Governar o visível na arte: monumentalização colonial e antimonumentalidade nas disputas da memória
DOI:
https://doi.org/10.5965/244712671212026e28562Palavras-chave:
Arte Decolonial, Antimonumento, Regimes de Visibilidade, Memória, Arte ContemporâneaResumo
O artigo analisa de que modo monumentos coloniais operam como tecnologias visuais de poder na consolidação de regimes hegemônicos de memória e investiga como algumas práticas artísticas contemporâneas podem tensionar tais regimes ao reorganizar a experiência do sensível. Tomando como corpus o Monumento a Borba Gato (São Paulo, 1963) e o memorial da Praça Natale Coral (Nova Veneza/SC, 2020), examina-se a monumentalização como dispositivo (Foucault) que articula espacialidade, institucionalidade e visualidade na produção de narrativas históricas legitimadas, naturalizando hierarquias e produzindo silêncios históricos (Trouillot). Em contraponto, analisa-se a instalação escultórica O Barco / The Boat (Grada Kilomba, 2021) como forma antimonumental: 146 peças de madeira carbonizada, poema gravado e intervenções em folha de ouro compõem uma espacialidade fragmentária que reinscreve a travessia atlântica como memória em tensão e sobrevivência (Didi-Huberman). Articulando ainda a colonialidade do poder (Quijano), a necropolítica (Mbembe) e a crítica decolonial na arte contemporânea (Paiva), a pesquisa, de abordagem qualitativa e analítico-interpretativa, realiza leitura formal, espacial e discursiva das obras e dos discursos que sustentam sua circulação pública. Sustenta-se que a disputa em torno dos monumentos ultrapassa a revisão historiográfica, pois envolve a definição de quais imagens persistem, quais sujeitos permanecem visíveis e quais narrativas adquirem reconhecimento coletivo. Conclui-se que a antimonumentalidade de O Barco não opera como negação da memória, mas como reorganização crítica da visualidade histórica, deslocando a monumentalização do registro celebrativo para um campo de tensão, responsabilidade e disputa do sensível.
Downloads
Referências
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. 4. ed. São Paulo: Estação Liberdade; Editora UNESP, 2006.
DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 7. ed. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2001.
GLOBO. Estátua de Borba Gato é incendiada por grupo em São Paulo. G1, São Paulo, 24 jul. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/noticia/2021/07/24/estatua-de-borba-gato-e-incendiada-por-grupo-em-sao-paulo.ghtml. Acesso em: 28 fev. 2026.
HARTMAN, Saidiya. Lose your mother: a journey along the Atlantic slave route. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2008.
HUYSSEN, Andreas. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto; Museu de Arte do Rio, 2014.
HUYSSEN, Andreas. Monumentos e memória no tempo presente. In: HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000. p. 29–49.
INHOTIM. O Barco, de Grada Kilomba, integra acervo do Instituto Inhotim. Brumadinho, 2024. Disponível em: https://www.inhotim.org.br. Acesso em: 28 fev. 2026.
KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
KILOMBA, Grada. O Barco / The Boat. Lisboa: BoCA Biennale; MAAT, 2021.
KILOMBA, Grada. Site oficial. Disponível em: https://www.gradakilomba.com. Acesso em: 28 fev. 2026.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
MIRZOEFF, Nicholas. Como ver o mundo. São Paulo: Ubu Editora, 2016.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7–28, dez. 1993.
PAIVA, Alessandra Simões. Arte contemporânea e virada decolonial: deslocamentos epistemológicos na produção artística brasileira. In: PAIVA, Alessandra Simões. Arte contemporânea, colonialidade e imagem. Rio de Janeiro: Ape’Ku, 2022. p. 45–76.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107–130.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.
ROSA, Gabriel Augusto da. Piasa Natale Coral – Bairro Elisa – Nova Veneza. 2023. Fotografia. Acervo do autor.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: poder e a produção da história. Curitiba: Huya, 2016.
UFSC – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Nota de repúdio à homenagem feita a Natale Coral, assassino de indígenas. Florianópolis, 08 fev. 2021. Disponível em: https://leia.ufsc.br/2021/02/08/nota-de-repudio-a-homenagem-feita-a-natale-coral-assassino-de-indigenas/. Acesso em: 28 fev. 2026.
YOUNG, James E. The texture of memory: Holocaust memorials and meaning. New Haven: Yale University Press, 1993.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Marcelo Feldhaus

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
Os autores de trabalhos submetidos à Revista APOTHEKE autorizam sua publicação em meio físico e eletrônico, unicamente para fins acadêmicos, podendo ser reproduzidos desde que citada a fonte. Os mesmos, atestam sua originalidade, autoria e ineditismo.
Os artigos publicados pela revista são de uso gratuito, destinados a aplicações
acadêmicas e não comerciais. Os direitos autorais são todos cedidos à revista. Os artigos cujos autores são identificados representam a expressão do ponto de vista de seus autores e não a posição oficial da Revista Apotheke. O(s) autor(es) se compromete(m) a sempre que publicar material referente ao artigo publicado na Revista Apotheke mencionar a referida publicação da seguinte forma:
"Este artigo foi publicado originalmente pela revista Apotheke em seu volume (colocar o volume), número (colocar o número) no ano de (colocar o ano) e pode ser acessado em: http://www.revistas.udesc.br/index.php/APOTHEKE/index"
É responsabilidade dos autores a obtenção da permissão por escrito para usar em seus artigos materiais protegidos pela Lei de Direitos Autorais. A revista Apotheke não é responsável por quebras de direitos autorais feitas por seus colaboradores.
Os autores mantêm os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho licenciado sob Licença Creative Commons do tipo atribuição BY-NC:
Atribuição (BY): os licenciados têm o direito de copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, conquanto que deem créditos devidos ao autor ou licenciador, na maneira especificada por estes.
Uso Não comercial (NC): os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, desde que sejam para fins não comerciais.
Após a publicação dos artigos, os autores permanecem com os direitos autorais e de republicação do texto.
