1
A Comunidade-Grupo:
Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Para citar este artigo:
ENGEL, Leonardo Cesar Ertel. A Comunidade-Grupo: Criação
Coletiva e Ontologia do Comum.
Urdimento
Revista de
Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1, n. 57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0201
Este artigo passou pelo
Plagiarism Detection Software
| iThenticate
A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
2
A Comunidade-Grupo1: Criação Coletiva e Ontologia do Comum2
Leonardo Cesar Ertel Engel3
Resumo
Com base em apontamentos críticos de Jan-Luc-Nancy sobre a inoperância
do conceito de comunidade a partir da falência da concepção de ontologia
do comum (natureza de estar em comunidade), buscamos com este ensaio
posicionar as práticas de criação coletiva do teatro de grupo brasileiro como
possível resposta metodológica para a criação de comunidades não
ontológicas, sustentadas a partir do fazer-se comum enquanto prática ética-
artística – a
comunidade-grupo
.
Palavras-chave
: Teatro de Grupo. Criação Coletiva. Comunidade. Ontologia.
The Community-Group: Collective Creation and the Ontology of the Common
Abstract
Based on Jean-Luc-Nancy's critical reflections on the inoperability of the
concept of community following the failure of the ontological conception of
the common (the nature of being in community), this essay seeks to position
the collective creation practices of Brazilian group theatre as a possible
methodological response for the formation of non-ontological communities,
sustained through the act of becoming-common as an ethical-artistic
practice – the community-group.
Keywords:
Group Theatre. Collective Creation. Community. Ontology.
La Comunidad-Grupo: Creación Colectiva y Ontología de lo Común
Resumen
A partir de las reflexiones críticas de Jean-Luc-Nancy sobre la inoperancia
del concepto de comunidad tras el fracaso de la concepción ontológica de lo
común (la naturaleza de estar en comunidad), este ensayo busca posicionar
las prácticas de creación colectiva del teatro de grupo brasileño como una
posible respuesta metodológica para la formación de comunidades no
ontológicas, sostenidas a partir del hacerse-común como práctica ético-
artística – la comunidad-grupo.
Palabras clave
: Teatro de Grupo. Creación Colectiva. Comunidad. Ontología.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Milena Leão. Licenciatura em Letras
Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
leao.milena1@gmail.com
2 Trabalho executado durante período de exercício de Bolsa PROMOP UDESC.
3 Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Bacharel em Artes Cênicas
pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). leonardoc.engel@outlook.com
http://lattes.cnpq.br/5886539043784716 https://orcid.org/0009-0004-6268-4628
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
3
Dentre as várias questões que marcam a contemporaneidade, como as crises
ambientais, a biopolítica e a gestão de vida, as experiências difusas de
esgotamento neoliberal, a polarização e radicalização política, a crise da verdade
e da mediação simbólica, construo este artigo a partir da observação de um
horizonte também em crise: a falência das grandes narrativas, das utopias e das
teologias e, dentre elas, a falência e reconfiguração das formas e dos ideais de
comunidade.
El testimonio más importante y el más poderoso del mundo moderno,
aquel que reúne tal vez todos los otros testimonios que esta época se
encuentra encargada de asumir […] es el testimonio de la disolución, de
la dislocación o de la conflagración de la comunidad (Nancy, 2000, p. 13).
Assim começa
A comunidade inoperante (La Communauté Desoeuvrée
,
1983
),
de Jan Luc Nancy, obra na qual o autor aponta a falência contemporânea
de uma concepção essencialista de comunidade, construindo uma crítica a ideia
de um “ser-em-comum” fundado por uma essência compartilhada, como uma
natureza comum anterior às relações capaz de oferecer uma centralidade
ontológica a partir da qual o coletivo se organiza. Nessa perspectiva, os sujeitos
estariam submetidos a essa essência originária, que ao mesmo tempo os reúne e
limita suas possibilidades de individuação.
Ainda que a crítica do autor evidencie o esgotamento contemporâneo de
concepções ontológicas de comunidade, não anula o desejo coletivo de
comunidade. Ao contrário, produz o que o autor denomina de “nostalgia da
comunidade” (Nancy, 2000), uma comunidade do vir a ser, que não pode ser, pois
evoca, em sua dimensão ideológica, para além de um aglomerado de forças e
pessoas (a sociedade), “o modelo da família e do amor: ela [a comunidade] é
desejo de fusão, vontade de comunhão, total domínio da unidade, da intimidade e
da autonomia imanente” (Mendes, 2013, p. 29), como um ponto de partida que
independe de relações ou de construções entre os indivíduos – um ponto de vista
ontológico.
Nancy busca, então, discutir os fundamentos ontológicos das concepções
modernas de comunidade e alocar as utopias democráticas do nosso tempo
através de perguntas como: é possível fundar uma comunidade? Uma comunidade
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
4
não é um dado ontológico? Estarmos em comum nos configura como uma
comunidade? Assumindo a comunidade em sua dimensão material, é possível
perdê-la e viver sob o fantasma da sua nostalgia?
Nancy estrutura sua crítica a partir da experiência nazista na Alemanha,
sempre levada adiante em nome de uma comunidade. Para Nancy, é a experiência
de extermínio nazista que “es lo que puso término a toda posibilidad de reposar
sobre cualquier dato del ser común (sangre, sustancia, filiación, esencia, origen,
naturaleza, consagración, elección, identidad orgánica o mística)” (Nancy, 2000, p.
8, tradução própria). Ele propõe, então, uma troca do “ser em comum” por “estar
em comum”, ou fazer-se comum, visto que a comunidade é formada, nesse
sentido, por indivíduos que se constroem enquanto comunidade, ou seja, “seres
que produzem por essência sua própria essência, como sua obra, e que ademais,
produzem precisamente essa essência como comunidade” (Nancy, 2000, p. 14,
tradução própria). Assim, o que nos define é o estado de estar em relação, como
uma ética que se constrói a partir da própria relação, e não a partir de uma herança
predeterminada, essencialista ou ontológica, uma “natureza de ser”.
O termo “nostalgia de comunidade” se insere aqui porque, apesar de ser um
constructo ideológico muito bem estabelecido e frequentemente invocado por
diferentes forças estruturais e operacionais, “do individualismo burguês ao
humanismo comunista (diríamos “socialista”), onde se encontra um ideal a ser
realizado de pureza e de identidade, está a ‘comunidade perdida” (Mendes, 2013,
p.31), esse ideal de comunidade pouco se sustenta em termos materiais e
históricos, especialmente a partir das mudanças das quais se ocupa o pensamento
moderno. Portanto, sua formação nostálgica remonta uma construção que parte
da própria impossibilidade, ou seja, trata-se de um sentimento de nostalgia que
parte da comunidade perdida e se constrói a partir da impossibilidade dessa
mesma comunidade, que, em termos materiais uma fusão ontológica de seus
membros –, nunca existiu.
Então não, a comunidade não é herdada, nem pode ser perdida. Ela é o que
nos conecta, mas não de forma ontológica.
La comunidad no es algo que se haya perdido y que debiéramos volver a
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
5
retomar; tampoco es algo que sobrecargado de nostalgia de su origen sea
una herencia inherente a la humanidad que camina unida hacia el
progreso. La comunidad no estuvo nunca en la Tierra prometida (la
comunidad no es un paraíso), ni en la República platónica, ni en el Imperio
romano, ni en la Civitas Dei, ni en el Contrato Social o en el Estado
Absoluto. Esto es así porque la comunidad no ha tenido lugar (Hewstone;
Lagos, 2010).
Nesse sentido, a comunidade se “funda” ao passo que é tão simplesmente
um dado constitutivo das nossas relações, que produzem a si enquanto
comunidade. E, apesar de pressupor uma ação, não pressupõe uma ação de
constituição ou de aderência a um essencialismo. Estabelecer-se como
comunidade implica em uma ação sob o acúmulo de sedimentos históricos a
partir do ímpeto de produzir a própria vida, enquanto sujeito, indivíduo e,
consequentemente, coletivo.
É possível estabelecer, a partir da ideia essencialista de comunidade como
um núcleo ontológico que determina a formação e a interação dos indivíduos que
o compõem de uma forma organicista, uma relação muito clara com
determinadas performatividades que ao mesmo tempo expressam e sustentam
esse ideário. Performatividades como a religião (Deus), o Povo, a Nação, os
movimentos sociais e a Cultura buscam, em algum nível, assim como quem canta
o hino nacional antes de qualquer evento formal, estabelecer um movimento
unificador, chegar a um estado de fusão subjetiva entre os membros de um
coletivo, e apoiam essa ação em uma base ideológica que a constrói como
essencialista, orgânica. Nesse caso, se tratando de algo tão formador e
estruturante como a comunidade, não permitem a formação da individualidade e
da identidade “por fora” da essência comunitária, o que origina castrações
violentas e pouquíssimo espaço para dissidências e diversidades.
Para fins de contraste e comparação, tomo agora a liberdade de introduzir
um corte brusco, um salto para a temática central desse artigo o teatro. Em um
tempo anterior, mas próximo à discussão acerca da impossibilidade e da falência
da concepção essencialista de comunidade levantada por Nancy a partir dos anos
1980, vimos surgir, na maior parte da América Latina, a partir da década de 1970,
fortíssimos movimentos de reformulação dos meios de produção teatral que
caminhavam em direção a, dentre outras coisas, práticas de criação coletiva
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
6
dentro do teatro de grupo.
Apesar de ser impulsionada e estimulada por inúmeros movimentos de
cunho político, cultural e social, é no mínimo curioso que tal movimento tenha se
espalhado e se estruturado com tanta força em grande parte dos países do sul
global justo em um momento de descrença profunda no ideal de unidade e de
comunidade essencialista (vide as experiências socialistas e ditaduras, sobre as
quais, justamente, Nancy apoia essa descrença). O esforço no qual a criação
coletiva se lança de reformular as metodologias de criação cênica de forma a
transformar as obras em resultado de diferentes pessoalidades e individualidades,
transformando, antes disso, os sistemas políticos econômicos de organização de
grupo e tirando a centralidade criativa da instância da direção ou da dramaturgia,
em muito se assemelha às demandas dessa comunidade-que-não-pode-ser.
Ou seja, uma comunidade que não consegue se reconhecer em sua tradição
busca um movimento consciente de tomada de ação sobre sua própria história e
formação, tem em mãos uma escola importada de técnicas (importadas da
centralidade teatral canônica do eixo Europa–América do Norte) e precisa definir,
a partir de suas práticas e relações, como seguir enquanto comum, enquanto
comunidade.
Seria possível, então, estabelecer conexões entre o surgimento da criação
coletiva no teatro e a crítica à ontologia do comum construída por Nancy no início
dos anos 1980? Essa é a questão que propulsiona esse ensaio.
Em busca de alguns indícios que demonstram essas conexões, me utilizo da
importante obra de Silvia Fernandes (2000), intitulada
Grupos teatrais: anos 70
.
Nela é possível encontrar um registro da formação e da opção pela criação coletiva
eclodindo no Brasil durante esses anos. O principal elemento que justificava a
criação coletiva era a reorganização política dos grupos teatrais como cooperativas
de produção, com firmas legalizadas em nome de vários sócios, divisão igualitária
dos lucros e prejuízos dos projetos postos em cena. Essa configuração se
estabelece como contraponto ao cenário econômico de grandes produções de
teatro focadas no modelo produtora\artistas, no qual uma produtora, que funciona
como uma empresa, capta e distribui os recursos nos processos de criação
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
7
sempre visando lucro individualizado.
O cenário das cooperativas cria uma realidade bastante fértil para a ascensão
da criação coletiva no Brasil. Criação coletiva, nesse momento, configura-se como
uma prática dentro do processo criativo com características experimentais e de
tensionamento de linguagem em que os grupos se organizavam de diversas
maneiras, tendo em comum o compartilhamento de todas as funções, muitas
vezes sem hierarquias ou predeterminações. A grande marca da criação coletiva
brasileira dos anos 1970, e talvez seu algoz, foi a dissolução das funções de um
processo criativo dentro do organismo-grupo, salvo algumas exceções que
mantinham a figura do diretor como organizador do material criado a partir do
trabalho de atuação. Era grande a parcela da crítica que apontava as mazelas
desse modelo de criação. Montagens desorganizadas em sentido, coerência e
unidade estética, a visível falta de uma linha de treinamento bem estabelecida e
o tensionamento das pesquisas de linguagem até seus limites apontavam para um
cenário de obras bem-sucedidas intercaladas com grandes fracassos de boa parte
dos grupos de criação coletiva da década de 1970.
Em meados da década de 1990 no Brasil, depois do que se chamou A Década
do Encenador, alguns grupos de teatro, como o Teatro da Vertigem, o Ói Nóis Aqui
Traveis e o próprio Teatro Oficina, se lançaram em tentativas de reformular uma
nova proposta de criação coletiva que tinha como centralidade a dissolução da
hierarquia criativa em processos focados no trabalho de atuação, ou seja, na qual
a centralidade não estava mais na figura da encenação ou da direção. O material
de cena é elaborado através de improvisações e de laboratórios focados na
atuação e organizado pela instância da direção. Todo mundo participa da criação
do sentido da obra, mas o faz dentro de funções específicas, que agora não são
mais diluídas dentro da estrutura do grupo. A isso chamou-se criação colaborativa.
Pouco me interessa, nesse trabalho, aprofundar as distinções entre a criação
coletiva e colaborativa no Brasil. Porém, essa pequena digressão faz-se necessária
por conta da conhecida confusão entre ambas. Tendo dito isso, utilizarei aqui o
termo criação coletiva como um guarda-chuva de práticas em que todos os
integrantes do grupo, em diferentes níveis e formas, participam criativamente da
concepção da obra e são responsáveis pelo sentido do produto cênico. Ou seja,
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
8
para além de uma participação criadora, que é circunscrita na presença de um
ator ou uma atriz dentro de um trabalho cênico, os integrantes do grupo (atores,
atrizes, equipe de direção e técnica) também colaboram com a criação do sentido
da obra na qual estão trabalhando, em um sistema de grupo organizado em uma
cooperativa que se contrapõe politicamente ao sistema produtora\artista.
Neste sentido, organização político-econômica e construção artística e de
linguagem se conectam intensamente.
Quase todas as equipes surgidas nos anos 70 fazem de seus espetáculos
o resultado da escolha, do consenso e da participação de cada um dos
seus integrantes. Daí a extrema diversidade de linguagem gerada por essa
produção, que está ancorada na experiência singular de formação,
vivência, projeto estético ou ideologia dos componentes das equipes
(Fernandes, 2017, p. 15).
A tendência coletiva, que valorizava a presença de diferentes visões criativas
na cena, em pouco se assemelhava com a minúcia e a especificidade do olhar
focado na direção e na encenação, o que acabava por resultar em obras bastante
diferentes. Essas pesquisas de linguagem foram fortemente impulsionadas por
influências brechtianas para a construção de um teatro politicamente engajado,
que refletisse sobre seu tempo, gerando uma dramaturgia, poéticas e estéticas
cênicas próprias e, muitas vezes, metodologias de criação e de treinamento
específicas que caracterizavam o trabalho dos grupos. Para que esse teatro fosse
possível, então, era preciso lidar com a materialidade histórica brasileira e com as
especificidades da herança teatral brasileira.
Diferente do teatro europeu, no qual encontramos grupos que sustentam
suas práticas na sua herança tradicional e longeva, que se entendem como grupo
a partir da sua história, como uma ontologia de comunidade, o teatro de grupo e
de criação coletiva da década de 1970 no Brasil precisou tomar posição acerca da
sua história e de toda sua negatividade e precariedade e constituiu esse ato em
cena, transformando-o em cena, em propulsão para criação.
Nesse sentido, o modelo de criação coletiva sempre supõe, ao mesmo tempo
em que cria a obra, a criação do próprio coletivo. A história da grande maioria dos
grupos que pautavam suas práticas na criação coletiva é a história das suas
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
9
criações, assim como podemos ver no Teatro da Vertigem, que construiu seu
esboço de metodologia através da criação da trilogia bíblica. A obra cria-se
juntamente com o grupo e vice-versa.
Assim, dentro de uma dinâmica de um grupo, especialmente quando
engajado na criação coletiva, pouco se encara como ontologia. O nível de política
organizacional que precisa existir para que o coletivo se mantenha em e em
criação é tanta que qualquer ideia essencialista de comunidade parece demasiado
utópica ou romântica. Apesar disso, a crença na possibilidade de organizar um
grupo em torno de uma prática coletiva parece, justamente, um voto de em
uma certa concepção de comunidade. E o é, não em uma concepção de
comunidade ontológica, mas sim de uma comunidade.
Tal qual sugere Nancy em sua crítica, uma comunidade se constrói a partir
da ação dos indivíduos que a compõem como tal, uma comunidade-grupo. Não
por uma via histórica, uma herança tradicional, uma essência de estar em
comunidade que condiciona a relação de grupo e a participação dos sujeitos, mas
por uma prática de manutenção dessa comunidade pelos elementos que a
compõem, que produzem a si mesmos, em contexto de criação, como
comunidade-grupo.
Esse ato de produzir-se enquanto comunidade-grupo pode ser visto quando
olhamos para o sistema cooperativista dos coletivos, que determina
materialmente as bases e os rumos desse organismo através de todos os seus
integrantes, sistema esse que reverbera no contexto de criação, que se propõe a
descentralizar e a desterritorializar a instância da direção da sua exclusividade na
construção do sentido da obra. Ademais, o próprio estabelecimento da criação
coletiva na década de 1970 no Brasil como um contraponto ao sistema de
produção focado em empresas produtoras foi, essencialmente, um ato de pensar
sobre si enquanto movimento coletivo e de formação de comunidade-grupo. Tudo
isso busca construir, de maneira consciente, a estrutura relacional e política do
grupo e constrói, também, a dimensão artístico-poética de suas obras.
O objetivo aqui não é buscar entender a criação coletiva no teatro como um
movimento que mimetiza o que Nancy estabelece como crítica a uma ontologia
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
10
do comum, porque são dois campos de apreensão e de representação diferentes.
O que busco é relacionar a existência de algumas características comuns a ambos,
mais especificamente identificar características da crítica de Nancy que também
são fundantes da ideologia que sustenta a criação coletiva, compreendendo-a
como uma possível resposta metodológica, dentro da linguagem teatral, à falência
da concepção ontológica de comunidade essencialista.
Quando Nancy propõe que estar em comum não é algo concebido a partir de
uma natureza ontológica e essencialista e que estar em comunidade é um dado
constitutivo de seres que produzem a própria existência enquanto comunidade, o
que acarreta em uma ação sobre a materialidade da própria vida e da própria
história compartilhada enquanto experiência e construída enquanto comunidade
–, creio que a maior contribuição a ser destacada para um processo de criação
teatral e coletiva é, justamente, a importância de trazer consciência ao ato de agir
sobre a própria construção, enquanto indivíduo, dentro do processo de criação e,
consequentemente, de constituição dessa comunidade-grupo. Em termos
práticos, creio que este pressuposto se traduziria em assumir a constante crítica
como ética de relação, afinal:
La comunidad nos acontece en el fracaso, en la sociedad, en el
comunismo, en el individualismo bajo la forma de una espera, de un
acontecimiento y un cuestionamiento que se sitúa siempre en las
antípodas de toda empresa (Hewstone; Lagos, 2010).
Dada essa inversão, que procurar por pistas que possibilitem a reunião
dessa comunidade-grupo no lado avesso da empreitada de constituir-se como tal.
É no erro, na impossibilidade e na sua crítica que se constrói o grupo e, a partir
dele, o processo de criação coletiva. Assim, para além de uma crítica esterilizante
e paralisante, na busca por não igualar uma comunidade inoperante a um grupo
inoperante, traçando vetores que propulsionem processos de criação coletiva, é
imprescindível ressaltar: estar em comum, no caso da criação coletiva em teatro,
é, constantemente, ativamente e conscientemente, construir esse comum através
de sua prática. Assim como, em contexto de criação, construir a cena, a linguagem
e a estética é também constituir relações, dentro do direcionamento ético
específico que é a criação coletiva, e, assim, é também construir a própria
comunidade-grupo.
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
11
A linha tênue entre a compreensão desses movimentos enquanto ontológicos
(estar criando em estado de grupo, produzindo através dessa criação uma espécie
de comum relacional, independente da manutenção ou até da consciência) ou
enquanto construções ativas e conscientes é justo o que busco alcançar com esse
ensaio. Não no sentido de defini-la, porque creio que essa fronteira possui limites
borrados e móveis, mas no sentido de posicioná-la em um horizonte de pesquisa
e investigação, revelando-a dentro da própria estrutura da comunidade-grupo.
Referências
FERNANDES, Silvia. A criação coletiva do teatro.
Urdimento Revista de Estudos
em Artes Cênicas
, Florianópolis, v. 1, n. 2, p. 13-21, 2017. Disponível em:
https://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1414573101021998013. Acesso em: 18
jun. 2025.
FERNANDES, Silvia.
Grupos teatrais: anos 70
. Campinas: Editora da Unicamp, 2000.
HEWSTONE, Carlos Roa; LAGOS, Vani Albornoz. De la comunidad mítica a la
comunidad de las finitudes; una introducción al pensamiento de la Comunidad
Inoperante de Jean-Luc Nancy.
Revista Observaciones Filosóficas
, Valparaíso, n.
10, 2010. Disponível em: https://www.observacionesfilosoficas.net/delacomunidadmitica.htm.
Acesso em: 12 jul. 2024.
MENDES, Alexandre. Da ontologia do comum ao fazer-multidão: possibilidades e
limites do pensamento Jean-Luc Nancy
.
Revista Eco-Pós
, Rio de Janeiro, v. 15, n.
2, p. 28-50, 2012. Disponível em:
https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/898. Acesso em:10 jan. 2026.
NANCY, Jean-Luc.
La comunidad inoperante
. Santiago de Chile: LOM Ediciones/ –
Universidad ARCIS, 2000.
Recebido em: 03/06/2025
Aprovado em: 31/01/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro
PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br