DOI: 10.5965/25944630812024e4747
Apneia
Apnea
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Ricardo Coelho¹
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Florianópolis, v. 8, n. 1, e4747, p. 1 - 19 , Fev. - Mai. 2024
Ricardo Coelho
Apneia
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Resumo
A série fotoperformática “Apneia” (2019 - em processo) continuidade ao
registro de modificações ocorridas na paisagem devido à permanente
interferência humana, com imagens de uma vasta e impressionante paisagem
queimada em zona de transição para o Cerrado, ironicamente realizadas a partir
do dia 09 de agosto de 2019, ou seja, um dia antes daquele que seria batizado
como o “Dia do Fogo”, ação aparentemente coordenada e que resultaria num
dos maiores escândalos ambientais em escala global.
Palavras-chave: Insustentabilidade; Distopia; Crime ambiental; Corpo;
Fotoperformance.
Abstract
The photo-performance series "Apneia" (2019 - in process) continues to record
changes in the landscape due to permanent human interference, with images of
a vast and impressive burnt landscape in a transition zone to the Cerrado,
ironically taken on August 9, 2019, one day before what would be baptized as
"Day of Fire", an apparently coordinated action that would result in one of the
biggest environmental scandals on a global scale.
Keywords: Unsustainability; Dystopia; Environmental crime; Body;
Photoperformance.
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Ricardo Coelho (1974) é artista multimídia, curador independente e designer de exposições. Pós-doutor
em Artes pela Unicamp (2021), Doutor (2015) e Mestre (2003) em Artes pela UNESP. É professor da
UFSJ desde 2009. E-mail: rpitu@yahoo.com; Lattes: http://lattes.cnpq.br/6863185636750994;
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1487-883X
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Resumen
La serie de fotoperformance "Apneia" (2019 - en proceso) continúa registrando
los cambios en el paisaje debidos a la permanente interferencia humana, con
imágenes de un vasto e impresionante paisaje quemado en una zona de
transición al Cerrado, tomadas irónicamente el 9 de agosto de 2019, es decir, el
día antes de lo que se bautizaría como "Día del Fuego", una acción
aparentemente coordinada que desembocaría en uno de los mayores
escándalos medioambientales a escala global.
Palabras clave: Insostenibilidad; Distopía; Crimen medioambiental; Cuerpo;
Fotoperformance.
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1 Introdução
Ubiratan D’Ambrósio (2011, p. 8) afirma que a organização de um
sistema de pensamento compartimentado em disciplinas isoladas é muito antiga
no Mundo Ocidental, levando-nos pelo menos até a Grécia Clássica, ainda que
nos pareça necessário recordar: em todos os tempos sempre existiram
pensadores que perceberam a realidade de forma mais fluida como uma
estrutura complexa e integrada. De qualquer modo, segundo D’ Ambrósio, a
sistematização desse pensamento racionalista, ainda preponderante no Mundo
Ocidental, -se de maneira mais efetiva a partir da criação das primeiras
Universidades no século XVI mas, principalmente, durante o século XIX.
as “transformações” nos modos de produção humano, as quais
resultariam, cerca de 100 anos depois, numa percepção de um Mundo
Insustentável é bem mais recente e ocorre de maneira genérica entre a
segunda metade do século XVIII e final do século XIX com as chamadas Primeira
e Segunda Revoluções Industriais
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, a última com seu auge no século XX. Não
por acaso, a população mundial passa de 1 bilhão no início do século XIX para
2 bilhões em 1927
3
.
2
Para uma boa introdução contextual sugiro o livro “A Revolução Industrial”, de Francisco Iglésias.
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Dados consultados no artigo “O Impressionante crescimento da população humana através da história”,
de José Eustáquio Diniz Alves.
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É importante que se diga, esse pensamento compartimentado
aplicado ao modo de produção capitalista não apresenta apenas aspectos
negativos, visto que, por exemplo, ao falarmos de medicina não seria incorreto
afirmar que a sua invenção como a conhecemos hoje se apenas no século
XX
4
. Esse desenvolvimento científico e tecnológico permitiu um crescimento
simplesmente assustador da população e do próprio sistema de produção e
consumo. Entre 1960 e 1999 a população mundial passa de 3 bilhões para 6
bilhões e hoje
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, em 2023 já superamos os 8 bilhões de pessoas.
É nesse contexto do final do século XX que, a partir de evidências
científicas, ocorrem alguns dos primeiros encontros para a discussão global do
conceito de Sustentabilidade, ou de um Mundo Sustentável a partir de uma visão
transdisciplinar. Nos Fóruns de Ciência e Cultura de Vancouver, em 1989, e do
Belém do Pará, em 1992, delineia-se uma visão ampla da transdisciplinaridade,
focalizando a sustentabilidade econômica, cultural e natural. (D’ Ambrosio, 2011,
p. 11)
Para além desse resumo bastante precário feito anteriormente é
preciso ainda acrescentarmos um aspecto muito importante: algo não parece ter
mudado na espécie humana ao longo de sua história, ou seja, a sua quase que
4
Sobre a revolução da medicina no século XX ver “O corpo diante da medicina”, de Anne Marie Moulin.
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Dados atualizados em tempo real. Disponível em <https://www.worldometers.info/br/>. Acesso em: 25
nov. 2023
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completa incapacidade de ser ou constituir-se como o Outro, percebendo nas
diferenças a sua principal e mais extraordinária característica
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. Pelo contrário,
diferenças de todas as naturezas forneceram ao longo da história argumentos
para a violência, a submissão e a supressão dos outros.
Se, na prática, a Humanidade não conseguiu desenvolver a noção
essencial de alteridade, como podemos pensar, por mais otimistas que
possamos ser, sequer em Sustentabilidade Cultural? O que diríamos então de
Sustentabilidade Natural e Econômica (D’ Ambrosio, 2011, p. 12), uma vez que
os recursos naturais tornaram-se e continuam a ser encarados como importantes
Commodities para a manutenção de um sistema marcado pela desigualdade de
acesso aos recursos materiais e, por consequência, simbólicos e culturais.
O conceito de sustentabilidade nasce em crise porque seus
pressupostos básicos põem em xeque as próprias engrenagens do sistema
6
No texto “O Corpo, a cor e a alteridade”, item de minha tese de doutorado (UNESP, 2015), também
publicado no site Geledés - Instituto da mulher negra (2016), eu tratei do conceito de alteridade a partir da
leitura, análise intepretação de obras de arte. Livro que me foi fundamental nessa publicação e que
menciona a ideia de uma alteridade domesticada é “O corpo como objeto de Arte”, de Henri-Pierre Jeudy,
especificamente a seguinte passagem: “O idealismo democrático, em sua perspectiva universal, impõe um
igualitarismo baseado na reprodução do igual, sobre uma identidade da representação dos corpos. Não se
trata de opor a essa regra ética da igualdade entre os homens o ponto de vista racista, que prega a
desigualdade das raças, atribuindo-lhe uma origem genética, mas é preciso admitir que o igualitarismo
acusa aquele que sente a menor diferença na percepção do corpo do Outro. Respeitar o outro é, segundo
uma tal regra, considerá-lo igual a mim. [...] A luta contra o racismo baseia-se em um princípio ético
falacioso, que consiste em me obrigar a crer que o Outro é semelhante a mim. (2002, p. 105)
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capitalista baseado na exploração, no acúmulo de riquezas e na desigualdade
social
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.
Como podemos pensar um mundo sustentável se 874.501.585
pessoas estão desnutridas agora; 786.122.218 pessoas não tem sequer acesso
a água potável. Como acreditar na eficácia e respeito aos acordos globais em
torno dos ideais necessários para um mundo sustentável se parte muito
significativa da população mundial se identifica com o pensamento radical e
excludente de ex-representantes como Donald Trump e Jair Bolsonaro, para citar
apenas dois nomes? E pior ainda, como sensibilizar essas pessoas para uma
noção de comunidade global baseada na alteridade, inclusive entre “as grandes
nações desenvolvidas”, se estas estão fundadas em sólidos e sutis dispositivos
de racismo estrutural, sempre rechaçando e oprimindo em seus próprios
territórios imigrantes
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que se veem obrigados a se deslocar ou se submeter
culturalmente para a manutenção da própria sobrevivência em todo o planeta?
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O artigo “Crise Ambiental e sustentabilidade: princípios para uma crítica à ecologia política”, de Iraldo
Alberto Alves Matias e Rui Carlos Alves Matias expõe de maneira muito objetiva as contradições em torno
do conceito de sustentabilidade.
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O ensaio visual “Estrangeiros”, publicado em 17 de abril de 2023, v. 20 da Revista Visualidades, trata
simbolicamente da fragilidade do corpo dos imigrantes. Ironicamente o ensaio foi violentamente censurado
por autoridades públicas da cidade mineira de Uberara, poucos minutos antes da abertura de minha
exposição individual “Meu corpo minha morada”, na Galeria Raquel Machado, na Fundação Cultural de
Uberaba, no dia 06 de junho de 2023.
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Dando continuidade à parceria com a OSSO videoarte, iniciada no
ensaio visual “Estrangeiros” (2016), publicado na “Revista Visualidades”, v. 20
(2022), a série fotoperformática “Apneia” (2019 em processo), conta com a
colaboração da arquiteta Phamela Dadamo e da performer Lucimélia Romão,
apresentando alguns registros das modificações ocorridas na paisagem com a
permanente interferência humana, com imagens de uma impressionante
queimada em zona de transição para o Cerrado, em São João del-Rei, Minas
Gerais, ironicamente realizadas a partir do dia 09 de agosto de 2019, ou seja,
um dia antes daquele que seria batizado como o “Dia do Fogo”, ação
aparentemente coordenada e que resultaria num dos maiores escândalos
ambientais em escala global. O corpo inerte intensifica a perplexidade das
nossas próprias ações.
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Fig. 1. Ricardo Coelho, Sem Título, 2022
Fotografia digital impressa em Fine Art, 80 x 120 cm. São João del-Rei, MG