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Chuva de Direitos
: um tributo a Márcia X.
Elilson Gomes do Nascimento
Para citar este artigo:
NASCIMENTO, Elilson Gomes do.
Chuva de Direitos
: um tributo
a Márcia X.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v.2, n. 58, ago. 2026.
DOI: 10.5965/1414573102582026e301
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Chuva de Direitos
: um tributo a Márcia X.
Elilson Gomes do Nascimento
Florianópolis, v.2, n.58, p. 1-14 , ago. 2026
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Chuva de Direitos
1: um tributo a Márcia X.
Elilson Gomes do Nascimento2
Resumo
Neste trabalho, apresento um relato da performance “Chuva de Direitos”, que
realizei duas vezes em espaços públicos do Rio de Janeiro, em 2018. Trata-
se de um reenactment da performance “Chuva de Dinheiro”, realizada por
Márcia X. em coautoria com Ana Cavalcanti nos anos de 1983 e 1985. Como
introdução ao texto, contextualizo brevemente a obra original das artistas,
bem como a noção de reencenação inerente ao tributo que efetivei mais de
três décadas depois.
Palavras-chave
: Performance. Ação. Márcia X. Reenactment.
Chuva de Direitos
: a tribute to Márcia X.
Abstract
This paper presents an account of the performance “Chuva de Direitos” (“Rain
of rights”) which I performed twice in public spaces in Rio de Janeiro in 2018.
The work is a reenactment of the performance “Chuva de Dinheiro” ("Rain of
Money"), created and performed by Márcia X. in co-authorship with Ana
Cavalcanti in 1983 and 1985. As an introduction, I briefly contextualize the
artists' original work, as well as the notion of reenactment underlying the
tribute I carried out more than three decades later.
Keywords
: Performance. Action. Márcia X. Reenactment.
Chuva de Direitos
: un homenaje a Márcia X.
Resumen
En este trabajo presento un relato de la performance “Chuva de Direitos”
("Lluvia de Derechos"), que realicé en dos ocasiones en espacios públicos de
Río de Janeiro, en 2018. Se trata de un reenactment de la performance “Chuva
de Dinheiro” ("Lluvia de Dinero"), realizada por Márcia X. en coautoría con Ana
Cavalcanti en los años de 1983 y 1985. Como introducción al texto,
contextualizo brevemente la obra original de las artistas, así como la noción
de reescenificación inherente al homenaje que llevé a cabo más de tres
décadas después.
Palabras clave
: Performance. Acción. Márcia X. Reenactment.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada pelo autor do artigo.
2 Doutorado em Artes pela Universidade de São Paulo (USP). Mestrado em Artes da Cena pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduação em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Artista, pesquisador e professor. elilson.gdn8@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/7131304554734472 https://orcid.org/0000-0001-7974-6304
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Contextualização X.
Figura 1 - Márcia X. e Ana Cavalcanti.
Chuva de Dinheiro
. 1983-1985.
Performance e serigrafia sobre tecido. 180 x 90 cm3.
Em duas ocasiões, nos anos de 1983 e 1985, as artistas Márcia X. e Ana
Cavalcanti lançaram impressões serigráficas em tecido de cédulas de dinheiro
agigantadas, nas dimensões 180 x 90 cm, do alto de edifícios da Praça Marechal
Floriano Peixoto, popularmente denominada como Cinelândia4, no centro da
cidade do Rio de Janeiro. A performance coligou ironia, crítica e humor no vai e
vem da cidade para pôr em pauta o cenário de grave recessão econômica
provocada pela ditadura, já aparente em seus anos de declínio.
Após a segunda realização da performance, uma matéria veiculada pelo
Jornal do Brasil
, em 15 de março de 1985, e publicada no livro “Márcia X.”,
organizado pela curadora e pesquisadora Beatriz Lemos e editado pelo Museu de
Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 2013, descrevia que o objetivo das artistas era
“tentar uma metáfora da realidade brasileira”. Segundo o Jornal, houve uma
3 . Fonte: A iconoclastia sagrada de Márcia X.: arte contemporânea, performance e religião. Acesso em: 30 jun.
2026.
4 De acordo com a Prefeitura do Rio de Janeiro, o apelido de “Cinelândia” surgiu na década de 1920, “quando
o empresário Francisco Serrador transformou a Praça Floriano em um polo cultural, mesclando rios
cinemas a teatros, bares, restaurantes, casas noturnas e até um hotel”. Nos anos 1940, essa espécie de
“Broadway brasileira” se tornou um dos principais palcos de manifestações políticas no país. Fonte:
Cinelândia Secretaria Municipal de Conservação. Acesso em: 30 jun. 2026.
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senhora que questionou se era a mãe de Paulo Maluf, então deputado federal por
São Paulo, quem estaria jogando a dinheirada; um engravatado afirmou que
Cruzeiro caindo não era mais uma novidade; um rapaz assustou os clientes de um
bar ao alertar que jogariam moedas lá do alto; e um menino de 12 anos contou que
faria uma espécie de alquimia performativa com o dinheiro falso: o transformaria
em dinheiro de verdade ao tapar o sol nos para-brisas dos carros, que o
tamanho dos tecidos aumentaria as gorjetas (
Jornal do Brasil
, apud Lemos, 2013,
p. 34).
Tais reações entre os transeuntes, que corriam e se empurravam em disputa
pelas cédulas falsas gigantes, refletem a concretude da arte da performance no
que se refere a aglutinar as urgências políticas do dia a dia e convocar uma
diversidade de leituras e posicionamentos. No caso de “Chuva de Dinheiro”, o
artista, professor e pesquisador Ricardo Basbaum (2003), considera que a
performance agarrava e espalhava o problema dos anos 1980 em seu cerne,
ecoando “diretamente a atmosfera reinante no país (euforia pela
redemocratização, agonia inflacionária) e no mundo (euforia neoliberal)” (Basbaum,
2003).
Figura 2 - Márcia X. e Ana Cavalcanti.
Chuva de Dinheiro
. 1983-1985.
Performance e serigrafia sobre tecido. 180 x 90 cm5.
5 Fonte: Márcia X. Acesso em: 30 jun. 2026.
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As operações conceituais, estéticas e críticas confluídas em “Chuva de
Dinheiro” demonstram a estilística de Márcia X., artista que se aproximava “de
todas as fontes, num contínuo desdobrar de impactantes invenções sem par”
(Basbaum, 2003). Este modo de criação profícuo e singular que atravessa a intensa
produção de Márcia X. ao longo de 25 anos de carreira, mais da metade dos 45
que viveu, assumindo a performance, desde o começo dos anos 80, como a
expressão-cerne de uma poética que vetorizou um sem-fim de linguagens ao
esgarçar as relações entre arte, liberdade e inventividade, e ao recorrer a uma
profusão de materiais cotidianos para criar uma gramática visual própria, a
localizam num “diagrama da arte” como “o índice X. de importância decisiva”,
“como a figura-X, interrogação-mor inquietante da arte brasileira” (Basbaum,
2003).
No Brasil de 2018, diante das crises trabalhistas que foram instauradas pelas
reformas do governo golpista de Michel Temer e assinalavam uma intensificação
da perda de direitos conquistados com a iminente eleição de Jair Bolsonaro, resolvi
formular uma nova versão desse trabalho, assumindo não só Márcia X. como uma
de minhas maiores predileções e inspirações artísticas, mas compreendendo
como o seu trabalho segue respondendo ao Brasil e à sua sucessão de crises com
manejos estéticos inigualáveis. Em meu reenactment6 intitulado “Chuva de
Direitos”, que também descrevo como um tributo a Márcia X., as cédulas
serigrafadas em tecido foram alternadas por carteiras de trabalho gigantes
impressas em serigrafia nas dimensões 170 x 110 cm. Também realizei a
6 Ao citar o termo reenactment, me refiro à concepção elaborada pelo teórico da dança André Lepecki (2011),
que observa que muitas ações, peças e instalações são retomadas por artistas de novas gerações pelo fato
de preservarem lacunas abertas, questões que podem ser atualizadas. Assim, as reencenações conjugam
“experimentalismo” e “vontade de arquivar”, o que conduz a “um modo privilegiado de efetuar ou atualizar
o imanente campo de inventividade e criatividade de uma obra” (Lepecki, 2011, p. 133). Uma vez que as artes
vivas, como a performance e a dança, se operam justamente na irrepetibilidade, um paradoxo performativo
se instaura: trata-se de uma “diferença com repetição, repetição por causa da diferença” (Idem, p. 135). Em
síntese, realizadas como tributos ou como atualizações, as reencenações indicam "um modo afetivo de
historicidade que atrela futuros ao liberar o passado das suas muitas domiciliações’ arquivísticas - e
particularmente liberando-a daquela força majoritária que mais força a domiciliação de uma obra: a
‘intenção do autor’ como comando autoritário dominando as sobre-vidas da obra" (Lepecki, 2011, p. 115). Tal
pensamento pode ser ainda embasado pelas proposições das curadoras Tania Rivera e Izabela Pucu (2015),
quando comentam que são inerentes às imagens ou proposições artísticas referências a visualidades,
palavras ou fatos ocorridos em outra época, “incitando a um rearranjo dos mesmos em um presente muito
complexo”. Nesse espelhamento histórico, “a arte é trabalho de memória” e o trabalho do artista é uma
imbricação contínua entre agora, antes e depois, afinal, “não se trata de conhecer o passado tal como ele
de fato aconteceu, mas sim de se apropriar de uma reminiscência e dela, com ela, fazer arte brecha na
qual se entrecruzam tempos e espaços, convidando-nos a uma experiência por vir”. (Rivera; Pucu, 2015, p.
185-186).
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performance em duas ocasiões, sendo a primeira desde o topo do Edifício do
Amarelinho, na Cinelândia, um dos mesmos locais de onde X. e Cavalcanti
lançaram suas notas de cinco cruzeiros.
Figura 3 Elilson.
Chuva de Direitos
. 2018. Performance e serigrafia sobre tecido.
170 x 110 cm. Foto: Anette Carla Alencar.
Relato
No dia 05 de novembro de 2018, realizei a primeira
Chuva de Direitos
da
cobertura do edifício do Amarelinho, na Cinelândia, o mesmo prédio do qual Márcia
X. e Ana Cavalcanti fizeram chover dinheiro na cidade pela segunda vez, em 1985.
Embora eu tenha ocultado que jogaria carteiras de trabalho gigantes, mas dito que
tão somente homenagearia Márcia X. para um “trabalho universitário de artes”,
consegui autorização da administração predial, porque o síndico geral, um alemão
a quem não tive acesso, se lembrava das artistas e da ação de 1985.
Antes de subir para a cobertura, deitei todas as carteiras no chão da praça.
Com a ajuda de amigas e amigos que me acompanhavam durante a ação7,
7 Nomeadamente: Bruno Awful, artista que orientou a confecção das carteiras no Ateliê de Gravura da UERJ;
Isabel Figueira e Marcella Klimuk, que me auxiliaram como assistentes da ação; e Clarice Rito, que
acompanhou a performance desde a praça.
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desenhei um “X” com elas ou uma cruz, a depender do ângulo de cada passante.
Assim que começamos a deitar as carteiras no chão, um homem me parou para
se informar: “Você sabe o caminho certo daqui para o Ministério do Trabalho?
Estou indo agora mesmo solicitar a segunda via da minha carteira”. Eu acredito
que seja por ali, na quadra de trás, mas é melhor o senhor se informar naquela
banca de jornal. “Mas isso não é uma campanha social? Vocês não trabalham
para a Previdência?”. Em seguida, uma senhora também desejou se localizar:
“Onde é que eu tiro a Carteira de Trabalho?”. outras nos localizaram: “Está tão
difícil tirar carteira de trabalho neste ano, viu? Desde maio tentamos para o nosso
sobrinho, e nada!”.
Com as carteiras inscrevendo um “X” no chão da Cinelândia, uma mulher
parou para comentar: “Sabem que isso vai tudo acabar, né? Melhor colocar
assim, grandão, pra ver se o povo enxerga esse azulão, que agora vai ser verde e
amarelo. Se quem está assinado perdendo tudo, imagina quem...”, disse,
substituindo o final da frase por reticências diagramadas por testa franzida, torção
de boca e flanar de mãos. Depois, caminhando, ela ainda se virou para lançar
uma frase que tinha, simultaneamente, som de pergunta e de proclamação:
“Ninguém vai mais conseguir viver nesse país autonomamente?!”. Transeuntes
começaram a se desviar das carteiras gigantes ou seguiam seu fluxo olhando
várias vezes para trás, como se estivessem calculando a escala do trabalho e a
escala para o trabalho. Uma senhora parou, apontou para as carteiras e gritou:
“Lula livre!”. Ao lado da ação, uma reportagem televisiva abordava passantes para
que partilhassem conhecimentos sobre Direitos Humanos.
Coloquei todas as carteiras no ombro e, como um volumão ambulante, entrei
no prédio rumo à cobertura, acompanhado de uma amiga, Marcela Klimuk. A
primeira que jogamos ficou um tempo presa no telhado da Câmara dos
Vereadores, o que impôs o desafio de negociar com o vento. A partir da segunda,
entendemos que o melhor momento do lançamento era imediatamente após uma
rajada, porém jogando para o lado oposto. Queda a queda, garçons saíram dos
bares para entender o que e de onde caía; transeuntes agarravam algumas e
depois as largavam no chão, outros paravam por um tempo para observá-las
distendidas e voltavam a caminhar. Dentre as carteiras, duas caíram no topo das
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escadas da Câmara: à primeira, a resposta imediata dos seguranças foi fechar o
portão de entrada para a casa do povo; a segunda simplesmente desapareceu,
não se sabe nem se viu quem a levou.
Figura 4 Elilson.
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. 2018. Performance e serigrafia sobre tecido.
170 x 110 cm. Foto: Carolina Calcavecchia.
Figura 5 - Elilson.
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. 2018. Performance e serigrafia sobre tecido.
170 x 110 cm. Foto: Anette Carla Alencar.
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Uma mulher, que se apresentou como “vinda do Sul”, acabara de
desembarcar do VLT com suas malas e decidiu parar por ali ao ver pessoas
olhando para o alto. Ficou acompanhando as quedas e organizando as carteiras
na praça. “Isso é um bom presságio. É minha primeira manhã nesta cidade, e aqui
viverei. Que simbólico ser recepcionada assim”. Dois homens passaram por ela,
olharam para cima e começaram a gritar: “Se joga! Se joga!”. Ela retrucou: “Que
horror! Como se grita isso pra alguém? porque o Bolsonaro venceu, vocês
acham que as pessoas vão começar a se matar?”. Um deles seguiu, enquanto o
segundo recuou e começou a polidamente conversar com ela sobre cidade e
direitos.
Um casal que vivia em situação de rua parou e entrou num impasse. Ela
arrumava todas as carteiras no chão, erguendo algumas e tentando colocá-las de
em orelhões e monumentos da praça. Sem sucesso. Ele dizia: “Não mexe,
que isso não é pra gente”. Isabel Figueira, que recolhia assinaturas de
consentimento de imagem de quem interagia com o trabalho, se aproximou e
disse que tudo bem, que até poderiam levar algumas se quisessem. “É vocês que
estão jogando de cima, né? Nós vimos de longe!”, disse ele, ao passo que a
companheira, após confessar que nunca teve aquele documento e perguntar onde
poderia requisitá-lo, pousou para a foto com uma em mãos e delicadamente
repousou as demais nas escadarias da Câmara. do topo, minutos depois, pronto
para jogar a última carteira, olhei bem a cidade – seus prédios, esbarros, veículos,
pedestres, trabalhadoras e trabalhadores – e evoquei: Salve Márcia X! Salve todos
os artistas que trabalharam, que trabalham e que continuarão trabalhando nessas
ruas. Que das ruas a gente não saia!
Agradeci ao síndico, desci do prédio, conversei com quem acompanhou a
ação e decidi recolher as que sobraram para fotografá-las em movimento nas
tubulações de ar do metrô. Uma mulher, com bolsa de estampa da bandeira do
Brasil, parou e perguntou se poderia levar a última carteira. Claro, é sua, você a
encontrou. “Eu imagino que isso deve ser importante para a peça de teatro de
vocês, mas é que quero utilizar como cenário da peça de natal das crianças, lá no
Cachambi”. Pediu para saber mais sobre o trabalho e a convidei para brincar
comigo na ventilação do metrô. Foi então que perguntei seu nome. “Márcia!”. Após
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minha reação eufórica, repetindo o nome algumas vezes e quase o soletrando sem
acreditar, ela completou: “Eu parei também porque isso tem tudo a ver com meu
trabalho.” Você trabalha com o quê, Márcia? “Eu trabalho na Justiça do Trabalho”.
Figura 6 - Elilson.
Chuva de Direitos
. 2018. Performance e serigrafia sobre tecido.
170 x 110 cm. Foto: Anette Carla Alencar.
Dois dias depois da ação, o fim do Ministério do Trabalho foi anunciado pelo
presidente eleito.
A segunda8
Chuva de Direitos
ocorreu do alto da torre de sino da Igreja de
Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos, na rua
Uruguaiana, em 23 de novembro de 2018, com apoio do Museu do Negro, cuja
equipe gentilmente acolheu a performance e encaminhou as autorizações
necessárias. Antes que eu subisse para as torres, o professor Ricardo Passos,
diretor do Museu, me apresentou para um grupo visitantes, anunciando o que ocorreria
pontualmente às 12 horas, horário de missa. Dentre os presentes, uma turma do
curso de História da UERJ era guiada pela professora, que me ensinou: “Você sabia
8 Nesta segunda realização, estive acompanhado por Dani Câmara, que foi assistente da ação; e
Gustavo, artista que assina duplicando seu nome próprio, que me auxiliou a confeccionar a
segunda leva de carteiras de trabalho.
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que no alto dessas torres escravizados se penduravam nos sinos e exibiam gestos
de capoeira para toda a rua como sinal de resistência? Há pouquíssimos registros
sobre isso, mais especificamente passagens em livros do historiador Carlos
Eugênio Líbano Soares”. Não sabia, muito obrigado por dizer! Agora eu redobrarei
meu pedido de licença ao subir para os sinos. Em seguida, os professores
contaram que a Estação Uruguaiana, localizada a poucos metros dali, era um
cemitério de escravizados que foi destruído e transformado em metrô pela
Ditadura Militar nos anos 70. Após essas informações, subi para as torres. De pé,
no ínfimo espaço ao lado do sino gigante, balancei a primeira carteira também
gigante.
Imagem 7 - Elilson.
Chuva de Direitos.
2018. Performance e serigrafia sobre tecido.
170 x 110 cm. Foto: Anette Carla Alencar.
Rapidamente, vendedores ambulantes passaram a interagir. Pouco a pouco,
uma aglomeração se formou na frente da igreja em horário de missa. “Desce daí,
seu corno!”. “Viado!”. “Não adianta mais, o Lula preso”. Eram gritos que
ecoavam enquanto eu lançava as carteiras. O principal coro durante toda a ação
foi a torcida por um suicídio. “Se joga! Se joga! Se joga!”. “Se joga logo, seu corno!”.
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“Duvido você pular, viado, tô esperando”. Também houve quem parou para tentar
evitar. “Não faz isso, não!”. “Como vocês gritam isso para alguém?”. Uma mãe tapou
os olhos do filho e pediu que uma senhora se apressasse: “Vamos correr daqui,
vai que ele cai em cima da gente?!”.
de cima, enquanto os gritos e xingamentos ecoavam e minhas mãos
suavam frio e tremiam, fui acometido por uma cena que instantaneamente se
cravou em minhas retinas: toda a rua Uruguaiana, dos pés da igreja à passagem
para o Largo da Carioca, apontava e mirava em direção à torre de sino. embaixo,
Daniele, uma das ambulantes que trabalhava às margens da igreja e para a qual
comuniquei previamente sobre a ação para não atravessar seu trabalho de
surpresa, disparou entre os colegas uma contraposição: “Vocês deveriam aplaudir
em vez de zombar e torcer pelo mal. Não entendem que isso é sobre nós?! Vamos
pensar, está tudo acabando!”. Os mesmos ambulantes que clamavam pelo
suicídio, passaram a disputar pelas carteiras, inclusive pela última que joguei,
totalmente em branco.
A ideia de um suicídio não ficou só nos gritos, mas numa denúncia anônima
que partiu de uma funcionária da igreja incomodada com a ação artística e com o
Museu do Negro. Várias viaturas do Centro Presente chegaram ao local e três
policiais, que estavam na Uruguaiana e observaram a ação desde o início, subiram
para me autuar. Com as coisas elucidadas e com as autorizações comprovadas,
um deles, que debochara ao ouvir que se tratava de um trabalho artístico,
exclamou: “É que foi tão realista, né? Acho que não custava nada ter alguém ali
embaixo explicando tudo para as pessoas”. Mas isso mudaria o meu trabalho. “É,
mas isso mudou o nosso trabalho!”. Mas isso são os nossos trabalhos se
encontrando, respondi por fim.
Algumas carteiras foram levadas para casas e podem ter virado bandeira,
estandarte, toalha de mesa… outras passaram a forrar as bancadas de produtos
dos camelôs ali mesmo. Uma delas ficou presa no telhado da igreja e só caiu uma
semana e meia depois da ação. Quando passei um dia pela rua Uruguaiana, Daniele
me contou que quem agarrou o último exemplar foi um homem desabrigado que
vivia em uma das paralelas do Mercado Popular da Saara. Ele passou a utilizar a
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carteira de trabalho como lençol9.
Figuras 8 e 9 - Elilson.
Chuva de Direitos
. 2018. Performance e serigrafia sobre tecido.
170 x 110 cm. Foto: Anette Carla Alencar.
9 Uma primeira versão deste relato integrou meu livro “Mobilidade [inter]urbana-performativa”, de 2019.
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Referências
BASBAUM, Ricardo. "X": Percursos de alguém além de equações.
Revista
Concinnitas
, 2003, p. 174–197. Acesso em: https://www.e-
publicacoes.uerj.br/concinnitas/article/view/42762
ELILSON, Gomes do Nascimento.
Mobilidade [inter]urbana-performativa
. Rio de
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LEMOS, Beatriz.
Márcia X
. Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro,
2013.
LEPECKI, André. O corpo como arquivo: vontade de reencenar e pós-vida de obras
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A performance ensaiada: ensaios sobre performance contemporânea
.
Oliveira Júnior (org.). Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011.
RIVERA, Tania; PUCU, Izabela. Arte, memória, sujeito: Bandeiras na Praça General
Osório 1968 / Bandeiras na Praça Tiradentes 2014.
Lua Nova
, São Paulo, 96, 177-
190, 2015.
Recebido em: 30/06/2026
Aprovado em: 12/08/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes CênicasPPGAC
Centro de Artes, Design e ModaCEART
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