
Cenografia de
Paraíso Zona Norte
e de outros Nelsons
José Carlos Serroni
Florianópolis, v.4, n.49, p.1-20, dez. 2023
por Max Keller, um dos mais importantes designers de luz do mundo.
Posso citar, aqui, um pequeno texto escrito por Eva Spitz (1990) em artigo
para o
Jornal do Bra
sil, à época, intitulado “A Bolha Expressionista”, que traduz
muito bem o que intencionávamos:
J.C. Serroni construiu um espaço “penetrável” para Paraíso Zona Norte.
Para ele o importante era criar um espaço, não sobre o texto de Nelson
Rodrigues, mas sobre a concepção de Antunes. O diretor queria que os
atores flutuassem em cena, num cenário que fosse uma bolha, em que
os atores deslizassem com a sensação de ter como limite uma
membrana.
Saí em busca de formas côncavas, que lembrassem bolhas, ou redomas de
vidro, e vidraças que sugerissem a vida abafada e artificial das estufas e
orquidários, onde a luz e o ar são interceptados (por mais que a transparência e a
claridade se acentuem). A ideia também era a de que, ali, havia pousado uma nave
perdida no tempo, que mal tocava o piso, como se estivesse flutuando. Essa
nave/útero/ovo também revelava identificação com o desenho das antigas
estações de trem desativadas, cujos trilhos não levam mais a lugar nenhum e, por
isso, impõem a marca do não tempo e da imobilidade.
Antunes sempre quis lançar os personagens rodrigueanos para além do
realismo, esperando que eles refletissem, irônica e simbolicamente, o absurdo dos
desejos e da vida. Essas e outras anotações, desde o início, já mostravam que, para
a cenografia, seria importante buscar materiais como vidro, acrílico, acetatos;
materiais com transparências, mas que, ao mesmo tempo, emparedam; sempre
aplicados em estruturas metálicas de desenhos retorcidos, que pudessem traduzir
a alienação, o isolamento e o doloroso convívio com as próprias emoções.
A pesquisa se iniciou pela arquitetura; desde o Palácio de Cristal, em
Versalhes, passando pela Estação da Luz, pelas entradas seculares dos metrôs
londrinos ou de Nova York, pelo Museu D’Orsay de Paris, sem deixar também de
visitar orquidários e estações férreas da antiga Europa; debruçando-me, ainda, na
arquitetura
art nouveau
, da qual sabíamos ser, Nelson Rodrigues, um grande
admirador. Um apanhado de tudo isso resultou em estudos de três maquetes —
exigindo uma quarta e definitiva versão. Muitos desenhos e cálculos foram