
Nietzsche, Tragédia e a Teoria da Catarse
James I. Porter | Tradução: Rafael Percino
Florianópolis, v.2, n.58, p.1-33, ago. 2026
tragédia sabe nos redimir da ávida ânsia por esta existência e, com gesto
admoestador, lembra que há outra forma de ser e outro prazer mais
elevado (pressentida pela destruição, não no triunfo, do herói trágico).
Entre a validez universal de sua música e a dionisíaca receptividade do
espectador, a tragédia coloca um símile grandioso, o mito, e
engana
o
ouvinte de que a música é apenas um meio supremo de representação
para vivificar o mundo plástico do mito. [...] O mito nos protege da música,
só então proporcionando a esta, por outro lado, a suprema liberdade. Por
sua vez, e em contrapartida, a música dá ao mito trágico uma significação
metafísica tocante e
convincente
, que a palavra e a imagem jamais
alcançariam sem tal auxílio único; e, sobretudo, por meio dela o
espectador trágico é tomado daquela segura premonição de um deleite
supremo atingido pela via da derrota e da negação, de modo que
é como
se
escutasse o mais visceral abismo das coisas a lhe falar nitidamente.
(Ou: “audível e claramente”: “
vernehmlich
”). (Nietzsche, 2020, p. 113: 21;
ligeiramente adaptado; ênfase adicionada28)29.
Até agora tudo bem. O
Urgrund
dionisíaco da existência, transmitido através
da música (a representação mais imediata desta região metafísica) é filtrado
através da tela das aparências apolíneas: a arte, através de suas formas, contornos
e mitos, dá ao espectador acesso a este terreno subterrâneo enquanto também
protege-o de seu poder de outra forma destrutivo30. A experiência é vicária,
28 NdT: Foi dada preferência pelas adaptações feitas no texto pelo autor, mas tentou-se manter o texto original
sempre que possível.
29 NdT: no original em alemão: “Die Tragödie saugt den höchsten Musikorgiasmus in sich hinein, so dass sie
geradezu die Musik, bei den Griechen, wie bei uns, zur Vollendung bringt, stellt dann aber den tragischen
Mythus und den tragischen Helden daneben, der dann, einem mächtigen Titanen gleich, die ganze
dionysische Welt auf seinen Rücken nimmt und uns davon entlastet: während sie andrerseits durch
denselben tragischen Mythus, in der Person des tragischen Helden, von dem gierigen Drange nach diesem
Dasein zu erlösen weiss... Die Tragödie stellt zwischen die universale Geltung ihrer Musik und den dionysisch
empfänglichen Zuhörer ein erhabenes Gleichniss, den Mythus, und erweckt bei jenem den Schein, als ob die
Musik nur ein höchstes Darstellungsmittel zur Belebung der plastischen Welt des Mythus sei... Der Mythus
schützt uns vor der Musik, wie er ihr andrerseits erst die höchste Freiheit giebt. Dafür verleiht die Musik, als
Gegengeschenk, dem tragischen Mythus eine so eindringliche und überzeugende metaphysische
Bedeutsamkeit, wie sie Wort und Bild, ohne jene einzige Hülfe, nie zu erreichen vermögen; und insbesondere
überkommt durch sie den tragischen Zuschauer gerade jenes sichere Vorgefühl einer höchsten Lust, zu der
der Weg durch Untergang und Verneinung führt, so dass er zu hören meint, als ob der innerste Abgrund der
Dinge zu ihm vernehmlich spräche
.”
(KSA, p. 134).
30 Nota do autor: Só para ficar claro: a música é um fenômeno apolíneo; é uma representação da Vontade
metafísica. Isto pode parecer controverso, mas é o que Nietzsche diz. "Música... tinha sido conhecida
anteriormente [antes do surgimento do dionisíaco] como uma arte apolínea... a batida ondulatória do ritmo,
cujo poder formativo foi desenvolvido para a representação dos estados apolíneos” (Nietzsche, 1967, p. 40);
(“Wenn die Musik scheinbar bereits als eine apollinische Kunst bekannt war, sowar sie dies doch nur... als
Wellenschlag des Rhythmus, dessen bildnerische Kraft zur Darstellung apollinischer Zustände entwickelt
wurde”) (KSA, p. 33). Acontece que um desses estados é o dionisíaco (ver Porter, 2000a,
passim
, p. 151-3 e,
por exemplo, p. 212). A música não apenas representa a vontade, mas também
aparece como vontade
(Nietzsche, 1967, p. 55; “sie erscheint als Wille”, KSA, p. 50), ou seja,
como
dionisíaca. Assim, boa parte do
seu carácter estético e do seu efeito estético – o seu poder e sua capacidade de dor – deve-se à forma
como a música parece ser o que não é. Seu valor é o de um imediatismo mediado (aparente). Os fenômenos
musicais são aparências que não parecem ser aparências. As aparências apolíneas propriamente ditas, isto
é, de cunho mais evidente, não se apresentam como vontade dionisíaca, mas como aparências puras e
simples: elas aparecem
como
aparência (são “der Schein des Scheins”, Nietzsche, 1967, p. 45; KSA, p. 39);