Chamada de textos para dossiê 2022/3 “Pandemia, território e desigualdade”

2021-09-15

A crise sanitária, social e econômica resultante da pandemia de COVID-19 aprofundou as disparidades socioespaciais nos países. No caso brasileiro, trouxe ao debate público situações relativas à precariedade habitacional e do trabalho, questionou as condições de deslocamento e ambiência urbana, chamou ao centro das políticas públicas a saúde e a qualidade ambiental. A crise tornou-se uma oportunidade para repensarmos as formas de conceber, planejar e viver o território e reconhecermos a importância de conceitos como justiça sócio-ambiental e resiliência urbana.

Do ponto de vista territorial, os dados e pesquisas evidenciam um cenário em que se reconhece que a dinâmica do contágio é desigual. Sua temporalidade também é variada. Em alguns estados, verificou-se a expansão do contágio no sentido litoral-interior ou, capital-interior, seguindo a lógica urbano-territorial de densidade e circulação. Em algumas regiões, entretanto, o contágio apresentou estreita relação com a base produtiva, como no caso do oeste de Santa Catarina, onde o vírus chegou tardiamente em relação aos outros centros regionais, mas se espalhou de forma muito acelerada. Um outro aspecto que chama atenção, neste cenário, é como as populações de periferia, os sem teto e populações migrantes, grupos que vivem em trabalhos precários e que se deslocam, seja na cidade ou entre os estados e/ou países, vivenciam a pandemia e a (i)mobilidade que ela implica. Neste sentido, mapear como essas populações acessaram e acessam ou não as políticas emergenciais, como circularam e circulam ou permaneceram e permanecem em casa em isolamento social, é importante para evidenciarmos as diferentes pandemias vividas, marcadas pelas diferenças de classe, raça, gênero e origem nacional.

Nota-se que a pandemia atingiu aquelas populações que já encontravam-se em situações precárias e vulneráveis, em particular trabalhadores e trabalhadoras de setores econômicos com histórico de precarização das condições de trabalho e dos contratos laborais, entre os quais migrantes (nacionais e internacionais), moradores de assentamentos precários e ocupações urbanas, povos indígenas e pescadores tradicionais. O vírus, aparentemente democrático na sua disseminação, pois espalhou-se muito rapidamente em escala global, num quadro de pandemia, revelou-se desigual na forma como atingiu os territórios e as populações. Assim, a expansão do vírus evidenciou a situação de vulnerabilidade a que as populações estão expostas, onde desde carências em termos de infraestrutura, falta de saneamento básico, moradias precárias ou a informalidade do trabalho podem facilitar a dinâmica do contágio. Por outro lado, no Brasil, os territórios nos quais vivem as populações em áreas de periferia demonstraram como a organização da sociedade civil, ou seja, as estratégias políticas, são também um fator importante para contenção do espalhamento do vírus e suas consequências. Evidentemente, as estratégias que emanam do Estado são mais abrangentes: decretos e discursos contribuíram para o avanço ou a contenção do contágio. Diante dessa problemática, o objetivo geral desta chamada é reunir pesquisas que analisem os efeitos sociais, econômicos e ambientais da pandemia de COVID-19 no Brasil sob a ótica do território, bem como apresentem perspectivas para a prevenção e gestão de crises como a vivenciada atualmente.

 

 Algumas possíveis temáticas a serem abordadas:

- Medidas governamentais diante da pandemia: implicações para o planejamento regional e urbano;

- Como foram operacionalizadas as políticas públicas relacionadas à segurança alimentar (PAA e PNAE) durante a pandemia;

- As consequências da pandemia na perspectiva da análise e gestão de riscos;

- Análises sistêmicas das articulações entre planejamento ambiental e pandemia;

- Repercussões da pandemia no trânsito e nos deslocamentos na transfronteiricidade;

- Efeitos da COVID-19 no mundo do trabalho: surtos da doença associados a trabalhadores de setores específicos; 

- Análises sobre características da dinâmica regional que contribuíram para o espalhamento do vírus em pequenas cidades: desigualdades regionais e rede urbana;

- Efeitos da pandemia sobre a base produtiva: estratégias e possibilidades para os setores;

- Como as populações de baixa renda têm experienciado em seus territórios os efeitos da COVID-19: vulnerabilidades e resistências;

- Como as populações tradicionais têm enfrentado a pandemia em seus territórios.

 

 Organização:

Profa. Dra. Gláucia de Oliveira Assis, do Programa de Pós-graduação em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental - PPGPlan, da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, Brasil.

Profa. Dra. Samira Kauchakje, do Programa de Pós-graduação em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental - PPGPlan, da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, Brasil.

Prfa. Dra. Carmen Susana Tornquist, da Casa da América Latina – SC, Brasil.

 

Prazo para envio: 15 de março de 2022

Previsão de publicação: dezembro de 2022