Chamada de textos para dossiê 2022/1 “Dossiê Especial - Milton Santos: um pensar em movimento ”

2021-05-26

No documentário "Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá", de Silvio Tendler, Milton relata que sua opção pela geografia foi a opção pelo movimento: "Eu acho que foi a opção pelo movimento. O fato de eu ter, quando garoto, me impressionado com essas populações que mudavam de lugar, que se transportavam de um lugar pra outro, acho que isso talvez tenha me dado a dimensão da disciplina". De fato, a dialética, no pensamento de Milton Santos, se expressa através da ideia de movimento, que, por sua vez, está relacionada à história e à transformação: “A gestação do novo, na história, dá-se, frequentemente, de modo quase imperceptível para os contemporâneos, já que suas sementes começam a se impor quando ainda o velho é quantitativamente dominante. [...] Mas a história se caracteriza como uma sucessão ininterrupta de épocas. Essa ideia de movimento e mudança é inerente à evolução da humanidade. É dessa forma que os períodos nascem, amadurecem e morrem”. (SANTOS, 2011, p. 141).

Tomando o movimento como pressuposto, neste momento em que se completam 20 anos desde que este grande intelectual brasileiro nos deixou, lançamos esta chamada de trabalhos com o intuito de reconhecer como seu pensamento, cuja grande característica foi o engajamento com os problemas do nosso tempo, pode ainda iluminar as questões do presente e indicar possibilidades para o futuro. Portanto, desafiamos os autores e autoras a trazer as contribuições de Milton Santos para outros contextos de leitura, reconhecendo que, se por um lado, a teoria se realiza no concreto, por outro, o encontro com a verdade é sempre, também, um encontro com o futuro. Aliás, para Milton, é função da intelectualidade o casamento permanente com o porvir por meio da busca da verdade. O próprio geógrafo já havia insistido que “toda teoria é sinônimo de teoria revolucionária”, ao passo que o puro “empirismo” se presta “a um objetivo ideológico das classes dominantes” (SANTOS, 2008, p. 106). Assim, por exemplo, mesmo quando destaca a dimensão do cotidiano em sua geografia através da categoria do lugar, não aborda sua concretude a partir do mundo das aparências apenas, do empírico enquanto tal, mas em relação dialética com a outra dimensão que compõe intrinsecamente o espaço, a dimensão do tempo, ou, da história, bem como com outras escalas, a da formação socioespacial nacional e do mundo, mediadas, por fim, pelo que ele nomeou de território usado (o espaço banal, "espaço de todas as dimensões do acontecer, de todas as determinações da totalidade social" - SANTOS, 2000, p. 3).

A ideia de transformação, para este geógrafo brasileiro, está, portanto, casada com a dimensão do cotidiano. Milton pensou em possibilidades de transformação da realidade a partir da vida cotidiana enquanto mundo da heterogeneidade criadora, “da produção ilimitada de outras racionalidades”, que abrange também “temporalidades simultaneamente presentes, o que permite considerar, paralela e solidariamente, a existência de cada um e de todos, como ao mesmo tempo, sua origem e finalidade”. (SANTOS, 2011, p. 127-128). Elaborou sobre a mutação para o período popular da história a partir da dialética entre o cotidiano e a história no lugar, com a percepção da centralidade da periferia e da cultura popular que "exerce sua qualidade de discurso dos ‘de baixo’, pondo em relevo o cotidiano dos pobres, das minorias, dos excluídos, por meio da exaltação da vida de todos os dias” (SANTOS, 2011, p. 144). Partindo do lugar vislumbrou a universalidade, não representando um pensamento único, mas a humanidade como um bloco revolucionário.

Uma outra globalização supõe que “a centralidade de todas as ações seja localizada no homem” (SANTOS, 2011, p. 147). Através de sua teoria, defendeu a superação da tirania do dinheiro e da informação através de uma Geografia do homem. De fato, não só a Geografia humana em suas muitas particularidades, se ocupa dos problemas sociais que tocam a todos os homens e mulheres, mas também a geografia como um todo, uma vez que não existe ciência, mesmo a mais ocupada com fenômenos estritamente naturais, que não se volte para os problemas da humanidade. E é partir daqui que emergem muitas questões próprias do saber geográfico, novas e antigas, como a questão das assimetrias de poder e riqueza entre os países e blocos de países, entre diferentes regiões no interior de um mesmo país e até de uma mesma cidade, mas também as atuais questões em torno das discriminações de gênero e raça, o problema das migrações e ainda a importantíssima questão ambiental e da transição ecológica hoje em debate no mundo.

O mundo contemporâneo de Milton é formado por um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação que passam a “exercer um papel de elo entre as demais” (SANTOS, 2011, p. 142) - técnicas, estas, inseparáveis da política. “A informação, sobretudo a serviço das forças econômicas hegemônicas e a serviço do Estado, é o grande regedor das ações que definem as novas realidades espaciais” (SANTOS, 2014, p. 285). Se a lógica da informação pode servir para a construção de espaços pouco centrados nas pessoas, as diferentes lógicas de circulação de informação guardam também um elemento transformador, sendo capazes de impor “novos mapas ao mesmo território”. Portanto, pensar o lugar da comunicação e do ecossistema midiático na construção das nossas sociedades faz-se um esforço crucial.

O dossiê “Milton Santos: um pensar em movimento” propõe que os autores e autoras promovam um diálogo criativo entre essas reflexões e as categorias geográficas de Milton Santos. Vislumbramos que a interdisciplinaridade, coerente com o escopo da revista Percursos, poderá ocorrer mediante uma interlocução entre os campos da geografia e das comunicações, mas também da sociologia, do urbanismo, da história, da economia etc., bem como ser buscada com inspiração na filosofia.

Referências:

SANTOS, Milton. O papel ativo da geografia: um manifesto. XII Encontro Nacional de Geógrafia. Florianópolis, 2000. Disponível em: < http://miltonsantos.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/O-papel-ativo-da-geografia-um-manifesto_MiltonSantos-outros_julho2000.pdf>.

SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. São Paulo: Edusp, 2008.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2011.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Edusp, 2014.

 

Organização:

Renata Rogowski Pozzo, é doutora em geografia e professora dos cursos de Geografia e Pós-graduação em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental da UDESC (Florianópolis-SC).

Marcos Aurélio da Silva, é doutor em geografia, realizou Estágio de Pós-doutorado em Filosofia Política na Università degli Studi di Urbino ‘Carlo Bo’ (Itália) e é professor dos cursos de Geografia e Pós-graduação em Geografia da UFSC (Florianópolis-SC).

Nina Santos, é doutora em comunicação e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital.

 

Prazo para envio: 15 de setembro de 2021

Previsão de publicação: abril de 2022