Municípios da Baixada
Fluminense: toponímias como recurso didático no ensino de Geografia[i]
Karine Bueno Vargas[ii]
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Rio de janeiro - RJ, Brasil
lattes.cnpq.br/2120588116159135
Regina Cohen Barros[iii]
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Rio de janeiro - RJ, Brasi
lattes.cnpq.br/8642606690168745
Maiara Rabello Pereira[iv]
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Rio de janeiro - RJ, Brasi
lattes.cnpq.br/1004363843255321
Nathan Santos da Silva[v]
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Rio de janeiro - RJ, Brasi
lattes.cnpq.br/3751582436103367
nathansantosdasilva2000@gmail.com
Municípios da Baixada Fluminense: toponímias como recurso didático no ensino de Geografia
Resumo
O presente artigo discute a utilização das toponímias como recurso didático no ensino de Geografia, tendo como foco os municípios da Baixada Fluminense (BF). A proposta foi desenvolvida em uma oficina realizada no Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CTUR), como parte das atividades do Programa Residência Pedagógica do curso de Geografia da UFRRJ. A iniciativa foi direcionada a estudantes do 2º ano do Ensino Médio, buscando aproximá-los do conceito de lugar a partir de práticas ativas de ensino-aprendizagem. Para isso, a oficina utilizou a cartografia de forma lúdica e participativa, permitindo que os discentes se tornassem protagonistas do processo educativo. A metodologia do estudo articulou pesquisa bibliográfica, práticas pedagógicas e cartografia social, garantindo coerência entre objetivos e procedimentos. Estruturou-se em três etapas: inicialmente, foram apresentados aos alunos os significados toponímicos dos municípios da Baixada Fluminense; em seguida, realizaram a montagem de um quebra-cabeça, construindo coletivamente legenda e símbolos representativos; por fim, participaram da elaboração colaborativa do mapa da região, discutindo elementos cartográficos e aprofundando a compreensão crítica do território. Os resultados indicaram que a atividade promoveu reflexões críticas sobre a história e a identidade regional, contribuindo para desconstruir estereótipos associados à Baixada Fluminense. Além disso, favoreceu uma visão mais ampla e contextualizada da Geografia, alinhada à concepção freiriana de educação como prática emancipatória. Assim, o uso das toponímias revelou-se um recurso potente para integrar conteúdo, prática cartográfica e consciência cidadã.
Palavras-chave: toponímias; metodologias ativas; mapeamento participativo; Baixada Fluminense; categorias geográficas.
Municipalities of Baixada Fluminense: toponymy as didactic resource in Geography teaching
Abstract
This article discusses the use of toponymy as a didactic resource in Geography teaching, focusing on the municipalities of the Baixada Fluminense (BF). The proposal was developed in a workshop held at the Technical School of the Federal Rural University of Rio de Janeiro (CTUR), as part of the activities of the Pedagogical Residency Program in Geography at UFRRJ. The initiative targeted 11th-grade students, aiming to introduce them to the concept of place through active teaching-learning practices. To achieve this, the workshop employed cartography in a playful and participatory way, allowing students to become protagonists in the educational process. The study’s methodology combined bibliographic research, pedagogical practices, and social cartography, ensuring coherence between objectives and procedures. It was structured in three stages: first, students were introduced to the toponymic meanings of the municipalities of Baixada Fluminense; next, they assembled a puzzle, collaboratively creating a legend and symbols representing each municipality; finally, they participated in the joint construction of the regional map, discussing cartographic elements and deepening their critical understanding of the territory.The results indicated that the activity fostered critical reflections on the history and identity of the region, contributing to the deconstruction of stereotypes associated with the Baixada Fluminense. Moreover, it encouraged a broader and more contextualized geographical perspective, aligned with the Freirean conception of education as an emancipatory practice. Thus, the use of toponymy proved to be a powerful tool to integrate content, cartographic practice, and civic awareness.
Keywords: toponymy; active methodologies; participatory mapping; Baixada Fluminense; geographical categories.
1 Introdução
No Ensino Médio, dentro dos conteúdos da disciplina Geografia, o estudo de conceitos geográficos é um tema fundamental para o desenvolvimento crítico e o despertar da consciência social. Os conceitos de espaço, paisagem, região, território e lugar estão interligados a outros conteúdos da disciplina que são fundamentais para os estudantes desenvolverem habilidades e competências trazendo o espírito coletivo, participativo e agregador, pela apreensão dos temas, ao contextualizá-los e aplicá-los no cotidiano.
As categorias geográficas perpassam por todas as séries do Ensino Médio na disciplina de geografia mas, no 2º Ano, podemos abordá-las utilizando aspectos econômicos, sociais e ambientais das regiões e dos lugares, sendo possível, especialmente, contextualizar com estudos de casos específicos, como a regionalização da Baixada Fluminense.
A partir desse entendimento, pensou-se em metodologias ativas para abarcar essa discussão, bem como possíveis recursos didáticos a serem produzidos no âmbito do Programa Residência Pedagógica (PRP), que atua na formação de professores, proporcionando aos licenciandos a oportunidade de vivenciar a prática docente de forma supervisionada e orientada, ainda durante sua formação acadêmica. Assim, integrou-se teoria e prática com uma abordagem que melhora o entendimento do ensino-aprendizagem geográfico, incorporando este na formação inicial do professor, para que futuramente a disciplina Geografia seja apreendida pelos estudantes, de forma e com abordagem próximas à realidade, transformando os alunos em atores socialmente críticos e participativos.
Diante da importância e da complexidade de se tornar professor, os residentes do curso de Geografia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) foram integrados ao programa a partir de leituras voltadas à didática e metodologias de ensino, bem como, práticas de sala de aula, as quais futuramente serão utilizadas em sua jornada de trabalho. Para isso, foram incentivados a elaborar planos de aula, atividades extracurriculares, atividades avaliativas, intervenções participativas, organização de habilidades e competências geográficas e aulas expositivas, visto que a aquisição de experiência era uma das prioridades.
Assim, ao longo do PRP, foram elaboradas oficinas pedagógicas para promover o ensino-aprendizagem em geografia, em conformidade com as observações de demandas refletidas em sala de aula e com o conteúdo programático previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Em 2017, considerando as versões anteriores do documento, o Ministério da Educação do Brasil (MEC) concluiu a sistematização das contribuições e encaminhou uma terceira e última versão do texto ao Conselho Nacional de Educação (CNE), responsável por regulamentar o sistema nacional de educação e orientar a implementação da BNCC para o Ensino Médio (Brasil, 2018).
A partir da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), foram estabelecidos os conhecimentos, competências e habilidades essenciais que todos os estudantes da educação básica no Brasil devem desenvolver ao longo de sua escolaridade (Brasil, 1996). Esse documento normativo estabelece também as aprendizagens essenciais a serem trabalhadas nas escolas brasileiras de toda a Educação Básica, da Educação Infantil até o Ensino Médio. A LDB tem o objetivo de garantir o direito à aprendizagem e o desenvolvimento pleno de todos os estudantes, promovendo a igualdade no sistema educacional, colaborando para uma formação integrada e continuada, para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva (Brasil, 1996).
Ao longo da história, ao refletir sobre a observação e representação da superfície terrestre, fica claro que essas práticas têm desempenhado um papel crucial na organização territorial e no avanço das sociedades. Elas contribuem significativamente para compreender a distribuição espacial dos recursos naturais, da infraestrutura existente e da população, fornecendo informações essenciais para guiar o entendimento regional e das dinâmicas socioambientais. Nesse contexto, a cartografia encarrega-se de um lugar de bússola, uma vez que é reconhecida como a área que une ciência e arte, resultando na representação do conhecimento da superfície terrestre por meio de mapas e cartas (Castrogianni; Silva, 2016).
Assim, a cartografia desempenha um papel fundamental no Ensino Médio, pois permite aos estudantes compreenderem visualmente as dinâmicas espaciais e geográficas, desenvolvendo habilidades de análise crítica e interpretação de mapas, fundamentais para a compreensão do mundo contemporâneo, bem como também contribui no entendimento de dinâmicas socioambientais ocorridas no passado, por meio da cartografia histórica.
O ensino de Geografia permite que os educandos analisem seus lugares e seus territórios e os compreendam criticamente. Assim, surge a Cartografia Escolar, que se evidencia como um instrumento imprescindível na formação de alunos, possibilitando-lhes, além da compreensão espacial, uma leitura de mundo, sendo a integração da tríade Educação-Geografia-Cartografia, com a perspectiva de fomentar a leitura, a análise e a construção do mapa para os sujeitos escolares (Almeida; Passini, 2013). Para Simielli (1999), é preciso que o professor instigue os alunos, de modo criativo, permitindo que o educando ultrapasse a condição de leitor e crítico de mapas e se torne leitor e mapeador consciente de sua realidade e de seu cotidiano.
Nesse contexto, foi pensado no uso das toponímias como recurso didático para explorar a temática da regionalização da Baixada Fluminense, bem como, para compreender a origem dos nomes dos treze municípios que compõem essa região. Neste relato de experiência objetiva-se apresentar a construção de um mapa colaborativo e a exploração das possibilidades da cartografia escolar e os significados toponímicos do lugar, no âmbito do ensino de geografia no Ensino Médio, a fim de explorar a história dos lugares e a identidade dos estudantes com os municípios da região onde vivem.
A Toponímia é uma ciência interdisciplinar que se encarrega do estudo dos nomes de lugares e suas derivações, levando em consideração a influência e a importância da origem e dos processos que causam as alterações dos topônimos ao longo do tempo (Souza, 2013). Tais estudos estão intimamente ligados às pesquisas históricas, antropológicas e geográficas, sendo um termo oriundo da Grécia e que significa, literalmente, o nome de um lugar.
Como ciência interdisciplinar, a Toponímia é um ramo da onosmática, que vai além do estudo dos nomes dos lugares como cidades, vilas, municípios, países ou províncias. Há subdivisões que se encarregam do estudo dos nomes de cursos d’água, que são chamados de hidrônimos; estudos específicos sobre nome de lagos, chamados de limnônimos; estudo do nome de mares e oceanos, os talassônimos; estudos de relevo, que são os orônimos; e os estudos acerca das divisões administrativas e de estradas, que constituem os corônimos, e assim por diante (Tavares, 2024). Os topônimos ainda podem se diferenciar taxonomicamente pelo idioma de origem, pela estrutura de formação, pelo batismo oficial e pela composição lexical descrita anteriormente (Santos, 2008).
2 Desenvolvimento
Esta abordagem, aplicada em formato de oficina durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2023, no contexto do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CTUR), destaca-se não apenas por sua aplicação prática, mas também por sua relevância no contexto educacional contemporâneo. O CTUR fica localizado no município em Seropédica, que é um dos municípios da Baixada Fluminense e seus alunos, na grande maioria, lá residem no mesmo, havendo menor número nos municípios vizinhos, os quais possuem forte relação com toda a região, visto que suas famílias e suas identidades culturais são na grande maioria periféricas.
O uso da toponímia no ensino de Geografia desempenha um papel fundamental, pois permite que os estudantes explorem a origem e o significado dos nomes de ruas, rios, municípios, entre outros, promovendo uma conexão mais profunda com a História e a Geografia do lugar. A utilização das toponímias como ferramentas didáticas auxiliares no ensino de Geografia revela-se como uma estratégia eficaz para promover o engajamento dos estudantes e enriquecer sua compreensão das dinâmicas espaciais e históricas dos lugares (Nascimento et al., 2018; Nunes, 2015; Pereira, 2021).
Conforme destacado por Martins e Albuquerque (2018), a toponímia oferece uma janela para a compreensão da história e da cultura de uma determinada região, sendo uma fonte valiosa de informações geográficas, socioculturais e econômicos. Ao explorar a origem dos nomes dos municípios da Baixada Fluminense, os participantes da oficina puderam não apenas adquirir conhecimentos geográficos e históricos, mas também desenvolver uma compreensão mais profunda da identidade e da memória coletiva da comunidade local.
Nesse sentido, a utilização da toponímia torna-se uma ferramenta poderosa para explorar a história, a memória e as transformações do espaço geográfico. A oficina intitulada "Municípios da Baixada Fluminense: Toponímia como Ferramenta Didática para o Ensino de Geografia" foi concebida com o intuito de preencher uma lacuna no conhecimento dos alunos do CTUR sobre a região em que vivem os educandos. Ao explorar a origem dos nomes dos municípios da Baixada Fluminense, os participantes puderam não apenas adquirir conhecimentos geográficos, mas também desenvolver uma compreensão mais profunda da história dos lugares e da formação do espaço construído pela cultura.
A importância dessa abordagem é ressaltada pela necessidade de os educandos analisarem criticamente seus lugares e territórios, como preconizado pela Geografia escolar. Ao tornar os estudantes protagonistas de sua própria aprendizagem, a oficina promoveu não apenas a aquisição de conhecimentos, mas também o desenvolvimento de habilidades e o pensamento crítico e reflexivo por meio da construção de um mapa participativo, que consiste em um modelo cartográfico no qual múltiplos usuários contribuem com informações geográficas de forma participativa e colaborativa (Araújo; Anjos; Rocha Filho, 2017). Esses mapas permitem que indivíduos ou grupos adicionem dados, marquem pontos de interesse, escolham formas de layout e legendas, compartilhem experiências ou informações relevantes sobre um determinado local ou tema.
Assim, a utilização da toponímia como ferramenta didática no ensino de geografia e a cartografia escolar não só enriquecem a formação acadêmica dos estudantes, mas também os capacita a compreender e transformar o mundo ao seu redor de maneira mais consciente e informada. Essa abordagem está alinhada à concepção freiriana de educação, que enfatiza o desenvolvimento contínuo dos educandos como sujeitos ativos na construção do conhecimento.
3 Materiais e métodos
A ancoragem metodológica deste estudo fundamenta-se na articulação entre procedimentos de investigação bibliográfica e práticas pedagógicas aplicadas em contexto escolar, de modo a garantir a coerência entre os objetivos propostos e as estratégias de produção e interpretação dos dados. A coleta de dados pautou-se, inicialmente, na revisão bibliográfica e documental sobre as toponímias dos municípios da Baixada Fluminense, utilizando fontes secundárias diversas (sites institucionais, bases de dados e acervos digitais), com o propósito de reunir informações históricas, culturais e geográficas que embasassem teoricamente a oficina desenvolvida. Essa etapa foi essencial para assegurar a confiabilidade e a validade dos conteúdos trabalhados, constituindo um corpus de dados sistematizado e passível de análise crítica.
A realização da oficina, por sua vez, configurou-se como estratégia metodológica de produção de dados empíricos em situação de ensino, envolvendo a aplicação dos conteúdos toponímicos em práticas expositivas e dialógicas com estudantes da educação básica. Essa escolha se justifica por possibilitar a observação direta das interações, reações e apropriações dos conhecimentos pelos discentes, permitindo analisar como a abordagem da toponímia pode contribuir para o fortalecimento do pertencimento e da compreensão crítica do espaço vivido.
A análise dos dados ocorreu por meio de uma abordagem qualitativa, de natureza interpretativa, que considerou os sentidos atribuídos pelos participantes às informações recebidas e os efeitos pedagógicos observados durante a atividade. Tal escolha metodológica permite transcender a descrição dos fatos, promovendo a interpretação das experiências, garantindo a articulação entre teoria e prática, elemento central para a práxis geográfica. Dessa forma, a combinação entre revisão bibliográfica e prática pedagógica, analisada de modo qualitativo, fortalece a consistência científica do estudo e sua relevância formativa. As etapas da oficina podem ser visualizadas na sequência:
A oficina proposta foi desenvolvida com estudantes do CTUR e estruturada a partir dos princípios da cartografia social e do mapeamento participativo, com o objetivo de promover a construção coletiva de conhecimentos sobre a toponímia e a organização territorial da Baixada Fluminense, fomentando o sentimento de pertencimento ao espaço vivido, visto que os estudantes são moradores de toda a região. Segundo Araújo, Anjos e Rocha Filho (2017, p. 1), o mapeamento participativo “pode ser um tipo de mapeamento auxiliado pelas comunidades que estão inseridas na área de estudo com o objetivo de facilitar a interpretação dos mapas para essas comunidades e, consequentemente, as particularidades de um território”.
Inicialmente, os residentes elaboraram um quebra-cabeça representando os municípios que compõem a região. Para isso, projetou-se, por meio de retroprojetor, o mapa da divisão da região metropolitana do Rio de Janeiro (Figura 1) sobre uma parede, sobre o qual foram afixadas cartolinas para o traçado dos limites municipais. Após o recorte dos moldes, sobrepôs-se o papel com placas de EVA para tornar as peças mais resistentes e facilitar seu manuseio durante a oficina, finalizando as bordas com marcador preto para melhor delimitação visual (Figura 2).
Figura 1 - Divisão da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Fonte: Fortes et al. (2020).
Figura 2 - A) Projeção do datashow para delimitar a área trabalhada; B) Moldes dos municípios a Baixada Fluminense em cartolina para montagem do quebra cabeça

Fonte: fotografias dos autores (2023).
Na sequência, os residentes realizaram uma apresentação expositiva sobre os significados toponímicos dos municípios da Baixada Fluminense (Figura 3), com base em fontes secundárias (sites Brava Baixada, Prefeituras Municipais, Biblioteca IBGE e Baixada Fácil), a fim de contextualizar historicamente a formação dos territórios e ampliar o repertório dos alunos. Posteriormente, os estudantes foram organizados em grupos e orientados a selecionar e desenhar símbolos e ícones que representassem os significados históricos e culturais de cada município, compondo de forma colaborativa a legenda do mapa. Por fim, com a supervisão dos residentes, os alunos montaram o quebra-cabeça na parede e, com base na legenda construída, compuseram coletivamente o mapa participativo das toponímias da Baixada Fluminense. Essa construção coletiva possibilitou a articulação entre teoria e prática, promovendo o protagonismo discente e a apropriação crítica do território representado.
Figura 3 - Exposição sobre os municípios da Baixada Fluminense e suas toponímias

Foto: dos autores (2023).
A coleta de dados pelos residentes a partir dessa oficina ocorreu por meio de observação participante, registros fotográficos, anotações em diário de campo e análise dos produtos elaborados pelos alunos, sendo interpretados à luz da abordagem qualitativa. Essa estratégia permitiu compreender as percepções dos estudantes sobre a toponímia e o território, assegurando coerência entre os objetivos da oficina, as práticas desenvolvidas e a análise dos resultados.
4 Resultados
Observou-se que durante a realização da oficina ocorreu um forte engajamento dos alunos, que demonstraram interesse sobre a história dos nomes dos 13 municípios da Baixada Fluminense; tais significados toponímicos podem ser visualizados no quadro 1. Assim, nos municípios em que havia estudantes residentes nos mesmos, tais informações eram recebidas com maior euforia e curiosidade. Essa conexão da representatividade e identidade ao espaço vivido tornou-se muito relevante, porque possibilitou aproximar o aluno dos conteúdos e da aprendizagem, colocando o mesmo no centro do ensino.
Quadro 1 - Toponímias da Baixada Fluminense
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Município |
Toponímia |
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Itaguaí |
Tupi: Ita = Pedra, e Guay = lago, ou seja, Lago entre Pedras. |
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Seropédica |
Sericeo ou serico, que significa seda, e outra, grega, pais ou paidós, que significa tratar ou consertar. Um local, portanto, onde se trata ou se fabrica seda. |
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Paracambi
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Macaco pequeno, assim como Tairetá, o rio dos macacos. |
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Japeri |
Origem indígena e denomina uma planta semelhante ao junco, que flutuava nos pântanos da região, a qual os índios chamavam yaperi. |
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Queimados |
Dom Pedro I passou por aquela região, por ocasião da inauguração da estação de trem, viu uma grande queimada que estava sendo feita dos laranjais nos morros e chamou o lugar de 'Morro dos Queimados'. Mas há outras possibilidades que envolvem queimadas de corpos humanos de leprosos e escravos. |
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Nova Iguaçu |
"Rio grande" ou "água grande" 'y (rio, água) + guasu (grande). É uma referência dos índios jacutingas, naturais da região, ao Rio Iguaçu, outrora um rio caudaloso. |
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Duque de Caxias |
O nome do município é uma homenagem ao patrono do Exército brasileiro, Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, também conhecido como “O Pacificador”. Ele nasceu na região do município, em 1803. |
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Belford Roxo |
Em 1889 um dos colaboradores do "Milagre das Águas" faleceu, o inspetor geral de obras públicas Raymundo Teixeira Belford Roxo, por conta disso a região do velho brejo passou a se chamar Belford Roxo em sua homenagem. |
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Mesquita |
É uma referência ao barão de mesquita Jeronimo José de Mesquita, antigo proprietário das fazendas da região. |
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Nilópolis |
A cidade homenageia em seu nome “polis” = Cidade e nilo em referência ao ex-presidente Nilo Peçanha (1909-1910), assim, “Cidade de Nilo”. |
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São João de Meriti |
Por ser um território composto por capelas religiosas (ex: Igreja São João Batista de Meriti) e banhado pelo Rio Meriti, a cidade ganhou esse nome. |
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Magé |
A origem do nome "Magé" remonta ao povoado de Magepemirim, fundado em 1566 por colonos portugueses. |
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Guapimirim |
Originário do termo tupi agûapé'ymirim, que significa "rio pequeno dos aguapés" (agûapé, aguapé + 'y, rio + mirim, pequeno) |
Fontes: sites Brava Baixada (c2024), Prefeituras Municipais, Biblioteca IBGE (c2024) e Baixada Fácil, (c2002-2025) com acesso em 2023.
O mapa quebra-cabeça utilizado teve como objetivo trabalhar a leitura espacial e o pensamento cartográfico, a partir de uma linguagem e produto de aspectos sociais e culturais (Richter, 2017). A ideia do mapa participativo foi exitosa, tornando-se muito dinâmica, pois além do mapa ser um produto dessa oficina, ele pode ser usado como recurso didático para outras atividades. A criação da legenda de forma participativa gerou discordâncias entre os participantes em relação à escolha dos símbolos/ícones a comporem o mapa, sendo definido por votação entre os participantes o que mais representava a toponímia do município, de forma democrática (Figura 4), assim o conceito de democracia também pode ser explorado pelo docente.
Figura 4 - Símbolos eleitos por indicação e votação entre
os estudantes participantes da oficina de Toponímias da Baixada Fluminense 
Fotos: dos autores (2023).
Em relação à construção do mapa, os moldes e materiais passaram por alteração algumas vezes, tendo como base os 13 municípios da Baixada Fluminense em formato de peças (Figura 5). O objetivo principal foi produzir algo com que os alunos pudessem interagir, mais participativo, pois são locais que os próprios alunos conhecem, então, a interação com o mapa e a aproximação dos alunos do conteúdo foi fundamental no processo ensino-aprendizagem.
Figura 5 - Construção do Mapa Participativo e inserção dos Símbolos

Fotos: dos autores (2023).
Como mencionado anteriormente, buscou-se alinhar práticas geográficas com uma perspectiva freiriana autônoma e contínua, para trazer aspectos afetivos, relacionados ao conteúdo e formar indivíduos pensantes e críticos (Freire, 1996), a partir do uso da toponímia. Trabalhando em conjunto a própria leitura cartográfica nesses aspectos, a oficina evidenciou muitas ramificações e possibilidades didáticas a partir da alfabetização cartográfica e do uso do mapeamento participativo (Figura 6).
Figura 6 - Mapa das Toponímias da Baixada Fluminense como Produto

Foto: dos autores (2023).
Dessa forma, os resultados evidenciam que a integração da educação cartográfica com o uso de toponímias e práticas de mapeamento participativo amplia significativamente as possibilidades de aprendizagem no ensino de geografia. Ao valorizar os nomes dos lugares e os saberes locais, os estudantes conseguem relacionar o espaço vivido à representação cartográfica, fortalecendo vínculos identitários e culturais. Já o mapeamento participativo promove o protagonismo discente e o diálogo entre diferentes formas de conhecimento, aproximando a ciência da realidade cotidiana. Essa articulação não apenas potencializa a compreensão crítica do território, mas também contribui para uma educação mais significativa e contextualizada, capaz de formar sujeitos reflexivos e engajados com sua comunidade.
5 Considerações finais
A análise da origem dos nomes dos municípios da Baixada Fluminense mostrou-se fundamental para a compreensão do lugar, permitindo a abordagem de diferentes dimensões culturais, sociais, econômicas, ambientais e identitárias. A toponímia revelou-se um instrumento didático capaz de fortalecer o vínculo dos estudantes com seus espaços de moradia, favorecendo o sentimento de pertencimento e a valorização do território vivido.
A realização da oficina possibilitou a construção de uma proposta coletiva que aproximou os discentes da temática das toponímias, articulando visualização espacial e análise crítica. Esse processo estimulou a participação ativa dos alunos no planejamento e na execução das atividades, resultando em novas interpretações sobre as configurações históricas e geográficas dos municípios e na valorização de suas singularidades.
Nesse sentido, a implementação de oficinas pedagógicas no ensino de Geografia demonstrou seu potencial para promover práticas educativas ativas e contextualizadas, ampliando a compreensão crítica das dinâmicas locais, regionais e globais. As experiências proporcionadas pelo Programa Residência Pedagógica evidenciam não apenas um enriquecimento da formação profissional dos licenciandos, mas também a relevância de metodologias que articulem teoria e prática no processo de ensino-aprendizagem.
Por fim, o estudo das toponímias revelou-se um caminho fértil para o fortalecimento da análise crítica geográfica, ao desvendar múltiplas facetas da Baixada Fluminense e estimular novas produções acadêmicas e pedagógicas relacionadas ao tema. A atividade não apenas redefiniu a percepção dos estudantes acerca do espaço vivido, como também abriu perspectivas para a continuidade de pesquisas que articulem identidade, cultura e geografia na formação escolar.
Referências
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Agradecimentos
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelas bolsas concedidas ao Núcleo de Residência Pedagógica do curso de Licenciatura em Geografia (Seropédica) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
[ii] Contribuições da autora: conceituação; metodologia; investigação; supervisão; escrita- rascunho original; e escrita – análise e edição.
[iii] Contribuições da autora: metodologia; supervisão; e escrita- rascunho original.
[iv] Contribuições da autora: investigação; e e escrita- rascunho original.
[v] Contribuições do autor: investigação; e e escrita- rascunho original.