
Chuva de Direitos
: um tributo a Márcia X.
Elilson Gomes do Nascimento
Florianópolis, v.2, n.58, p. 1-14 , ago. 2026
As operações conceituais, estéticas e críticas confluídas em “Chuva de
Dinheiro” demonstram a estilística de Márcia X., artista que se aproximava “de
todas as fontes, num contínuo desdobrar de impactantes invenções sem par”
(Basbaum, 2003). Este modo de criação profícuo e singular que atravessa a intensa
produção de Márcia X. ao longo de 25 anos de carreira, mais da metade dos 45
que viveu, assumindo a performance, desde o começo dos anos 80, como a
expressão-cerne de uma poética que vetorizou um sem-fim de linguagens ao
esgarçar as relações entre arte, liberdade e inventividade, e ao recorrer a uma
profusão de materiais cotidianos para criar uma gramática visual própria, a
localizam num “diagrama da arte” como “o índice X. de importância decisiva”,
“como a figura-X, interrogação-mor inquietante da arte brasileira” (Basbaum,
2003).
No Brasil de 2018, diante das crises trabalhistas que foram instauradas pelas
reformas do governo golpista de Michel Temer e assinalavam uma intensificação
da perda de direitos conquistados com a iminente eleição de Jair Bolsonaro, resolvi
formular uma nova versão desse trabalho, assumindo não só Márcia X. como uma
de minhas maiores predileções e inspirações artísticas, mas compreendendo
como o seu trabalho segue respondendo ao Brasil e à sua sucessão de crises com
manejos estéticos inigualáveis. Em meu reenactment6 intitulado “Chuva de
Direitos”, que também descrevo como um tributo a Márcia X., as cédulas
serigrafadas em tecido foram alternadas por carteiras de trabalho gigantes
impressas em serigrafia nas dimensões 170 x 110 cm. Também realizei a
6 Ao citar o termo reenactment, me refiro à concepção elaborada pelo teórico da dança André Lepecki (2011),
que observa que muitas ações, peças e instalações são retomadas por artistas de novas gerações pelo fato
de preservarem lacunas abertas, questões que podem ser atualizadas. Assim, as reencenações conjugam
“experimentalismo” e “vontade de arquivar”, o que conduz a “um modo privilegiado de efetuar ou atualizar
o imanente campo de inventividade e criatividade de uma obra” (Lepecki, 2011, p. 133). Uma vez que as artes
vivas, como a performance e a dança, se operam justamente na irrepetibilidade, um paradoxo performativo
se instaura: trata-se de uma “diferença com repetição, repetição por causa da diferença” (Idem, p. 135). Em
síntese, realizadas como tributos ou como atualizações, as reencenações indicam "um modo afetivo de
historicidade que atrela futuros ao liberar o passado das suas muitas ‘domiciliações’ arquivísticas - e
particularmente liberando-a daquela força majoritária que mais força a domiciliação de uma obra: a
‘intenção do autor’ como comando autoritário dominando as sobre-vidas da obra" (Lepecki, 2011, p. 115). Tal
pensamento pode ser ainda embasado pelas proposições das curadoras Tania Rivera e Izabela Pucu (2015),
quando comentam que são inerentes às imagens ou proposições artísticas referências a visualidades,
palavras ou fatos ocorridos em outra época, “incitando a um rearranjo dos mesmos em um presente muito
complexo”. Nesse espelhamento histórico, “a arte é trabalho de memória” e o trabalho do artista é uma
imbricação contínua entre agora, antes e depois, afinal, “não se trata de conhecer o passado tal como ele
de fato aconteceu, mas sim de se apropriar de uma reminiscência e dela, com ela, fazer arte – brecha na
qual se entrecruzam tempos e espaços, convidando-nos a uma experiência por vir”. (Rivera; Pucu, 2015, p.
185-186).