cheiro de Quatro de Julho! Carne grelhando ao ar livre! Minha família
faz uma festa enorme todo ano com cachorro-quente e hambúrguer, e minha
esposa faz cupcakes red velvet com mirtilos em cima! É um estrago! Eu sempre era
o churrasqueiro.
Intelectual
Tenho certeza que você faria melhor do que esses idiotas que provavelmente estão
queimando nosso cachorro-quente só pra nos provocar.
Militar
É o dia do orgulho americano! E nós somos americanos! Então, não podemos
celebrar também?
Intelectual
Eu não sou americano agora. A gente literalmente vive numa jaula. O estado nos
tirou nossos direitos e liberdades e nos tornou propriedade do governo como um
gado ou uma mercadoria a ser trocada! Eu não consigo... Não, eu não vou fingir que
esses desgraçados imperialistas algum dia vão me fazer acreditar nesse estado
meritocrático "utópico" que fornece as mesmas liberdades que eles se esforçam
tanto para nos negar.
Militar mostra claramente sua irritação.
Militar
Nós vivemos no melhor país do mundo, não se esqueça disso. Você acha que seria
mais livre em outro lugar? Eu lutei e sangrei por tudo o que temos, e agora meu filho
está no Afeganistão para que cada um de nós possa ter um país do qual se orgulhar.
Silêncio. Intelectual vira o olho. Pacificador tenta quebrar o silêncio.
Pacificador
Vamos comer, galera!!
Militar
Humm! Cachorro-quente!
Intelectual
Tá, me dá um aí!
Eles mordem. Todos percebem que a carne está nojenta.
Pacificador
Eca!
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30
Militar
Que estranho.
Intelectual
Me lembrou aquela vez que eles nos deram sopa de intoxicação alimentar no Dia de
Ação de Graças.
Militar
Só na prisão conseguem fazer um cachorro-quente tão ruim.
Som. Todos começam a rir até ficarem sem ar.
Todos
Quatro de Julho!
Intelectual
Fogos de artifício! Eu to vendo! Eu to vendo!
Eles correm por todo o palco, até a plateia, pelos corredores, gritando e torcendo,
enquanto olham para o céu.
Paul
Onde?
Os presidiários devem ficar longe uns dos outros. Eles não podem se encostar. Alguns
deles conseguem ver os fogos de artifício, outros não.
Militar
Eu não consigo ver.
Intelectual
(
apontando
)
Estão na esquerda! Atrás da cerca!
Paul
(
ainda tentando ver os fogos
)
A torre está bloqueando minha visão.
Todos
(
sobrepondo-se
)
Eu tô vendo!!! Como são lindos! Viva a América!
Todos começam a cantar o hino nacional. Eles correm entre si, se abraçam e vibram,
olhando para o céu. Ouvimos o som de fogos de artifício.
Militar
Fogos! Eu vejo eles. Estão tão longe.
Todos se separam, tentando procurar os fogos de artifício. Eles começam a procurar em
lugares improváveis, como embaixo das cadeiras ou nos bolsos. Eles procuram pela
liberdade, mas não conseguem encontrá-la.
Intelectual
Não consigo mais vê-los.
Daqui de dentro, com amor
Dropped Keys Theatre Company | Tradução: Pietra Bonet, Caroline Vetori e Vicente Concilio
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-42, ago. 2026
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Paul
Se você se esforçar o suficiente…
Militar
(
suave, quase um sussurro
)
Oh, say does that star spangled banner yet wave
o’er the land of the free…”
Eles olham para cima, acima da plateia. Uma longa pausa. Luz geral se apaga, foco em
Mary.
O filho do George
O Músico recebe a carta 9. Abre a carta.
Músico
Essa é do George! Esse cara é incrível! Não se esqueça: enquanto você está ocupado
duvidando de si mesmo, alguém está admirando sua força.
Foco em George.
George
Eu sei que vocês têm muitas perguntas. Não são os únicos. Eu falo do meu
filho para as pessoas, e imagino que a primeira coisa que elas se perguntam é como
um velho como eu arranjou um filho de 8 anos. Aí eu mostro a mãe dele, e começa
um alvoroço. Como uma moça tão bonita quis ficar com alguém como eu? Eu sei
que é isso que vocês estão pensando. Vocês estão se perguntando o que tem de
errado com ela pra querer um filho meu.
Pra ser honesto com vocês, eu mesmo não tenho certeza da resposta pra
essa pergunta. Acho que é minha alma musical. Sabe, o jeito que eu seguro meu
violão. Enfim, o bicho que a picou deve ter saído voando num instante, porque eu
fiquei sem ver meu menino por anos. E ela não falava comigo.
Mas eu conheci um cara aqui dentro que me disse que eu tinha direitos
legais sobre minha família, que eu tinha o direito de ver meu filho. Eu ouvi muita
bobagem sobre meus direitos ao longo dos anos; sobre o que supostamente me é
devido como cidadão, como um humano, mas Deus sabe que eu não sou nenhum
dos dois nessa maldita prisão.
Então eu nunca me deixei levar por aquela doença da esperança que muitos
companheiros pegam. Porque eu sei que te deixa ainda mais quebrado e
machucado.
Enfim, de alguma forma eu me permiti acreditar nesse cara sobre meus
malditos direitos parentais. Pensei em contratar um advogado ou algo assim.
E eu lutei, lutei e lutei. Muito. E às vezes eu nem sabia por que estava lutando
tanto pra ver esse garoto que eu nem conhecia. Mas valeu a pena mesmo assim.
Dizem que sou o primeiro homem no estado a obter direitos de visita parental
enquanto preso. Já é alguma coisa, né?
E deixa eu contar de quando eu entrei naquela videochamada e eu vi um
menino, com meu narigão, meus olhos e minhas sobrancelhas grossas, eu pensei
Daqui de dentro, com amor
Dropped Keys Theatre Company | Tradução: Pietra Bonet, Caroline Vetori e Vicente Concilio
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-42, ago. 2026
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que realmente Deus existe. Quem mais poderia fazer algo tão bonito com um cara
tão acabado como eu? Um menino lindo que me chama de papai. Não é
maravilhoso?
Superstições prisionais
Mary
Esta é uma história que eu trouxe da prisão uma história sobre superstições
prisionais. Algum tempo atrás, em 1976, na antiga Casa de Correções Femininas de
Detroit eu aprendi e vi o quão supersticiosas as mulheres eram naquele lugar e o
quanto elas acreditavam e viam o mundo espiritual.
Dizia-se que a penitenciária era assombrada pelas prisioneiras que tinham
morrido e pelas pessoas que foram mutiladas e cortadas nas fábricas de
conservas que antes ocupavam o terreno. As mulheres de acreditavam que se um
pássaro voasse para dentro de sua casa, significava que alguém iria morrer. Elas
levavam isso muito a sério. Eu ouvia os gritos quando os pássaros entravam em suas
celas. Essas mulheres também diziam que se você estivesse saindo da prisão, era
melhor levar seus sapatos com você, porque se os deixasse com alguém, você
voltaria para usá-los novamente.
Fui transferida para a Penitenciária de Florence Crane. Era uma escola estadual
do início do século, e era claramente assombrada. As primeiras mulheres enviadas
para a prisão foram supostamente enviadas para por bom comportamento, mas
na verdade foram obrigadas a limpar a prisão antes que as outras mulheres
chegassem. No porão, encontraram pequenas camisas de força ensanguentadas que
haviam sido usadas em crianças. Pregado na parede, encontraram um recorte de
jornal antigo e amarelado sobre uma menina de doze anos que havia sido estuprada
e assassinada por um dos inspetores da escola. Ela assombrava o lugar. Às vezes,
se você olhasse para o estacionamento à noite, podia -la. Algumas mulheres que
trabalhavam no pátio viram vários ossinhos embaixo dos balanços onde as crianças
costumavam brincar. Elas pararam de trabalhar no pátio, onde achavam que haviam
corpos de crianças enterrados.
Uma das guardas me disse que a propriedade ao lado da prisão havia sido um
campo de batalha da Guerra Civil. Ela achava que alguns dos fantasmas que
assombravam Florence Crane haviam sido mortos durante a guerra.
Uma noite, eu estava deitada na minha cama quando um fantasma passou por
mim, voou sobre minha companheira de cela e saiu. Nós nos olhamos apavoradas e
não contamos a ninguém porque sabíamos que não acreditariam em nós.
A superstição mais significativa para mim era a queda das chaves. Isso
acontecia muito raramente porque os guardas seguram muito bem suas chaves.
Elas geralmente ficam presas na cintura e são cruciais para sua sobrevivência como
guarda. Acreditava-se que se um guarda deixasse cair suas chaves bem ao seu lado,
você seria solta e iria para casa. Eu vi acontecer com uma mulher que eu conhecia.
Ela recorreu ao conselho de liberdade condicional para mães e conseguiu uma data
para ir embora.
Mais tarde, uma guarda deixou cair suas chaves perto de mim. Eu não acreditei.
Era como ver os portões do céu se abrindo. Eu sabia que estava indo pra casa. Eu
estava cumprindo três sentenças de prisão perpétua e, de repente, recebi uma
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comutação do governador e fui solta.
Chaves são um símbolo de poder, esperança, posse e orgulho. Hoje tenho
orgulho da chave da minha casa porque agora posso abrir minha própria porta, e as
chaves não são usadas contra mim.
Romance na biblioteca da prisão
O Músico recebe a carta 11. Abre a carta.
Músico
Minha missão na vida não é meramente sobreviver, mas prosperar; e fazer isso com
paixão, compaixão, humor e estilo.
Luzes gerais acendem. Leitora e Amiga entram na biblioteca jurídica.
Leitora
(
para o público
) Cookie e eu sempre temos muito trabalho a fazer e, felizmente, hoje
é o dia em que podemos ir à biblioteca jurídica.
(
para a amiga)
Você tem liberação para a biblioteca jurídica, né?
Amiga
Sim, acho que vou trabalhar um pouco no meu recurso.
Leitora
Eu também... espera, quem é aquela?
Amiga
Ah, acho que vi ela aqui na semana passada.
Leitora
(
para o público
)
O segredo da biblioteca jurídica é que aqui rola o melhor flerte do mundo. Sim, o
trabalho duro acontece aqui. Trabalho incrivelmente importante. Trabalho que tenho
a sensação de que não vai terminar por aqui.
Vê Bela sentada em uma mesa do outro lado da biblioteca jurídica.
Amiga
Aah, ela é fofa... Você devia ir falar com ela.
Leitora
Eu devia, né? Ok, vai, vai, vai!
Elas trocam olhares de flerte por cima dos livros que estão lendo, as duas desviam o olhar
quando percebem contato visual.
Leitora
(
confiante, para o público
)
Tenho uma ideia… acho que vai funcionar.
Leitora caminha e "acidentalmente" deixa cair seu livro no chão na frente de Bela. Bela e
Leitora se abaixam para pegar o livro ao mesmo tempo. Enquanto ambas seguram o livro.
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Bela
(
sensual)
O que você tá lendo aí?
Leitora
Hmm. (
engole em seco
)
(para o público) Esqueci completamente o título deste livro.
(
para Bela
) É sobre uma russa... Catarina, a Grande.
Bela
Ah? Catarina, a Grande?
Leitora (
se senta
)
É, só que ela nem é russa. Ela é alemã, mas ela meio que destronou o marido e...
(
olha para o público
) Ela não nem pra Catarina, a Grande, e eu sei disso. Mas
acho que se ela parar de olhar pra mim, eu vou morrer. Então eu vou continuar divagando
sobre Catarina, a Grande, e talvez ela me interrompa e diga algo tipo…
Bela puxa a cadeira de Leitora para mais perto dela e se inclina.
Bela
Eu acho que você é lindamente inteligente.
Leitora
(
ruído ininteligível para Bela)
(
para o público
) Está funcionando…
(
de volta para Bela, confusa
) Então… o que você está lendo?
Bela
É um livro sobre … (se distrai) … ugh Bárbara Feia!
Leitora
Ãn?
Bárbara Feia entra com uma pilha de livros.
Leitora
Ugh. Barbara Feia.
Bárbara Feia acidentalmente deixa cair sua pilha de livros. Leitora e Bela olham para ela.
Bárbara Feia acena. Leitora e Bela forçam sorrisos e acenam para Bárbara Feia, que sai.
Leitora e Bela se olham novamente.
Todas
Bárbara Feia, Bárbara Feia.
Leitora
(
para o público
)
O fluxo de encontros é gigante aqui... e ainda assim... ela continua por aí... A gente
teve um lance... enfim (
arrepio
).
Leitora olha de novo para Bela e elas mantêm um contato visual intenso, quase absurdo.
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Leitora
(
para Bela, depois de visivelmente criar coragem
)
Você é muito bonita.
Bela
Eu sou, né? Você também é. Quer ser minha namorada?
Leitora
(
para Bela
) Sim.
(
para o público
) Sim!
(
para Bela
)Sim!
(
para o público
)Funcionou!
Ensinamentos da pombinha8
O Músico recebe a carta 6. Abre a carta.
Estudante 1
Olá a todos, muito obrigado por estarem aqui hoje! Então, na nossa última oficina,
pedimos que trouxessem uma história que os ajudasse em tempos difíceis. Hoje,
vamos pegar essas histórias e ver se conseguimos colocá-las de pé. Alguém quer
começar?
Estudante 2
Claro. Esta é uma história que me ajuda a seguir em frente. Como membro da nação
Ojibwe, os ensinamentos dos meus ancestrais me guiam pela vida e assumiram
novos significados na prisão.
Músico
Não desista da pessoa que você está se tornando.
Luzes gerais acendem.
Estudante 2
Era uma vez uma floresta. Eu era uma pombinha que vivia sozinha nessa
floresta. As outras pombas queriam brincar comigo, mas eu me preocupava
comigo mesma e em construir meu ninho. E foi exatamente isso que fiz.
Eu construía dia e noite. Carregando galhos gigantes até que tivessem o
formato perfeito para meu ninho. Eu tentava encaixar pelo lado direito; minhas asas
ficavam doloridas. Eu tentava pelo lado esquerdo; minhas asas ficavam doloridas.
Parecia que nada dava certo. Então percebi que era mais fácil equilibrar o peso com
o bico, e assim o fiz. Com esse novo método, consegui continuar por mais tempo.
Quando finalmente tive gravetos suficientes para me proteger, percebi que meu bico
tinha crescido e enrijecido! Eu costumava ter um biquinho delicado de pomba, mas
depois de tanto trabalho, consegui evoluir.
8 A história original descreve a evolução de um rato-almiscarado (
muskrat)
para um castor (
beaver
). Como
não são animais tão presentes no imaginário brasileiro, optou-se por substituí-los por pomba e arara, mais
familiares ao publico brasileiro. A alteração não interfere no sentido da cena. Para outras montagens,
salienta-se o convite de adaptação ao contexto.
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Fiquei surpresa, mas percebi que aquele teria que ser meu abrigo por um
tempo.
Um dia, uma ventania começou na floresta. Tentou me abalar, mas eu não
parei de construir. Enquanto eu trabalhava, as rajadas ficavam maiores e mais
fortes, e antes que eu percebesse, uma das árvores caiu bem em cima da minha
cauda curta, fina e redonda.
Músico
Ai!!!
Estudante 2
Eu me virei pra ver minha cauda destruída. Mas em seu lugar havia penas enormes,
largas e imponentes. Estava doendo muito, então voei para a poça de água mais
próxima e mergulhei minha cauda para aliviar a dor.
Músico
Ah sim, agora sim!
Estudante 2
Mesmo com a cauda machucada, não parei de trabalhar. Eu queria minha antiga
cauda de volta, mas enquanto continuava trabalhando, percebi que minha nova
cauda estava me ajudando muito. Eu podia usá-la para planar, manobrar e carregar
folhas e galhos com precisão. O que tinha me feito sofrer estava me fortalecendo.
Finalmente, meu tempo de trabalho acabou. Eu podia voltar para casa. Com meu
novo bico poderoso e a cauda majestosa, decidi que o nome "Pombinha" não me
servia mais. Eu precisava de um novo nome um que representasse todos os
obstáculos que eu havia superado. Então decidi que meu nome seria Arara! Porque
eu já não era quem fui, moldada pela necessidade de construir meu próprio destino
nas alturas.
Notícias do Hendrick
O Músico começa a desenhar como menino.
Mãe do Hendrick
(
voz fora de cena ou vídeo
)
Minha mãe me ligou para me dar notícias do Hendrick hoje à tarde. E vou te
contar, aquele menino não mudou nada. Ele tem quatro anos agora e fala pelos
cotovelos, o que me dor de cabeça, mas, é, a fruta não cai longe do pé, certo?
Ela coloca Hendrick no telefone, e ele imediatamente começa a me contar como
aprendeu as letras k e m.
“E o L, Hendrick?!”
“L? Eu não tô nem aí pro L agora!”
“Meninooooo.”
Eu sempre admirei a força dele. Ele não tenta ser quem ele não é, até o dia
em que a sociedade o pressionar a ser. Eu digo a ele que estou na prisão porque
meninos negros não tem permissão para serem inocentes no mundo de hoje. Eu
digo a ele que estou na prisão porque sei que homens negros representam 53% da
população carcerária de Michigan, então não é segredo que ele pode acabar
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exatamente onde eu estou. Eu digo a ele que estou na prisão, mas eu queria não
estar.
“Mamãe, hoje teve um ‘desenhe e conte’ sobre nossos pais!”
São 8 da manhã, e todos os pais entram na pequena sala de aula. Minha mãe
encontra um lugar no final da última fileira porque sabe que Hendrick vai fazer uma
cena se a vir. Ela espreme suas coxas grossas em uma das cadeiras do ensino
fundamental enquanto o sentado no meio de um grupo de seus colegas em um
tapete em forma de mapa. Todos se levantam e compartilham, mas é claro que
meu menino fica por último. “O melhor para o final, mamãe!”, ele sempre diz.
Ele se levanta segurando um grande pedaço de papel na mão e desenrola o
papel para revelar uma imagem colorida de nós dois, com um sol pequenininho de
canto, daqueles que a gente aprende no jardim de infância. Eu sempre dizia a ele
que “o sol é redondo, Hendrick, mas você só pode ver até certo ponto”. Ele começa
a descrever a imagem começando com “Esta é minha mamãe!”. Ele faz uma pausa,
olhando para o papel. Estamos correndo por um campo de flores laranjas e azuis
com grama até os joelhos. Ao nosso lado esquerdo, sua bola de basquete favorita
está na grama, do lado direito, uma mancha preta e branca que posso presumir
ser o nosso cachorro, Oreo. Pássaros voam pelo céu, e têm grades ao meu redor...
Grades? Por que têm grades?
“O tempo está acabando, Hendrick”, avisa a professora.
Ele grita: “e ela está na prisão!”
“O tempo está acabando, Ansley”, exige o guarda.
Mamãe, diga ao Hendrick que eu o amo.
Carta sobre a minha mãe
O Músico olha o verso do papel. Lê a carta.
Músico
Prezado Sr. Williams, escrevo-lhe como diretor para prestar minhas sinceras
condolências pelo falecimento de sua mãe em 22 de abril de 2022. Toda morte é
uma tragédia que afeta profundamente famílias, funcionários e outros prisioneiros,
e garantir a segurança e o bem-estar daqueles sob nossos cuidados é uma
prioridade.
O Músico interrompe a leitura. Amassa a carta. Observa a todos. Ele toca uma melodia
lenta e triste por um tempo, depois começa:
Quando aconteceu, eu lembro do meu pai dizendo…
Sua mãe não queria morrer, filho. Ela não desistiria da chance de te ver. Ela
tinha ido àquele médico da prisão, várias e várias vezes tinha acabado de voltar
naquele dia. Ela estava aguentando. Aguentando por você.
O menino criado entre arame farpado e colagens, revistas e fotos, sangue e
amor.
Eu achava que minha mãe era mística: seu corpo angelical na base do templo
da minha necessidade de uma mãe para abraçar.
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Luz projetando sombras de amor e promessas de fartura.
Sua liberdade, minha corda para escalar.
Ou para me enforcar.
Mas meu elo para sempre, e sempre.
Meu pai me contou tudo: o que aconteceu e como eles tentaram salvá-la.
O procedimento para liberar o corpo dela depois, depois que ela não estava mais
nele. Mas eu não entendia. Eu não conseguia entender porque não fazia sentido. O
projeto de Lei da Segunda chance aquele que poderia trazê-la para casa estava
sendo aprovado. Tipo, até falava sobre a música e a poesia dela como se ela
finalmente estivesse voltando para casa.
Estávamos tão perto!
Perto da constatação de que o perto nunca é perto o suficiente quando décadas
são medidas na ponta de uma caneta que rabisca uma sentença judicial que só te
deixa de mãos vazias.
E tudo que consigo ouvir é ela dizendo:
“Eu paguei minha dívida, meu bem. Tanto quanto as canções que eu canto para
você, eu paguei minha dívida. Eles têm que me deixar ir.”
Era o tempo.
Tempo sem fim.
Eterno.
Pesado.
Os segundos sussurravam enquanto passavam por mim.
Minutos que fizeram esses momentos… fazerem sentido.
Neste novo mundo de depois.
Depois das palavras dela.
Talvez o Músico pegue todas as cartas? Guarde algumas? Olhe para elas? Abra a caixa de
correio e seja iluminado por ela? Amasse o papel? Rasgue ele?
Os ratos
Foco no Músico que recebe a carta 10. Abre a carta. Não consegue falar. Está muito triste.
Mary olha pra ele. Foco em Mary.
Mary
Músico, você não precisa aceitar o que não te faz bem.
Músico
Obrigado, Mary.
O Músico sai.
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Mary
Esta é a história que eu trouxe da prisão. A história dos ratos.
A Penitenciária Feminina de Florence Crane, na década de 1990, estava infestada de
ratos. Todos os tipos de ratos: enormes ratos cinzas; acreditava-se que tinham sido
trazidos por navios do Reino Unido durante a grande migração, tinham ratos pretos
brilhantes e elegantes, que acreditava-se que eram locais, e ratos marrons gordos e
peludos, tão grandes quanto gatos, batizados em homenagem ao médico da prisão,
Naylor.
Decidi fazer alguma coisa sobre os ratos. Aprendi que os ratos podem procriar a
cada 22 dias. Eles conseguem roer tijolos, aço e madeira. Mas registrar queixas com a
equipe da prisão não funcionou. Eles não fizeram nada.
Quando chovia, eu ouvia os ratos subindo pelos canos de esgoto e correndo pelo
teto acima da minha cabeça.
O elenco se coça.
Eu ouvia os ratos no meu armário comendo minha comida à noite.
Barulho de mastigação.
Eu ouvia seus grunhidos agudos de alegria enquanto contavam as novidades aos
outros ratos.
O elenco grunhe.
Liguei para minha irmã Jean pedindo ajuda. No instante seguinte, um enorme
caminhão de manutenção parou perto da cozinha, e vários homens moveram todas as
lixeiras antes que outra equipe as levasse embora. A equipe de trabalho começou a
golpear com martelos de cimento as plataformas onde as lixeiras ficavam.
O elenco bate os pés em uníssono.
Os ratos começaram a sair de todas as direções. Eu conseguia ouvir os guardas
gritando.
O elenco grita!
Eles estavam em todos os lugares. Eu me recusei a comer a gororoba naquele dia.
O elenco grita novamente!
Os guardas colocaram caixas pretas com veneno de rato dentro. Então víamos ratos
sangrando por toda parte. O pátio virou uma poça de sangue. Mas em pouco tempo,
não havia mais ratos. Liguei para Jean e perguntei: "O que você fez? Eles acabaram
com os ratos!" Jean disse que ligou para a diretora e disse que seu pátio estava
infestado de ratos, e que ela ligaria para o gabinete do governador imediatamente. A
diretora disse que cuidaria disso. Eu queria saber porque ela não fez isso vinte
anos antes.
Daqui de dentro, com amor
Dropped Keys Theatre Company | Tradução: Pietra Bonet, Caroline Vetori e Vicente Concilio
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O elenco suspira.
As cartas
Músico
Como eu disse, muitas cartas de gente de dentro chegam aqui. Enquanto eu me
sentava e esperava pelas cartas da minha mãe, eu acompanhava as de todo mundo,
mas dessa vez era de propósito. Cada carta que eu recebia alimentava a chama
dentro de mim. Era como se tivesse algum tipo de propósito. Se eu não fizesse isso,
quem faria?
Luzes gerais acendem. Momento com a caixa de correio. 14 artistas no palco leem as
cartas, uma de cada vez. Quando terminam, deixam a carta cair no chão e depois suas
chaves, cobrindo o palco.
Carta 1
A maioria das pessoas não entende como é este lugar. Deixe-me explicar com
minhas palavras. É como chegar num buraco negro de desesperança e falta de amor.
Você vive o mesmo dia sem parar. Você é um número, e não tem ninguém para
te ajudar. É difícil encontrar, mas vida na escuridão. Tenho muita esperança em
mim. Se precisar de um pouco, é só pedir, podemos dar um jeito.
Carta 2
Alguns sorrisos não significam nada, outros significam mais que o mundo. E dentro
desses brevíssimos momentos que compartilhamos uns com os outros naquelas
salas… aqueles sorrisos foram os mais especiais. Não sou de abrir muitos sorrisos,
mas os que eu consegui compartilhar todos os sábados, serão de longe os mais
memoráveis. E, sinceramente, já estou com saudade de vocês.
Carta 3
Dito tudo isso, eu tinha que agradecer a vocês. Estou aqui 23 anos e, depois de
um tempo, depois de vivenciar a prisão e tudo o que há nela por tanto tempo, tudo
começa a se tornar ‘nada’. Obrigada por me proporcionarem algo tão especial - e
não me refiro às aulas. Me refiro aos alunos. Eles são gotas de esperança pra mim.
Carta 4
Recebi os livros esta semana e os doei para a biblioteca na sexta-feira. Eles devem
estar na prateleira em uma semana. Eu realmente acredito que eles serão
responsáveis por despertar o senso de autoestima de alguém, a percepção de que
seus pensamentos e trabalho podem ser um canal para algo mais, algo além deste
lugar.
Carta 5
Cada um de nós tem a oportunidade de usar sua arte para mudar a cultura quando
se trata das demandas que este país tem sobre justiça, vulnerabilidade social e
ambientes carcerários… Não houve um único momento em que compartilhei minha
história, seja sobre minha herança como indígena ou minhas lutas dentro da prisão
em que não tive a atenção total e sincera de todos na sala. Uma pessoa menos
modesta poderia atribuir isso à sua beleza estonteante ou carisma hipnótico. Mas
eu sei que foi porque cada um de vocês entrou aqui com um coração acolhedor. E
na cultura indígena, um coração acolhedor é um presente singular do criador.
Daqui de dentro, com amor
Dropped Keys Theatre Company | Tradução: Pietra Bonet, Caroline Vetori e Vicente Concilio
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Carta 6
Querida, sinto muito por não ter conseguido cumprir minha promessa de nunca mais
te deixar. Eu não queria, e sei que você sabe disso. Mas isso não faz com que seja
menos doloroso para nenhum de nós dois. Não é?
Carta 7
Obrigado por me proporcionar algo que guardarei pelo tempo que me resta de vida…
Vocês não têm ideia do quanto me salvaram. A compreensão, a esperança e o
cuidado que todos proporcionaram na hora certa. Agradeço a Deus por todos vocês
terem entrado na minha vida. Por me ajudarem a ver luz na escuridão.
Carta 8
A vida não nos é garantida. Qualquer coisa pode acontecer. Não temos garantia de
envelhecer. Não sinto pena de mim mesmo. Sou grato a Deus por continuar me
abençoando com boa saúde e vida a cada manhã. Não nada mais precioso do
que isso. Obrigado por responder às minhas repetitivas cartas. E obrigado por me
permitir entrar no seu mundo.
Carta 9
Entendi o amor incondicional que posso compartilhar com vocês. O amor brilha,
cresce aqui dentro. O amor não discrimina. Ele defende e demonstra. O amor te
acolhe quando você menos espera, aqui dentro ou fora. Então acolha o amor,
assim como fizemos aqui.
Carta 10
Eu queria poder conversar com você para sempre. Sinto que nossa conversa ainda
não acabou, e gostaria de poder continuar de onde paramos. Eu sou uma boa
pessoa, e guardo muita beleza dentro do meu coração e da minha alma, mas ainda
assim estou preso, sem ninguém ao meu lado. Sei que você está muito ocupado e
tomei muito do seu tempo. Obrigado por tudo e espero ter notícias suas em breve.
Carta 11
Tenho lido bons livros ultimamente, provavelmente mais do que o normal por causa
da falta de sono, mas isso mantém minha mente ocupada e evita que eu arranje
encrenca. Não espero muita coisa da vida a esse ponto. Apenas lembrem-se que
penso em vocês todos os dias. Sei que não me comunico muito bem, mas nunca
duvidem da saudade que sinto de vocês. Lembrem-se do quanto mudaram minha
vida, e eu sei que continuam fazendo o mesmo por outras pessoas. É um
pedacinho do que torna vocês tão especiais.
Carta 12
Há um provérbio russo que diz: “A vida é dura”. E é mesmo, mas também podemos
encontrar felicidade neste mundo. Especialmente uma menina tão talentosa e sábia
quanto você, minha filha. tanta coisa na vida para aproveitar. Então não se
demore nas coisas tristes. Não se deixe abater pela tristeza. Ouça a lição do vovô e
aproveite cada dia porque o sol nasceu naquela manhã. Procure o bem nas
pessoas. Você nem sempre encontrará, mas a busca vale a pena. Eu te amo muito,
minha princesa.
Carta 13
Quem sou eu? Departamento de Correções de Michigan #92271. Sou um criminoso.
Sou um bandido. Sou um degenerado desprezível. Sou uma causa perdida, um
desperdício de vida. Sou um animal. Uma ameaça à sociedade…Isso é o que eles
Daqui de dentro, com amor
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dizem. Opiniões são como você sabe o quê, cada um tem a sua. Veja bem, eu não
permito que outras pessoas falem por mim… Nem um juiz, júri ou promotor.
Ninguém que me julga pode resumir minha existência… Quem sou eu? Sou forte.
Sou inteligente. Sou corajoso. Sou protetor. Sou filho da minha mãe. Sou um futuro
pai. Sou um contribuinte. Não sou muito diferente de você. Sou alguém que importa.
Sou James David Evans, um nome, não um número. Não sou um criminoso com um
passado. Sou um homem com um futuro.
O Músico começa a tocar o início de “Burn My Bones”. O elenco entrega as cartas. O Músico
abaixa o violão, caminha até o centro do palco e junta todas as cartas do chão, uma por
uma. As luzes do palco começam a diminuir. O Músico caminha até a caixa de correio e a
abre. Uma luz brilha dentro dela, iluminando seu rosto. Longa pausa. Blecaute.
Recebido em: 19/07/26
Aprovado em:07/06/26
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes CênicasPPGAC
Centro de Artes, Design e ModaCEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
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