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Sonhar em ato: proposições
Performativas para dançar a profundidade onírica
Giovanna Malpighi
Bianca Scliar Cabral
Para citar este artigo:
MALPIGHI, Giovanna; CABRAL, Bianca Scliar. Sonhar em ato:
proposições performativas para dançar a profundidade
onírica.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v. 1 n. 57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0101
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Sonhar em ato: proposições performativas para dançar a profundidade onírica1
Giovanna Malpighi2
Bianca Scliar Cabral3
Resumo
O artigo articula o laboratório em movimento sobre enunciações do sonhar com a teoria
neurofenomenológica de Solomonova e Wei (2016), as reflexões de María Zambrano sobre a
dimensão onírica da razão, e a pesquisa "Corpar o onírico", realizada no PPGAC/UDESC, com
enfoque em proposições performativas para corpos sonhantes. Esta intersecção
transdisciplinar investiga a profundidade do sonhar como protagonista através do afeto
corporificado, propondo abordagens que integram a neurociência, a filosofia e as artes
performativas na compreensão da experiência onírica como fenômeno simultaneamente
mental, somático e criativo.
Palavras-chave:
Sonho. Enação. Afeto. Corpo. Artes performativas.
Dreaming in Act: Performative Propositions for Dancing Dream Depth
Abstract
The article articulates the laboratory in movement on dream enunciations with Solomonova
and Wei's (2016) neurophenomenological theory, María Zambrano's reflections on the oneiric
dimension of reason, and PPGAC/UDESC's research "Bodying the Oneiric" on performative
methodologies for dreaming bodies. This transdisciplinary intersection investigates dream
depth as protagonist through embodied affect, proposing approaches that integrate
neuroscience, philosophy and performative arts in understanding oneiric experience as a
simultaneously mental, somatic and creative phenomenon.
Keywords:
Dream. Enaction. Affect. Body. Performing Arts.
Soñar en acto: proposiciones performativas para danzar la profundidad del soñar
Resumen
El artículo articula el laboratorio en movimiento sobre enunciaciones del soñar con la teoría
neurofenomenológica de Solomonova y Wei (2016), las reflexiones de María Zambrano sobre
la dimensión onírica de la razón, y la investigación “Encarnar lo onírico”, realizada en el
PPGAC/UDESC, con un enfoque en proposiciones performativas para cuerpos soñantes. Esta
intersección transdisciplinar investiga la profundidad del soñar como protagonista a través
del afecto corporificado, proponiendo enfoques que integran la neurociencia, la filosofía y las
artes performativas en la comprensión de la experiencia onírica como un fenómeno
simultáneamente mental, somático y creativo.
Palabras clave
: Sueño. Enaction. Afecto. Cuerpo. Artes performativas.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Vitória Soares Bueno. Mestranda em
Estudos Literários, Culturais e Interartes na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Graduação
em Línguas, Literaturas e Culturas pela FLUP.
2 Mestranda em Artes nicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Graduação em Psicologia
pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. giovannasmalpighi@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/2308906084720458 https://orcid.org/0009-0007-0050-8073
3 Pós-doutorado pela 3 Ecologies Institute, 3E, Canadá. Doutorado Interdisciplinar Artes e Ciências Humanas
pela Concordia University, Concordia, Canadá. Mestrado em Public Art and New Artistic Strategies pela
Bauhaus Universität Weimar (BHU), Alemanha. Graduação em Licenciatura em Artes Cênicas, pela
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Profa. Associada atuando na graduação e na pós-
graduação em Artes Cênicas da UDESC. bibimove@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/8372597292097059 https://orcid.org/0000-0003-3406-8647
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Introdução
O projeto
Encorpar o onírico: Proposições performativas para corpos
sonhantes
, desenvolvido no programa de mestrado em artes cênicas do PPGAC
(Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas/UDESC), propõe situações de
pesquisa-criação onde convidamos à articulação em movimento desperto desde
a experiência do sonhar. Para esta investigação, em etapa inicial dedicamo-nos à
revisão bibliográfica sobre a consciência onírica e a profundidade dos sonhos em
María Zambrano. Encontramos nesta etapa o trabalho de Solomonova e Wei, cuja
pesquisa contribui para nosso objetivo de formular proposições de improvisação
em dança que extrapolem a dimensão simbólica ou narrativa do campo onírico.
No texto
Exploring the Depth of Dream Experience: The Enactive Framework
and Methods for Neurophenomenological Research
(2016), a psicóloga Elizaveta
Solomonova e o artista, matemático e filósofo Sha Xin Wei dedicam-se a explicitar
a complexidade da experiência onírica e do estado de consciência no sonho.
Conforme defendem, esta seria descrita com mais acuidade através da
intersecção entre os campos da neurociência, psicologia, ciência cognitiva e
filosofia.
Em conjunção com estes autores, apresentamos adicionalmente os
resultados que alcançamos ao longo de cinco encontros práticos, com
experiências em ativação do movimento desde a memória dos sonhos, conduzidos
em parceria com o Programa de Extensão Enredar-se aos Pés, no ano de 2025.
Compusemos com estudos sobre enação de Solomonova e Wei na condução das
proposições práticas, para refletir sobre estados de consciência e modos de
integração dos estados de sonho em processos de treinamento da presença.
Nosso interesse nas qualidades da consciência em sonho levou-nos ao
trabalho de Solomonova e Wei por compartilharmos as perguntas: É possível,
através dos modos de nos relacionar com a experiência do sonhar, reconhecer a
profundidade afetiva em seus aspectos corpóreos? O que para além da
capacidade de articular narrativas do sonho, enunciados e dramas; e como nos
movemos desde esta ativação?
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Estados de Consciência e a Experiência Onírica
Figura 1 - Registro do laboratório Eco REM - Grupo de onze pessoas dispostas em círculo
sobre um piso de madeira, em uma sala escura com iluminação âmbar. Os corpos estão de
pé, descalços, em estado de escuta e preparação. No centro da roda é possível identificar as
sombras dos corpos projetadas no chão. Foto: Azul Serra (2025).
Consideramos a experiência onírica como um estado de consciência, descrito
por Stephen Harrod Buhner a partir de sua leitura de Michael Winkelman (Buhner,
2004, apud Winkelman, 2010). Os autores defendem a importância de investigar
estados de consciência cuja perspectiva possa ser contrastada com a da
consciência ordinária desperta4. Sustentam que tanto os rituais quanto o sonho
4 Em
Shamanism: A Biopsychosocial Paradigm of Consciousness and Healing (Function),
Winkelman descreve
a relevância no desenvolvimento biopsicossocial dos sonhos. Segundo seu estudo, os [r]ituais xamânicos
também produzem um espectro de experiências que devem ser endereçadas a partir de uma teoria da
consciência amplificada. Estudos sobre tradições contemplativas nos oferecem dados sobre formas da
experiência e aspectos da identidade própria que já são reconhecidos comumente na psicologia ocidental. As
práticas xamânicas produzem um polo nos vários dualismos da consciência, que contrastam as experiências
da consciência desperta egóica do mundo e seus aspectos intelectuais, verbais, racionais, orientados para o
funcionamento e adaptação com o ambiente externo. [...] Em contraste, o xamanismo transforma a
consciência para uma orientação interna interpretada como um mundo espiritual que é conhecido através de
uma subjetividade intuitiva e holística, fontes tácitas e não verbais de percepção e conhecimento. Essas
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ativam estados fundamentais para o desenvolvimento neurofisiológico das
funções de processamento da informação no cérebro.
A abordagem neurofenomenológica de Winkelman sobre estados alterados
de consciência em rituais sugere que práticas xamânicas acessam níveis de
consciência que precedem a linguagem e o pensamento racional, operando de
modo integrativo ao combinar processos pré-linguísticos, integração sensorial e
aumento da comunicação inter-hemisférica cerebral. A partir da análise de
estados de consciência distintos, o autor é levado a definir ainda outros estados
de consciência e descreve a rica experiência sensorial que ocorre durante o sonho,
destacando a diferença entre o sonho e o estado de sono.
Winkelman (2010) propõe a classificação da consciência em quatro estados,
sendo eles: a consciência desperta, o sono, o sonho e a consciência integrativa. Na
consciência em sonho, o desengajamento e a necessidade de resposta sensorial
imediata ativam o que ele chama de cognição incorporada.
Enquanto o fundo simbólico e o sistema simpático repousam a
ativação na produção de serotonina. Por sua vez, seus receptores
produzem uma nova modulação bioquímica que afeta as funções do
sistema nervoso central, dispondo o organismo à “adaptabilidade às
informações ambientais”. No estado de sonho ativam-se a plasticidade
neural, a neurogênese, a função imunológica, a função cardíaca, o sentido
do tato (cinestésico ou não), as funções relacionadas à sexualidade e
reprodução, o aprendizado, a memória, e o estado emocional
(Winkelman, 2010, p. 355372)5.
formas xamânicas de consciência exigem um modelo de consciência mais amplo do que aquele enfatizado
pelas atividades especializadas do hemisfério cerebral esquerdo.” (“Shamanic rituals also produce a broader
range of phenomenal experiences that must be addressed in a comprehensive theory of consciousness.
Studies of the contemplative traditions provide data about forms of experience and aspects of self and identity
beyond that conventionally recognized in Western psychology. Shamanistic practices produce one pole in the
various dualisms of consciousness that contrast the experiences of ordinary egoic waking consciousness of
the world and its intellectual, verbal, rational, externally oriented functioning in adaptation to the external
environment. ([..] In contrast, shamanism transforms consciousness to an internal orientation interpreted as
a spiritual world that is known through a subjective intuition and holistic, tacit, and nonverbal sources of
perceptions and knowledge. These shamanic forms of consciousness oblige a broader model of
consciousness than that emphasized by the specialized activities of the left brain hemisphere).” M. J.
Winkelman, 2010. E-book Kindle. (Tradução nossa)
5 “While the symbolic background and the sympathetic system rest, there is activation in serotonin production.
In turn, its receptors produce a new biochemical modulation that affects the functions of the central nervous
system, preparing the organism for 'adaptability to environmental information.' In the dream state, neural
plasticity, neurogenesis, immune function, cardiac function, tactile sense (whether kinesthetic or not),
functions related to sexuality and reproduction, learning, memory, and emotional state are activated.”
(Tradução nossa)
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Além do lastro neurofisiológico, sono e sonho estão intimamente ligados ao
senso de si mesmo e do outro. A dinâmica do controle sensorial e da cognição, ou
seja, o que percebemos e pensamos, muda consideravelmente conforme a
dinâmica da serotonina, e de acordo com a qualidade dos sonhos, que nos
conectam com as atividades dos receptores 5-HT (a serotonina) no sistema
nervoso. Este não é um processo mecânico e reducionista onde somos
simplesmente um produto de nossa química. Pelo contrário, é modulado pela
maneira através da qual conversamos com nossos sonhos e tecemos assim as
redes neurais que nos conformam (Buhner, 2004, p. 180).
Nossa pesquisa moveu-se por uma inquietação: nos parecia falacioso deduzir
que concluímos ou resolvemos uma situação diante de uma interpretação
analítica do sonho, minguando outras dimensões da experiência do sonhar e seus
possíveis efeitos. A pesquisa Encorpar o Onírico e o Laboratório Eco REM (Resgate
Encorpado de Memórias) procuram caminhos para uma prática de encontro com
a consciência onírica, a partir da improvisação em dança.
A Razão Poética de María Zambrano
A filósofa espanhola María Zambrano (1904-1991), cujo pensamento marca-se
pela dedicação à razão poética, aproxima-se da experiência dos sonhos como
revelações de saber, manifestações de conhecimento e acesso ao que considera
serem sentidos ocultos. Interessada pelos aspectos que excedem uma
racionalidade estrita, Zambrano não aborda os sonhos como experiências místicas,
mas como acontecimentos que rompem com a dicotomia entre razão e
imaginação. Ela destaca que o conhecimento adquirido através dos sonhos não
precisa ser necessariamente analítico, mas que este que constituiria apenas um
fragmento da experiência onírica (Zambrano, 1986, p.13).
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Figura 2 - Registro do laboratório Eco REM - Homem deitado no chão, com o corpo enrolado sobre si
mesmo, segurando os próprios pés com os braços. As mãos seguram os pés enquanto o torso se apoia
no chão e a cabeça ergue-se. A iluminação lateral projeta sua sombra na parede escura.
Foto: Ariel Gaboro (2025).
Consideramos, como Zambrano, que o sonho não é um escape, mas uma via
da experiência que a razão discursiva não alcança. Quais os meios possíveis para
apreender a experiência do sonhar em sua totalidade, manifestação direta para
aquele que sonha?
Sonhar, por um lado, produz imagens, sensações, afetos significativos em
processo psicofísico para aquele que sonha. Ao mesmo tempo, tem efeitos que
convidam à captura de sentido, quando nos relacionamos com esta experiência
como algo íntimo, corporalmente vivido, sensorialmente experienciado.
Simultaneamente exteriorizamos e interiorizamos, experienciando
intimidade, história e futuro como substância inteligível que imediatamente ativa
corporalidades (respostas, sintonias de atenção, etc.).
La estructura del tiempo en los sueños es, pues, sin poros, un tiempo
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compacto donde no podemos entrar. Así, en cierto modo, somos
externos a lo que nos sucede; la conciencia no entra, sino que, separada,
asiste. La consciencia es el espectador de aquello que está sucediendo,
aunque sea la explicación de un deseo (Zambrano, 1986, p.12).
Ao propor sonhos-encontros, nosso trabalho dedica-se à dimensão das
intensidades corporais experienciadas em sonhos como fio condutor de
expressividades através de ferramentas da dança contemporânea, dança-teatro e
performance, escrita criativa e entrevistas.
O Contexto Sociocultural da Partilha dos Sonhos
Ainda hoje, o estudo dos sonhos é um campo marginalizado nas ciências
cognitivas, o que reflete os modos de socialização no contexto urbano atual. A
capacidade de narrar a experiência do sonho e assegurar a validade e relevância
deste estado de consciência e corporalidade foi outrora distintamente importante.
Apesar de presente em diversas culturas antigas, a partilha dos sonhos caiu no
campo do esquecimento com a disseminação do capitalismo e da era industrial
(Ribeiro, 2021). As narrativas coletivas, as enunciações de afetos e os encontros
passam a privilegiar critérios de desempenho causais, tecendo padrões culturais
que impactam tanto a autoimagem quanto as aspirações dos povos em outras
palavras, a sua habilidade de tecer sonhares coletivos. Os saberes e experiências
mais opacos passaram a ser compreendidos como uma ameaça ao sistema que
se iniciou no século XVI (Glissant, 2021).
Mas o que de fato significa isso? O ato de sonhar não produz um capital.
Assim, tendemos a desprezar a ideia de apreender o sonho como uma experiência
de valor. Na consciência dos sonhos, os blocos de sentido e sentir não têm
implicações causais e, portanto, extrapolam as diretrizes da consciência desperta
de nossa sociedade contemporânea. Subestimamos o interesse pelo modo como
sonhamos e lidamos com o impacto do sonho no corpo desconsiderando que
sonhar também torna possível afinar a consciência coletiva.
O conceito de enação, cunhado por Maturana e Varela (1991), é ativado na
pesquisa de Solomonova e Wei como alternativa para as abordagens
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representacionistas da consciência nos sonhos. A enação6 (do inglês
enaction
) é o
princípio da cognição que desvia da noção de consciência como resultante da
representação passiva do mundo, por considerá-la ação incorporada: conhecemos
o mundo através de interação ativa, não apenas recebendo informações. A partir
desse conceito, se considerarmos que tomamos consciência por meio de
processos de enação, ou seja, na ação incorporada, conectada à realização
biológica do organismo, podemos dizer que impacto no tecido social quando
as partilhas do sonho ocorrem coletivamente?
Supomos que, do mesmo modo como afetam a consciência individual, as
experiências oníricas também podem vir a ser um modo constituinte de estruturas
sociais exiladas da neurotipicidade ocidental. O psicólogo e pesquisador David
Pávon-Cuéllar afirma, em sua obra
Além da psicologia indígena: Concepções
mesoamericanas da subjetividade
(2022), que povos originários da Mesoamérica
consideram o sonho também como uma “maneira de saber”, que uma
continuidade entre a vigília e o sonho, que formam ambos parte de uma mesma
vida.
Assim é também para cosmologias sofisticadas como a dos Yanomamis, na
qual a pessoa que sonha está mais suscetível à vontade e ao desejo do outro que
encontra em seu sonho. O sonho não expressa apenas o desejo inconsciente
individual, como afirma por exemplo a psicanálise freudiana, mas nos conecta à
consciência de outros entes, que podem incluir mortos, espíritos, plantas, ou
animais. Ainda assim, são os sonhantes que decidem o que fazer com tais
investidas, podendo tanto “receber mensagens”, como também enviá-las. Aquele
que sonha atua como um porta-voz e diplomata do mundo dos espíritos, em
diálogo fundamental com a concepção de mundo desta etnia (Limulja, 2022, p.115).
Largura
Versus
Profundidade dos Sonhos
O aspecto linear e causal dos sonhos é referenciado nas ciências analíticas
com mais frequência, sendo este descrito por Solomonova e Wei como a
dimensão de largura, ou extensão, do sonho-acontecimento (em inglês,
breadth
).
6 Para uma revisão completa sobre enação consultar Braun, Fischer; Kroeff em
Revista Polis e Psique
, 2018.
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Os pesquisadores destacam a importância de alcançarmos o que chamam de
"dimensão de profundidade” do sonhar (
depth
).
Para alcançar a dimensão de profundidade da experiência do sonhar em
investigações clínicas, Solomonova e Wei são meticulosos em descrever seus
métodos, que medem as qualidades do sonho, como sua dinâmica temporal, as
qualidades afetivas do sonhar, e a forma como o sonho aparece a quem o sonha.
No contraste entre a profundidade e a largura do sonho, os autores indagam o que
pode o corpo enquanto sonha. Seu foco não está no que aparece nos sonhos, mas
sim no modo como o sonhante se sente e se afeta a partir de tais elementos. Este
é um interesse muito próximo da nossa pesquisa, porém com o recorte da
psicologia experimental.
Para investigar o âmbito da largura dos sonhos, comumente são utilizados
métodos neurocientíficos que pontuam a presença ou a falta de certos elementos
nos sonhos, tais como cenários, personagens, objetos, animais, interações
amigáveis ou agressivas, etc. O método mais recorrente na análise de conteúdo é
o Hall and Van de Castle. Na pesquisa desenvolvida por Solomonova e Wei, estes
elementos são analisados nos sujeitos sonhantes de acordo com a sua idade,
gênero e com diferenças clínicas apresentadas, como, por exemplo, diagnósticos
de neurodiversidade ou esquizofrenia. A partir daí, procura-se detectar padrões da
memória incorporados aos sonhos, diários dos sonhos, experiências em
laboratório envolvendo filmes incomuns, videogames e realidade virtual. Tais
padrões indicam que o conteúdo dos sonhos reage às experiências vivenciadas,
ativando a consciência em uma dinâmica temporal complexa. Além de incorporar
qualidades formais dos elementos acessados, os relatos demonstram que,
adicionado ao fenômeno do resíduo diurno, um impacto também na
experiência de temporaneidade (ritmos, simultaneidades, etc.), que se reflete na
consciência do sonho em até sete dias depois. Eles escrevem que “[a]
profundidade do sonhar, no entanto, não tem sido investigada sistematicamente
pelas ciências cognitivas empíricas contemporâneas” (Solomonova; Wei, 2016,
p.408)7.
7 The depth of dreaming, however, has not been investigated systematically by contemporary empirical cognitive
sciences. (Tradução nossa)
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Os dados levantados pelos pesquisadores contribuem para a compreensão
da formação dos sonhos e deixam pistas relevantes sobre questões referentes
tanto à construção de sentidos quanto à significação das experiências vividas.
Da Abordagem Enativa dos Sonhos para uma Pedagogia da Percepção
Em seu relato, Solomonova e Wei apresentam o processo imaginativo e a
percepção como inseparáveis. Eles descrevem o papel da experiência dos sonhos
como aspecto fundamental a ser considerado em sua teoria da enação, segundo
a qual o mundo de um sujeito realiza-se a partir de um domínio relacional co-
emergente, ou seja, não “conteúdo psíquico” que antecede a experiência que
não seja coproduzido no acontecimento. Segundo a argumentação, fundamentada
em abordagens contemporâneas tanto das teorias relacionais (Thompson, 2007;
Varela Thompson & Rosch, 1991; Stewart; Gapenne & Di Paolo, 2010; Colombetti,
2013; Noe, 2004) quanto da fenomenologia (Merleau-Ponty, 2012), não marcas
do domínio externo pré-estabelecidas no sujeito, isto é, representadas no sistema
nervoso ou em propriedades cerebrais.
Em seu relato, os autores sintetizam: na fenomenologia da percepção de
Merleau-Ponty, o
ser-no-mundo
implica o sujeito corporificado e motivado,
cocriando o acontecimento a partir de interações orientadas por qualidades de
afetos e intencionalidades. Merleau-Ponty oferece ao corpo e à mente presunções
equânimes ante a experiência vivida, concebendo uma consciência indivisível
(Merleau-Ponty, 2012, p. 122) do mundo, o que Manning (2014) chama de
in-ato
.
Dentre as nuances da teoria da enação, ativadas por diferentes tradições,
da filosofia, às artes, às ciências cognitivas, à psicologia social e até aos estudos
de gestão que indicam variações e interpretações específicas a cada campo de
conhecimento, neste trabalho refletimos sobre as suas possíveis relações com as
áreas de atuação, performatividade e estudos da performance. Levamos em
consideração a estrutura enativa ao assumir uma perspectiva integrativa da
experiência dos sonhos, trazida para as proposições nos encontros presenciais em
que orientamos práticas de enunciação e criação coletivas. Ali, nos dedicamos a
investigar sua profundidade, explorando sensações corporais implicadas na
imaginação, na percepção e na ilusão.
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Solomonova e Wei abordam estratégias interdisciplinares e empíricas para
uma investigação neurofenomenológica das experiências dos sonhos, como a
descrição de métodos que reportam os detalhes dos sonhos e que treinam os
participantes a aprofundarem as experiências oníricas na consciência desperta. A
descrição dos métodos de imagens cerebrais produzidas em laboratório, usadas
para tecer a neurofenomenologia dos sonhos, também fazem parte do projeto. Os
pesquisadores assumem que os participantes em sua pesquisa são pessoas
treinadas na recordação de sonhos. Para um estudo fenomenológico válido, eles
devem adicionar o treinamento ao conjunto de habilidades dos participantes.
Como provavelmente é tarde demais para realizar
époche post festum
(ao
relembrar sonhos), a pesquisa fenomenológica completa provavelmente também
exigiria o treinamento dos participantes na habilidade de realizar redução
fenomenológica enquanto sonham, talvez não muito diferente das preparações
para o sonho lúcido. Em vez de tentar lembrar o que está sonhando (enquanto
sonha), o pesquisador fenomenológico dos sonhos tentaria lembrar de
redirecionar a atenção do sonho para o “como?” da experiência (Solomonova, Sha
& Nielsen, 2015, p. 425).
No caso dos laboratórios conduzidos no projeto Eco REM Resgate
Encorpado de Memórias, formulamos proposições que misturaram modos de
narrar, mover, compor, lembrar e inventar com a memória do futuro8, criando um
espaço propício para acessar coletivamente a consciência onírica.
8 Em
Matéria e Memória
(2006), Bergson distingue entre dois tipos de memória: a
memória-hábito
, ligada ao
corpo e à repetição de ações, e a
memória pura
, voltada para o passado vivido e para a consciência subjetiva.
A partir dessa distinção, emerge o conceito de
memória do futuro,
que descreve a
capacidade da consciência
em projetar-se para o futuro a partir da experiência acumulada do passado
, operando por
intuição temporal
.
A memória do futuro pode ser entendida como a
atenção à vida em sua duração.
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Figura 3 Cartaz de divulgação do laboratório Eco REM Resgate Encorpado de Memórias. Arte
gráfica em fundo azul, com uma imagem central que remete a uma rede neural ou rizomática, em
forma circular e branca. No topo, em letras grandes, está escrito “REM Resgate Encorpado de
Memórias”, com o subtítulo “laboratório do SONHAR: consciência e expressividades oníricas no
corpo”. À direita, constam as informações sobre datas, local e condução do laboratório. A parte
inferior do cartaz exibe logomarcas institucionais (UDESC, CEART, DRT, PPGAC e Enredar-se),
sinalizando o caráter acadêmico e gratuito da atividade. Fonte: Acervo pessoal da autora (2025).
Concebemos, junto com Solomonova e Wei, a percepção não como uma
recepção passiva, mas sim enquanto fenômeno que se constitui através de uma
subjetividade engajada, ativação de afetos presentes e instaurados nos modos de
corpar (antes e durante o acontecimento). A percepção, portanto, não é um
processamento passivo, que recebe informações exteriores, mas, ao contrário, um
acontecimento engajado e ativo que envolve organismo e ambiente de modo
afetivo e motivado: nos afeta e nos imagina.
Segundo Ernest Hartmann (2010), o processo de sonhar pode ser visto como
um mecanismo criativo básico, onde a experiência de ser ator, espectador e diretor
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do sonho permite a vivência de significantes peculiarmente experienciados apenas
neste estado, compostos em situações oníricas.
Apesar da complexidade com a qual vivenciamos a experiência do sonhar
(resultante da difusão da concepção do sonho como um modo de percepção,
baseada na equivalência entre os processos subjetivos na vigília e no sonho),
tendemos a aproximar os fenômenos experienciados ali aos de uma ilusão ou
alucinação, desprezando-os como modo de consciência, ou confrontando o seu
conteúdo como se não fosse parte integrante das construções de sentido.
semelhanças entre as sensações e ativações produzidas em estados de alucinação
ou imaginação e as sensações oriundas do sonhar.
Figura 4 Registro do laboratório Eco REM - Imagem em baixa luz e tonalidade âmbar de um
momento de improvisação cênica com foco no chão. Corpos em movimento investigam apoios
com mãos e pés. Os criadores-pesquisadores compõem uma cena de entrega e escuta corporal.
Foto: Azul Serra (2025).
Compreender o onírico como um fenômeno de continuidade da imaginação
criativa, ativo no processo de consciência, nos permite estudar os sonhos
enquanto qualidade do pensamento e da expressividade do corpo, aproximando-
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os de uma forma intensificada de divagação mental no-ato, movimento designado
por James como “especulação ativa” em obras como
The Principles of Psychology
(1890);
The Will to Believe
(1896) e
Pragmatism
(1907). A especulação ativa é
entendida como uma forma de pensamento intimamente ligada à ação, à
experiência vivida e à aposta no real como algo em aberto e em constante
construção.
Corporificação
Ao adentrar no sono REM (Rapid Eye Movement), vivenciamos uma intensa
atividade cerebral, na qual o
locus coeruleus
(ponte) participa da inibição motora
ao modular circuitos que impedem a contração muscular, evitando que os
movimentos dos sonhos sejam executados fisicamente. Ou seja, ocorre o que
chamamos de atonia muscular: os músculos esqueléticos relaxam, e apenas os
movimentos oculares permanecem ativos. Este acontecimento vincula-se à
enação, pois ocorre no corpo, apesar de estarmos aparentemente imóveis. Discutir
a falácia do controle da coordenação motora como sinônimo de sofisticação da
consciência expressiva, não é, no entanto, tema deste artigo.
Figura 5 Registro do laboratório Eco REM. - Investigação de movimento em coro, no qual o
movimento da pessoa à frente guia a movimentação gestual dos corpos unidos posicionados atrás
dela. As mãos estão estendidas em posição de recepção e ao mesmo tempo apontando uma
direção. A luz é âmbar com uma tonalidade avermelhada. Foto: Azul Serra (2025).
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Aproximar a profundidade do sonhar através do prisma da imaginação
performativa, considerando a enação como um modo contíguo de pensar a dança,
é nossa proposta para ativar a percepção engajada na realidade do corpo em
movimento. Estas são importantes chaves para a compreensão da ativação da
subjetividade em movimento.
Tensionando a cisão entre razão e poética, dedicamo-nos à investigação da
profundidade da experiência onírica, corporal e afetiva. Para tanto, adotamos
estratégias em movimento, aproximando, através de proposições corporais, a
interação entre a consciência desperta no-ato (
en-acted
, ou
in-act)
, daquela
experienciada nos contextos oníricos. Colocamos a seguinte questão: até onde
conseguiríamos alcançar a expressão das sensações dos fenômenos oriundos de
estados aparentemente “desencarnados”, ou fora do corpo?
É nesse horizonte que se insere o Laboratório Eco REM (Resgate Encorpado
de Memórias), concebido como um espaço de pesquisa-criação em dança e
performance. No primeiro encontro, realizado no Espaço 2 da UDESC, recebemos
28 participantes, sem delimitação prévia de gênero, escolaridade ou experiência
em dança, reafirmando a aposta em um campo ampliado de escuta e de
investigação coletiva do sonhar. O convite inicial propunha que cada pessoa
trouxesse um sonho-encontro com um ser da natureza não-humano, deslocando
desde o início o eixo antropocêntrico da experiência. Aos interessados
perguntamos: como as proposições das artes cênicas podem colaborar com os
processos de subjetivação coletiva através da partilha dos sonhos?
Investigamos estados corporais através de ferramentas inspiradas na dança
Butoh, na arte ritual, em experiências somáticas e em práticas meditativas. Os
encontros eram divididos em momentos distintos de chegada, ativação,
improvisação e relaxamento, intercalando práticas físicas e imagéticas com
círculos de conversas e relatos. As proposições culminaram em enunciados
performativos, ora individuais, ora coletivos, elaborados a partir de sonhos
experienciados pelos participantes e compartilhados de formas não-lineares.
Assim buscamos compor as práticas a partir dos pulsos de afetos gerados nestes
sonhos, visitando sem ênfase suas narrativas simbólicas.
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Figura 6 Registros de escritas criadas ao longo do laboratório Eco REM.- Nos papéis estão escritos
os nomes de seres (animais, vegetais, minerais e/ou metamórficos) que apareceram nos sonhos
dos participantes, assim como a ação engajada no momento do encontro. Acervo pessoal da autora
(2025).
Em um dos encontros, o foco deslocou-se para as qualidades dos seres
encontrados nos sonhos cachorros, vacas, zebras, serpentes, jiboias, aves, ninfas,
ventos, mar. Ativações da coluna, das escápulas e do deslocamento rente ao chão
evocaram modos de movimento associados a esses seres, conduzindo cada
participante a um campo de investigação singular. Palavras como alcançar, caçar,
tocar, investigar e farejar operaram como disparadores corporais.
Em seguida, propusemos o trabalho em duplas, buscando contrastes de
movimento desde o espelho do outro. A repetição dessa dinâmica conduziu,
gradualmente, à inversão da proposição: o espelhamento. Os gestos foram
gradativamente alcançando as duplas, como uma metamorfose, até que um corpo
coletivo em movimento formou-se: um coro-cardume. Paulatinamente criaram-
se destaques com solos, enunciados por aqueles que se separaram do movimento
do grupo. A ausência deliberada de narrativas específicas de sonhos deslocou o
foco da representação onírica para a investigação do movimento relacional.
Consideramos que a leitura de excertos de autoras e autores que contornam
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nossa investigação, atividade que passamos a realizar nas rodas de fechamento
das atividades práticas, ampliou o campo de ressonância da experiência. Um dos
textos lidos ao final do encontro foi o relato da antropóloga Nastassja Martin
(2023), cuja pesquisa etnográfica se dedica às relações entre humanos, animais e
mundos mais-que-humanos, a partir de trabalhos de campo realizados sobretudo
com povos originários do Alasca e da Sibéria Oriental, em especial entre os
Gwich’in e os Even:
Os sonhos-encontros com animais entre os Ítcha não servem apenas
para localizar presas, mas oferecem uma compreensão mais ampla:
como os animais sentem e pensam com antecedência em relação aos
humanos, suas dinâmicas revelam os movimentos mais vastos das
condições atmosféricas e terrestres. Através do diálogo anímico noturno,
os humanos buscam redescobrir capacidades sensitivas diminuídas,
obtendo informações sobre os elementos e acontecimentos para
responder adequadamente aos fluxos que nos atravessam (Martin, 2023,
p. 158).
A escuta em duplas foi uma prática recorrente, possibilitando gerar uma
intimidade no relato que sustentasse a abertura para o movimento. A dado
momento, convidamos participantes para uma escuta em duplas, dorso a dorso,
posição que altera significativamente a projeção dos significantes da palavra (em
especial com diversas duplas em narrativa simultânea), e que aproxima a
respiração, o tônus e a pequena dança entre os pares. O encontro de escuta
fragmentava a atenção entre ruídos sobrepostos, confundindo as narrativas dos
outros pares que dividiam o espaço cênico. Outro recurso utilizado para sintonizar
a atividade perceptiva foi a venda nos olhos, possibilitando dançar, em relato dos
sentires do sonho, sem receber visualmente a reação de sua audiência. Esta
contemplação era posteriormente traduzida, devolvida em relato dançado pelo
participante que observava, complexificando e intensificando o movimento
inicialmente enunciado às cegas, adicionando relações espaciais e de
deslocamento à frase cinética.
Para investigar nosso sentido de orientação e nossas sensorialidades com o
espaço, experimentamos com exercícios respiratórios, acentuando a percepção
das alterações que ocorriam no espaço ao tocarmos com intensidade o contorno
das costelas na inspiração e na exalação. Sugerimos, em outro momento,
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exercícios que convidavam a situar o foco do olhar inicialmente ao alcance da
palma da mão, depois acompanhando uma leve torção de tronco, ou seja, criando
uma perspectiva panorâmica do fundo, enquanto o foco permanecia na palma da
mão. Assim, à medida que o corpo espiralava em seu próprio eixo, descobriam-se
pequenos tremores no olhar, desvios de atenção e imagens sobrepostas.
Um outro exemplo de exercício convidava duplas de participantes a
experimentarem o encontro com a palma da mão de seu colega como um passeio
topográfico. Na sala em penumbra, enquanto um permanecia de pé, o outro, de
olhos fechados, caminhava com as pontas dos dedos sobre a palma da mão de
seu par. Ao fim da marcação temporal que nos unia, ambos abriam os olhos e o
“caminhante” demonstrava com movimentos, agora expandidos para todo o corpo,
como seria “caminhar” pelos vales e montanhas daquela “paisagem-mão”.
As proposições operavam como restrições permissivas à improvisação. Com
isso, intencionamos não um processo de composição de cena, mas um exercício
de navegação da própria experiência onírica. O que a experiência do sonho nos
permite alcançar é o excedente de nossa própria corporalidade, agora encenada.
Notamos, a partir do depoimento de participantes, que as práticas ativaram
experiências vividas em sonhos, animando memórias e trazendo à tona detalhes
dos sonhos que estavam exilados sob as narrativas organizadas até então de
forma temporal linear. Assim, se a arquitetura da experiência-forma-fenômeno
sonho pode desprender-se da estrutura narrativa linear, consistindo, pelo
contrário, numa assincronia de durações, a nossa aposta de proposições corporais
foi acentuar a dimensão de espacialidade e intensidade em vez da dimensão
temporal.
Os acontecimentos no sonho ocorrem, paradoxalmente, nesta unidade
atemporal e onírica, inclinando-se sobre as noções de identidade. Zambrano (1986)
incita:
Entonces qué carácter tienen los movimientos efectuados en los sueños?
Os los que en sueños suceden? No el de hacerse, sino de ser-movimiento,
desplegarse en un movimiento aparente, en un movimiento-quietud,
sustancial, por así decir. El movimiento es un estado, o más bien, el ser
puro de movimiento; no algo que conquiste el sujeto a moverse en un
espacio-tiempo. Por esto este movimiento no puede ser modificado ni
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rectificado. Por eso en los sueños en que hay un obstáculo a sobrepasar,
un espacio, por breve que sea franquear, nunca se logra. Y cuando se
logra no ha habido nada la sensación de haber hecho algo (p.14).
O que aconteceu na vigília adentra a atemporalidade dos sonhos, e inflete,
desde a potência de movimento não realizada (embora experienciada na
profundidade do campo onírico), nos gestos volitivos que ocorrem no corpo
desperto.
Figura 7 registro do laboratório Eco REM. - Pessoas organizadas em duplas, posicionadas de
costas uma para a outra. Algumas pessoas encontram-se de olhos fechados enquanto contam
seus sonhos. A iluminação é âmbar e lateral. Acervo pessoal da autora (2025).
Esta mesma dimensão que Zambrano descreve aparece em Solomonova e
Wei como a terceira dimensão de profundidade dos sonhos (
depth
) sendo a
primeira dimensão de altura e espacialidade; e a segunda, de comprimento e
duração.
Em sua investigação, Solomonova e Wei fazem o monitoramento do
ambiente físico em laboratório, analisando como sensações diretas alteram o
cenário do sonho. Ambos os tipos de mudança podem ser incorporações diretas
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de sensações físicas no conteúdo do sonho e, mais importante, detectam
mudanças que se apresentam de maneira não isomórfica, isto é, transformações
no estado do corpo que catalisam alterações em algo diferente do corpo no sonho.
Para nós, esta observação clínica implica a reafirmação da existência de um
trânsito simultâneo entre corporalidades presentes e estados de imaginação no
sonho. Ou seja, deduzimos que a percepção ocorre simultaneamente nos âmbitos
do espaço físico e do imaginário.
Seguimos experimentando modos possíveis para propor um treinamento que
ative esta simultaneidade nos processos de corporalidades conduzidos, sem que
a memória do sonho seja submetida à razão desperta durante a enunciação da
experiência.
A ferramenta mais comum que temos como referência para abordar
conteúdos oníricos é a da palavra, que favorece recursos mentais. No entanto, são
muitas as possibilidades de construção de sentido. Quando priorizamos a
corporalidade não segmentada em simbolismos (gestual mediado), podemos
privilegiar a narrativa onírica em sua qualidade de afetos.
Encontramos pistas interessantes na perspectiva ameríndia, conforme
destacamos até aqui, e como podemos ler, por exemplo, no relato produzido por
Eduardo Viveiros de Castro em
A Floresta de Cristal
(2025). O antropólogo destaca
a relevância do treinamento diante da experiência onírica e afirma:
Nem todo mundo é xamã, mas o xamanismo está em toda parte… O
sonho é como um xamanismo de baixo impacto. O cultivo no sentido
de treinamento, disciplina da atividade onírica e de outros “estados
alterados de consciência” pode chegar a extremos de ascese nos
indivíduos que fazem da capacidade xamânica universal uma
especialidade sua (Castro, 2025, p.132).
Se no ambiente do exercício xamânico o cultivo destas enunciações oníricas
é fundamental para o treinamento do trânsito da consciência, aferimos que a
abordagem que descrevemos até aqui oferece um caminho pertinente para a
clínica. Ali, estados como paralisia do sono, sonambulismo e outros fenômenos
oníricos intensos podem ser reconhecidos, pesquisados, reparados
alternativamente através de práticas de movimento e acesso às sensações, nos
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contornos de um viés patologizante. O foco na questão do "como?" em vez do "o
quê?" permite sondar as experiências afetivas e somatossensoriais
detalhadamente, de forma a elucidar microdinâmicas das sensações do corpo
adormecido, integradas ao estado de consciência desperta por proposições
performativas e de movimento.
Considerações finais
A partir das formulações de Antonio Varela, a neurofenomenologia é um
método que combina medições objetivas feitas por uma terceira pessoa (imagens
cerebrais e medidas fisiológicas como frequência cardíaca, respiração, resposta
galvânica da pele, etc.) com relatos detalhados em primeira pessoa de
experiências subjetivas (Lloyd, 2002; Lutz & Thompson, 2003; Varela, 1996;
Thompson, 2014; 2015).
Figura 8 registro do laboratório Eco REM - Mulher com venda e movimento de mãos e dedos
esticados acima da cabeça. Está ajoelhada de costas para câmera com luz em contra plano
formando uma sombra que alonga o desenho virtual de suas pernas sob o chão de madeira.
Foto: Ariel Gaboro (2025).
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Nosso trabalho absorveu elementos oriundos tanto da procura por correlatos
neurais da consciência, a partir de investigações neurofenomenológicas que
enfatizam a natureza dinâmica e pessoal da relação atividade-experiência cerebral,
quanto da filosofia de Maria Zambrano.
A dedicação da filósofa em defender o aspecto de razão que nos alcança na
consciência do sonho, nos leva a propor condições de encontro em que a ação
engaja o sonhante para além do relato narrativo, composto por palavras
enunciadas. Zambrano escreve que os sonhos, ao serem considerados a partir de
sua forma e não de seu conteúdo, como é habitual evidenciam sua
atemporalidade como seu
a priori
, aquilo que os separa do estado de vigília. A sua
qualidade de existir antes de ser percebido, razão pela qual os sonhos são também
considerados imagens-reais, acontece por meio da atemporalidade. Essa
transcendência que se desprende dos sonhos reais encontra, para se cumprir, o
caminho da legitimação poética (Zambrano, 1986, p. 55), que embebeu9 nosso
processo de concepção de um laboratório coletivo em inventividades e técnicas
que integram as experiências oníricas às práticas de treinamento corporal e de
improvisação coreográfica.
A razão poética que se ativa na consciência do sonho e que apelidamos aqui,
em consonância com o trabalho de Solomonova e Wei, de
dimensão profunda
, é
um canal entre consciência desperta e afetos. Sonhamos com Zambrano, como
quem articula e ensaia trânsitos possíveis entre conceitos e vida desperta e o
tecido onírico; entre o que é partilhável e o que é singular na experiência corpórea,
sem que nenhum elemento seja exilado no corpo.
Sugerimos que as práticas (ou ensaios) de enunciação da experiência onírica
em movimento configuram um campo de aprendizado que possibilita o
envolvimento íntimo com a consciência no sonho e que, portanto, oferece uma
forma de se relacionar com a “vida espontânea de nossa psique” (Zambrano, 1986,
p. 10), lançando-nos seu potencial criativo.
Os laboratórios facilitaram a partilha de experiências vividas em vigília e em
9 Embebição é a fase inicial da germinação, caracterizada pela absorção de água pela semente (Michaelis, s.d.;
Oxford, s.d.).
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sonho, sem inscrevê-las no domínio da razão, mantendo nossa atenção em uma
razão poética comum. Assim, tratamos o sonho como pensamento espontâneo
(Fox et al., 2013) ou como imaginação espontânea (Thompson, 2014), abrindo
espaço para a navegação por experiências alteradas de corpo,
self
e alteridades.
Zambrano (1986) enuncia o termo
desentrañar
10 como caminho possível para
legitimar a poética dos sonhos: processo que se vivencia ao atravessar o umbral
entre o onírico e a vigília, e que, neste caso, significa legitimar a transformação que
a experiência do sonhar proporciona. Ou seja, conservar um sentido secreto,
obscuro em suas entranhas, ao mesmo tempo que este conteúdo desentranha-
se sob a claridade da consciência. Neste espaço-tempo de criação compusemos
as experiências oníricas, entendidas enquanto enação e performance, sentido e
expressão, forma e ritmo, corpo e consciência, extensão e profundidade, e
interpeladas pelo desentranhamento afetivo que os sonhos oferecem ao corpo e
que, em vigília, ofertamos de volta, através das artes do corpo, à composição de
conhecimento acerca dos territórios oníricos.
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que nenhuma transformação aconteceu, e criando, assim, possíveis obsessões e sofrimentos humanos. O
segundo caminho passaria por realizar-se poeticamente através da experiência do sonhar, transformando-se
e
desentrañándose
(p. 57).
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Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
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