
Teatro que Roda invade a cidade: Ensaio acerca do espetáculo
Das Saborosas Aventuras de Dom Quixote...
José Alencar de Melo; Natassia Duarte Garcia Leite de Oliveira
Florianópolis, v.3, n.45, p.1-31, dez. 2022
No caso de Dom Quixote, a subversão da teatralidade e da espetacularidade
se deu na Praça do Bandeirante, no centro da cidade de Goiânia:
A praça ostenta, em um pedestal de mármore, um gigante de bronze com
seu bacamarte em punho. A figura remente aos gigantes com os quais
Dom Quixote luta durante sua saga. Em Das saborosas, o grupo reelabora
alguns episódios do texto de Miguel de Cervantes, a fim de criar uma
poesia urbana sobre o sonho, a loucura e o próprio sentido da cidade
(Teatro que Roda, 2006, s/p).
Segundo Dionísio Bombinha, que no espetáculo encarna a figura do cavaleiro
andante, a adaptação do texto não foi simples, porque, ao longo do processo, o
grupo percebeu que o texto do Sancho Pança não poderia ser literalmente o texto
do livro, pois era muito rebuscado para um personagem de rua, um morador de
rua, um catador de materiais recicláveis.
Dom Quixote, nessa obra, nessa representação é um executivo, advogado,
um empresário, um “enternado” de gravata, que, cansado dessa rotina,
dessa fadiga da vida moderna, urbana, resolve mergulhar nesse mundo
maluco de fantasia, de ilusão, de aventura, de uma busca. O Sancho
Pança, em contraponto, está do outro lado. É um pobre da rua, um
paupérrimo que é levado a se tornar o que é pelas promessas de uma
vida melhor que o executivo fala para ele, porque a princípio, o Sancho
vê um executivo mesmo, um cara de terno e gravata e na sua
simplicidade, começa, realmente, a mexer com sua cabeça e a achar que
aquilo pode ser uma verdade. Como é uma cara que não tem nada a
perder na vida, é uma cara de rua, resolve seguir aquilo em função
daquela promessa (Bombinha, 2014, s/p).
A proposta do grupo Teatro que Roda, que, além de Dionísio Bombinha e Liz
Eliodoraz, contava com os atores Hugo Mor, Patrick Éster, Carlos Roberto,
Fernando Moterane e Ieda Marçal, era invadir a cidade e romper de maneira lúdica
o cotidiano. De acordo com o texto publicado na
Gazeta Cervantina
(2006), a
montagem do espetáculo Das saborosas aventuras de
Dom Quixote de La Mancha
e seu fiel Escudeiro Sancho Pança - um capítulo que poderia ter sido
provoca essa
possibilidade de jogo, de quebra da regularidade do cotidiano.
A utilização de um segmento do centro da cidade para a encenação das
aventuras de Dom Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança, diz
respeito à nossa compreensão de que a realidade de nossas cidades
exige rupturas dignas de Quixote. Buscamos ressignificar este espaço
urbano lançando mão de instalações, prédios e monumentos, para